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terça-feira, 9 de junho de 2015

Jacques Wagner presta honras ao Torturador Leonidas. Por quem os sinos dobram?

Ministro da Defesa presta honras a general torturador Leônidas

Leônidas Pires Gonçalves chefiou centros de tortura e

protagonizou a repressão política às organizações de

 esquerda no Rio de Janeiro.


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Pedro Pomar
Arquivo



















O ministro da Defesa, Jacques Wagner, zombou da Comissão Nacional da Verdade (CNV) ao autorizar, ou permitir, honras militares e mandar um general como seu representante no funeral do general Leônidas Pires Gonçalves, cujo corpo foi velado na manhã deste 6 de maio.

O nome de Leônidas consta do Relatório Final da CNV, identificado que foi como torturador. A CNV tinha razões de sobra para fazê-lo.

Quando general de brigada, Leônidas chefiou o Estado-Maior do I Exército e, por consequência, o Comando de Operações de Defesa Interna (CODI) do I Exército, no Rio de Janeiro, entre março de 1974 e novembro de 1976. Nesse período, dezenas de presos políticos capturados pela repressão foram torturados nas dependências do Destacamento de Operações de Informações (DOI-CODI), subordinado a Leônidas, no quartel da Rua Barão de Mesquita (no Rio de Janeiro), ou levados para a “Casa da Morte” (em Petrópolis).

Destaque-se: nesse período, Thomaz Antonio da Silva Meirelles Netto, Davi Capistrano, José Roman, Wilson Silva e Ana Rosa Kucinski, opositores da Ditadura Militar, foram assassinados na “Casa da Morte” e tiveram seus corpos esquartejados, como revelado inicialmente pelo ex-sargento Marival Chaves do Canto (e depois confirmado à CNV pelo coronel Paulo Malhães), ou incinerados, como declara o ex-delegado de polícia Cláudio Guerra.

Registre-se: “O militante comunista Armando Teixeira Fructuoso foi executado pelo DOI-CODI do I Exército, no próprio centro de torturas da Barão de Mesquita, em setembro ou outubro de 1975, conforme detalhado depoimento do seu companheiro Gildásio Westin Consenza, preso no mesmo local e testemunha da morte. Como chefe dos torturadores, o general Leônidas têm de responder por esta morte e por todas as outras ocorridas no período em que comandou o CODI do I Exército”. 

Leônidas não era nenhum ingênuo, muito pelo contrário. Envolveu-se nas tarefas da repressão política e exerceu com gosto seu protagonismo criminoso, como revelam suas declarações posteriores. Teve participação destacada no desmantelamento do PCdoB no Rio de Janeiro e no suborno a um dirigente comunista preso pelo I Exército, para que colaborasse com a localização do Comitê Central desse partido. “Eu era o chefe do DOI”, declarou à repórter Ana Maria Mandim, do jornal Folha de S. Paulo, em 1996. 

Em 1985, Leônidas tornou-se ministro do Exército de José Sarney, de cuja posse foi um dos autores e fiador, embora o vice de Tancredo Neves fosse tão biônico quanto seu companheiro de chapa, uma vez que ambos foram eleitos pelo voto indireto. Na condição de ministro, tornou-se um dos principais responsáveis pelo massacre de Volta Redonda (1988), quando tropas do Exército assassinaram a golpes de baioneta três operários da Companhia Siderúrgica Nacional, então em greve, em episódio que comoveu o país. Também exerceu pressão sobre os deputados constituintes, com sucesso, para que a Constituição Federal mantivesse o arcabouço legal da repressão policial e política herdado da Ditadura Militar. 

A gravidade do gesto do ministro Jacques Wagner, que vem ignorando acintosamente as recomendações da CNV, pode ser medida não apenas pela trajetória do general Leônidas, mas por suas inúmeras e reiteradas declarações depreciativas dos militantes políticos que combateram a Ditadura Militar. Vale relembrar duas delas, que fez aos pesquisadores do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas: “Nunca vi tendência maior para a delação do que em um comunista. Comunista é um delator nato! Fala tudo! Depois, para se justificar, diz que foi torturado”. “Porque, não tenham a menor dúvida, os subversivos, com raríssimas exceções, eram desequilibrados. Eram psicologicamente desequilibrados, por questões familiares, por questões fisiológicas. E as mulheres são de uma violência incrível” (Anos de Chumbo, 1994). 

Graças à cobertura institucional promovida pelo ministro da Defesa, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, sentiu-se à vontade, ao discursar no velório de Leônidas, para atacar indiretamente as conclusões da CNV: “Os soldados do seu Exército não consentirão que a retidão de seu caráter e a transcendência de sua alma sejam maculados por versões históricas capciosas” (Agência Estado, 6/6/15). 

“Versões históricas capciosas”? A verdade é que os generais de hoje pensam como os generais de ontem. Se depender da mentalidade retrógrada deste generalato, o país continuará sob tutela militar, a Ditadura jamais será condenada pelos crimes cometidos, o Terrorismo de Estado promovido pelas Forças Armadas entre 1964 e 1985 será eternamente justificado. 

A presidenta Dilma Rousseff foi a primeira a desmerecer o Relatório Final da CNV, ao declarar, na solenidade em que recebeu o documento, sua disposição de manter intocada a Lei da Anistia de 1979, que protege os torturadores que agiram a serviço da Ditadura Militar. Ora, a CNV recomendou a anulação da Lei da Anistia. E agora é o ministro Jacques Wagner a fazer troça da Comissão e, ainda, da memória das vítimas de Leônidas. 

Vergonha, imensa vergonha.
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Pedro Estevam da Rocha Pomar, jornalista, membro do Comitê Paulista por Memória, Verdade e Justiça (CPMVJ), é neto de Pedro Felipe Ventura de Araújo Pomar, assassinado pelo II Exército e Centro de Informações do Exército (CIE) em 1976, em São Paulo. 

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