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terça-feira, 23 de junho de 2015

Inflexão perigosa para o futuro do projeto-Brasil



Inflexão perigosa para o futuro do projeto-Brasil

Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.
A adoção pela administração Dilma Rousseff de um ajuste fiscal e econômico de claro viés neoliberal, que o alinha aos interesses das grandes corporações multinacionais, aos rentistas nacionais, aos fundos de pensão, aos bancos privados e a outros entes financeiros, instaura uma inflexão perigosa para o futuro político de nosso país.
As alternativas que se impunham, tendo apoiadores de ambos os lados, eram: 
Ou continuamos com a vontade de reinventar o Brasil, com um projeto sobre bases novas, sustentado por  nossa cultura, nossas riquezas naturais (extremamente importantes após a constatação dos limites dos bens naturais não renováveis e do desiquilíbrio do sistema-Terra), projeto este defendido brilhantemente pelo cientista político Luiz Gonzaga de Souza Lima, num livro que até agora não mereceu a devida apreciação e atenção (“A refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada”, RiMa, São Carlos, SP 2011);
Ou nos submetemos à lógica imperial, que nos quer como sócios incorporados e subalternos, numa espécie de recolonização, obrigando-nos a ser apenas fornecedores dos produtos in natura(commodities, grãos, minérios, água virtual etc.) que eles não possuem e dos quais precisam urgentemente.
A primeira alternativa realizaria o sonho maior dos que pensaram um Brasil verdadeiramente independente (desde Joaquim Nabuco, até Darcy Ribeiro e Luiz Gonzaga de Souza Lima e da maioria dos movimentos sociais de cunho libertário. Estes sempre projetaram uma nação autônoma e soberana e aberta ao mundo inteiro. A segunda alternativa se rende resignadamente ao mais forte, aceitando a lógica hegeliana do senhor e do servo, que confere imensas vantagens às classes tradicionalmente beneficiadas e que deram as costas às grandes maiorias, as quais ficaram entregues à sua própria pobreza e miséria: indígenas quase exterminados, negros escravizados e colonizados por quatro séculos.
Até agora predominou esta segunda alternativa. Com a vitória democrática dos que vinham de baixo, do PT e aliados, se poderia esperar a retomada do sonho de um outro Brasil com as transformações que estariam implícitas: as reformas política, tributária, agrária, urbana e ambientalista. Mas nada disso aconteceu.
Houve, é verdade, e importa reconhecê-lo, uma política de distribuição de renda, o aumento dos salários, as políticas sociais que diretamente beneficiaram a 36 milhões que estavam à margem. Mas um projeto de desenvolvimento feito na base do consumo, e não da produção, tinha que alcançarseus limites e, por fim, se esgotar. Foi o que, infelizmente, ocorreu. Perdeu-se uma chance histórica única; ou por falta de visão estratégica de longo prazo, ou pela urgência de dar os mínimos benefícios aos milhões de excluídos. Em todo o caso, a história, que não é linear, nem costuma se repetir, não deu o salto necessário para o novo e o inaudito viável.
Agora estamos atolados numa mega-crise, que alguns acreditam ser a maior de nossa história (Cid Benjamin), perplexos e com soluções que dificilmente garantem um futuro bom para a maioria dos brasileiros. Nuvens escuras encobrem nosso horizonte. Será que seremos, novamente, obrigados a repetir o que não deu certo no passado e que agora se mostra não dar certo nem mesmo nos países que gestaram o atual sistema de produção, de distribuição, de consumo e de relação depredadora da natureza? O paradigma da modernidade se esgotou.
Há um temor bastante generalizado que consiste no fato de que sejamos forçados a seguir o estranho conselho, dado pelo tão louvado Lord Keynes, para sair da grande depressão dos anos trinta do século passado:
“Durante pelo menos cem anos devemos simular, diante de nós mesmos e diante de cada um, que o belo é sujo e o sujo é belo, porque o sujo é útil e o belo não o é. A avareza, a usura, a desconfiança devem ser nossos “deuses”, porque são eles que nos poderão guiar para fora do túnel da necessidade econômica rumo à claridade do dia…Depois virá o retorno a alguns dos princípios mais seguros e certos da religião e da virtude tradicional: que a avareza é um vício, que a exação da usura é um crime e que o amor ao dinheiro é detestável” (“Economic Possibilities of our Grand-Children”).
Algo parecido pensam os responsáveis da crise de 2008, pois continuam propalando que greed is good(a avareza é boa). Para quem? Não para os milhões de famintos, desempregados e marginalizados ou até excluídos do atual sistema produtivista, consumista, individualista e cínico; é vantajoso para um punhado de milhardários que controlam grande parte dos fluxos financeiros do mundo.
Creio que cabe aqui a frase de Martin Heidegger, publicada post-mortem, com referência ao destino de nossa civilização, que esqueceu o Ser (o fundamento último que confere sentido às coisas) e se perdeu nos entes (o sentido imediato e consumível): “Somente um Deus nos poderá salvar” (nur ein Gott kann uns noch retten).
O Deus da tradição judeu-cristã é um Deus salvador e libertador dos oprimidos, um “soberano amante da vida” (Sab 11,24). Cremos e esperamos que não permitirá que, desta vez, a vida sucumba.
Leonardo Boff escreveu o livro “A grande transformação”, Vozes, Petrópolis 2014.

enviado por Vitor Buaiz

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