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terça-feira, 23 de junho de 2015

Frei Betto: NÃO SOU BRANCO, SOU LUSODESCENDENTE


NÃO SOU BRANCO, SOU LUSODESCENDENTE
Frei Betto
      A 14 de maio deste ano vi, na GloboNews, a entrevista concedida por Alberto da Costa e Silva, nosso maior especialista em África, a Míriam Leitão. Notei esta disparidade: o entrevistado utilizava sempre a palavra “negros”, enquanto a jornalista dizia “afrodescendentes” ao se referir à parcela da população brasileira derivada de africanos, como é o meu caso (embora não aparenta).
      Sempre impliquei com a expressão “afrodescendente” ou “afrobrasileiro”. Simples: nunca ninguém me chamou de “eurodescendente” ou “iberodescendente” ou “lusodescendente”.
      Eufemismos servem, em geral, para tentar encobrir preconceitos. Lembro da tia que se referia à cozinheira como “aquela moça escurinha”...
      Caso similar é o vocábulo “velhos”, para se referir a idosos. Sou um deles. E abomino essa mentira eufemística de “melhor idade” ou “terceira idade”. A usar eufemismo, prefiro ser chamado de “seminovo”,         como os carros velhos expostos em revendedoras de veículos. E me sinto na turma da “eterna idade”, já que cronologicamente estou mais próximo dela...
      Não há palavras neutras, há quem ignore o significado e a carga simbólica que elas contêm.
      Afrodescendente é expressão usamericana criada para deixar claro que os negros dos EUA não são naturais do país. São imigrantes e filhos de imigrantes, gente “de fora”, lá da longínqua e atrasada África. E ali são tolerados, desde que reconheçam que não são iguais aos ianques, são seres inferiores, sub-raça. Diga-se de passagem que os EUA batem o         recorde mundial de prisioneiros: 2,3 milhões, dos quais 1,5 milhão são negros.
      Baseado em Galeano (que se inspirou em Senghor), registro esta parábola: O professor chamou o aluno negro de "moço de cor". Este não se fez de rogado: "professor, de cor são o senhor e meus colegas. Nasceram rosados, ficaram brancos, adquirem pele vermelha quando se expõem na praia; tostada, quando se queimam ao sol; amarela, quando têm hepatite; e roxa, quando falecem. E eu é que sou de cor?” 
      O preconceito avança vocabulário adentro: “denegrir” significa “enegrecer”, rebaixar uma pessoa à condição de negro.
      Isso não quer dizer que eu defenda o “politicamente correto”. Quando não se vê horizonte na conjuntura, como hoje no Brasil, admito que a situação “está preta”, ou seja, no escuro nada se enxerga. E considero patrimônio nacional a canção de Rubens Soares e David Nasser: “Nega do cabelo duro, qual é o pente que te penteia?”
      Pena que os negros, ao menos aqui no Brasil, não deem o troco devido aos brancos. Jean Genet, em uma de suas peças teatrais, faz o ator negro cessar os movimentos no palco, encarar a plateia francesa e exclamar: “Que cheiro horrível! Cheiro azedo de branco!”
      No Brasil, a discriminação racial se disfarça pelo fato de a maioria negra ainda ser pobre. Sonho com o dia em que ninguém será identificado pela cor da pele. Pois a biologia já provou que não existem raças. Existem apenas diferenças de coloração epidérmica. Somos todos         seres humanos intrinsecamente dotados de dignidade e sacralidade.
Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.
Encaminhado por Safrany

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