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terça-feira, 12 de maio de 2015

A crise interna, a Petrobras e o BRICS: Entrevista com J. Carlos de Assis



Por Rennan Martins | Vila Velha, 11/05/2015

Parceria estratégica Brasil-China é a solução para a 
economia nacional?

A vinda de Joaquim Levy e sua ortodoxia para a Fazenda significa continuidade 
da política econômica petista, não mudança. Os juros estratosféricos visam tão 
somente atrair capitais externos para fechar o balanço de pagamentos, e a dinâmica
 da inflação no Brasil é ligada aos preços administrados e ao alto grau de indexação. 
O ajuste fiscal e a Operação Lava Jato podem custar 5% do PIB, um desastre recessivo.

Essa é a visão do jornalista, economista e professor da
 Universidade Estadual da Paraíba, José Carlos de Assis. 
Em entrevista ao Blog dos Desenvolvimentistas, além de analisar 
o cenário econômico nacional, falamos também de geopolítica
 e conjuntura global.

Ativo na imprensa alternativa, onde publica artigos regularmente, 
Assis considera que a partilha é o regime certo para o pré-sal
 e taxa de “oportunismo deslavado” as recentes iniciativas que 
visam flexibilizá-lo. Enxerga nessa ofensiva forte influência de interesses
 externos, e indica uma parceria estratégica com a China como a saída para 
a recuperação da economia brasileira.

Confira a íntegra:

Como explicar o giro ortodoxo da política econômica do governo? 
Que efeitos ainda serão sentidos por conta do ajuste?

Não há giro. Há uma continuidade. Em matéria de política econômica o
 Governo Dilma não é muito diferente do de Lula. Lembram-se do Palocci? 
Qual a diferença entre o Levy e ele? A situação conjuntural é que mudou. 
Antes, nos aproveitamos do boom das commodities e acumulamos grandes 
superávits comerciais; agora, estamos numa terrível situação no balanço de
 pagamentos devida a uma política cambial estúpida, que vinha de antes. 
De fato, neste primeiro trimestre, o déficit em conta-corrente acumulado 
em 12 meses atingiu US$ 101,6 bilhões. É um desastre anunciado.

As perspectivas são negras, se os atores da economia real, empresários
 e trabalhadores, não se juntarem para convencer o setor público que, 
se não houver intervenção dele, vamos para uma contração da economia 
da ordem de 5 a 6% – 0% de carry over do crescimento zero em 2014,
 2% negativos do efeito Levy e menos 3% do efeito Lava Jato, que está sendo
 devastador.

Enquanto se aperta a economia real, os juros sobem e o serviço
 da dívida vai às alturas. Essas decisões são contraditórias? 
A economia feita com os cortes será perdida nos gastos financeiros?

A única coerência é ditada pela situação externa: na medida em que
 se tem déficits em conta-corrente elevadas, o Governo tem que atrair
 capitais externos para fechar o balanço de pagamentos. Como desestruturamos 
nossa indústria e o boom das commodities acabou, resta-nos apenas aumentar 
os juros. E aumentar os juros, obviamente, nada tem a ver com controle 
de inflação. É para atrair dinheiro especulativo e assim fechar a conta externa.

Por que a subida dos juros parece não fazer efeito sobre a inflação?
 Haveriam métodos diferentes pra combater a subida dos preços?

A política de juros altos, como disse, não tem nada a ver com a inflação. 
É um remendo para atrair dinheiro especulativo a fim de fechar o balanço
 de pagamentos. Enquanto isso a inflação vai evoluindo segundo sua 
própria lógica, que é a dos preços administrados e da indexação 
generalizada, mesmo que nem toda formal.

Em paralelo ao recuo econômico, cresce a aderência a mudanças
 nas regras de exploração do pré-sal e na política de conteúdo nacional.
 O que desencadeou esse processo? Que interesses se beneficiam disso?

É o mais deslavado oportunismo por parte das forças externas e internas 
que querem destruir a correta política de petróleo. É repulsivo que um sujeito
 como o senador Serra, que fez a lei dos genéricos, esteja nessa.

Procedem as alegações de que a Petrobras não tem caixa pro 
montante de investimentos necessários no pré-sal?

É verdade, não tem caixa. Mas tem patrimônio para suportar um nível de 
endividamento muito maior do que tem, favorecendo a retomada dos 
investimentos. O correto seria o Tesouro passar recursos para o BNDES,
 e o BNDES os repassar à Petrobrás, para que a empresa escape das injunções
 bancárias e de agências de risco, que não passam de agentes do charlatanismo
 mais deslavado.


-- 
Rennan Martins - Jornalista e Editor do Blog dos Desenvolvimentistas 

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