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domingo, 2 de novembro de 2014

Reforma Agraria, Já- O papa Francisco e a Declaração Final do Encontro Mundial dos Movimentos Populares


"a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral"
                                                                                                  Papa Francisco

Reforma Agrária,JÁ!
Declaração Final do Encontro Mundial dos Movimentos Populares

Como parte da conclusão do EMMP, queremos fazer chegar à opinião pública um breve resumo do que aconteceu durante estes três históricos dias.

1. Convocado pelo PCJP, a PAS e diversos movimentos populares do mundo sob a inspiração do Papa Francisco, uma delegação de mais de 100 dirigentes sociais de todos os continentes se reuniu em Roma para debater três eixos: terra, trabalho, moradia; os grandes problemas e desafios que enfrenta a família humana (especialmente exclusão, desigualdade, violência e crise ambiental) a partir da perspectiva dos pobres e suas organizações.

2. As jornadas se desenvolveram procurando praticar a Cultura do Encontro e integrando companheiros, companheiras, irmãos e irmãs, de distintos continentes, gerações, ofícios, religiões, ideias e experiências. Além dos setores representativos dos três eixos principais do encontro, participaram um número considerável de bispos e agentes pastorais, intelectuais e acadêmicos, que contribuíram significativamente ao encontro, sempre respeitando o protagonismo dos setores e movimentos populares. O Encontro não esteve isento de tensões que pudéssemos assumir coletivamente como irmãos.

3. Em primeiro lugar, sempre desde a perspectiva dos pobres e dos povos pobres (neste caso os camponeses, trabalhadores sem direitos e habitantes de bairros populares), foi analisado as causas estruturais da desigualdade e da exclusão, desde suas raízes sistêmicas global até suas expressões locais. Compartilharam os números horríveis da desigualdade e a concentração da riqueza nas mãos de um punhado de milionários. Os painelistas e palestrantes concordaram que se deve buscar na natureza desigual e predatória do sistema capitalista que coloca o lucro acima do ser humano a raiz dos males sociais e ambientais. O enorme poder das empresas transnacionais que pretendem devorar e privatizar tudo –mercadorias, serviços, pensamento- são o primeiro violino desta sinfonia de destruição.

4.
 Durante o trabalho nas oficinas conclui-se que o aceso pleno, estável, seguro e integral à terra, o trabalho e a moradia constituem direitos humanos inalienáveis, inerente às pessoas e sua dignidade, que devem ser garantidas e respeitadas. A moradia e o bairro como um espaço inviolável por Estados e corporações, a terra como um bem comum que deve ser compartido entre todos os que nela trabalham evitando sua acumulação, e o trabalho digno como eixo estruturador de um projeto de vida foram algumas das reivindicações compartilhadas.

5. Também abordamos o problema da violência e da guerra, uma guerra total, ou como disse Francisco, uma terceira guerra mundial parcelada. Sem perder de vista o caráter global destes problemas, tratou-se com particular intensidade a situação do Oriente Médio, principalmente a agressão contra o povo palestino e curdo. A violência que desencadeiam as máfias do narcoterrorismo, o tráfico de armas e o tráfico de pessoas também foram objeto de profundo debate. Os despejos forçados pela violência, o agronegócio, a mineração poluente e todas as formas de extrativismo, e a repressão sobre camponeses, povos originários e afrodecendentes estiveram presentes em todos os debates. Também o grave problema dos golpes de estado como em Honduras e Paraguai e o intervencionismo de grandes potências sobre os países mais pobres.

6. A questão ambiental esteve presente num rico intercâmbio entre a perspectiva acadêmica e a popular. Pudemos conhecer os dados mais recentes sobre contaminação e a mudança climática, as previsões sobre futuros desastres naturais e as provas científicas de que o consumismo insaciável e a prática de um industrialismo irresponsável que promove o poder econômico explicam a catástrofe ecológica em cena. Devemos combater a cultura do descarte, e ainda que suas causas sejam estruturais, também devemos promover uma mudança desde abaixo, nos hábitos e condutas de nossos povos, priorizando os intercâmbios ao interior da economia popular e a recuperação do que este sistema renega.

7. Novamente, pudemos concluir que a guerra e a violência, a exacerbação dos conflitos étnicos e a utilização da religião para a legitimação da violência, assim como o desmatamento, a mudança climática e a perda da biodiversidade, tem seu principal motor a busca incessante do lucro e a pretensão criminosa de subordinar os povos mais pobres para saquear suas riquezas naturais e humanas. Consideramos que a ação e as palavras dos movimentos populares e a Igreja são imprescindíveis para frear este verdadeiro genocídio e terricídio.

8. Particular atenção merece à situação das mulheres golpeadas por este sistema. Reconhecemos nessa realidade a urgente necessidade de um compromisso profundo e sério com essa causa justa e histórica de todas nossas companheiras, motor de lutas, processos e propostas de vida, emancipatórias e inspiradoras. Também exigimos a finalização da estigmatização, descarte e abandono das crianças e jovens, especialmente os pobres, afrodecendentes e migrantes. Se as crianças não têm infância, se os jovens não têm projeto, a Terra não tem futuro. 

9. Longe de ficarmos na autocompaixão e nos lamentos por todas estas realidades destruidoras, os movimentos populares, em particular os reunidos neste Encontro, reivindicamos que os excluídos, os oprimidos, os pobres não resignados, organizados, podemos e devemos enfrentar com todas nossas forças a caótica situação a que este sistema nos levou. Neste sentido, foram compartilhadas inúmeras experiências de trabalho, organização e luta que tem permitido a criação de milhões de fontes de trabalho digno no setor popular da economia, a recuperação de milhões de hectares de terra para a agricultura camponesa e a construção, integração, melhoramento ou defesa de milhões de moradias e comunidades urbanas no mundo. A participação protagonizada pelos setores populares em democracias seqüestradas ou diretamente plutocracias é indispensável para as transformações que necessitamos.

10. Tendo em conta o especial contexto deste encontro e a inestimável contribuição da Igreja Católica que, encabeçada pelo Papa Francisco, permitiu sua realização, nos detivemos para analisar o marco de nossas realidades o imprescindível aporte da doutrina social da igreja e o pensamento de seu pastor para a luta por justiça social. Nosso material principal de trabalho foi a Evengelii Gaudium que levou em conta a necessidade de recuperar pautas éticas de conduta na dimensão individual, grupal e social da vida humana. É razoável destacar a participação e intervenção de numerosos sacerdotes e bispos católicos ao longo de todo Encontro, encarnação viva de todos aqueles agentes pastorais laicos e consagrados, comprometidos com as lutas populares que, consideramos, devem ser reforçados no seu importante labor.  

11. Todos e todas, muitos de nós católicos, pudemos assistir a celebração de uma missa na Catedral de São Pedro, celebrada por um de nossos anfitriões, o Cardeal Peter Turkson, onde foram apresentadas como oferendas três símbolos de nossos anseios, carências e lutas: um carro de papelão, frutos da terra camponesa e uma maquete de uma casa típica dos bairros pobres. Pudemos contar com a presença de um importante número de bispos de todos os continentes.

12. Neste ambiente de debate apaixonado e fraternidade intercultural, tivemos a inesquecível oportunidade de assistir a um momento histórico: a participação do Papa Francisco no nosso Encontro que sintetizou em seu discurso grande parte de nossa realidade, nossas denuncias e nossas propostas. A claridade e contundência de suas palavras não admitiram duas interpretações e reafirmam que a preocupação pelos pobres está no centro do Evangelio. Em coerência com suas palavras, a atitude fraterna, paciente e cálida de Francisco com todos e cada um de nós, em especial com os perseguidos, também expressa sua solidariedade com nossa luta, tantas vezes desvalorizada e prejudicada, inclusive perseguida, reprimida ou criminalizada.  

13. Outro dos momentos importantes foi a participação do irmão Evo Morales, presidente da Assembleia Mundial dos Povos Indígenas, que participou em caráter de dirigente popular e nos ofereceu uma exposição centrada na crítica ao sistema capitalista e em tudo o que os excluídos podem fazer em relação à terra, trabalho, moradia, paz e ambiente quando nos organizamos e temos acesso a posições de poder, de um poder entendido como serviço e não como privilegio. Seu abraço com Francisco nos emocionou e ficará para sempre em nossa memória.

14. Entre os encaminhamentos imediatos do encontro, levamos duas coisas: a “Carta dos excluídos aos excluídos” para trabalhar com as bases dos setores e movimentos populares, a qual nos comprometemos a distribuir massivamente junto ao Discurso do Papa Francisco, e as memórias; e a proposta de criar um Espaço de Interlocução permanente entre os movimentos populares e a Igreja.

15. Junto a este breve comunicado, pedimos especialmente a todos os trabalhadores e trabalhadoras da imprensa que nos ajudem a difundir a versão completa do discurso do Papa Francisco que, repetimos, sintetiza grande parte de nossa experiência, pensamentos e anseios. Repitamos junto: Terra, Teto e Trabalho são direitos sagrados! Nenhum trabalhador sem direitos! Nenhuma família sem moradia! Nenhum camponês sem terra! Nenhum povo sem território! Viva os pobres que se organizam e lutam por uma alternativa humana à globalização excludente!  Longa vida ao Papa Francisco e sua Igreja pobre para os pobres!
Em seu discurso, o Papa Francisco defendeu 
a Reforma Agrária e fez duras críticas ao modelo
 do agronegócio; Ao citar o Compêndio da Doutrina Social...
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