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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Operação Gringo: documentos são maior prova de cooperação entre as inteligências latino-americanas

MOVIMENTO DE JUSTIÇA E DIREITOS HUMANOS/Brasil INFORMA:

Att,

Jair Krischke - Presidente
Movimento de Justiça e Direitos Humanos

O GLOBO > 23/11/2014

Operação Gringo: documentos são maior prova de cooperação entre as inteligências latino-americanas

Encontrada pelo MPF no sítio do coronel Paulo Malhães, documentação detalha o uso de infiltrado em entidades e mostra como os estrangeiros foram monitorados

POR CHICO OTAVIO E RAPHAEL KAPA
23/11/2014 6:00 / ATUALIZADO 23/11/2014 21:48


João Batista Figueiredo em visita oficial à Argentina é recebido pelo Presidente Jorge Rafael Videla - Orlando Brito / Agência O Globo
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RIO E BRASÍLIA - De terno marrom, gravata quadriculada e mãos dadas com o filho Andrés, de 9 anos, até o portão de embarque, o jornalista Norberto Habegger, de 37 anos, parecia um executivo partindo da Cidade do México para uma viagem de negócios ao Rio naquele 31 de julho de 1978. No bolso, porém, o passaporte falso em nome de “Hector Esteban Cuello” indicava outra intenção. Enquanto os cariocas se recuperaram do baque na Copa do Mundo, vencida pela Argentina no mês anterior, Norberto, um importante dirigente da organização guerrilheira Montoneros no exílio, chegava à cidade para uma reunião secreta com dois companheiros. Seu objetivo: planejar a “contraofensiva”, série de ações políticas e militares destinada a derrubar a ditadura instalada em seu país dois anos antes.
E isso era tudo o que se sabia sobre os últimos momentos do montonero. Norberto Habegger desapareceu no Brasil sem deixar vestígios. Na época, o governo brasileiro só admitiu a entrada de “Hector”, sem registro de saída.
Do armário empoeirado de um chalé na Baixada Fluminense, surge agora uma prova inédita de que os militares brasileiros não apenas souberam da presença de Habegger no país, como seguiram os seus passos e registraram o seu desaparecimento, que representou para eles a queda da base de resistência montonera no Brasil. Os papéis secretos com o nome do jornalista e outros 80 estrangeiros monitorados pela repressão brasileira foram encontrados pelos procuradores do grupo “Justiça de Transição”, do Ministério Público Federal, no sítio do tenente-coronel Paulo Malhães, ex-agente da repressão morto no dia 24 de abril deste ano.
JANOT DIZ QUE DOSSIÊS SÃO MAIOR PROVA DA CONDOR
O achado, composto por dois dossiês de capa preta (“Relatório nº 8/78 – Palestra”, de 111 páginas, e “Operação Gringo/Caco”, de 166 páginas), ambos produzidos pela Seção de Operações do Centro de Informações do Exército (CIE), entre 1978 e 1979, já foi entregue pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao Ministério Público Federal argentino. Para Janot, as investigações revelaram a maior prova até hoje obtida da Operação Condor, a colaboração efetiva entre os regimes ditatoriais do Cone Sul para a prática de crimes de lesa-humanidade:
- A Operação Gringo, braço da Condor, foi ocultada da população durante muitos anos e só agora veio a público pelo trabalho do MPF. As gerações presentes e futuras têm o direito e a obrigação de conhecer todos os fatos e todos os crimes e violações ocorridos, para que não mais se repitam.
O menino que aparece com a camisa do Flamengo na última foto do desaparecido é hoje o cineasta Andrés Habegger, que esteve no Rio, na semana passada, para rodar “El (im)posible olvido” (“O (im)possível esquecimento”), documentário sobre os últimos dias do pai. Ao ver os papéis, ele se emocionou:
- A documentação é forte, muito interessante. Está explícita, clara, está em palavras a colaboração dos Exércitos argentino e do Brasil. Tudo que ajude a saber um pouco mais, em caso até daqueles que estão diretamente envolvidos com desaparecidos, é milagroso.
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Os militares brasileiros acreditavam, na época, que o Brasil fazia parte do “Departamento América”, divisão montonera que atuaria no exílio comandada por Elbio Alberione, ex-sacerdote “de codinome Gringo”, apontado pelos agentes como o segundo nome no comando da organização.
Os dois dossiês, além da lista nominal dos vigiados, traz uma série de compilações de outros relatórios, explicações sobre os grupos brasileiros e estrangeiros monitorados, gráficos mostrando o avanço e o recuo das esquerdas no Brasil, além de informação dos cerca de 130 monitorados, entre brasileiros, alemães, bolivianos, chilenos, americanos, italianos, soviéticos, venezuelanos e, principalmente, argentinos.
Os agentes vigiaram até as autoridades diplomáticas do Alto Comissariado das Nações Unidas (Acnur), que tiveram as entradas e saídas do país monitoradas, e os católicos da Cáritas. As duas instituições formaram a base da rede de solidariedade a cerca de 20 mil exilados das ditaduras latinas no período. Com a provável ajuda da repressão argentina, o escritório do CIE no Rio chegou a infiltrar um informante nas fileiras montoneras no Brasil.
Os militares suspeitavam da presença de “130 a 200” guerrilheiros argentinos em território nacional, integrando “tropas especiais de agitação” e “tropas especiais de infantaria”. Habegger, considerado um dos líderes do grupo, aparece três vezes na papelada. As duas primeiras, no dossiê “Palestra”, no qual o jornalista é citado “na relação dos argentinos envolvidos na Operação Gringo que registram antecedentes” — dados supostamente obtidos pelo CIE com a ditadura argentina.
A terceira referência a Habegger, no dossiê “Gringo” (Relatório nº 11), já é de dezembro de 1979 e o dá como desaparecido. O documento sugere que o desaparecimento reduziu o poder de articulação do grupo no Brasil: “Desde 1977 até o desaparecimento do montonero Norberto Habegger, o Brasil era a mais importante base na América do Sul desta organização subversiva”.
Os dossiês servirão de base para uma investigação conjunta dos MPFs do Brasil e da Argentina, fruto de um acordo de cooperação internacional firmado entre os dois países.
Além de documentos, ainda é possível buscar provas testemunhais. Nas pesquisas para o documentário, Andrés descobriu que três membros da inteligência argentina - Enrique José Del Pino, Alfredo Omar Feito e Guillermo Victor Cardozo, que se encontram presos por outros crimes políticos - teriam vindo ao Rio, com a ajuda dos militares brasileiros, para buscar o seu pai. De acordo com o cineasta, Norberto foi visto pela última vez no Campo de Mayo, um dos maiores centros clandestinos de detenção do regime argentino.
A advogada Nadine Borges, integrante da Comissão Estadual da Verdade do Rio que recolheu depoimentos de Malhães em fevereiro deste ano, desconfia que Habegger é o mesmo argentino que o coronel admitiu ter sequestrado no Rio e entregue à polícia vizinha:
- Malhães contou sobre uma operação em que usou uma droga para sedar um argentino e transportá-lo até o seu país de origem em um avião como se estivesse morto e com documentos falsos. Quando ouvi o relato, pensei logo no caso do Norberto, mas não tinha provas. Agora, com os papéis encontrados, não tenho dúvida.
EX-SARGENTO ADMITIU PRISÃO E MORTE DE ARGENTINO
O ex-sargento do CIE Marival Chaves, que serviu com Malhães na ditadura, já contou aos procuradores do grupo “Justiça de Transição”, em depoimento recente, que ficou sabendo, por um agente de codinome Bastos, que, na época, um homem foi preso em São Paulo, morto, encaixotado e despachado para a Argentina. Ele não identificou o nome da suposta vítima.
A prisão, segundo Marival, foi uma operação conjunta do CIE com a inteligência argentina. O ex-sargento disse que agentes do Chile e da Argentina foram enviados para o Brasil, para trabalhar sob o comando dos órgãos brasileiros, com a missão de obter informações sobre pessoas de seus países que ingressaram no Brasil, sobretudo Rio de Janeiro, sob a proteção do Acnur.
Dois movimentos argentinos mereceram uma atenção especial dos agentes envolvidos na operação: os montoneros e o Exército Revolucionário do Povo (ERP), que tiveram suas trajetórias e suas principais lideranças detalhadas. Trinta e cinco anos depois da data do último dossiê, as autoridades brasileiras e argentinas buscam agora compreender a atuação de suas inteligências para a aniquilação desses grupos:
- A atuação do Ministério Público Federal busca a reconciliação legítima de nossa sociedade com seu passado e sua História. Bem como a eficácia do entendimento universal de que graves violações de direitos humanos são imprescritíveis e não passíveis de anistia - afirmou o procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
RIO E BRASÍLIA - “Mário Maldonado”. Assim se identificava um dos mais ativos argentinos da rede de apoio aos exilados latino-americanos no Brasil, em 1979. Ele conhecia pelo nome cada conterrâneo de passagem pelo país, fazia contatos com grupos guerrilheiros de países vizinhos, falava com a imprensa e com os políticos de oposição brasileira e recebia as suas correspondências na “Avenida Higienópolis, 890 — São Paulo”, endereço da sede da Arquidiocese de São Paulo, onde ficava a Comissão de Justiça e Paz, principal base de apoio aos refugiados.
Documentos encontrados pelo grupo “Justiça de Transição”, do Ministério Público Federal, no sítio do tenente-coronel Paulo Malhães, revelam agora que “Mário” era um infiltrado. A papelada inclui um amplo e detalhado relatório, atribuído a ele, no qual “Mário” relata tudo o que sabia sobre a movimentação de exilados em território nacional.
Com as informações prestadas pelo infiltrado, o Centro de Informações do Exército (CIE), a mais importante unidade da repressão política do período, em parceria com os agentes de outras ditaduras latinas, conseguiu desmantelar células de organizações guerrilheiras no Brasil, sequestrar dissidentes estrangeiros e frear processos de insurgência contra as ditaduras vizinhas. Para isso, o infiltrado exerceu influência entre lideranças de movimentos oposicionistas e circulou com desenvoltura no Alto Comissariado das Nações Unidas (Acnur), na Cáritas, entidade da Igreja Católica, e nos sindicatos.
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CARLOS ALBERTO LINGER (AR)- “Após um encontro que tive com argentinos em minha casa, ao sairmos vimos dois agentes que começaram a tirar fotos nossas. No dia seguinte, o porteiro disse que não era a primeira vez”
 - Gustavo Stephan / Agência O Globo
O relato, em espanhol, narra todas as movimentações observadas pelo informante de militantes do Exército Revolucionário do Povo (ERP), grupo guerrilheiro argentino em que ficou mais tempo infiltrado, e nos montoneros de passagem pelo Brasil. No relatório apresentado aos agentes brasileiros, “Mario” narra sua trajetória pessoal como agente do serviço de informação argentino plantado desde a adolescência nos movimentos de esquerda.
AGENTE COMEÇOU A ATUAR COM 16 ANOS
O informante conta que, em 1972, quando tinha apenas 16 anos e ainda cursava o ensino secundarista, o Exército Argentino o convidou para trabalhar para o serviço de inteligência. A primeira infiltração foi no Fesar, braço semilegal do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT), de onde também derivou o ERP.
O desempenho do jovem alavancou sua carreira no movimento: “Em pouco tempo, me propõem entrar no Partido; organizei o comando da Frente Secundarista, que tinha relação com a Frente Militar”.
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ADOLFO CHORNY - "Em 77, fui visitar minhas filhas em Buenos Aires. Na volta, fui parado, e me disseram que seria deportado e entregue . Se me entregassem, primeiro me matavam e depois me interrogavam”
- Gustavo Stephan / Agência O Globo
Depois de cursar a escola de quadros do PRT, “Mário” conquistou definitivamente a confiança das lideranças nacionais. Porém, houve momentos em que, por esconder a verdadeira identidade, o infiltrado teve de enfrentar o ódio às esquerdas. Por já ser visto como um nome presente entre os membros do PRT e ser citado em agendas de integrantes do movimento, ele tornou-se alvo da “Triple A”, grupo armado paramilitar que perseguia, torturava e matava comunistas. Ao ser sequestrado pela facção anticomunista, o argentino chegou a ser torturado: “Me sequestraram, recebi choques elétricos e tive meu cabelo arrancado”, conta.
NO BRASIL, CHEGOU À POSIÇÃO DE LIDERANÇA
“Mário” foi enviado ao Brasil em 1979, quando a resistência à ditadura acumulava forças no exterior, para atuar em locais frequentados por refugiados. Em pouco tempo, alcançou posição de destaque, chegando a substituir lideranças em suas ausências. Sua atuação o fez ser chamado a dar entrevista para a TV Bandeirantes para denunciar violações na Argentina, o que foi negado para não comprometer o disfarce. Em relatórios anexados aos dossiês, uma lista identifica refugiados, organizações e pessoas que os ajudaram.
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FLORA STROZEMBERG - “Os comunistas argentinos tinham apoio do partido. O problema são os que não eram do partido. Eu via aquelas famílias sem nada e dava casa e comida. Aluguei até apartamento para ajudar”
- Gustavo Stephan / Agência O Globo
Em relatório da “Operação Gringo”, o papel de “Mario” é reconhecido pelo CIE: “Por se contar com o trabalho de um infiltrado no PRT-ERP, no Brasil, o trabalho de investigação sobre esta organização subversiva restringe-se aos dados colhidos pelo agente”. Apesar de sua alta influência, 35 anos depois, seu rastro parece pouco perceptível.
As instituições mencionadas no relatório, ouvidas pelo GLOBO, não souberam identificá-lo. Em comum, elas relataram a sensação de monitoramento muito próximo nos locais em que ele passou.

Operação Gringo: igreja fez pacto de silêncio para proteger refugiados

Os próprios refugiados checavam se a história contada pelos estrangeiros era verossímil


RIO - O vigário Candido Ponte Neto, designado pelo então arcebispo do Rio, D. Eugênio Salles, para criar e cuidar nos anos 1970 da Cáritas, braço da Igreja direcionado a preservar refugiados, revelou que os religiosos montaram uma estratégia para evitar vazamento de informações das pessoas acolhidas: os próprios refugiados faziam uma triagem com os estrangeiros que chegavam e checavam se a história contada era verossímil. Mas, ao menos uma vez, essa trincheira foi vencida:
- Uma única vez, um homem que se dizia argentino passou pela filtragem dos refugiados e chegou para conversar comigo. Durante a entrevista, senti que havia algo de estranho, e ele reparou minha desconfiança. Neste momento, ele falou que era um agente argentino, que o governo brasileiro sabia o que ele estava fazendo ali, e que queria informações de alguns argentinos que passaram por nós.
O clérigo contou que a equipe da Igreja foi treinada por representantes da Acnur para preservarem ao máximo a vida dos refugiados. O governo brasileiro não via os estrangeiros como em busca de refúgio, mas, sim, como elementos subversivos. As fichas que ficavam no Cáritas, órgão católico responsável pelos refugiados, eram da Acnur e, depois de preenchidas, ficavam pouco tempo na sede religiosa.
- Muitas vidas foram preservadas. Tenho muito orgulho desse trabalho - diz Candido.
Um dos momentos de maior tensão entre governo e Igreja teve como cenário, em 1979, o consulado da Suécia, no Flamengo. Um grupo de Tupamaros, movimento uruguaio, e de montoneros argentinos invadiu a representação diplomática e desencadeou a crise com o regime militar brasileiro. Com receio de que o governo, com auxílio de outros governos latinos, montasse uma operação militar para deter os invasores, D. Eugênio agiu para que os refugiados saíssem do consulado, fossem para sua residência oficial, no Sumaré, e de lá, meses depois, pudessem deixar o país em segurança.
A estratégia deu certo, mas a tensão entre as entidades e as ditaduras do Cone Sul não se restringiram somente a esse episódio. Como mostra o relatório da “Operação Gringo”, o monitoramento de instituições como a Cáritas foi constante e demandou esforços até de infiltração.


O GLOBO > 24/11/2014


Operação Gringo: coronel Malhães combateu montoneros argentinos em viagens secretas

Foram 14 missões sigilosas no Sul do país entre os anos de 1976 e 1980

POR CHICO OTAVIO E RAPHAEL KAPA
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Montoneros representavam uma das alas mais radicais da esquerda peronista na Argentina - 20-6-1973 / "La Nación"/GDA
RIO E BRASÍLIA - O tenente-coronel Paulo Malhães, um dos responsáveis pela “Operação Gringo” - deflagrada em parceria com a Argentina para perseguir e caçar refugiados no Brasil, principalmente os militantes da guerrilha montonera -, cumpriu, entre 1976 e 1980, 14 missões secretas no Sul do país. Uma delas, no dia 15 de março de 1980, ocorreu três dias depois do desaparecimento do casal Horacio Campiglia e Mónica Binstock, capturado no Aeroporto Internacional do Galeão quando desembarcava com os nomes falsos de “Jorge Piñero” e “Maria Cristina Aguirre de Prinssot”, para lançar uma contraofensiva da guerrilha com o objetivo de derrubar o governo militar argentino.
A captura do casal, levado a bordo de um cargueiro C-130 para um campo de concentração em Buenos Aires, foi parte de uma operação militar que resultou na queda de pelo menos outros 12 guerrilheiros.
Na última das três viagens ao Sul no primeiro semestre do ano, o coronel Malhães esteve na região de 15 de março a 20 de abril, período da maioria das capturas. As viagens secretas de Malhães, que aparecem nas “Folhas de Alterações” do oficial (nome dado ao histórico individual dos integrantes das Forças Armadas), reforçam as suspeitas sobre o envolvimento direto do governo brasileiro na morte e no desaparecimento de argentinos no Brasil.
Como O GLOBO revelou em série iniciada ontem, o grupo “Justiça de Transição”, criado pelo Ministério Público Federal para investigar os crimes do regime militar brasileiro (1964-1985), encontrou no sítio de Malhães dois volumes denominados “Operação Gringo”, que mostram o monitoramento de estrangeiros no Brasil.
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Montoneros dinamitam a casa de Guilherme Klein - AP
- Esses documentos servem claramente para revelar o conluio existente entre os aparelhos repressivos brasileiro e argentino, que, de forma sempre clandestina e ilegal, vitimaram não só argentinos, mas também chilenos e uruguaios - afirma o gaúcho Jair Krischke, fundador da organização Movimento de Justiça e Direitos Humanos.
Os brasileiros seguiram os passos dos exilados argentinos no Brasil por acreditar que cidades como Rio, São Paulo e Foz de Iguaçu serviriam de base para o levante montonero, incluindo o contrabando de armas para Buenos Aires. Um dos relatórios da “Gringo”, datado de 31 de dezembro de 1979, cita Horacio Campiglia, identificado como “Petrus, secretário militar”, como um dos membros da direção nacional montonera, tendo morado no Rio entre 1977 e 1978.
SÃO PAULO SERIA A BASE DOS SUBVERSIVOS
Para os agentes brasileiros, São Paulo seria a “base de falsificação de documentos e o setor de desenho e planejamento logístico pesado da Secretaria Militar” montonera. De acordo com o dossiê, “investigações e ações realizadas na Argentina permitiram saber que, através das fronteiras brasileiro-argentinas, entraram armas modernas e explosivos apreendidos em Buenos Aires”.
O CIE desconfiava que o líder montonero Mario Firmenich, do México, teria recrutado um grupo de jovens também exilados, que tinham sido treinados em países como Líbia e Cuba, para formar as TEIs (Tropas Especiais de Infantaria) e TEAs (Tropas Especiais de Agitação), braços operacionais da guerrilha. De volta aos países do Mercosul, sua missão seria reingressar em território argentino para derrubar o governo.
Para neutralizar o ataque, o Batalhão de Inteligência 601, centro militar de interrogatórios e torturas localizado nos arredores de Buenos Aires, pediu socorro aos agentes brasileiros e usou um infiltrado para desmantelar a operação. O CIE teria autorizado, inclusive, o ingresso de um comando argentino para a captura do casal Campiglia/Binstock no aeroporto. A queda do casal é parte do massacre à contraofensiva. Parte foi presa na fronteira, mas alguns conseguiram chegar a Buenos Aires, sendo detidos nas rodoviárias, em falsa operação de combate às drogas.
Em depoimento à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-Rio), em fevereiro deste ano, dois meses antes de ser assassinado, Malhães admitiu ações conjuntas com os argentinos. Disse que, ao ensiná-los técnicas de inteligência — como a montagem de um organograma das organizações, chamada no jargão da arapongagem de “aranha” —, contribuiu para que a ditadura argentina desmantelasse as organizações guerrilheiras.
- Ensinei a aranhazinha para eles. Eles acabaram com os montoneros, acabaram com a ERP (Exército Revolucionário do Povo), acabaram com tudo - contou à CEV.

Operação Gringo: após morte da filha, guerrilheiro lutou para ficar com neta

Hugo Guangiroli decidiu abandonar o movimento e se refugiar no Brasil

POR CHICO OTAVIO E RAPHAEL KAPA
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RIO E BRASÍLIA - Em 5 de agosto de 1979, Hugo Guangiroli, liderança afastada dos montoneros e refugiado no Brasil, recebeu em sua casa, no Rio, uma notícia que o abateu completamente. Sua filha, Lía Marianna Guangiroli, com apenas 23 anos, não era considerada mais viva pelos montoneros. Mãe de uma menina, Victoria, de 3 anos, Lía provavelmente caíra nas mãos dos militares ao entrar na Argentina para a contraofensiva contra a ditadura. Victoria se tornara órfã, e coube a Hugo, sozinho, reaver sua neta e superar mais uma violência da repressão contra sua família.
A primeira delas foi no ano de 1976. Raul Passaro, marido de Lía Marianna e pai de Victoria, morreu em uma ação do grupo. A partir disso, Hugo, que se tornara uma liderança política do movimento desde 1973, decidiu abandonar o movimento e se refugiar no Brasil.
- Passei a viver minha vida no Brasil. Ministrei cursos de Psicanálise na PUC do Rio. Foi até por meio de uma aluna, que era filha de um general do SNI, que consegui residência permanente - conta Hugo.
Porém, o argentino vivia uma liberdade vigiada. O psicanalista era um dos monitorados pela “Operação Gringo”. Teve seus antecedentes subversivos passados ao Brasil pelo governo argentino e chegou a ser indicado como o líder dos montoneros no ambiente universitário.
Em 1979, sua filha, por meio de cartas, pede para que o pai a encontre em Madri. Na Espanha, a filha afirma que se casará de novo, com o amigo de infância e montonero Julio César Genoud.
- Na ocasião, minha filha me avisou que participaria da contraofensiva. Perguntei se poderia ficar com minha neta, mas ela me falou que os montoneros consideravam o Brasil um país inimigo - lembra Hugo.
Victoria foi levada para um abrigo em Cuba. Já Marianna foi morta após o desmantelamento da contraofensiva. Na carta recebida por Hugo, os montoneros dizem que, se o avô quisesse ter notícias de sua neta, deveria responder à correspondência. Hugo respondeu no mesmo dia e foi informado, três dias depois, de que Rodolfo Puiggrós, que era o secretário geral dos montoneros, estava com a criança no México. O psicanalista avisou aos pacientes que faria uma visita curta de dez dias. A viagem durou três meses. Victoria não estava com Puiggrós e continuava em Cuba. Os montoneros continuaram mostrando resistência a Hugo:
- No final, dei 48 horas para que me entregassem minha neta ou denunciaria o grupo à ONU por sequestro.
Em menos tempo, ela já se encontrava de novo com o avô, com quem moraria até resolver estudar na Argentina. Aos 38 anos, Victoria vive hoje em Córdoba, mas fala com o avô todos os dias para mandar fotos de seu filho, Tao Guangiroli.
O GLOBO > 25/11/2014

Operação Gringo: quando o PCB era a maior ameaça para o regime militar

Ditadura perseguiu e matou líderes comunistas para desmantelar partido e justificar aparato

POR CHICO OTAVIO E RAPHAEL KAPA
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Vladimir Herzog foi uma das vítimas da ditadura militar - Reproduçãohttp://ads.globo.com/RealMedia/ads/adstream_lx.ads/ogcoglobo8/brasil/materia/L25/640502668/x20/ocg/1078-1_pdg_141101_OGlobo_ROS_comHome_Retangulo_Todos_agenciaclic/Tag_retangulo_300x250px_pdg_140825.html/795136436d6c516c6f39734143365a30?_RM_EMPTY_&topico=Comissao-da-Verdade&entidade=Comite%20Central%20do%20PCB-brasil-Partido%20Comunista%20Brasileiro-Tchecoslovaquia-Americas%20da%20UFRJ%20Wagner%20Pinheiro-Moscou-rio-Marcus%20Dezemone-CIE-UFF-Paulo%20Malhaes-Uerj-Alto%20Comando-franca-Uniao%20Sovietica-Hungria-ministerio%20publico%20federal-argentina-Centro%20de%20Inteligencia%20do%20Exercito-alemanha-Presidencia-Vladimir%20Herzog&idArtigo=14650670&gender=2&age=3&education=2&interest=61&interest=93&interest=102&interest=106&interest=117&interest=122&interest=188&interest=3&interest=8&interest=10&interest=12&interest=15&interest=17&interest=18&income=1&marital=2&cluster=45
RIO - Com a luta armada no campo e nas cidades praticamente extinta em 1974, o Centro de Inteligência do Exército (CIE), um dos mais atuantes órgãos da repressão no regime militar, voltou sua artilharia para um inimigo desarmado: o Partido Comunista Brasileiro (PCB), que defendia a redemocratização do país pela via pacífica. As motivações que fizeram os militares empreenderem uma verdadeira devassa no partido, perseguindo suas principais lideranças até o desaparecimento de mais de 25 comunistas, eram desconhecidas até então. Informações extraídas do relatório da Operação Gringo, descoberto pelo Ministério Público Federal na casa do tenente-coronel Paulo Malhães e revelado pelo GLOBO no último domingo, mostram que o PCB era visto como a principal ameaça à ditadura após a aniquilação da esquerda armada.
“O Partido Comunista Brasileiro representa, a longo prazo, a organização subversiva que proporciona maior perigo às instituições democráticas brasileiras”, afirma o relatório Operação Gringo/Caco, de 31 de dezembro de 1979.
Uma das justificativas para eleger o PCB como o novo inimigo número 1 é a própria trajetória do partido. Por ter membros com mais experiência e considerados mais “capazes”, os comunistas eram vistos como a principal ameaça. A experiência com a clandestinidade, o apoio externo de Moscou e o alto nível organizacional também são citados como argumentos que justificam a tese dos militares. A penetração que a sigla teve em grupos políticos foi vista com receio pelo CIE.
“Nos últimos anos, em que o peso da repressão recaiu sobre as organizações de esquerda radical, o Partidão soube tirar proveito dessa ação divisionária e ampliar suas bases, particularmente junto aos sindicatos rurais e urbanos”, afirma o relatório.
Os membros da inteligência do Exército pregavam que os comunistas elaboraram uma campanha para dividir os militares, insinuando oposição entre o Alto Comando e a Presidência e pregando que os militares deviam se posicionar entre aqueles comprometidos com os “crimes da ditadura” e aqueles que a negavam.
PERSEGUIÇÃO É CITADA EM RELATÓRIO
O desmantelamento das principais lideranças é citado indiretamente no documento: “O fato de o Comitê Central do PCB ter conseguido realizar duas reuniões dentro do prazo estatutário, ainda que no exterior, é um indicativo seguro de que o partido já se refez dos duros revezes sofridos em 1975/1976”, informa.
— A população ficou dividida entre aqueles que apoiavam as ditaduras militares e os que se opunham. Não se fazia distinção entre aqueles que meramente criticavam os regimes e os que pegavam em armas. Toda uma geração de líderes e intelectuais foi, então, dizimada. Partidos políticos, sindicatos, organizações estudantis e organizações de direitos humanos foram banidas e perseguidas — afirma o professor de História das Américas da UFRJ Wagner Pinheiro.
Uma dessas vítimas foi o jornalista Vladimir Herzog, militante do PCB encontrado morto em 25 de outubro de 1975. As autoridades afirmaram que o jornalista teria se enforcado, tese que foi negada posteriormente.
O monitoramento, no exterior, de integrantes do PCB foi o mais extensivo entre os grupos e partidos acompanhados pela Operação Gringo. Por meio de infiltrações, a inteligência brasileira conseguiu seguir as lideranças comunistas brasileiras que estavam na União Soviética, na Tchecoslováquia, na França, na Argentina, na Hungria e na Alemanha Oriental. O relatório conta também a mudança nas infiltrações.
“Os infiltrados disponíveis, para atualização dos acontecimentos, estão passando por um período de ‘desqueimação’, face aos erros operacionais do passado”.
A ação de cooperação entre brasileiros e argentinos começou com a prerrogativa de desmantelar bases de oposicionistas da Argentina no Brasil que pudessem elaborar uma contraofensiva ao país. Porém, como demonstra o relatório da operação, a visão sobre a atuação dos estrangeiros mudou drasticamente: “Ainda julgávamos estar trabalhando em um problema de estrangeiros atuando para fora e que éramos sede de uma conspiração internacional. Hoje, sabemos que estrangeiros e nacionais estão operando contra nós, isto é, somos o alvo e o objetivo. Deixamos de ser ponto de irradiação, para ser o centro convergente de toda a situação das esquerdas internacionais”, afirma o documento. A mudança de posição está mais relacionada à situação interna do Brasil do que à externa. Com a aniquilação das lutas armadas urbana e rural no Brasil, era necessário encontrar um novo inimigo que justificasse o alto custo do aparato da inteligência brasileira.
— É a lógica dos serviços de inteligência de todo o mundo. Você infla o inimigo para justificar sua existência — afirma o professor de História do Brasil da Uerj e da UFF Marcus Dezemone.
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