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quinta-feira, 6 de março de 2014

A sabedoria chinesa do cuidado: o Feng Shui

A sabedoria chinesa do cuidado: o Feng Shui
 Leonardo Boff, filósofo, teólogo e escritor.
Uma das vantagens da globalização, que não é só econômico-financeira, mas também cultural, é permitir-nos colher valores pouco desenvolvidos em nossa cultura ocidental. No caso, temos a ver com o Feng-Shui chinês. Literalmente significa vento (feng) e água (shui). O vento leva o Chi, a energia universal, e a água o retém. Personalizado significa “o mestre das receitas”: o sábio que, a partir de sua observação  da natureza e da fina sintonia com o Chi,indicava o rumo dos ventos e o veios d’água e, assim, como bem montar a moradia.
         Beatriz Bartoly, em sua brilhante tese em filosofia na UERJ, da qual fui orientador, escreve: “o Feng Shui nos remete para uma forma de zelo  carinhoso” –nós diríamos cuidadoso e terno– “com o banal de nossa existência, que no Ocidente, por longo tempo, tem sido desprestigiado e menosprezado: cuidar das plantas, dos animais, arrumar a casa, cuidar da limpeza, da manutenção dos aposentos, preparar os alimentos, ornamentar o cotidiano com a prosaica e, ao mesmo tempo, majestosa beleza da natureza. Porém mais do que as construções e as obras humanas é a sua conduta e a sua ação que é o alvo maior desta filosofia de vida,  pois mais do que os resultados, o Feng-Shui visa o processo. É o exercício de embelezamento que importa, mais do que o belo cenário que se quer construir.  O valor está na ação e não no seu efeito, na conduta e não na obra.”     
         Como se depreende, a filosofia Feng-Shui visa antes o sujeito que o objeto,  mais a pessoa do que ambiente e a casa em si.  A pessoa precisa envolver-se no  processo, desenvolver a percepção do ambiente, captar os fluxos energéticos e os ritmos da natureza. Deve assumir uma conduta em harmonia com os outros, com o cosmos e com os processos rítmicos da natureza. Quando tiver criado essa ecologia interior, estará capacitado para organizar, com sucesso, sua ecologia exterior.
      Mais que uma ciência e uma arte, o Feng Shui é fundamentalmente uma sabedoria, uma ética ecológico-cósmica de como cuidar da correta distribuição do Chi em nosso ambiente inteiro.
          Nas suas múltiplas facetas o Feng Shui representa uma síntese acabada do cuidado na forma como se organiza o jardim, a casa ou o apartamento, com harmoniosa integração dos elementos presentes. Podemos até dizer que os chineses, como os gregos clássicos, são os incansáveis buscadores do equilíbrio dinâmico em todas as coisas.
         O supremo ideal da tradição chinesa, que encontrou no   budismo e no taoismo sua melhor expressão,  representada por Lao-Tse (do V-VI século A.C.)  e por  Chuang-Tzu (século IV-V A.C.), consiste em procurar a unidade mediante um processo de integração  das diferenças, especialmente das conhecidas polaridades deyin/yang, masculino/feminino, espaço/tempo, celestial/terrenal, entre outras. O Tao representa essa integração, realidade inefável com a  qual a pessoa busca se unir.
         Tao significa caminho e método, mas também aEnergia misteriosa e secreta que produz todos os caminhos e projeta todos os métodos. Ele é inexprimível em palavras,  diante dele vale o nobre silêncio. Subjaz na polaridade do yine do yang  e através deles se manifesta. O ideal humano é chegar a uma união tão profunda  com o Tao que se produza o satori, a iluminação. Para os taoistas o bem supremo não se dá no além morte, como para os cristãos, mas ainda no tempo e na história, mediante uma experiência de não-dualidade e de integração no Tao. Ao morrer a pessoa mergulha no Tao e se uni-fica  com ele.
        Para se alcançar esta união,  faz-se imprescindível a sintonia  com  a energia vital que perpassa o céu e a terra: o Chi.  Chi é intraduzível, mas equivale ao ruah  dos judeus, aopneuma dos gregos,  ao spiritus dos latinos e ao axé  dos yoruba/nagô, ao vácuo quântico dos cosmólogos: expressões  que designam a Energia suprema e cósmica que subjaz e sustenta todos os seres.
         É por força do Chi que todas as coisas se transformam (veja o livro I Ching, o livro das mutações) e se mantém permanentemente em processo. Flui no ser humano através dos meridianos da acupuntura. Circula na Terra  pelas veias telúricas subterrâneas, compostas pelos campos eletromagnéticos distribuídos ao longo dos meridianos daacupuntura, que entrecruzam a superfície terrestre. Quando o Chi se expande significa vida; quando se retrai, significa morte. Quando ganha peso, apresenta-se como matéria; quando se torna sutil, apresenta-se como espírito. A natureza é a combinação sábia dos vários estados do Chi, desde os mais pesados até os mais leves.
         Quando o Chi emerge num determinado lugar, surge uma paisagem aprazível com brisas suaves e águas cristalinas, montanhas sinuosas e vales verdejantes.  É um convite para o ser humano instalar ai  sua morada. Ou encontra um apartamento no qual se sente “em casa”.
         A visão chinesa  do mundo privilegia o espaço, à diferença do Ocidente que privilegia o tempo. O espaço, para o taoismo, é o lugar do encontro, do convívio, das interações de todos com todos, pois todos são portadores da energia Chi que empapa o espaço. A suprema expressão do espaço se realiza na casa, no jardim, ou no apartamento bem cuidado.
         Se o ser humano quiser ser feliz, deve desenvolver atopofilia, o amor ao lugar onde mora e onde constrói sua casa e seu jardim, ou mobilia seu apartamento. O Feng Shui é a arte e a  técnica de bem construir a casa, o jardim e decorar o apartamento com sentido de harmonia e beleza.
         Face ao desmantelamento  do cuidado e à grave crise ecológica atual, a milenar sabedoria  do Feng-Shui nos ajuda a refazer a aliança de simpatia e de amor para com a natureza. Essa conduta  reconstrói a morada humana (que os gregos chamavam de ethos), assentada sobre o cuidado e a suas múltiplas ressonâncias como a ternura, a carícia e a cordialidade.
Leonardo Boff escreveu: Virtudes para um outro mundo possível,3 voll., Vozes 2006.





A gestação do povo brasileiro, a universidade e o saber popular.
Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.
O povo brasileiro ainda não acabou de nascer. Vindos de 60 países diferentes, aqui estão se mesclando representantes destes povos num processo aberto, todos contribuindo na gestação de um povo novo que um dia acabará de nascer.
O que herdamos da Colônia foi um Estado altamente seletivo, uma elite excludente e uma imensa massa de destituídos e descendentes de escravos. O cientista político Luiz Gonzaga de Souza Lima na sua original interpretação do Brasil nos diz que nascemos como Empresa Transnacionalizada, condenada a ser até hoje fornecedora de produtos in natura para o mercado mundial (cf. “A refundação do Brasil”, 2011).
Mas apesar deste constrangimento histórico-social, no meio desta massa enorme maduraram lentamente lideranças e movimentos que propiciaram o surgimento de todo tipo de comunidades, associações, grupos de ação e de reflexão que vão das quebradeiras de côco do Maranhão, aos povos da floresta do Acre, dos sem-terra do sul e do nordeste, das comunidades eclesiais de base, aos sindicatos do ABC paulista.
Do exercício democrático no interior destes movimentos nasceram cidadãos ativos; da articulação entre eles, cada um mantendo sua autonomia, está nascendo uma energia geradora do povo brasileiro que lentamente chega à consciência de sua história e projeta um futuro diferente e melhor para todos.
Nenhum processo desta magnitude se faz sem aliados, sem a ligação orgânica daqueles que manejam um saber especializado com os movimentos sociais comprometidos. É aqui que a universidade é desafiada a alargar o seu horizonte. Importa que os mestres e alunos frequentem a escola viva do povo, como praticava Paulo Freire; importa permitir que gente do povo possa entrar nas salas de aula e escutar os professores nas matérias relevantes para eles, como eu mesmo fazia nos meus cursos na UERJ do Rio de Janeiro.
Essa visão supõe a criação de uma aliança entre a inteligência acadêmica e a miséria popular. Todas as universidades, especialmente após a reforma de seu estatuto por Humboldt em 1809 em Berlim, (reforma que permitiu às ciências modernas ganharem sua cidadania acadêmica, ao lado da reflexão humanística; fato, esse, que criou outrora a universidade), se tornaram o lugar clássico da problematização da cultura, da vida, do homem, de seu destino e de Deus. As duas culturas – a humanística e a científica – mais e mais se intercomunicam no sentido de pensar o todo, o destino do próprio projeto científico-técnico face às intervenções que o ser humano faz na natureza e face à sua responsabilidade pelo futuro comum da nação e da Terra. Tal desafio exige um novo modo de pensar que não segue uma lógica do simples e linear, mas a lógica do complexo e do dialógico.
As universidades são urgidas a buscar um enraizamento orgânico nas periferias, nas bases populares e nos setores ligados diretamente à produção. Aqui pode se estabelecer uma fecunda troca de saberes, entre o saber popular, feito de experiências, e o saber acadêmico, constituído pelo espírito crítico; dessa aliança surgirão seguramente novas temáticas teóricas nascidas do confronto com a anti-realidade popular e da valorização da riqueza incomensurável do povo na sua capacidade de encontrar, sozinho, saídas para os seus problemas. Aqui se dá a troca de saberes, uns completando os outros, no estilo proposto pelo prêmio Nobel de Química (1977) Ilya Prigogine (cf. “A nova aliança”, UNB 1984).
Deste casamento, se acelera a gênese de um povo; permite um novo tipo de cidadania, baseada na con-cidadania dos representantes da sociedade civil e acadêmica e das bases populares, as quais tomam iniciativas por si mesmas e submetem o Estado a um controle democrático, cobrando-lhe os serviços básicos, especialmente para as grande populações periféricas.
Nestas iniciativas populares, com suas várias frentes (casa, saúde, educação, direitos humanos, transporte coletivo etc), os movimentos sociais sentem necessidade de um saber profissional. É onde a universidade pode e deve entrar, socializando o saber, oferecendo encaminhamentos para soluções originais e abrindo perspectivas às vezes insuspeitadas por quem é condenado a lutar só para sobreviver.
Deste ir-e-vir fecundo entre pensamento universitário e saber popular pode surgir o biorregionalismo com um desenvolvimento adequado ao ecossistema e à cultura locais. A partir desta prática, a universidade pública resgatará seu caráter público, será realmente a servidora da sociedade. E a universidade privada realizará sua função social, já que em grande parte é refém dos interesses privados das classes proprietárias e feita chocadeira de sua reprodução social.
Esse processo dinâmico e contraditório só prosperará se estiver imbuído de um grande sonho: de ser um povo novo, autônomo livre e orgulhoso de sua terra. O antropólogo Roberto da Matta bem enfatizou que o povo brasileiro criou um patrimônio realmente invejável: “toda essa nossa capacidade de sintetizar, relacionar, reconciliar, criando com isso zonas e valores ligados à alegria, ao futuro e à esperança” (“Porque o brasil é Brasil”, 1986, p.121).
Apesar de todas as tribulações históricas, apesar de ter sido considerado, tantas vezes, jeca-tatu e joão-ninguém, o povo brasileiro nunca perdeu sua auto- estima e o encantamento do mundo. É um povo de grandes sonhos, de esperanças inarredáveis e utopias generosas, um povo que se sente tão imbuído pelas energias divinas que estima ser Deus brasileiro.
Talvez seja esta visão encantada do mundo, uma das maiores contribuições que nós brasileiros podemos dar à cultura mundial emergente, tão pouco mágica e tão pouco sensível ao jogo, ao humor e à convivência dos contrários.
Enviado por Vitor Buaiz

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