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sexta-feira, 17 de maio de 2013

O psiquiatra de Caruaru: "Homofobia é veadagem enrustida"




Fernando Soares Campos



Caruaru é a maior cidade do interior de Pernambuco, conhecida como Capital do Agreste, terra da feira que “faz gosto a gente vê, de tudo que há no mundo, nela tem pra vendê”, conforme cantava Luiz Gonzaga. Mas o que pouca gente sabe é que em Caruaru também tem pelo menos um psiquiatra bageguiano ― adepto dos métodos gauchescos do analista de Bagé, com adaptações aos costumes nordestinos. Ele recebe a clientela trajado de gibão, alpercatas e chapéu de couro. Em vez de divã, tem uma rede rosa-shocking instalada no consultório, na qual os pacientes se deitam, desfiam queixumes e resenham seus pecados.

Outro dia, o filho de respeitado coronel midiático entrou no consultório aparentemente avexado, com as mãos nos bolsos, talvez para dissimular o nervosismo. Mas não passou despercebido pelo tarimbado terapeuta.

― Que foi que aconteceu, cabra? Parece que viu lobisomem!
― Não é nada não, doutor. Já faz muito tempo que eu queria falar com o senhor... Mas tava evitando, porque dizem que só vem aqui quem tá com o miolo mole...
― Nada disso, meu jovem. O que mais atendo aqui é cabeça-dura.
― Apois eu quero me consultar.
― Então, deite aí na rede e desembuche.
― Deitar?! Precisa isso?!
―Sim, que é pra você relaxar e liberar a alma do cabresto.

O rapaz deitou-se, mas manteve as mãos nos bolsos.

― Por que não tira as mãos dos bolsos?
― É que o ar condicionado tá fazendo muito frio...
― Acho que você tá é com medo de desmunhecar na minha frente.
― Hein?!
― Deixa pra lá. Vamos ao que interessa. O que foi que trouxe você aqui? Que bicho te mordeu?
― Num é nada demais não, doutor. É que ando cismado comigo mesmo... ― ficou meio alheado, olhando para o teto.
― Continue.
― De repente, perdi o interesse por quase tudo: parei de andar com os amigos de sempre, larguei a namorada e até deixei de assistir televisão, coisa que eu gostava muito... ― continuou com olhar fixo no teto.
― Bom, parar de andar com amigos e largar a namorada, a gente até que entende, não parece coisa tão grave. Mas deixar de assistir televisão é um tanto esquisito, preocupante. Isso, sim, pode indicar um comportamento anormal. Tem alguma ideia dos motivos que levarem você e se comportar assim?
― Sei não, doutor, sei não...  ― pensou um pouco e concluiu: ― Acho que deve ser por causa dessa campanha toda que tão fazendo contra nós...
― Nós, quem?! De que campanha você tá falando?

O jovem mexeu-se inquieto, e a rede balançou suave.

― Dessa que diz que ninguém pode mais nem dar umas porradas num boiola. Toda hora tem alguém na tevê dizendo que a gente tem que parar com o preconceito, com a violência contra os gays, essas coisas. Isso aperreia a gente.
― Peraí! Na verdade, isso quer dizer que você é homofóbico.
― Chame como quiser. Só sei que não gosto de baitola. Tenho raiva de pirobo.
― Nesse caso, você procurou a pessoa certa. Homofobia é doença, precisa ser tratada. Aliás, qualquer fobia é sinal de neurose e pode evoluir para uma psicose.
― Num é nada disso, doutor! Doença mesmo é boiolice. Doente é quem queima a rosca,
― Mas homofobia é veadagem enrustida, cabra!
― Como assim?! O senhor tá me chamando de viado?
― Não, porque acho que você ainda não deu... Entende?
― Nem dei nem pretendo dar.
― Aí é que tá o problema: você reprime o seu impulso homossexual, não tem coragem de se revelar, por isso descarrega nas pessoas assumidas. Inveja dos ânus libérrimos. Sacou?

O terapeuta se levantou, foi até a estante, pegou uma garrafa contendo uma beberagem, encheu uma caneca e se aproximou do paciente.

―Isso aqui é uma garrafada que inventei com ervas da caatinga, uma verdadeira panaceia: amansa corno brabo, mulher arengueira e biriteiro valentão, entre outras serventias. Só não cura político corrupto, que esse aí não tem mais jeito. Acho que vai resolver seu problema. Tome.

O rapaz ficou meio cabreiro, mas pegou a caneca e bebeu devagar. Fechou os olhos, parecendo meditar. Súbito, saltou da rede, agarrou o psiquiatra de Caruaru pelo guarda-peito do gibão, sacudiu o homem violentamente, fazendo o chapéu de couro voar longe, e gritou histérico:

― Agora me bate! Me cospe! Me joga na parede! Me chama de lagartixa!

Empurrou o terapeuta cabra da peste, que se estatelou no chão. Saiu disparado. Na porta, ouviu o psiquiatra lhe perguntar:

― Não vai pagar a consulta?
― Pagar?! Que pagar que nada, eu vou é processar você e pedir indenização por danos morais.
― Como assim? Baseado em quê?

O ex-machão pôs as mãos nos quadris, respirou fundo, sacudiu a cabeça para os lados e respondeu:

― É proibido tratar bichice como doença, e você tratou um homofóbico, que, como você mesmo diz, é um viado enrustido. Agora liberei de vez. Morou?!

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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quarta-feira, 15 de maio de 2013

ACORDA, REBELO! É HORA DE REMOVER O ENTULHO AUTORITÁRIO DA CBF!


Quem entende um mínimo que seja de futebol, está careca de saber que Ronaldinho Gaúcho é, atualmente, o melhor jogador brasileiro em atividade, aqui ou no exterior. 

Cérebro e maestro do Atlético Mineiro, faz dele um time que consegue, ao mesmo tempo, deslumbrar a torcida e ser extremamente competitivo; tanto que acaba de aplicar sonoras goleadas em adversários fortes como o São Paulo e Cruzeiro, além de criar um sem-número de oportunidades para ampliar o marcador. 

[Contra o tricolor paulista, p. ex., foram duas bolas no travessão e uma que o zagueiro Tolói tirou da linha de gol, de forma que caberia perfeitamente um 7x1]. 

Preterir o Gaúcho na convocação para a Copa das Confederações, é mais do que burrice ou teimosia; trata-se de um crime contra a arte futebolística. O técnico Felipão tenta repetir uma matreirice imunda que deu certo em  2002, excluindo o  grande craque  (Romário, daquela vez) e estimulando os demais atletas a unirem-se contra as críticas e desconfiança generalizada. Quer  fechar o grupo, sem perceber que o prazo de validade destas artimanhas imorais venceu faz muito tempo.

Menos mal que a seleçãozinha tem tudo para dar vexame na Copa das Confederações, livrando-nos do  pesadelo Felipão  antes da Copa do Mundo, aquela que realmente importa. 

O futebol brasileiro não é, nem de longe, o melhor do planeta na atualidade. Está muito atrás da Alemanha, da Espanha e (por causa do Messi) da Argentina.

Então, precisamos é de um técnico estrategista como o corinthiano Tite, que teve competência para dar um nó tático no afamado Rafael Benítez, tornando menos desequilibrada a partida contra o Chelsea no Mundial de Clubes. Mesmo assim, o único título importante do Brasil nos últimos tempos dependeu também --e muito!-- dos milagres do goleiro Cássio. 

Com o rústico, tacanho,  ultrapassado e  traíra  (*) Felipão, que vem perdendo sistematicamente das equipes e seleções que praticam o futebol moderno, a tendência é de, mais uma vez, não passarmos das quartas-de-final. Podem anotar.

ESPÍRITO DA ERA MÉDICI

Para finalizar: se (graças ao Romário, Juca Kfouri e Ivo Herzog) cair o presidente da CBF que foi lambe-botas de ditadores, cairá também o técnico autoritário que encara o futebol como uma guerra. 

O primeiro não tem mínimas condições éticas para ocupar cargo tão importante quando os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil.

E o segundo, após ter sido o principal culpado pelo rebaixamento do Palmeiras no Brasileirão, estaria desempregado até hoje se o ladrão de medalhinhas não o tivesse  resgatado do ostracismo.

Para piorar, na hipótese improvável de  a moeda cair em pé, a vitória acabará beneficiando a turma do "ame-o ou deixe-o",  do "ninguém segura a juventude do Brasil".

Pois o espírito truculento e patrioteiro  da  era Médici  está entranhado até a medula em Felipão e Marin, embora só este último tenha se acumpliciado efetivamente com a ditadura dos generais. 

A última coisa de que precisamos é a exumação de conceitos fascistóides como o da "pátria em chuteiras", que levam água para o moinho da direita mais boçal e bestial.

Acorda, Rebelo! É hora de remover o entulho autoritário da CBF!

* no capítulo maucaratismo, vale lembrar que Scolari foi desleal com seu antecessor Mano Menezes, aceitando substitui-lo antes mesmo de ele ser demitido pela CBF; e com jogadores do Palmeiras, fazendo chegar às  maltas organizadas  os nomes de reais ou supostos baladeiros, para que fossem  colocados na linha. A segunda falseta vazou para o elenco palmeirense e causou tamanha revolta que Felipão não teve mais condições de dirigir o time, sendo obrigado a abandonar o barco quando já era concreta a possibilidade de queda para a série B.