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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O arrastão do preconceito

O arrastão do preconceito
André Luiz Moreira

É advogado e militante do Movimento Negro e dos Direitos Humanos no ES
Ainda me lembro da impressão que me causou quando ouvi pela primeira vez, os primeiros versos da música Haiti, lançada por Gilberto Gil e Caetano Veloso, em 1993, no CD Tropicália 2, que comemorava os 25 anos de sua primeira obra conjunta. São estes os versos: “Quando você for convidado pra subir no adro/Da Fundação casa de Jorge Amado/Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos/Dando porrada na nuca de malandros pretos, ladrões mulatos e outros quase brancos/Tratados como pretos/Só pra mostrar aos outros quase pretos (E são quase todos pretos)/Como é que pretos, pobres e mulatos/E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados” O refrão arremata: “o Haiti é aqui”.
Mais de 20 anos após seu lançamento, esses versos-denúncia foram revitalizados pela ação da Policia Militar capixaba, no último sábado, numa ação de repressão a um grupo de funqueiros que organizaram um baile no espaço público, próximo ao maior shopping da Capital, fruto de histeria coletiva que identificou na entrada dos jovens no estabelecimento como prática de arrastão.
A cena correu o Brasil. Jovens negros e brancos pobres, os pretos e quase pretos de que fala a música, sentados enfileirados no chão do Shopping Vitória, com as mãos na cabeça, sob a mira da polícia militar e o aplauso dos consumidores, numa repetição daquilo que o movimento negro e os ativistas de Direitos Humanos capixabas acusam publicamente há anos: o Espírito Santo é um Estado racista, que adota práticas institucionais fundadas no preconceito contra negros e brancos pobres (...“tratados como pretos”).
Aliás, prática de discriminação estrutural pelo Estado foi confirmada pelo Secretário de Segurança Pública, que assim justificou a intervenção da polícia no baile: “Quando se encontra uma atitude suspeita, a abordagem é uma ação normal. A polícia está autorizada a fazer isso. A população tem que entender”.
A “atitude suspeita” a que se referiu o Secretário era obviamente a simples presença das pessoas naquele local. Mas não é só isso. Essa ideia, enraizada na representação que a classe média, de que no baile funk só tem marginais, drogados e pervertidos sexuais, se concretizou em uma explosão de medo e ódio étnico-social nos consumidores do shopping e participantes de redes sociais, num verdadeiro “arrastão moral” contra os jovens que se encontravam ilegalmente detidos pela polícia.
O fato é que, se há crime, uso de drogas e práticas sexuais ilícitas (seja lá o que isso quer dizer!) nos bailes funks, não é menos verdade que tais práticas existem também nas raves e nas boates frequentadas pelos filhos das classes média e alta, sem, contudo, que a repressão seja igual em qualidade e quantidade. Afinal, a polícia sempre “sabe com quem está falando”.
Além disso, a cidade assistiu passiva, nos anos de 1994 a 2005, aqueles mesmos abastados, inclusive os que ainda eram adolescentes, se embriagarem dentro dos cordões dos blocos exclusivos do Vital, a micareta privada realizada na praia de Camburi e que resultava num incômodo para os moradores da região que só era comparável ao lucro aferido por seus organizadores.
O curioso é que o gatilho do medo social que causou a reação instantânea de ódio contra os fanqueiros, nunca foi acionado diante da multidão de jovens, em sua maioria brancos, que invadiam as vias públicas, tomando as avenidas e isolando bairros como Jardim Camburi e Mata da Praia para fazer seu carnaval particular.
Ninguém os acusou, mas havia evidente abuso de álcool, até entre menores, e os registros de violência eram constantes, como se pode ler em notícias da época. Também não era prática da Polícia Militar suspeitar da atitude dos participantes que vestiam os abadas.
Não havia fiscalização adequada para evitar o evidente uso de drogas nessas festas, por exemplo, o que seria justificável, caso fosse outra a condição econômica e social do público desses eventos. Nessas ocasiões, os baculejos eram dirigidos apenas à “pipoca”, como eram chamados os que ficavam à margem da corda que separava pagantes de não pagantes.
O Haiti, que dá título à música, é a ex-colônia francesa que se tornou independente na Revolução dos escravos (1791-1804) que culminou na morte e expulsão dos antigos senhores, causando, na época, nos países escravagistas da América, especialmente no Brasil, uma explosão de medo que guarda alguma analogia com o que vimos hoje no Shopping Vitória.
Os haitianos mostraram ao mundo que a suposta passividade e submissão natural dos negros ao regime escravista não era uma verdade biológica; o baile funk nas proximidades do “nosso pequeno templo do consumo” mostra que a periferia capixaba não quer ficar no gueto e é isso, no fim das contas, o que realmente incomodou os “consumidores”, o Shopping e o Governo.

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