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sábado, 7 de dezembro de 2013

Memória e Verdade - Conversa pública com Valdir Fraga Junior

IV Conversa Pública - Vitória ES













Minha saudação a todos! Sinto-me honrado pelo convite para prestar meu depoimento nessa CONVERSA PÚBLICA, comemorativa a Semana dos Direitos Humanos.
Que minhas primeiras palavras sejam uma homenagem a todos os mortos pela ditadura, a todos que sofreram torturas nas masmorras ou “sucursais do inferno” dessa infeliz página da história de nosso país, saúdo em nome de todos desaparecidos políticos João Massena de Melo, citado pelo livro “Memórias de uma Guerra Suja”, como um dos incinerados nos fornos da Usina de cana de açúcar em Campos. Sem menor sombra de dúvidas métodos nazistas. Presto também indistintamente solidariedade a todos que sofreram violações nos seus direitos.

Exatamente daqui a uma semana, no dia 13 de dezembro completa 45 anos do Ato Institucional nº 5. Nesse dia a ditadura implantada em 1964 tirou a máscara, cometendo as maiores barbaridades. Nessa época eu era militante sindical, responsável por um jornal chamado
“7 de Fevereiro”, dia Nacional dos Trabalhadores Gráficos logo após a publicação deste ato, o jornal saiu de circulação por ordem do DOPS e foi queimado no pátio do sindicato.
Para os que não me conhecem, nasci em Itapemirim no sul do Espírito Santo. Tudo começou quando ouvi duas pessoas simples conversando, um dizia que a Usina sustentava 2 mil famílias a outra dizia que era justamente o contrário, eram as duas mil que sustentavam a usina! A partir daí, nunca mais deixei de tomar posição que não fosse ao lado dos menos favorecidos.
Estudei na Escola Técnica de Vitória - Jucutuquara, onde tive alguns atritos com a direção, fui suspenso por quatro dias, só voltando com a presença de meu pai. A direção contou para meu pai que eu tinha sérias tendência comunista... vejam só que ironia, que premunição! Nesta escola aprendi a profissão de linotipista, onde fui para o Rio de Janeiro com a intenção de trabalhar estudar. Ao chegar ao Rio fui para o Sindicato, na época o sindicato representava para mim uma trincheira de luta da categoria, na companhia de velhos militantes de posição bem definida, participei de diversas comissões de salário. Fui um dos entusiastas pela criação de um jornal que pudesse arregimentar os companheiros que com o golpe militar de 64 tiveram que se afastar. Fizemos o jornal acima citado, uma homenagem a uma greve em São Paulo, em 1923, comandada pela UTG (União dos Trabalhadores Gráficos A UTG tinha como fundador e Secretário Geral João da Costa Pimenta um dos Fundadores do Partido Comunista em 25 de março de 1922. Esse jornal sugeria o 2º CONGRESSO DOS GRÁFICOS DA GUANABARA, todo o número discutíamos com a categoria os itens sugeridos. A partir da publicação do AI 5 quem quisesse continua na luta teria que ser diferente, as perseguições eram mais rigorosas.
Em 1972, completei 29 anos, na Ilha das Flores, com o corpo dolorido por espancamento, choques elétricos nas partes intimas. Tudo isso após ser seqüestrado pelo DOI-CODI, da Barão de Mesquita .
No mesmo momento que era seqüestrado de forma covarde sem direito a nada, a não ser à vontade de homens armados de metralhadoras aos gritos e palavrões. Minha residência era invadida por outro grupo, revistando, dando empurrões com os canos das metralhadoras, num total vandalismo.

Apesar de nada encontrar em minha casa, S A C O S e mais S A C O S eram expostos na calçada e eles diziam que eram armas e munições!... Uma forma de impressionar a vizinhança.

Uns quarenta minutos mais ou menos após o seqüestro, cheguei na Barão de Mesquita na Tijuca onde funcionava o DOI-CODI.
Se lá não era o inferno, com certeza era sua sucursal, ou melhor, uma das sucursais espalhadas por todo país. Mandaram-me tirar a roupa. Despido fui amarrado com fio elétrico nos dedos dos pés e das mãos, faziam as perguntas de praxe.

Indagando sobre a organização e o codinome. Respondia sempre: - Meu nome é Fraga Junior, sou do Sindicato dos Trabalhadores Gráficos.

Aos gritos e palavrões ao meu redor parecia que eram uns 6 a 8 torturadores. Com o capuz na cabeça não vi quando uma pernada me jogou no chão. A mão do monstro me agarrou na parte genital, amarrando um fio. “A manivela funcionou. Gritei sufocado por um capuz preto. Parecia que todos os nervos do corpo estavam eletrificados. Cheiro de cabelo queimado, aqueles que rodeiam o órgão genital amarrado. Após algum tempo, que parecia uma eternidade, os fios foram retirados. Socos e joelhadas partiram de todos os lados, com as mesmas perguntas e palavrões. Caído, fui arrastado pelas pernas até um quadrado que eles denominavam geladeira. Na geladeira uma friagem descomunal. Quando acordei, ouvi uma voz vinda de um aparelho instalado no teto, em seguida uma gargalhada sádica, e as mesmas perguntas, era como se fosse uma gravação repetindo a mesma coisa”.

Codinome e organização. Como a resposta era a mesma. Fraga Jr. do Sindicato dos Trabalhadores, não completei a frase, um apito de uma fábrica parecia estourar os tímpanos naquele ambiente fechado e escuro. Não era possível calcular o tempo, era uma coisa infernal. Toda madrugada era retirado, sempre nu com o capuz preto, era espancado com socos nos rins, peito, e só paravam quando eu caia desmaiado.


Após uns 40 dias sentia dores no peito, fui examinado pela mesma pessoa que me examinou anteriormente após ter deixado a geladeira, era o médico Amilcar Lobo. Fui levado encapuzado para o 1º Distrito Naval e no outro dia para a Ilha das Flores. Fiquei incomunicável por alguns dias, nesse lado do presídio estavam presas diversas jovens por fazer resistência a ditadura. Mesmo proibida de qualquer manifestação presas em suas celas elas não deixavam de prestar sua solidariedade. Com palavras de incentivo, assim como: LEVANTEA CABEÇA, VOCÊ NÃO ESTÁ SÓ!

Quando fui levado para o coletivo, fui colocado numa cela junto com João Massena de Melo e outros.

Após ter um habeas corpus negado pelo Tribunal Militar fui colocado em liberdade condicional, as últimas palavras de João Massena, foi que tomasse muito cuidado porque eles estavam soltando alguns presos para serem eliminados. Eu poderia ser um deles! Mandou dar um abraço no amigo dele um gráfico que trabalhava na Revista “O Cruzeiro”, preso com ele em Fernando de Noronha. Waldemar Daim.
Em liberdade condicional, sem poder deixar o estado, teria que ir toda semana assinar um livro de presença no Primeiro Distrito Naval, se fosse ao sindicato perderia a liberdade condicional. Vinte quatro horas mais tarde estava no Sindicato, fui para o Departamento Jurídico reivindicar meus direitos, a Editora que trabalhava tinha me dado abandono de trabalho mesmo sabendo de minha prisão! Difícil foi arrumar um trabalho, que o patrão aceitasse em me dispensar para assinar a tal presença na Marinha. Além de manter nosso controle era também uma forma de dizer para o patrão, marcar nossa ficha. Trabalhando numa editora no bairro do Rocha, numa noite ao sair do trabalho um carro suspeito, com um carona com meio corpo para fora do carro andando bem devagar me jogou a metade de um paralelepípedo, por uma questão de milímetro não tinha minha cabeça atingida, logo no outro dia os patrões recebiam um telefonema, perguntando porque estava me dando emprego, fui dispensado na hora! Passei ser revistado por diversas vezes, a última, numa maneira bem debochada um me disse: “você nasceu com a bunda para a lua”! Pregavam realmente o terror! Estava com visão dupla, ao sentar diante da linotipo, tomava choque, somente com a trepidação da máquina ligada.

Após julgado e absolvido em 1975, numa deixei um dia sequer de militar pela volta das liberdades democráticas, fiz parte do Comitê de Anistia, fui receber diversos exilados no Galeão recordo-me da vinda de Luiz Carlos Prestes, na Casa dos Estudantes, CEU, fomos saudar Apolônio de Carvalho. etc...

Após a publicação da Anistia o meu pedido foi feito em conformidade com a lei, foi assinado no escritório do advogado Dr. Humberto Jansen Machado, com sua secretária segurando na minha mão, com a visão dupla tinha dificuldade até de assinar meu nome. O INSS fez questão de dar suas contribuições sumindo por duas vezes com o processo. O ranço ideológico de alguns funcionários era comprovado.
A Comissão da Anistia numa infeliz interpretação ratifica a burla do INNS, numa atitude de afogadilho sem analisar corretamente a questão. A norma da anistia não pode ser dessa maneira com dois pesos e duas medidas!


A COMISSÃO DE ANISTIA comete um terrível equivoco, ao anistiar, ex-preso político que tinha vinculo empregatício, ao invés de cumprir o dispositivo constitucional da lei que diz que nós receberíamos com se trabalhando estivesse. Assim não é procedido, paga-nos em ávos proporcional aos anos trabalhados. Isso atendendo uma interpretação irônica do INNS. Um soldado anistiado não ganha como meio soldado, pelo contrário, ganha todas as vantagens conforme diz a mesma lei de anistia. Eu faço questão de deixar essa crítica registrada. Uma voz do Chile de Michelle Bachelet diz: “que uma ferida, quando está contaminada não cicatriza”. Desculpe-me a Clínica dos Testemunhos, que faz uma papel excelente dentro de suas atribuições,
Desculpe-me os organizadores dessa CONVERSA PÚBLICA, nesse caso da anistia referida, eles estão SURDOS E MUDOS.
Para a Comissão da Verdade... a verdade é uma só, e tem que ser verdadeira, mais uma vez desculpe-me o trocadilho!

No caso de punição aos crimes de lesa-humanidade, será preciso a mobilização dos “tambores das transformações”, sem dúvida é a juventude, e sem essa juventude sem esses tambores nada será feito!
Fora dos Direitos Humanos sem dúvida é barbárie!
Obrigado! 


https://www.facebook.com/valdir.fragajunior/posts/490814221038544?comment_id=2554212&notif_t=comment_mention















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