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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

ROBIN HOOD TINHA RAZÃO Frei Betto

Enviado por Vitor B.

  ROBIN HOOD TINHA RAZÃO
Frei Betto
      “A desigualdade mata”, afirmou o epidemiologista britânico
Richard Wilkinson ao constatar que nas regiões menos igualitárias os
índices de mortalidade são mais altos.
 Os pesquisadores Frans de Waal e sua colega Sarah Brosnan, ao
testar macacos-prego, verificaram que eles se zangavam ao ver um
companheiro receber uma recompensa melhor. Sarah entregava um seixo a
um dos animais e, em seguida, estendia a mão para que o macaco o
devolvesse em troca de um pedaço de pepino. Os dois macacos aceitaram
a troca 25 vezes consecutivas.

Sarah passou a entregar a um dos animais um cacho de uvas, um
dos alimentos preferidos dos macacos-prego. O outro continuou a
receber pepino. O clima azedou. O macaco merecedor de pepino
demonstrou nítida aversão à desigualdade. Ao ver seu companheiro
receber uva, ficou agitado e atirou longe seixo e pepino. Um alimento
que ele tanto gosta tornou-se repulsivo.

Os macacos não se irritavam quando as uvas eram exibidas a
todos eles e pepinos continuavam a ser trocados por seixos. A
irritação aparecia quando um deles recebia uvas. A desigualdade era
motivo da revolta. (O teste está descrito por de Waal em A era da
empatia, SP, Companhia das Letras, 2010).



      Ao tornar público o resultado da pesquisa, Sarah e Frans
receberam duras críticas de economistas, filósofos e antropólogos,
chocados com a comparação entre macacos e humanos. Para azar dos
críticos, a divulgação da pesquisa coincidiu com a denúncia de que
Richard Grasso, diretor da Bolsa de Valores de Nova York, viu-se
forçado a pedir demissão diante dos protestos gerados pelos quase 200
milhões de dólares que ele recebeu de bônus (New Yorker, 03/10/2003).



      Em 2008, a opinião pública dos EUA  mostrou-se indignada
quando, em plena crise econômica, o governo destinou 700 milhões de
dólares como “socorro” aos executivos que haviam provocado tantas
perdas no setor imobiliário. Uvas aos figurões; pepinos à plebe...



      No Brasil, a opinião pública também se mostrou indignada ao
saber que senadores utilizavam jatinhos da FAB para eventos
particulares, como viagens de familiares ou festas de casamento. As
mordomias, em especial as que são pagas com dinheiro público, suscitam
sempre revolta entre os eleitores.



      Os animais têm muito a nos ensinar. Sarah Brosnan colocou dois
macacos juntos, separados apenas por uma grade. O primeiro tinha à sua
frente duas latinhas, semelhantes a essas de refrigerante, em cores
diferentes. Elas podiam ser trocadas por comida. Se ele entregasse a
ela a lata A, receberia comida suficiente para seu próprio consumo. Se
entregasse a lata B, ganharia o bastante para dividir com o segundo
macaco. Os macacos-prego testados davam, em geral, preferência à lata
que favorecia a partilha da refeição.



      A democracia ocidental continuará a ser uma falácia enquanto
não criar condições para que todos tenham acesso aos bens essenciais a
uma vida digna e feliz. Os três ideais da Revolução Francesa –
liberdade, igualdade e fraternidade – na verdade têm sido limitados e
deturpados.



      A liberdade passou a ser entendida como direito de um se
sobrepor ao outro, ainda que o outro seja relegado à miséria. A
igualdade existe, quando muito, na letra da lei. Ricos e pobres
merecem tratamentos diferenciados perante a Justiça, e mesmo os
recursos públicos são destinados, preferencialmente, aos mais
abastados, como faz o nosso BNDES.



      A fraternidade ainda permanece uma utopia. Supõe que todos se
reconheçam como irmãos e irmãs. Basta recorrer ao exemplo familiar
para saber o que isso significa. Em uma família, embora as pessoas
sejam diferentes, com talentos e aptidões próprios, todos devem ter os
mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Ninguém pode ser excluído
da escolaridade ou do uso comum dos bens, como a alimentação ou
equipamentos.



      Fraternidade significa inclusão, reconhecimento, e até mesmo
abrir mão de um direito para que o outro, mais necessitado, possa se
livrar de uma dificuldade.



      Robin Hood tinha razão. O que a humanidade mais anseia é a
partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano. Essa a
verdadeira comunhão. No entanto, a riqueza e o poder, quase sempre
associados, cegam seus detentores, incapazes de se colocar no lugar do
outro, daquele que sofre ou padece de exclusão social.



      E para que a cegueira não seja acusada de indiferença criminosa
e desumana, inventam-se teorias econômicas e ideologias que
justifiquem e legitimem a aberração como natural...



Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão
holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.


http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

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