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segunda-feira, 17 de junho de 2013

Leonardo Boff e as TENTAÇÕES de Francisco de ROMA

A “tentação” de Francisco de Assis e a possível “tentação” de Francisco de Roma
Leonardo Boff, teólogo, filósofo, escritor e palestrante.
Não imaginemos que os santos e santas estejam livres das injunções da comum condição humana, a qual conhece momentos de exaltação e de frustração, tentações perigosas e superações corajosas. Não foi diferente com São Francisco, apresentado como “o irmão sempre alegre”, cortês e que vivia uma fusão mística com todas as criaturas tidas como irmãos e irmãs.
Francisco era, ao mesmo tempo, alguém tomado de grandes paixões e iras profundas, quando via seus ideais traídos pelos irmãos. Seu melhor biógrafo, Tomás de Celano, com cruel realismo, testemunhou que Francisco sofria tentações de “violenta luxúria”, que, porém, sabia simbolicamente sublimar.
Há um fato, que a historiografia piedosa dos franciscanos praticamente oculta, mas que é bem pesquisado pela crítica histórica. Vem sob o nome de “a grande tentação”. Os últimos cinco anos de vida de Francisco (morreu em 1226) foram marcados por profundas angústias, quase desespero, além de graves doenças que o afligiam, como a malária e a cegueira. O problema era objetivo: seu ideal de vida era viver em extrema pobreza, radical simplicidade e despojado de todo poder, apenas apoiado no Evangelho, lido sem interpretações que geralmente desfibram o seu sentido revolucionário.
Ocorre que, em poucos anos, seu estilo de vida empolgou milhares de seguidores, mais de 5 mil. Como abrigá-los? Como dar-lhes de comer? Muitos eram padres e teólogos, como Santo Antônio. Seu movimento não tinha nenhuma estrutura nem legalidade. Era puro sonho tomado a sério. Francisco mesmo se entende como um “novellus pazzus”, como um “novo louco”, que Deus quis na Igreja riquíssima, governada por Inocêncio III, o mais poderoso dos papas da história.
A partir do verão de 1220, Francisco escreveu várias versões de uma regra, as quais foram todas rejeitadas pelo conjunto da fraternidade. Eram utópicas demais. Frustrado e sentindo-se inútil, decide renunciar à direção do movimento. Cheio de angústias, sem saber mais o que fazer, se refugiou por dois anos no mato, apenas visitado pelo amigo íntimo frei Leão.
Esperava uma iluminação divina, que não vinha. Nesse entretempo, foi redigida uma regra,marcada pela influência da Cúria Romana e do papa, que transformava o movimento numa ordem religiosa: a Ordem dos Frades Menores, com estrutura e propósitos definidos. Francisco, com dor, humildemente, a aceitou. Mas deixou claro que não a discutiria mais, senão dando exemplos do primitivo sonho. A lei triunfou sobre a vida, o poder circunscreveu o carisma. Mas ficou o espírito de Francisco: de pobreza, simplicidade e fraternidade universal, que nos inspira até os dias de hoje. Francisco morreu no interior de uma grande frustração pessoal, mas sem perder a jovialidade. Morreu cantando cantilenas de amor da Provença e Salmos.
Francisco de Roma seguramente estará enfrentando a sua “grande tentação”, não menor do que aquela de Francisco de Assis. Terá que reformar a Cúria Romana, uma instituição que possui cerca de mil anos. Aí está cristalizado o poder sagrado (sacra potestas) de forma administrativa.
Finalmente, trata-se de administrar uma instituição com uma população da China: um bilhão e duzentos milhões de católicos. Mas cabe logo advertir: onde há poder dificilmente vigoram o amor e a misericórdia. É o império da doutrina, da ordem e da lei, que por sua natureza incluem ou excluem, aprovam ou condenam.
Onde há poder, especialmente numa monarquia absolutista como é o Estado do Vaticano, sempre surge um antipoder, intrigas, carreirismo e disputa de mais poder. Thomas Hobbes, em seu Leviatã (1651), viu claro: "Não se pode garantir o poder senão buscando poder e ainda mais poder”. O Francisco de Roma, o atual bispo local e papa, deverá interferir neste poder, marcado por mil astúcias e, às vezes, por corrupção.
Sabemos de papas anteriores que se propuseram reformar a Cúria, sabemos das resistências e frustrações que tiveram que suportar, e há até suspeitas de eliminação física de papas, feita por pessoas da administração eclesiástica. Francisco de Roma possui o espírito de Francisco de Assis: é pela pobreza, pela simplicidade e pelo total despojamento do poder. Mas, para nossa felicidade é jesuíta, com outra formação e dotado do famoso “discernimento dos espíritos”, próprio da sua Ordem. Une ternura explícita em tudo o que faz, mas pode mostrar também vigor inusitado, como é necessário a um papa com a missão de restaurar a Igreja, que se encontra moralmente em ruínas.
Francisco de Assis tinha poucos conselheiros, que, sonhadores como ele, praticamente não sabiam como ajudá-lo. Francisco de Roma cercou-se de conselheiros escolhidos de todos os continentes, a maioria deles idosos, vale dizer, experimentados no exercício do poder sagrado. Um poder que agora deverá ganhar outro perfil: mais serviço, do que comando; mais despojado, do que ornado pelos símbolos do poder palaciano; mais com “cheiro de ovelhas”, do que com perfume das flores do altar. O portador do poder sagrado deve ser antes pastor, do que autoridade eclesiástica; presidir mais na caridade, e menos com o direito canônico; deve ser irmão entre outros irmãos, embora com responsabilidades diferenciadas.
O Francisco de Roma suportará a sua “grande tentação”, inspirado em seu homônimo de Assis? Estimo que saberá ter mão firme, e que não lhe faltará coragem para seguir o que o seu “discernimento do espírito” lhe ditar para restaurar de fato a credibilidade da Igreja e devolver-lhe o fascínio pela figura de Jesus.
Ser radicalmente pobre para ser plenamente irmão
Leonardo Boff, teólogo, filósofo, escritor e conferencista.
Uma das primeiras palavras do papa Francisco foi: “Gostaria de uma Igreja pobre para os pobres”. Este desiderato está na linha do espírito de São Francisco, chamado de Poverello, o Pobrezinho de Assis. Ele não pretendeu gestar uma Igreja pobre para os pobres, pois isso seria irrealizável dentro do regime de cristandade, onde a Igreja detinha todo o poder. Mas criou ao seu redor um movimento e uma comunidade de pobres com os pobres e como os pobres.
Em termos de extração de classe, Francisco pertencia à afluente burguesia local. Seu pai era um rico mercador de tecidos. Como jovem, Francisco liderava um grupo de amigos boêmios —jeunesse dorée — que viviam em festas e cantando os jograis do sul da França. Já adulto, passou por uma forte crise existencial. De dentro desta crise irrompeu nele uma inexplicável misericórdia e amor pelos pobres, especialmente, pelos hansenianos, incomunicáveis, que viviam fora da cidade. Largou a família e os negócios, assumiu a radical pobreza evangélica e foi morar com os hansenianos. O Jesus pobre e crucificado e os pobres reais foram os móveis de sua mudança de vida. Passou dois anos em orações e penitências, até que interiormente ouviu um chamado do Crucificado: ”Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja, que está em ruínas”.
Custou a entender que não se tratava de algo material, mas de uma missão espiritual. Saiu pelos caminhos pregando nos burgos o Evangelho em língua popular. Mas o fez com tanta jovialidade, “grazia” e força de convencimento que fascinou alguns de seus antigos companheiros. Em 1209 conseguiu do papa Inocêncio III a aprovação de sua “loucura” evangélica. Começou o movimento franciscano, que em menos de vinte anos chegou a mais de cinco mil seguidores.
Quatro eixos estruturam o movimento: o amor apaixonado ao Cristo crucificado; o amor terno e fraterno para com os pobres; a “senhora dama” pobreza; a genuína simplicidade e a grande humildade.
Deixando de lado os outros eixos, tentemos compreender como Francisco via e convivia com os pobres. Nada fez para os pobres (algum lazareto ou obra assistencial); muito fez com os pobres, pois os incluía na pregação do evangelho, e onde podia estava junto deles; mas fez mais: viveu como os pobres. Assumiu sua vida, seus costumes, beijava-os, limpava suas feridas e comia com eles. Fez-se um pobre entre os pobres. E, se encontrasse alguém mais pobre que ele, dava-lhe parte de sua roupa para ser realmente o mais pobre dos pobres.
A pobreza não consiste em não ter, mas na capacidade de dar e mais uma vez dar, até se expropriar de tudo. Não é um caminho ascético. Mas a mediação para uma excelência incomparável: a identificação com o Cristo pobre e com os pobres, com os quais Francisco estabeleceu uma relação de fraternidade.
Francisco havia intuído que as posses se colocam entre as pessoas, impedindo o olho-no-olho e o coração-com-o-coração. São os interesses o que fica entre as pessoas (inter-esse); são eles que criam obstáculos à fraternidade. A pobreza é o permanente esforço de remover as posses e interesses de qualquer tipo, para que daí resulte a verdadeira fraternidade. Ser radicalmente pobre para poder ser plenamente irmão: este é o projeto de Francisco; daí a importância da radical pobreza.
Convenhamos que a pobreza tão extrema era pesada e dura. Ninguém vive só de mística. A existência no corpo e no mundo coloca exigências que não podem ser contrafeitas. Como humanizar esta desumanização real que comporta este tipo de pobreza? As fontes da época testemunham que os frades pareciam “uns selvagens (silvestres homines), que comem pouquíssimo, andam descalços e se vestem com as piores roupas”. Mas, com espanto, acrescentam “nunca perdem a alegria e o bom humor”.
E’ neste contexto de extrema pobreza que Francisco valoriza a fraternidade. A pobreza de cada um é um desafio para o outro cuidar dele e buscar-lhe, pela esmola ou pelo trabalho, o mínimo necessário, dar-lhe abrigo e segurança. Com isso o “ter” é desbancado em sua pretensão de conferir segurança e humanização. Francisco quer que cada frade cumpra a missão de mãe para com o outro, pois as mães sabem cuidar, especialmente, dos doentes. Só o cuidado recíproco humaniza a existência, como bem o mostrou M. Heidegger em seu “Ser e Tempo”. Para quem vivia totalmente desprotegido, a fraternidade significava efetivamente tudo. O biógrafo Tomás de Celano descreve a jovialidade e alegria no meio da rude pobreza. Assinala: “Cheios de saudade, procuravam encontrar-se; felizes eram quando podiam estar juntos; a separação era dolorosa, amarga a partida, triste a separação”. O despojamento total os abria para o desfrute das belezas do mundo, pois não as queriam possuir, apenas saborear.
São muitas as lições que se poderiam tirar desta aventura espiritual. Fiquemos apenas numa: para Francisco, as relações humanas devem se construir sempre a partir dos que “não são” e “não têm”, na visão dos poderosos. Eles devem ser abraçados como irmãos. Só uma fraternidade que vem de baixo e que, a partir daí, engloba os demais, é verdadeiramente humana e tem sustentabilidade. A Igreja, como a temos hoje, nunca será como os pobres. Mas pode serpara e com os pobres, como a sonha o papa Francisco.
 Enviado pr Escritos em Rede

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