Como participar da campanha pela DEMOCRATIZAÇÃO DA MÍDIA?

Como participar da campanha pela DEMOCRATIZAÇÃO DA MÍDIA?
LEI DA MÍDIA DEMOCRÁTICA KIT COLETA Todo cidadão/cidadã pode buscar voluntariamente as assinaturas para o projeto. Disponibilizamos abaixo um kit com o material necessário para o diálogo nas ruas.

Seguidores

#naovaitergolpe

#naovaitergolpe
Acesse Frente Brasil Popular

sábado, 24 de março de 2012

O que será que te dá, PSDBesta?!


Alguém aí se lembra desta manchete do velho Pasquim: "Todo paulista (que vota em Maluf) é babaca"? Pois bem mal, agora o Roni Chira vem com esta versão: Todo paulistano que vota no PSDB é "O eleitor 'Coca-Cola' de São Paulo" (Publicado originalmente em "O que será que me dá?" )

Entendemos por "eleitor Coca-Cola", aquele que toma (epa!) groselha e arrota champanhe.

Abraços

Editor-Assaz-Atroz-Chefe

__________________________

O eleitor "Coca-Cola" de São Paulo

Roni Chira*

É espantoso como a maioria dos paulistanos não tem a capacidade de relacionar a péssima qualidade de vida em São Paulo ao desempenho dos governantes que elege. O PSDB chuta-lhes o traseiro há uns 20 anos e eles quase que se desculpam por oferecê-lo seguidamente, a cada eleição. Muitos filmam o caos em que vivem pelo celular, guardam de recordação ou publicam no Youtube! Enchentes, congestionamento humano surreal nas estações do metrô, trombadinha atacando vítima, traficante vendendo droga, assaltante em ação… E quando chega na frente da urna, “alguma coisa acontece em seus corações” e lá vão eles, de novo, no mesmo PSDB! Ser conservador, reacionário ou um idiota completo em São Paulo, não tem origem na educação, raça ou nível social. É resultado de uma longa e profunda convivência com a mídia paulista.

A maioria dos paulistas não liga para política e políticos porque “tem mais o que fazer”. E quando não dá pra fugir do assunto, faz cara de esperto e sentencia: “todos os políticos são iguais; todos roubam”. Vão naquela linha do “poder que corrompe” etc… Enganam os mais distraídos, já que não querem ou não têm conhecimento para se aprofundar na questão. Para não se darem ao trabalho de pensar, comparar candidatos e toda essa chatice, muitos paulistas vão de “Coca-Cola” – o candidato que conhecem desde a infância. Neste caso, os “Coca-Cola” são José Serra, Geraldo Alckmin. Maluf também foi um grande “Coca-Cola”. Íntimos que são de seus eleitores igualmente “Coca-Cola”, os tucanos paulistas não mudam o discurso usual “te engano porque você gosta”. Bastou Serra anunciar-se candidato à prefeitura usando as habituais manobras rasteiras dentro do próprio partido, para que o paulistano o elevasse imediatamente a favorito disparado nas pesquisas. E mesmo que o eleitor se esconda da informação, ela lhe bate na testa há anos: até os marcianos sabem que da última vez, Serra não governou nem cumpriu mandato algum, focado que estava em sua eterna escalada rumo ao Palácio do Planalto. Além disso, largou a prefeitura nas mãos do oportunista mais desqualificado que gravitava em sua órbita. Kassab tornou-se o pior de todos os prefeitos que já passaram por esta cidade, na avaliação de seus moradores que… o reelegeram em 2008!


São Paulo tem muito pobre que come carne de pescoço e arrota caviar. Este tipo acredita que enriquecerá “junto” com o patrão. Por isso rouba na balança contra o freguês. É o tal “negro de alma branca” – que prefere catar as migalhas que caem do bolso do feitor a almejar igualdade de direitos e oportunidades para seus semelhantes sociais ou raciais. Acha que educação para pobre é perda de tempo. Por isso bota seu filho pra trabalhar o mais cedo possível, traçando-lhe o mesmo destino do pai desde a adolescência. Acredita em Deus e vai à missa aos domingos. (Mas admite com seus botões que do lado de fora da igreja, quem dá as cartas é o Diabo.)

A maioria dos paulistanos reconhece que viver em São Paulo é cada vez mais insuportável. Não por culpa dos seguidos governos elitistas do PSDB, é claro. Mas pelo crescimento desordenado da cidade provocado pela “invasão de alienígenas nortistas e outras impurezas étnicas – inclusos aí, filhos, netos e toda a parentada”. Por isso, é comum o cidadão achar-se no direito de furar qualquer fila: desde a dos congestionamentos até a dos supermercados. Se viaja enlatado no transporte coletivo, a culpa do seu desconforto é do passageiro ao lado, que invadiu “sua” cidade. (Em sua arrogância delirante, torce secretamente para que surja alguma epidemia que dizime ¾ da população: basicamente os negros e os nordestinos. Ah, sim, quase esquece: inclua-se aí os mendigos e os gays.)

Muitos caem na conversa de uma profissional de telemarketing e acabam assinando um desses jornalões ou revistas decadentes que ainda circulam por aí. Mas logo no segundo mês perdem o interesse na leitura: tirando as manchetes de capa, a página que fala do seu time, quadrinhos e horóscopo (que consomem numa única sessão no “trono sanitário”) o impresso nem se desmancha. E mesmo constatando que não tiram proveito algum, mantêm sua assinatura. Assim, mantêm também a ilusão de serem cidadãos bem informados. E o ciclo ilusório se completa nas estatísticas das quais fazem parte e que o dono do jornal empurra aos seus anunciantes.

Esse paulista foi convencido por idiotas das rádios, jornais e TVs igualmente paulistas, que é um otário que paga mais impostos hoje do que em outras épocas. Não lhe passa pela geléia do cérebro que o número garrafal exibido no impostômetro da rua Boa Vista é fruto da política de aquecimento do consumo interno que protege nossa economia do vírus neo-liberal – o mesmo que arrasa metade do planeta. Fizeram-no acreditar também que São Paulo é a tal “locomotiva” que carrega o Brasil nas costas. Para ele, “desde o Brasil Império já havia oportunidades para todos de norte a sul do país – seja nas escolas, seja no mercado de trabalho”. Por isso odeia os programas sociais do Governo Federal que “sustentam vagabundos que passam o dia bebendo pinga e jogando sinuca enquanto ele dá um duro danado”.

O paulistano ama seu automóvel – embora sempre esteja disposto a trocá-lo por um modelo mais novo. Adora passear a uma velocidade de 20 km por hora em média durante 1h30 também em média quando se dirige ao trabalho. Xingue sua mãe, cobice sua esposa, tire sarro do seu time que perdeu de goleada… mas nunca, jamais risque ou amasse seu carro! Porque, acima de tudo, este é seu verdadeiro governante. É o fiel parceiro que acomoda o traseiro daquela mulher-objeto, que está sempre disposta a deixar-se seduzir quando o motorista confunde seu joelho com o cambio e acelera em direção a um motel qualquer. No embalo da última do Teló…

____________________________________

*Sabemos muito pouco a respeito desse genial Roni Chira, que já nos autorizou a publicar o que possa nos interessar do seu blog (no bom sentido!) O que será que me dá?, a título de colaboração para com esta nossa Agência Assaz Atroz.

___________________________________

Sabe aquela anedota dos tempos do apartheid na Áfica do Sul? Não?! Então nós contamos:

Dois negros caminhavam pelo acostamento de uma estrada, quando um branco, dirigindo um conversível em alta velocidade, atropelou os dois. Um deles subiu! subiu" e caiu no meio do mato. O outro negro subiu! subiu! rodopiou e caiu no banco traseiro do conversível. Aí, por uma casualidade, o caso foi parar na justiça. Veredito: um dos negros foi condenado por ter fugido do flagrante e se escondido no mato. O outro foi condenado por invasão de propriedade privada.

Portanto, leia também...

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego


Como costumava fazer, o ajudante de caminhoneiro Wanderson Pereira dos Santos (foto), 30, deixou na noite do sábado 16 sua casa humilde, quase de beira de estrada, para comprar uns poucos mantimentos para alimentar o tio deficiente mental. Na volta, encontrou a morte na forma de uma Flecha de Prata, apelido universal dos carrões acinzentados Mercedes. A seta motorizada de R$ 2,7 milhões que espatifou seu corpo era dirigida por Thor Batista, herdeiro do homem mais rico do Brasil, sétimo do mundo. Se morresse como o ajudante de caminhoneiro, quem sabe num acidente do mesmo tipo – sempre cercado por seguranças, Eike é também um ciclista – o bilionário teria lançado em seu espólio algo como R$ 50 bilhões de reais. Entre os seus, Wanderson vai somente deixar saudades, ele que, a exemplo de milhões de brasileiros, não tinha posses.

(Leia matéria completa, enviada à PressAA por nossa colaboradora Urda Alice Klueger, clicando no título)

___________________________________

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoon

PressAA

.

sexta-feira, 23 de março de 2012

DROGAS - A CULPA É DA VÍTIMA?


Pedir e esperar que um viciado deixe de comprar para diminuir ou acabar com o tráfico revela um desespero de quem confia mais na força de um fraco dependente do que na força do governo constituído.

Lou Micaldas*

A CULPA É DA VÍTIMA? "- Você teve ou tem um filho viciado? Você tem ou teve pais, avós, ou parentes viciados? Você já teve a oportunidade de ouvir o drama dos pais de filhos viciados? Já chorou pelo suicídio de um amigo ou familiar viciado? Se a sua resposta é não, você não consegue imaginar o sofrimento de quem está passando por tudo isso. Pare de acusar o viciado de ser o culpado pelos altos lucros da venda de drogas ilícitas.

“Pega leve!" Foi o conselho que recebi quando comentei que iria escrever esta carta à sociedade!

Não quero e não posso pegar leve, pois minha palavra tem que pesar mais do que as armas usadas pelo tráfico! Tem que ser mais forte e abrangente do que as granadas que fazem parte do arsenal dos bandidos. Tem que causar mais impacto do que o abalo moral causado pela corrupção, pela extorsão e pelo suborno que levam toda uma sociedade a sofrer de medo e de constrangimento diante da violência ou ameaças graves.

Quero mesmo que o peso das minhas palavras atinja as velhas raposas da política e toda a sociedade, para que acabem com a hipocrisia, com a corrupção e com o custo alto das drogas! O álcool e o tabaco são drogas que matam. Os viciados escolhem e compram seus cigarros livremente, mesmo com as trágicas imagens expostas nos pacotes. Quanto lucro traz ao governo a venda dessas drogas!

Quantos empregos legais em todas as escalas são oferecidos por essas indústrias de drogas "legais"?! Muitas mães são viciadas em barbitúricos, derivados do ópio. Só conseguem dormir sem tomar a pílula de tarja preta.

Muitos pais se socorrem no uísque, na vodca, na cachaça, pra esquecer as angústias do dia-a-dia, pra suportar as ameaças sofridas pelos filhos e filhas dependentes das drogas intituladas ilícitas.

Então, é assim: o álcool, permitido pelos juízes, pode matar nas estradas e nas pracinhas das cidades, o cigarro pode matar de câncer. Somos uma sociedade de drogados legais e ilegais: de produtos que são vendidos nas farmácias, nos supermercados e importadoras e os que são vendidos nas "bocas" e "becos", espalhados por toda cidade, não só nos morros ou nas periferias.

O comércio das drogas ilícitas recruta escancaradamente batalhões armados de crianças e jovens desesperançados, transformando-os em marginais na busca do dinheiro fácil, do lucro garantido! São meninos aliciados e preparados para começarem de baixo, como olheiros. Contentam-se em poder levar pão e um pouco de comida pra casa, porque sabem que "naquela organização a fome é zero" de verdade, não é promessa. E eles sabem que têm "futuro".

A subida de posto é rápida. Em contrapartida, também sabem que sua vida é curta. Podem morrer por um simples deslize. E eles são testemunhas de que seu "protetor", seu "chefe", morreu aos 20 anos. Outros tantos também foram abatidos antes de alcançarem a maioridade.

Mas eles também são testemunhas de que o irmãozinho morreu de fome, ou de chumbo, ou de overdose. Vale a pena arriscar. Já que a vida vai ser curta, pelo menos, querem aproveitar o melhor.

Compram roupas de grife, tênis importado, até o dia em que tombam mortos ou vão para um Carandiru qualquer.

- Fazer o quê, "broder"? - Melhor enfrentar, "mermão! A lei do tráfico é a lei que impõe "respeito" e que funciona rápido. Não tem burocracia. Não paga imposto. Também não sonega...

Liberem as drogas todas! Quem vai comprá-las sabe o que está comprando. Vai porque quer, porque ficou dependente dela.

Pedir e esperar que um viciado deixe de comprar para diminuir ou acabar com o tráfico, pode ser um desespero de quem confia mais na força de um fraco dependente, do que na força do governo constituído. Mas pode ser também uma forma simplista de encontrar um responsável. Ou talvez o pior: revelar uma forma perversa de empurrar com a barriga (cheia) e o bolso (cheio) esta conversa fiada, protelando a solução. Quem vai querer secar a fonte do dinheiro farto e rápido?

Acredito na boa fé daqueles que têm a esperança de que, se todos os viciados se unissem e fizessem greve, o tráfico entraria em falência. São os inocentes úteis aos abutres, que fingem combater, que prendem de mentirinha, com o fim de extorquir mais e de valorizar o produto.

Liberem as drogas e cobrem altos impostos. Que elas sejam vendidas em qualquer boteco, supermercado, farmácias e drogarias, assim como as bebidas e os cigarros e os soníferos.

Com a vultosa arrecadação de impostos, invistam na recuperação e na saúde dos dependentes das drogas.

Invistam na educação de crianças, que antes de aprenderem a segurar um lápis, já sabem como utilizar armas pesadas, com seus braços magros que mal as aguentam. Aumentem a remuneração e a dignidade das polícias.

Com a droga legalizada, o tráfico de entorpecentes, perderia uma das mais lucrativas fontes de achaque. Seria o fim do comércio e o início de uma vida melhor pra todos.
Como aconteceu com o fim da "Lei Seca".

Recolham e apliquem, honestamente, os impostos de todas as drogas legalizadas, reduzindo os impostos dos remédios. Apliquem na melhoria de vida dos idosos, diminuindo seus impostos e aumentando seus proventos, suas pensões. Apliquem a arrecadação dos impostos nas estradas, nos meios de transportes, no turismo, na agricultura, na criação de empregos. Em creches.

Quanto arrecadaria o INSS com a contribuição de empregados com carteira assinada, na indústria legal das drogas? Quantas novas empresas seriam reabertas, com o fim da insegurança dos assaltos e sequestros, motivados pela busca desenfreada de dinheiro para compra de armas e munições pra abastecer o crime organizado? Nem será necessário fazer campanhas demagógicas, paternalistas!

Quantos políticos se elegem à custa de discursos hipócritas, enquanto estão associados a marginais traficantes? Quantos foram presos? Quantos já foram soltos? Não podemos continuar passivos nesse circo, onde somos os palhaços, mas pensamos que somos plateia.

Por que aplaudimos com nossos votos aqueles que nos iludem e nos roubam?
O que se vê nos jornais é o governo barganhando o salário mínimo, aumentando os impostos, propondo um aumento menor para os aposentados, cujo imposto já vem confiscado na fonte.

Políticos, policiais, ministros, juízes faturam com a contravenção e, depois, fingem que se espantam quando aparece a "vovó do pó"! Os candidatos, em época de campanha eleitoral, prometem o que não podem cumprir: "segurança pública, saúde e educação". Eles já estão "carecas" de saber que a repressão leva à contravenção, encarece a droga e enriquece os que assumem o comando.

Acabaram-se os inocentes! Eles fingem tomar "atitudes severas", prometem "aplicar a lei quando se fizer necessária", mas não se movem. Por quê?

Acabaram-se os inocentes! Sobramos nós, uma sociedade amedrontada, anestesiada, inerte. Todos nós sabemos disto. As fitas gravadas e as imagens invadem as nossas casas e nos roubam a confiança naqueles em quem votamos.

Todos têm algo a dizer, mas "pegam leve". Não se comprometem, não se mobilizam pra acabar com este inferno que invade os próprios lares, que tiram nosso sono. São quase 4 horas da manhã e eu resolvi me levantar da cama, dos lençóis macios e vim "pegar pesado".

Faça isso você também! Abra bem os olhos e a boca! Vamos proteger nossas crianças, jovens e velhos; vamos socorrer os viciados contra a falsa moralidade, contra a omissão. É de socorro que eles precisam.

Vamos cobrar das autoridades uma atitude honesta, rápida e verdadeira: legalizar a venda das drogas. Torná-la lucrativa em benefício da sociedade em geral, e não aos bolsos dos corruptos.

Quantos juízes estão nas mãos dos traficantes? Quantos têm filhos e filhas dependentes e não podem cumprir a lei que os beneficiariam, porque também são vítimas de ameaças? Basta!

Basta de se vestir de branco e de sair pelas ruas carregando faixas, com a inscrição "Basta!"

Conheço mães e pais que me escrevem porque são chantageados por terem filhos viciados. Não há dinheiro que baste para saciar a cobrança dos que lucram com esse comércio ilegal. Entre eles, a polícia que bate na porta ou telefona pra um pai desesperado e pergunta: "- Você quer que seu filho apareça morto na sarjeta? Não? Então trate de me dar o meu."

Vamos tratar das nossas vítimas do tráfico como doentes, e não como culpados.

_____________________________________

*Lou Micaldas é professora, formada pelo Instituto de Educação (RJ), e jornalista, criada e formada no Jornal do Brasil; administra o site Velhos Amigos e colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

____________________________________

Leia também...




Sua cannabis é um esterco. E sua imprensa?


por Fernando Soares Campos

(...)

O Jornal do Brasil (5/3) publicou uma notinha sobre uma chacina ocorrida em Nova Iguaçu, no final de semana. Cinco mortos. A matança ocorreu durante uma festa de aniversário de uma criança da comunidade Grama, num CIEP da região. Em O Globo, apesar da chamada na primeira página, a matéria é menor que boa parte das notas de falecimento pagas. E não há necessidade de o leitor ir buscar as "reportagens" desses jornais para se informar sobre a tragédia, pois elas não tratam mais do que já falei. Quer dizer, O Globo informa, logo na abertura do texto, que "segundo investigação, um dos mortos, Rafael Gomes Pereira, de 22 anos, tinha sido autuado por tráfico de drogas na 6ª DP (Cidade Nova)". Talvez quando ainda era adolescente, não há informação precisa. E nisso se concentram as "reportagens". Na mesma edição do JB, a que mandou seu tijolinho sobre a chacina de Nova Iguaçu, uma missa em homenagem aos franceses chacinados ganhou meia página.

Oito sujeitos invadem um CIEP, matam cinco pessoas e a investigação chega a uma informação sobre o passado de uma das vítimas.

(Clique no título e leia matéria completa)

_____________________________________

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

PressAA

.

quinta-feira, 22 de março de 2012

90 anos do Partido Comunista Brasileiro (PCB)

Para saber mais sobre as comemorações dos 90 anos do Partido Comunista Brasileiro (PCB) visite o site oficial do partido.

A verdade sobre a censura em Cuba





Mariana Mendes*, via Jornal A Verdade [Nota Assaz Atroz: muitos cliques e não tivemos acesso] e lido no Solidários

Cuba denunciou em dezembro que o Facebook censurou sua página na rede social, que possui mais de 70 mil seguidores, porque ela protestava contra o fechamento do canal do portal Cubadebate no YouTube.

Tudo aconteceu porque o canal de vídeos do sítio estatal Cubadebate.cu publicou um vídeo sobre Luís Posada Carriles, que é acusado por vários crimes na Venezuela, incluindo a derrubada de um avião civil cubano que matou 73 pessoas; cumpriu pena no Panamá por tentar assassinar Fidel Castro e recentemente propôs a via armada para derrubar o governo cubano. O ex-agente da CIA está sendo julgado nos Estados Unidos apenas por fraude migratória, embora a Venezuela exija que o terrorista seja extraditado para ser julgado em seu país natal.

Segundo o YouTube, o vídeo possui “infração de copyright”. Contudo, o sítio cubano afirma que as imagens do vídeo, que mostram Luís Posada Carriles dizendo que queria o pagamento por seus serviços como terrorista internacional, são utilizadas sem autoria em vários outros sítios.

Em nota, o sítio cubano afirma a existência de vários vídeos no YouTube com informações manipuladas e tendenciosas sobre Cuba com imagens roubadas do sítio estatal sem que o Google as tenha tirado da rede social, ainda que haja denúncias.

O acesso ao canal e à página cubanos foram restabelecidos, o vídeo de Carriles continua censurado. Outro canal já publicou o vídeo em protesto à censura do Google. Leia a nota no sítio do Cubadebate.

O bloqueio midiático

Além do bloqueio econômico imposto a Cuba pelos Estados Unidos, que dura mais de 50 anos, a Ilha também sofre com o bloqueio midiático. A grande mídia filtra as informações reais sobre o país e divulga informações falsas.

Em seu livro Cuba, apesar do bloqueio, atualizado em 2011, Mário Augusto Jakobskind, que morou um ano em Cuba, afirma que o bloqueio midiático é a “desinformação externa, que cria no mundo um senso comum que demoniza Cuba. A imprensa mundial não se cansa de dizer que lá é ‘uma ditadura’, chega ao absurdo de chamar de ‘ditadura dos irmãos Castro’. Isso não reflete a realidade”.

Segundo o sítio do Cubadebate, o microblog Twitter censura os TT (temas do momento) quando eles não são do interesse da empresa. Isso aconteceu com o hashtag #DerechosCuba, que foi bloqueado na Espanha. Contas da rede social também são fechadas arbitrariamente por motivos políticos em todo o mundo, ou seja, os direitos tão proclamados de liberdade de expressão são simplesmente negados todos os dias para manipular opiniões.

Embora seja intensamente propagandeado que presenciamos a “era da informação”, a realidade é que poucos possuem acesso à rede, e ela é controlada por uma minoria interessada em lucrar com a propaganda online e bloquear o que foge de seus interesses. A sociedade cubana, ao contrário desta tendência, utiliza seus escassos recursos cibernéticos, diminutos por conta do bloqueio econômico e comercial, para divulgar a verdade sobre sua história. Falsas informações são propagadas com o argumento de que o governo cubano teme liberar o acesso total à internet, quando se trata, na verdade, da falta de recursos tecnológicos no país, devido ao implacável bloqueio.

O “cybermercenarismo”

Outra faceta da propaganda falsa contra Cuba se manifesta por meio do “cybermercenarismo”. O jornal The New York Times publicou, em junho de 2010, que os Estados Unidos lideram um grupo de países que utilizam a tecnologia da informação mediante utilização de plataformas portáteis, viagens, consultorias, hardwares e apoio à criação de páginas virtuais e sistemas de telefonia móveis, para beneficiar os “dissidentes” em suas mensagens contrarrevolucionárias. Sob o falso título de “independentes”, esses mercenários divulgam informações que incitam à desobediência civil, fazem propaganda ilusória sobre o capitalismo e mentem sobre a revolução cubana.

A propaganda pró-capitalismo é o resultado menos perigoso destas ações, já que tais blogueiros não gozam de popularidade entre os cubanos. Tais “cybermercenários” podem trabalhar como espiões e até promover interferências em sistemas estatais e danos nos sistemas de serviços à população, além de acidentes graves.

La Polémica Digital

Apesar de todos os gastos e dos imensos esforços da máfia capitalista para manter contrarrevolucionários em ação, a cada dia surgem novos blogueiros cubanos que acreditam na revolução cubana e escrevem sobre o sistema em que vivem.

O blog La Polémica Digital, da jornalista cubana Elaine Diaz, é um destes blogs que escreve sobre o dia-a-dia de Cuba: “É sobre isso que gosto de escrever: o dia-a-dia, o que vejo na rua, no transporte público, o que ocorre com meu avô – que é camponês e não tem a menor ideia do que seja a internet, e, além disso, ela não lhe faz falta porque não a considera algo necessário para ser feliz. Por isso, eu acho muito engraçado que os indicadores para medir o grau de satisfação da população cubana sejam baseados em termos de internet, uma vez que a maioria da população do mundo nem sequer tem o que comer ou onde dormir esta noite”.

___________________________________________

*Mariana Mendes é discente em Geografia na UFSCar em Sorocaba (SP).

__________________________________________

Síntese Cubana
___________________________________________

Matéria recebida por e-mail de Miguel Baia Bargas, de Blogueiros Progressistas.

___________________________________________

Leia também...

A estratégia afegã de Obama: "Em rota de colisão com o penhasco"

Tao Wenzhao, China Daily
"Afghan strategy in danger"

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Tao Wenzhao é pesquisador do Instituto de Estudos Americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais.


PEQUIM. – O assassinato de 16 civis afegãos dia 11/3, provocou protestos intensos no Afeganistão, e não apressou só a deterioração das relações entre EUA e Afeganistão: também pôs sob grave risco toda a estratégia afegã dos EUA.


O exército dos EUA no Afeganistão gosta de ver-se como força de libertação, que salvou o país do regime dos Talibã e o pôs na rota rumo à democracia. Não é como os afegãos veem o exército dos EUA, para eles "exército de ocupação". Os soldados dos EUA são diferentes dos civis afegãos no estilo de vida, na religião, na tradição cultural, e os soldados dos EUA não dão sinais de tomar a iniciativa para entender melhor e aprender a respeitar a cultura religiosa dos civis afegãos.


Apesar de os EUA tentarem preservar a rotatividade das tropas, muitos soldados cumprem hoje a quarta, quinta missão no Afeganistão. E, à medida que a guerra vai-se infiltrando no espírito dos soldados, muitos se sentem cada dia menos motivados, com inúmeros casos de depressão na tropa. Esse é um dos fatores que contribuíram para os recentes incidentes, profanação de cadáveres de soldados Talibã, queima de livros sagrados e de outros materiais de culto religioso, e o mais recente, o ataque contra população civil desarmada que fez 16 mortos.


Apesar de o presidente Barack Obama, o secretário de Defesa Leon Panetta e a secretária de Estado Hillary Clinton terem apresentado pedidos formais de desculpas pelo ataque aos civis, a investigação ainda não começou de fato; e, pelo que se sabe até agora, o incidente teria resultado da ação de um único soldado, sargento Robert Bales, já formalmente acusado pelos crimes. O governo e grupos civis afegãos têm exigido que os EUA entreguem o acusado, para que seja julgado no Afeganistão. Mas o exército dos EUA no Afeganistão goza dos privilégios de extraterritorialidade e não é regido por leis afegãs. O presidente Hamid Karzai acusou os EUA de estarem criando obstáculos à investigação do atentado.

(Clique no título e leia matéria completa)

___________________________________________

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons (O cartum do Latuff foi copiado de Sarrabulhada )

PressAA

.

quarta-feira, 21 de março de 2012

AFINAL, CUSCO!!!


(Excerto do livro "Viagem ao Umbigo do Mundo", publicado em 2006)

Urda Alice Klueger*

E na sombra do entardecer, chegamos a Cusco! Ah! Cusco, Umbigo do Mundo, como é possível alguém morrer sem ter te conhecido? Eu acho muito difícil descrever Cusco, e talvez seja mais elucidativo contar das longas ruas de construções Incas até hoje inabaladas, não importa quantos terremotos ou quantos cristãos já tenham acontecido ou vivido naquela cidade. Um dia ela foi uma Cidade Imperial, e então tudo lá foi feito da melhor qualidade possível, com as pedras tão bem cortadas como se o fossem por raios laser, e as longas ruas de construções Incas estão lá como no passado, embora tenham sofrido um exorcismo espanhol. O que aconteceu foi que os Incas gostavam das suas construções térreas, baixinhas, e os espanhóis provinham de uma cultura de cidades muradas, de casas altas e oprimidas por uma longa Idade Média. Então, o exorcismo que aconteceu quando Pizarro afinal apoderou-se de Cusco foi que seus sequazes e descendentes construíram segundos e terceiros andares nas casas térreas, e os fizeram com rendilhados balcões espanhóis, e transportaram para Cusco uma nova maneira de viver, um tanto quanto mourisca, e enxertaram nas casas Incas coisas das quais já vinham enxertados, e à primeira vista, para quem está desavisado, tem-se até a impressão que se está a adentrar a uma cidade espanhola – mas é só olhar mais um pouquinho, olhar para o térreo sob aqueles balcões que também são lindos, para se dar de cara com o antigo passado Imperial daquele lugar que, sem dúvida, é o Umbigo do Mundo, conforme os antigos Incas o chamavam.

Cusco é um lugar sempre tão cheio de turistas que a chegada de um bando de extraterrestres não chegou a causar estranheza, e acabamos indo dar num hotel moderno, num quarteirão moderno, mas felizmente não muito longe da Praça de Armas – dava para ir à pé até lá! E foi o que fiz assim que me acomodei e tomei meu banho, apesar da preocupação que vi estampada nos companheiros quanto à minha segurança, por sair à pé já noite fechada, sem querer tomar um táxi. Mas eu estava em Cusco – como deixaria de andar à pé por aquelas ruas onde um dia caminharam por todos os lados os Filhos do Sol? Rapidamente atingi a Praça de Armas e parei, deslumbrada, encantada, fascinada, por poder de novo estar ali! Mesmo os 3.400 m de altitude de Cusco pareciam não me fazer grandes efeitos, mesmo depois de alguns quarteirões de caminhada apressada, tamanha a emoção que estava sentindo! Como que segurando nas mãos o coração descompassado, parei no meio da Praça de Armas a olhar devagarinho o entorno, mal acreditando que estava ali! Aquele era, afinal, o Umbigo do Umbigo do Mundo! Em duas rodas fôramos aqueles muitos milhares de quilômetros sem nenhum problema, sem ninguém se acidentar, sem ninguém se machucar, embora tivesse havido tantas quedas – e agora eu podia deixar o coração pular de alegria e de encantamento tanto quanto quisesse! Valera a pena, puxa como valera a pena!

_____________________________________

*Urda Alice Klueger é escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.

_____________________________________

Leia também...



Mais educação para quem vive no campo

“Dentro da nossa estratégia de combate à miséria, junto com o Bolsa Família, a nossa busca ativa, este programa é um dos eixos estratégicos porque aposta não só em retirar as pessoas das condições de miséria a que foram condenadas durante décadas, mas implica sobretudo em garantir que as gerações futuras terão um outro tipo de horizonte de oportunidades à sua frente”.

(Clique no título e leia matéria completa)

_____________________________________

Tem mais...

Charge do Bessinha no site Brasil! Brasil!


Estarão, provavelmente, no Caldeirão 666...
_____________________________________

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons (O cartum Primeiro Livro de Leitura foi copiado de Ler, escrever e contar )

PressAA

.

terça-feira, 20 de março de 2012

Viúvas da ditadura! que vocês atirem pedras nas paredes de cristal do salazarismo, ora!






Saramago e as paredes de cristal do salazarismo

Comunista e crítico feroz da ditadura e suas misérias, José Saramago não se deu ao luxo do descanso nem no túmulo. Dois anos após sua morte, o Prêmio Nobel de Literatura volta a ser notícia com a descoberta de um romance perdido: Claraboia. A obra, publicada no Brasil em novembro de 2011, está sendo lançada também na Espanha e Portugal. Não só: está prevista nova publicação de inédito do autor no final de 2012.

Saramago figura entre os escritores latinos mais lidos na América do Sul e no Caribe. Antes e depois de haver recebido o prêmio Nobel de Literatura, editoras cubanas e brasileiras imprimiram muitas de suas obras.

Escrito nos anos 1950, Claraboia sofreu censura por apresentar críticas ao regime ditatorial de Antonio de Oliveira Salazar. A editora portuguesa que recebeu os originais decidiu não publicar o texto por considerá-lo “duro e transgressor” para a época. Portugal vivia a ditadura salazarista e muitos de seus cidadãos, como Saramago, estavam enfrentando desde a clandestinidade ao exílio, além da repressão e violência policial.

A via-sacra de um manuscrito

O romance de Saramago sataniza em cerca de 300 páginas as convenções sociais e políticas dos anos 1950. A publicação póstuma atende a um desejo do escritor, que queria que o conteúdo de Claraboia fosse levado ao público após sua morte.

Sabe-se que o manuscrito foi entregue a um amigo em 1953. Esse o levou a uma editora, que deixou Saramago sem resposta até 1989, quando finalmente houve um contato, relatando que o livro havia sido encontrado durante uma mudança de suas instalações.

A primeira novela de Saramago, Terra de Pecado, havia sido publicada em 1947, e recebeu tanta crítica e indiferença que o autor não voltou a escrever outro livro durante 20 anos, segundo declarou sua viúva, Pilar del Río.

Pilar disse que Saramago chamava Claraboia de "livro perdido e achado no tempo", do qual lhe mostrou uns cadernos com as anotações que fazia enquanto escrevia a novela, bem como o manuscrito original da obra e o recuperado, enviado à editora.

Uma luz inventada

Em 1952, ano em que escreveu o livro, Saramago tinha pouco mais de 30 anos, já estava casado e tinha uma filha. O autor enfrentava, então, grandes dificuldades econômicas e não tinha a quem recorrer, pois seu pai e avô integravam as filas de dezenas de milhares de portugueses analfabetos.

Sensibilizado pela situação particular e social, o autor recorreu a metáforas e ao realismo fantástico para criar o enredo do romance, no qual há um narrador que penetra pela claraboia de um velho edifício nas proximidades de Lisboa e converte em paredes de cristal toda a estrutura do imóvel, recriando no cenário inusitado as penúrias e a opressão reinantes.

É um livro no qual a família, pilar da sociedade, se apresenta como “um ninho de víboras” no qual há violação, amores lésbicos e maus tratos, segundo indica a apresentação da obra.

Saramago em Cuba

Defensor da Revolução Cubana em todas as tribunas, Saramago sentia orgulho por ter integrado as fileiras do Partido Comunista Português desde sua etapa clandestina e, depois, ter-se incorporado à Revolução dos Cravos de 1974, movimento de militares e forças de esquerda que reinstalou a democracia no país lusitano.

Agora, a fim de ressaltar sua imortalidade nas letras, anuncia-se a publicação no final de 2012 de outra obra inédita: Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas. O título faz referência a versos do poeta e dramaturgo português Gil Vicente (1465-1536). A novela denuncia o armamentismo e o tráfico de armas no mundo.

Claraboia - sinopse

O romance se passa em Lisboa de meados do século 20. Num prédio existente em zona popular não identificada, vivem seis famílias. No térreo, moram um sapateiro com esposa e um caixeiro-viajante casado com uma galega e com um filho; um empregado da tipografia de um jornal com esposa e uma mulher solteira residem no 1º andar; uma família de quatro mulheres (duas irmãs e as duas filhas de uma delas) e outra formada por um empregado de escritório com esposa e filha adolescente residem no 2º andar.

A história tem início com uma conversa matinal entre o sapateiro, Silvestre, e a mulher, Mariana, que discutem a conveniência, ou não, de alugar um quarto que têm vago e, assim, conseguirem obter algum rendimento extra.

A conversa segue, o dia vai nascendo, a vida no prédio recomeça e o romance avança revelando ao leitor as vidas daquelas seis famílias da pequena burguesia lisboeta: os seus dramas pessoais e familiares, a estreiteza das suas vidas, as suas frustrações e pequenas misérias, materiais e morais.

O sapateiro acaba alugando o quarto vago para Abel Nogueira, personagem que incorpora as questões sociopolíticas e existenciais do autor, dando voz a um diálogo com Fernando Pessoa que, 30 anos depois, viria a ser o tema central do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis: “Podemos nos manter alheios ao mundo que nos rodeia? Não teremos o dever de intervir no mundo porque somos dele parte integrante?”

Claraboia: trecho ( versão em português de Portugal)

“Por entre os véus oscilantes que lhe povoavam o sono, Silvestre começou a ouvir rumores de louça mexida e quase juraria que transluziam claridades pelas malhas largas dos véus. Ia aborrecer-se, mas percebeu, de repente, que estava acordando. Piscou os olhos repetidas vezes, bocejou e ficou imóvel, enquanto sentia o sono afastar-se devagar. Com um movimento rápido, sentou-se na cama. Espreguiçou-se, fazendo estalar rigidamente as articulações dos braços. Por baixo do camisolão, os músculos do dorso rolaram e estremeceram. Tinha o tronco forte, os braços grossos e duros, as omoplatas revestidas de músculos encordoados. Precisava desses músculos para o seu ofício de sapateiro. As mãos, tinha-as como petrificadas, a pele das palmas tão espessa que podia enfiar-se nela, sem sangrar, uma agulha.

Num movimento mais lento de rotação, deitou as pernas para fora da cama. As coxas magras e as rótulas tornadas brancas pela fricção das calças que lhe desbastavam os pelos entristeciam e desolavam profundamente Silvestre. Orgulhava-se do seu tronco, sem dúvida, mas tinha raiva das pernas, tão enfezadas que nem pareciam pertencer-lhe.

Contemplando com desalento os pés descalços pousados no tapete, Silvestre coçou a cabeça grisalha. Depois passou a mão pelo rosto, apalpou os ossos e a barba. De má vontade, levantou-se e deu alguns passos no quarto. Tinha uma figura algo quixotesca, empoleirado nas altas pernas, em cuecas, o emaranhado dos cabelos enbranquecidos, o nariz grande e adunco, e aquele tronco poderoso que as pernas mal suportavam.

Procurou as calças e não deu com elas. Estendendo o pescoço para o lado da porta, gritou:

- Mariana! Eh, Mariana! Onde estão as minhas calças?

(Voz de dentro)

- Já lá vai!

Pelo modo de andar, adivinhava-se que Mariana era gorda e que não poderia vir depressa.

Silvestre teve de esperar um bom pedaço e esperou com paciência. A mulher apareceu à porta:

- Estão aqui.

Trazia as calças dobradas no braço direito, um braço mais gordo que as pernas de Silvestre. E acrescentou:

- Não sei que fazes aos botões das calças, que todas as semanas desaparecem. Estou a ver que tenho de passar a pregá-los com arame…

A voz de Mariana era tão gorda como a sua dona.”

Christiane Marcondes com informações da Prensa Latina e agências


_______________________________________

Aproveite o embalo e leia também...

Oração por Chico Soares, o “Canhoto da Paraíba”

por Urariano Mota

(...)

Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro mostrai que sois verdadeiramente mãe de todos artistas caídos em desgraça na terra.

Existe um homem que é grande no tocar, existe um sereno e augusto artista que é largo e alto de coração, existe um violonista de nome Francisco Soares de Araújo, que a simplificação da gente achou por bem chamar de Canhoto da Paraíba.

Minha Nossa Senhora, esta súplica seria inútil se tivésseis a graça de ouvi-lo um só minuto. Então saberíeis como ele transporta o céu para a brutalidade e para a angústia de todos animais que somos.

(Clique no título e leia texto completo no blog da redecastorphoto)


_______________________________________

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

PressAA

.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O JORNAL DA DITABRANDA DESINFORMA E MANIPULA. DE NOVO!!!

Em editorial desta 2ª feira, 19 (ver íntegra aqui), a Folha de S. Paulo pede "respeito à anistia", pois, no seu entender, a "iniciativa de denunciar militares por sequestros durante a ditadura militar é tentativa canhestra de burlar uma decisão do Supremo".

Desinformando seus leitores, o jornal da ditabranda tenta fazer crer que a impunidade eterna destes carrascos é fato consumado:
"Quando julgou a Lei da Anistia em 2010, o Supremo Tribunal Federal decidiu sem ambiguidades que ela é constitucional e que seus efeitos se aplicam tanto aos integrantes de organizações da luta armada quanto aos agentes do Estado que tenham cometido crimes políticos ou conexos.

Com a decisão, portanto, o Supremo encerrou de vez, e para o bem da sociedade, toda a polêmica sobre o alcance da anistia".
A Folha supõe que sejamos todos crédulos e ignorantes.

Sem dúvida nenhuma, é mesmo incontornável a aberração jurídica cometida pela mais alta corte do País, que deu a tiranos o direito de anistiarem preventivamente a si próprios em plena vigência do regime de exceção (!), contrariando não só o entendimento da questão em todo mundo civilizado como a lógica mais comezinha: seria uma brecha para todos os criminosos de todas as ditaduras escaparem sempre das punições.

As instâncias inferiores do Judiciário poderão até acolher teses como a dos procuradores da República que sustentam serem crimes continuados cinco execuções comandadas pelo célebre Major Curió sem que os restos mortais fossem encontrados até hoje.

Mas, tais pendengas inevitavelmente desembocarão no Supremo e o Supremo inevitavelmente considerará intocáveis os torturadores. Resumindo: é perda de tempo.

NADA IMPEDE, CONTUDO, QUE O EXECUTIVO PROPONHA A REVOGAÇÃO DESTA CARICATURA DE ANISTIA E QUE A PROPOSTA SEJA APROVADA PELO LEGISLATIVO. Aí, evidentemente, o STF seria provocado a reposicionar-se sobre o assunto.

É flagrante a desonestidade da Folha ao omitir que existe, sim, uma via democrática para sustarem-se os efeitos desta lei vergonhosa, gerada pelos culpados de assassinatos (incluindo execuções covardes de militantes aprisionados e indefesos), torturas, estupros, ocultação de cadáveres e outros horrores, com o aval de um Congresso subserviente à caserna, manietado e intimidado ao extremo, cujos membros não haviam sido escolhidos em eleições livres; e com a anuência de uma esquerda que cedeu à chantagem ditatorial para obter, em troca, a libertação dos presos políticos e a permissão de volta dos exilados.

Tal via democrática só não é trilhada por falta de vontade política. Já estamos no quinto mandato presidencial de antigos perseguidos políticos --o que teve de refugiar-se no exterior e os dois que conheceram os cárceres da ditadura-- sem que nenhum deles ousasse dar o passo obrigatório para  que a Justiça seja feita.

Para nosso opróbrio, ainda não acabamos de eliminar o entulho autoritário... 27 anos depois de voltarmos à civilização!
OUTROS TEXTOS RECENTES (clique p/ abrir):
GALERIA DE SERIAL KILLERS
ROSEBUD
NÃO ACEITO FRAÇÃO DE JUSTIÇA NEM COONESTO FARSAS
 

Carta aos Brasileiros de Oficiais reformados:

AOS BRASILEIROS

           
            Na condição de Oficiais Reformados, sócios dos Clubes Militares, somos forçados a discordar do abaixo assinado subscrito por vários Oficiais da Reserva, em apoio ao recente Manifesto dos Presidentes dos Clubes, que foi retirado do site do Clube Militar, após terem recebido ordens dos Comandantes das Forças, que, numa atitude exemplar e equilibrada, recomendaram que o fizessem. Esse documento continha referências à Presidente Dilma Rousseff,  por não censurar seus Ministros,  que fizeram  críticas exacerbadas aos governos militares". Agora, esse abaixo assinado, subscrito por esses Oficiais ( da Reserva e Reformados) e também  pelo Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi, aparelho de repressão da Ditadura em São Paulo, que está sendo acusado na Justiça de torturar presos políticos (  crimes que ele nega),   refere-se de modo desafiador  ao Ministro da Defesa, Celso Amorim, a quem não reconhecem qualquer tipo de autoridade ou legitimidade para fazê-lo", o que, a nosso juízo, além de ser um comportamento desrespeitoso, inaceitável na vida militar,  configura, induvidosamente,  uma insubordinação, uma “quebra da disciplina e da hierarquia”. Só para lembrar aos signatários desse insensato documento, o tal Manifesto cobrava da Presidente o compromisso  em que afirmava,  no discurso de posse dos Ministros:

“De minha parte, não haverá discriminação, privilégios ou compadrio. A partir da minha posse, serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política.”

E foram além em suas críticas,  asseverando:

”Parece que a preocupação em governar para uma parcela da população sobrepuja-se ao desejo de atender aos interesses de todos os brasileiros”

            Queremos, desde logo, restabelecer uma verdade, que os Presidentes dos Clubes Militares e alguns desses  senhores teimam em não reconhecer, a de  que o verdadeiro regime democrático é o que estamos vivendo, e não aquele dos “governos militares”, que não permitiriam, jamais,  tais “diferenças de opinião, de crença e de orientação política”.  Por outro lado,  faz-se necessária uma correção, a de que a Presidente Dilma Roussef ( que não nos deu  procuração), não governa para “uma parcela da população”, e sim, para todos os brasileiros, vitoriosa que foi nas urnas por uma indiscutível e expressiva votação, o que deve ter desagradado todos esses  senhores.

Quanto às críticas exacerbadas aos governos militares, pelo que fizeram durante o regime de exceção, elas continuarão sendo feitas, sim, pois estamos vivendo em  pleno regime democrático,  onde todos os segmentos organizados da sociedade mostram-se ansiosos por descerrar esse véu que encobre a verdadeira história da repressão. “ Pois sem responsabilização as histórias ficam sem fim, soltas no espaço como fiapos elétricos, e o passado nunca vai embora”, como afirmou o editorialista Veríssimo, em O GLOBO de 01/03/2012. E isso não é revanchismo, por que, afinal, aquelas críticas referem-se a  um contexto onde  pessoas, que se encontravam  presas e indefesas sob a tutela do Estado ( Ditatorial), mesmo assim,  foram barbaramente torturadas, muitas  até a morte, o que sempre mereceu a reprovação dos seres humanos civilizados. O povo brasileiro traz consigo a marca da generosidade, pois soube suportar com resignação as violências nesse tempo praticadas, como corretos foram muitos de nossos companheiros de caserna, que se mantiveram dignos e não sujaram as suas mãos, e nem se envolveram nos expedientes da repressão e da tortura.

O ideário do chamado "capitalismo selvagem", que plasmava as ações da nova ordem mundial, sob a liderança dos Estados Unidos, o que se acha confirmado pelo depoimento do Embaixador americano,  de então, o Sr. Lincoln Gordon, exigia que  fossem contidos todos os Governos que, politicamente, demonstrassem uma posição antagônica aos seus interesses, e mostrassem preocupações com as questões sociais dos seus povos. Sob a chancela dessas forças, coincidentemente, e no mesmo momento histórico, foram instaladas Ditaduras nos países da América Latina, através de golpes de Estado. Prevaleceu a "velha cantilena", que deu origem à ridícula história de que "era preciso impedir o avanço do comunismo internacional", o que veio sensibilizar  alguns incautos e desavisados, sem nenhum estudo ou leitura  (coitados !) sobre o que se passava no mundo da guerra fria, inobstante estivesse em  vigor uma Constituição que proclamava a liberdade de pensamento. O que se lamenta é que muitos dos nossos colegas,  que eram, à época, jovens  oficiais, recém saídos das Escolas militares, a quem ensinaram durante a Ditadura,  que a ideologia da segurança nacional se sobrepunha a qualquer outra, passaram anos sem liberdade, impedidos que foram de conhecer, e até de professar, qualquer outro  credo político. Até hoje, tem sido assim por que, se o fizerem, serão "demonizados" pelos demais.

            Estamos exercendo o legítimo direito da contestação, que a ordem democrática vigente assegura aos seus cidadãos. Não estamos mais em Ditadura, que serviu a interesses escusos de alguns , onde a suspensão das garantias constitucionais,  a censura à imprensa,  as prisões ilegais e arbitrárias (até mesmo, por simples delação),  a prática da tortura ( o que levou o Presidente Geisel a punir chefes militares em São Paulo),  tudo isso,  deixou marcas profundas para ser esquecido, por que faz parte da historia contemporânea do nosso Brasil. Tais fatos  nos enchem de vergonha perante o mundo, pelas indesculpáveis violações aos direitos humanos praticadas sob o manto protetor do aparelho de Estado. Estão alegando que o STF, em recente decisão, concluiu pela anistia dos agentes que  praticaram tais “crimes políticos ou conexos”. Apenas para esclarecer, seria correto examinar, e, para tanto, chamamos a atenção do Conselho Federal da OAB, os textos da Lei 6683/79 e da Emenda Constitucional nº 26/85, que, respectivamente, nos seus arts. 1º, e  4º, parágrafo 1º e 2º,  assim expressam:

LEI 6683, DE 28 DE AGOSTO DE 1979
“Art. 1º É concedida anistia a todos quantos, no período compreendido entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, ( o grifo é nosso) cometeram crimes políticos ou conexos com estes...”
Emenda Constitucional nº 26/85
“§ 1º - É concedida, igualmente, anistia aos autores de crimes políticos ou conexos,...”
“§ 2º - “A anistia abrange os que foram punidos ou processados pelos atos imputáveis previstos no "caput" deste artigo, PRATICADOS NO PERÍODO compreendido entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979.” ( o grifo é nosso)

Como ficam os crimes e os criminosos das três  bombas colocadas, no dia  27 de AGOSTO DE 1980, em três instituições, no Rio de Janeiro,  como descreve um jornal da época:

“Duas bombas de alto teor explosivo provocaram a morte de uma senhora e ferimentos em outras seis pessoas, ontem, no Rio, em dois atentados ocorridos no início da tarde: um, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil e outro na Câmara dos Vereadores. Num terceiro atentado, de madrugada, uma bomba de pouca potência destruiu parcialmente a sala do jornal "Tribuna da Luta Operária", não fazendo vítimas.
A bomba colocada na sede da OAB atingiu a secretária da entidade, Lida Monteiro da Silva, que teve o braço decepado, vindo a morrer minutos após ter dado entrada no hospital. No atentado na Câmara dos Vereadores, o sr. José Ribamar de Freitas, tio e assessor do vereador Antônio Carlos de Carvalho, do PMDB, perdeu um braço e uma vista, encontrando-se até a noite de ontem em estado grave. Outras cinco pessoas que estavam no local foram feridas
. ( Folha de S.Paulo - quinta-feira, 28 de agosto de 1980)

E a bomba do Riocentro, cuja explosão se deu em 30 de abril de 1981!!!, que a imprensa assim noticiou:
“A explosão ocorreu dentro de um automóvel puma, na noite de 30 de abril de 1981, com a bomba no colo do Sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, cuja morte foi instantânea. Ao lado do sargento, no volante, estava o Capitão Wilson Luiz Chaves Machado, o qual, ato contínuo, sai do Puma segurando vísceras à altura do estômago.” (Fonte: CMI Brasil)

Que ninguém duvide, que o que queremos  é “um regime de ampla democracia, irrestrita para qualquer cidadão, com direitos iguais para todos”.

Os “torturadores ( militares e civís), que não responderam a nenhum processo, encontram-se “anistiados” (?), permaneceram em suas carreiras, e nunca precisaram  requerer, administrativa ou judicialmente, o  reconhecimento dessa condição, diferentemente daqueles, suas vítimas, que até hoje, estão demandando junto aos Tribunais, para terem os seus direitos reconhecidos.

 ONDE ESTÃO OS CORPOS DOS QUE FORAM MORTOS PELAS AGRESSÕES SOFRIDAS? OS SEUS FAMILIARES QUEREM SABER, POIS TÊM DIREITO A ESSA INFORMAÇÃO!

Assim sendo, também queremos a mesma ANISTIA AMPLA, GERAL E IRRESTRITA, assegurada a esses insanos agentes da ditadura. E, temos certeza, de que isso não é nenhum absurdo, pois tem a aprovação das  pessoas sensatas, daqueles diletos  companheiros de caserna (dos quais, de muitos, somos amigos), que não se envolveram em práticas criminosas,  e que têm no rol dos seus  deveres éticos, o que se acha inscrito nos  estatutos militares:  “exercer, com autoridade, eficiência e probidade, as funções que lhes couberem em decorrência do cargo;  RESPEITAR A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA; ser justo e imparcial no julgamento dos atos e na apreciação do mérito dos subordinados.”
           
            Finalmente,  como afirmava o mestre Darcy Ribeiro:

Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar.
E eu não vou me resignar nunca.”

                                             Rio de Janeiro,  29  de fevereiro de 2012

                                       
                Luiz Carlos de Souza Moreira                             Fernando de Santa Rosa
                   Capitão de Mar e Guerra                                Capitão de Mar e Guerra
                                  

domingo, 18 de março de 2012

O golpe do Euro - Samuel Pinheiro Guimara~es

Subject: Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães - O golpe do Euro
 
 
 
2/03/2012

O golpe do Euro


Do site Opera Mundi, a extremamente lúcida palestra do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, um dos mais importantes formuladores da política externa brasileira:
Imagine um cenário em que países vitimados pelo desemprego são obrigados a realizar drásticos cortes de quadros públicos; aceitarem normas draconianas para pagarem juros de uma dívida pública que, na verdade, só virá a aumentar e se eternizar; também estão impedidos de investir, fornecer crédito e adotarem políticas de crescimentos; no comando do país, políticos experientes são substituídos por economistas burocratas e sem qualquer visão de estadista. Tudo isso por determinação externa, vinda de um órgão supranacional que é comandado de fato, pela nação mais poderosa.
Seria lugar comum cogitar alguma região subdesenvolvida, sem estabilidade política nem histórico democrático. Jamais na poderosa Europa Ocidental. Mas, na opinião do ex-embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, um dos principais artífices da política externa brasileira durante o governo Lula, países como Grécia ou Itália em maior grau, foram vítimas recentes de um “golpe de Estado comunitário”.
Atual alto-representante geral do Mercosul e ex-secretário geral do Itamaraty entre 2003 e 2009, Guimarães esteve nesta segunda-feira (27/02) em São Paulo para participar de uma palestra da FGV (Fundação Getúlio Vargas) sobre a atuação diplomática brasileira frente às transformações mundiais. Foi quando fez duras críticas à condução da Alemanha e da União Europeia na condução da crise do euro e da dívida soberana de seus países.
“Há novos primeiros-ministros na União Europeia que foram impostos aos seus povos. (O grego Lucas) Papademos, (o italiano Mario) Monti… Imaginem se isso ocorresse na América do Sul, como chamariam. De Golpe de Estado é isso, um golpe de Estado comunitário. Como são as contrariedades da mídia!”, ironizou o diplomata.
Ex-secretário-geral de Relações Exteriores do Itamaraty durante boa parte do governo Lula (2003-2009), Guimarães afirmou que o Mercosul deve deixar de ser apenas um órgão facilitador do livre comércio para se tornar um instrumento de desenvolvimento regional. O atual estágio de união aduaneira imperfeita do bloco, por sua vez, deve ser mantido em razão das fortes assimetrias entre os quatro integrantes.
Para ele, dificilmente haverá progresso para um acordo comercial com a União Europeia, que já se arrasta há uma década – por falta de interesse dos próprios europeus, que seriam muito exigentes em seus pedidos.
Durante seu discurso, também lembrou que o grupo sul-americano é marcado por grandes assimetrias econômicas e sociais, portanto, defende que os países mais ricos tenham um grau maior de generosidade em relação aos menos favorecidos. “Um bloco só sobrevive se os integrantes estão razoavelmente satisfeitos. E é de nosso interesse que todos se desenvolvam”, lembrando que deve se evitar qualquer tentativa de hegemonia brasileira em um bloco que se entende como cooperativo.
Em contrapartida, o voto em conjunto dos países do Mercosul possibilita grande retorno político. “Cada vez mais se aumenta o número de temas decidido internacionalmente: meio-ambiente, finanças, comércio. O desafio (do Itamaraty) é garantir que as regras internacionais tornem mais fácil o desenvolvimento da sociedade brasileira e lembrar que o que é bom para um país nem sempre é bom para outro. Portanto, nessas negociações, cada país tem um voto.Portanto,fazer parte de um bloco é extremamente importante”.
Guimarães lembrou que historicamente, o Mercosul foi concebido apenas como uma etapa preparatória de um projeto maior, a Alca (Área de Livre Comércio das Américas). “Lembrem-se quem eram os quatro presidentes na época do Tratado de Assunção: (do Brasil, Fernando) Collor, (da Argentina, Carlos) Menem, (do Uruguai, Luis Alberto) Lacalle e (do Paraguai, Andrés) Rodríguez. Tinham perspectivas diferentes. È como se estivessem preparando um casamento para depois pular para um relacionamento aberto”, brincou.
Democracia
Um dos pontos mais polêmicos do encontro foi quando Guimarães foi questionado pelo professor da FGV, Guilherme Casarões, se há coerência na diplomacia brasileira em manter relações com países que fogem à definição ocidental de liberdade e democracia. Guimarães defendeu a atuação do Itamaraty e lembrou que o país é contra a seletividade na defesa dos direitos humanos. “O Brasil obedece a dois princípios constitucionais: a autodeterminação e a não-intervenção, que constam também na Carta da ONU (Organização das Nações Unidas). Só que alguns países se esquecem disso. A interferência tende a fracassar, como no caso da Líbia (…) Não podemos interferir nos assuntos dos outros assim como não gostaríamos que interferissem nos nossos”, afirmou o embaixador.
O diplomata lembrou que ações de intervenção são muito seletivas para as grandes potências, que defendem muitas não-democracias. “Israel tem mais de cem ogivas nucleares. Enquanto a própria CIA, nesta semana, admitiu não ter certeza se o programa nuclear iraniano tem capacidade de produzir uma bomba nuclear. Quem representa mais perigo?”, indagou. “A pena de morte é o maior atentado aos direitos humanos. E nos EUA usam isso com extrema facilidade. Em geral, há uma pequena coincidência étnica entre os condenados”, ironizou.

Enviada por MVMeireles. 

O EX-GOVERNADOR ILLINOIZINO




Prenderam o Illinoizino (vixe, vixe!), ex-governador de Illinois, nos Estados Unidos. Não é bem assim que ele se chama. Seu nome, na verdade, é Rod Blagojevich (yuck, yuck!), mas numa licença poética vamos batizá-lo aqui com o apelido de Illinoizino para, dessa forma, identificá-lo com o Estado que governou. De sobrenome, encontramos algo ainda mais cabocal, mais "raiz", consultando a origem etimológica da palavra.

Na língua Diné Bizaad, falada pelos índios navajo, Blagojevich significa "dois homens", como podemos ver decompondo os elementos do vocábulo: "blago" é igual a "homens" (em inglês "men"), e "jevich" é o número "dois" (em espanhol "dos"). Portanto, somando os dois pedaços, Blagojevich vem a ser Mendos. Chamemos, portanto, nosso ex-governador de Illinoizino Mendos. Dois homens. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos da vida real brasileira é mera coincidência.

O ex-governador foi julgado e condenado por uma série de escândalos de corrupção, entre os quais a gota d'água foi a tentativa de vender o cargo de senador que ficou vago quando Barack Obama assumiu a Casa Branca. As provas foram gravadas pelo FBI, o que levou Illinoizino Mendos a ser trancafiado, na última quinta-feira, na Penitenciária Federal de Englewood, no Colorado, onde vai cumprir 14 anos de prisão. Se tiver bom comportamento, sua pena poderá ser reduzida para 12 anos.

Só mesmo nos Estados Unidos! O ex-governador, de 55 anos, foi preso. Pê-erre-pê, é-esse-ó-só. Pre-so! Mas não se deixou intimidar. O cara é que nem o Maluf. Vestindo camisa esporte, jeans, tênis de marca, entrou na prisão todo sorridente, depois de participar de um reality show com celebridades na TV e de fazer um comício para 300 simpatizantes.

Mas antes de ser enjaulado, Illinoizino Mendos, acompanhado de um séquito de advogados, deu adeusinhos ao público, distribuiu apertos de mão e tapinhas nas costas e ensaiou sorrisos para as câmaras de vários canais de TV, uma delas filmando de dentro de um helicóptero que sobrevoava a penitenciária. Lá dentro, ele encontrou Jeff Skilling, o presidente das Empresas Enron, que cumpre 24 anos de cana por fraude e outros crimes.

Segundo os jornais, no primeiro dia, o diretor da Penitenciária determinou as tarefas diárias de Illinoizino Mendos: limpar banheiro, lavar privada e varrer o pátio. "Uma humilhação" - diz sua mulher Patti, agora sozinha numa enorme mansão com as duas filhas do casal: Amy, de 15 anos e Anne, de 8 anos, que poderão visitar o pai quatro vezes ao mês. Será o único momento em que falará com elas, já que não terá acesso à internet nem a celulares, ambos proibidos.

Mas a família, pelo menos, usufruirá da mansão de Illinoizino Mendos, de quatro andares, que deu o que falar: tem quatro piscinas climatizadas, lago artificial, cascatas, jardins, quadra de esporte, pista de cooper, salas de jantar, de estar, de tv e cinema, torre com elevador panorâmico, salões de jogos e de festas, com piso de vidro grosso comprado na Itália e um heliporto. Fotos dessa mansão, eu já vi em algum lugar.

Fica a pergunta: como o ex-governador amealhou toda essa fortuna? Roubando. No exercício do cargo de governador, levou sempre a porcentagem dele paga pelas empreiteiras. Comprou votos de deputados, cobrou comissão na compra de geradores com superfaturamento, realizou obras sem licitação, loteou obras entre empresas testas-de-ferro, comprou vacinas contra a gripe que nunca foram distribuídas, desviou 1 milhão de dólares para uma escola privada, em troca de grana assinou uma lei desviando rendas dos cassinos para a corrida de cavalos.

As acusações são graves, envolvendo outros crimes: formação de quadrilha, suborno, extorsão, fraude de correspondência e de telegramas, tentativa de subornar o jornal Chicago Tribune com recursos federais, abuso de poder quando tentou liberar 8 milhões de dólares em fundos estatais para o Hospital da Criança esperando embolsar 50.000 dólares para sua campanha, suborno em 2.5 milhões de dólares de empresas e pessoas que tinham feito contratos ou que tinham precatórios estaduais.

E por aí vai, numa lista interminável de crimes. O FBI apertou e deu-lhe um creu. O governador foi cassado, destituído de seu cargo e impedido de se candidatar, sendo finalmente preso. Foram indiciados e presos também cinco "colaboradores" dele: seu irmão Rob Blagojevich, dois chefes de gabinete John Harris e Alonzo Monk, um empresário Christopher Kelly e um levantador de fundos William Cellini.

Uma atenuante existe em favor de Illinoizino Mendos: não há provas de que tenha roubado o leite das crianças ou tenha superfaturado o preço do leite em pó dentro do Programa The Milk of My Son, também conhecido como My baby cow's milk. Também, ninguém ouviu o ex-governador desejar a morte de uma mulher pobre e desabrigada nascida no estado vizinho de Missouri, rival de Illinois, dizendo pra ela: "Then, die! Then, die!". Quanto ao resto, está tudo comprovado.

Illinoizino Mendos é o sétimo governador de Illinois a ser detido ou indiciado e o quarto governador, nos últimos trinta anos, a ser condenado e preso. Esse tipo de crime só acontece mesmo nos Estados Unidos, onde alguns governadores saqueiam os cofres públicos e fazem negociatas. Por isso, lá eles são julgados, cassados e presos. No Brasil, graças a Deus e à Nossa Senhora Aparecida, nós não temos governantes ladrões. Por isso, aqui ninguém é julgado, nem preso. Eu, einh, Rosa!

_________________________________

José Ribamar Bessa Freire é professor universitário (UERJ), reside no Rio há mais de 20 anos, assina coluna no Diário do Amazonas, de Manaus, sua terra natal, e mantém o blog Taqui Pra Ti. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz
________________________________

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

PressAA

.