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sábado, 3 de março de 2012

"Negro de alma branca" e os demônios de cada um de nós





A equipe que faz esta nossa Agência Assaz Atroz acredita que, se Paulo Henrique Amorim leu o artigo que se segue, deve ter dado um branco (epa!) nesse crioulo doido da Record!
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Paulo Henrique Amorim, o “negro de alma branca” e os demônios de cada um de nós,

Cirandeiras, em Outro Olhar, de Idelber Avelar, por Ana Maria Gonçalves


Sempre fico com um pé atrás ao ler/ouvir afirmações enfáticas do tipo “Eu não sou racista”, ou “Fulano não é racista”. Ela já é perigosa quando dita sobre si mesmo, e mais ainda quando dita sobre o outro, que é o único que deveria saber de si. Racismo, assim como o machismo ou a xenofobia, é um tipo de sentimento que facilmente contamina quem é exposto a ele, de maneira ostensiva ou velada. É herdado, não tem muito para onde escapar. Principalmente em sociedades como a nossa que, durante muito tempo, lutou para esconder a discrepância entre prática e teoria, entre evidências de racismo e manutenção e construção de um modelo de democracia racial que nunca existiu. O que precisamos fazer é estar atentos a qualquer pensamento racista e combatê-lo ali, no nascedouro, não deixando que se naturalize e domine nosso modo de agir e de pensar. Acho que só assim podemos, brancos e negros, acabar de fato com o racismo (e outros ismos): de maneira individual, consciente e, acima de tudo, honesta. Não é através de leis ou de ações afirmativas, que defendo e acho mais do que necessárias para que sirvam de proteção e escada enquanto não somos capazes dessa revolução interna. É o trabalho de cada um, doloroso e vigilante, que pode avançar cada vez que um caso atinge proporções midiáticas, porque nos faz refletir à partir de situações que colocam figuras públicas no ambiente privado, vivenciando situações nas quais às vezes podemos nos reconhecer. Como humanos e imperfeitos que somos. Falo agora do recente caso envolvendo os jornalistas Paulo Henrique Amorim e Heraldo Pereira.

Esse é um caso emblemático para entender a manifestação do racismo no Brasil, e que ele também pode ser praticado por pessoas consideradas “do bem”. Aliás, quase sempre é. Com raras excessões, nosso racismo é do tipo cordial, daquele que não necessariamente origina leis segregacionistas ou atos de ódio explícito, e por isso é difícil chamá-lo pelo nome que tem. Racistas convictos ou esporádicos somos todos nós. É sempre bom lembrar de uma pesquisa realizada pela USP : à pergunta “Você tem preconceito?”, 96% dos entrevistados responderam “não”; à pergunta. “Você conhece alguém que tenha perconceito?”, 99% responderam que sim, e quando perguntados quem eram esses perconceituosos, eles disseram que eram amigos próximos, pais, irmãos. Então, racistas são nossos pais, tios, primos, amigos, namorados, vizinhos. E não há razões para acreditarmos que somos muito diferentes deles, mesmo porque também somos pais, tios, primos, amigos, namorados ou vizinhos de alguém. Racistas podem ser pessoas das quais gostamos e pelas quais somos capazes de fazer vista grossa em relação a um ou outro ato que, do nosso ponto de vista, é computado com um deslize, um momento de descontrole, uma atitude isolada. Para quem não é alvo do ato, é simples assim: um átimo, um momento “não era eu quem estava agindo”. Para quem o sofre, as consequências podem durar uma vida inteira, como podemos perceber em um trecho do “The envy of the world”, de Ellis Cose:

“Eu me lembro alguns dos incidentes da minha infância que me acordaram para a verdade, incidentes que, algumas vezes de modo doloroso, me apresentaram a diferença entre branco e preto. (…) Eu tinha ido a Marshall Field Company, uma grande loja de departamentos em Chicago, para comprar um presente para a minha mãe. Enquanto eu circulava na loja imponente, calculando o que meu dinheiro podia comprar em um lugar tão caro e intimidante, percebi que estava sendo seguido – e que meu seguidor era membro da segurança da loja.

De uma seção para outra da Marshal, o guarda me fazia sombra, com sua vigilância marcante e odiosa. Determinado a não me sentir intimidado, continuei a circular, tentando com todas as minhas forças ignorar o homem que estava caminhando praticamente nos meus calcanhares. Finalmente, incapaz de me conter, virei-me para encará-lo. Gritei alguma coisa – não me lembro mais o que – um uivo de orgulho ferido e ofensa. Ao invés de responder, o homem se manteve firme, encarando-me com uma expressão que combinava diversão e desdém.

Devemos ter nos encarado por vários segundos, até que me toquei de que eu não era mais páreo para ele e seu desprezo do que um rato era para um gato. Corri pra fora, concedendo a ele a vitória (…) Décadas após aquele dia, lembro precisamente das minhas emoções – a raiva impotente, o ressentimento que fere, a vergonha, a decepção intensa comigo mesmo (por não me manter firme frente ao ataque silencioso do homem, por permitir que um intolerante fizesse eu me sentir um idiota, por não ser capaz de arranhar a auto-confiança arrogante do guarda.)”

Essa é uma situação mais comum do que se poderia desejar, pela qual já passou a grande maioria dos negros, principalmente meninos negros. É, é uma memória da qual boa parte deles nunca vai conseguir se livrar, porque geralmente marca o início de sua relação com um mundo que vai tratá-los de maneira hostil apenas pelo fato de serem negros. Alguns conseguem transformar essa mistura intragável de sentimentos em força para o ativismo e lutam para que não muitos depois deles passem por situções semelhantes. Outros não. Por isso é prepotente e insensível dizer a alguém o que se deve fazer ou deixar de fazer por se ser quem é. Ou seria o caso de sairmos por aí cobrando que todas as mulheres estejam o tempo todo louvando as mulheres que, no passado, lutaram pelos direitos das mulheres e para que violência doméstica e estupro, por exemplo, fossem considerados crime. Militância é para quem pode, quer, aguenta, tem tempo e estômago e, sobretudo, paciência para lidar com os absurdos que são capazes de dizer e fazer aqueles que ainda não conseguiram ou não querem se livrar de certos preconceitos porque, direta ou indiretamente, querendo ou não, sendo ou não complacentes, se beneficiam deles. Mesmo sendo Heraldo Pereira um negro alienado, como o acusa Paulo Henrique Amorim, o que especificamente confere a Paulo Henrique Amorim o direito de julgá-lo nesse sentido? É bom que se faça essa pergunta e se pense muito sobre ela, levando em conta o fato de já termos sido uma sociedade escravagista, antes de tomar partido nesse caso.

Armando-se do direito de julgar a negritude de Heraldo Pereira como falsa ou verdadeira, Paulo Henrique Amorim escreveu, em 05/09/2009:

“Enquanto isso, o Ali Kamel submete o jornal nacional a um longo exercício diário de onanismo. Por conta dos 40 anos do jornal nacional, William Bonner entrevista repórteres. A propósito, William Bonner, na sua ilimitada mediocridade, poderia poupar o espectador de usar ‘bonito’ ou ‘bonita’. Ontem, por exemplo, o funcionário de Gilmar Dantas (**) Heraldo Pereira, que faz um bico na Globo, fez uma longa exposição para justificar o seu sucesso. E não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde. Heraldo é o negro de alma branca. Ou, a prova de que o livro do Ali Kamel está certo: o Brasil não é racista. Racista é o Ali Kamel.”

(Vou deixar Ali Kamel, seu livro e Gilmar Mendes de fora, porque são outros assuntos e outros processos, atendo-me aqui apenas ao processo de Heraldo Pereira, tendo salientado na frase acima as partes que o tocam, o que já é assunto mais do que suficiente)

Dos artigos que li sobre o assunto, gostei mais do de Sueli Carneiro, que explica bem porque a expressão “negro de alma branca”, dita em qualquer contexto, por qualquer pessoa, é racista (grifos meus):

“Nas eleições de 1996 para a prefeitura de São Paulo, a então candidata de nosso coração Luiza Erundina em discurso inflamado, bradou que Celso Pitta era um negro de alma branca e que ela era a verdadeira representante do movimento negro. Posto que as bandeiras que ela representava eram as que contemplavam as necessidades e interesses dos negros de São Paulo. Essa velha militante negra que vos fala, veio a público para contestar a então candidata lembrando-a de que uma das dimensões do racismo é negar a plena humanidade das pessoas e por plena humanidade entendemos a possibilidade de sermos, brancos e negros, do bem, ou do mal. Assim são os seres humanos.

Existiam, na época, razões políticas de sobra para criticar a candidatura de Celso Pitta, a única imprópria era tratá-lo de “negro de alma branca” por pertencer ao campo ideológico adversário e seu comprometimento com suas práticas políticas e administrativas deletérias, que são de conhecimento público. Um negro pode ser corrupto, se posicionar contra os interesses de sua gente. O que podemos fazer diante disso, é lamentar e combatê-lo politicamente, jamais atribuir essa característica à sua condição racial. Aí mora o racismo, ao tentar encontrar a razão da “falha” na negritude da pessoa ou na suposta ausência dessa negritude em um@ negr@ como propõe a frase, negro de alma branca.”

Li vários outros artigos tentando defender Paulo Henrique Amorim, e todos fazem malabarimos históricos e semânticos para justificar o ato racista. Entristece-me ver frases como “A expressão “negro de alma branca”, por mais cruel que possa ser, é a expressão, justamente, do anti-racismo (…)”, dita por jornalista que sempre achei, no mímino, sensato. Porque é simples assim: Paulo Henrique Amorim usou a cor de Heraldo Pereira para atacá-lo. É racismo e ponto. Tá na lei. Quem não concorda deve brigar para mudar a lei, e não para que Paulo Henrique Amorim esteja acima dela. Que o defendam porque o acham bom amigo, bom jornalista, bom ser humano; mas que entendam que pessoas assim também podem ter atitudes racistas. Pelo que li até agora, Paulo Henrique Amorim tem histórico na defesa de causas das militâncias negras, o que torna o caso ainda mais trágico, e triste, mas não excludente. Ele pode sim, com sinceridade, ser um dos poucos jornalistas de grande audiência a denunciar racismo e defender cotas, mas também ter cometido um ato racista, como o que cometeu, como o que Luiza Erundina cometeu, talvez num momento de raiva ou de guarda baixa. Esses são momentos perigosos, pelos quais podem passar, por exemplo, aquela nossa tia velhinha, rata de igreja, voluntária em programas sociais, que trata a empregada negra como “alguém da família”, tendo até a intenção de deixar-lhe algo em testamento pelos bons e longos anos de serviço prestados, e é capaz de berrar um “sua negrinha ……” para alguma negra que lhe contrarie fora de casa. Quero de verdade acreditar que foi isso que aconteceu com Paulo Henrique Amorim, ou, caso contrário, resta-me perguntar: o que foi mesmo que ele aprendeu em todos esses anos ao lado dos movimentos negros? Até que ponto esse engajamento foi realmente sincero ou jogo de cena? Porque, numa breve visita aosite dele, observa-se a arrogância, a prepotência e, sobretudo, a cegueira e a falta de respeito com que vem tratando o assunto, tentando fugir à responsabilidade e à gravidade do que disse. Ele disse algo que, pelos longos anos de militância que alega em sua defesa, deveria saber que não poderia ter dito. Se não sabia, está na hora de aprender, desculpar-se e seguir em frente. Tem a chance de fazê-lo nas retratações que publicará nos jornais; caso contrário, deveria tomar muito cuidado em não parecer demagogo e oportunista, militando por uma causa pela qual não demonstra respeito e acima da qual tenta se colocar: há anos os movimentos negros vêm lutando para que qualquer alusão depreciativa à cor seja punida. Sua defesa é um enorme desserviço a essa causa.

A defesa de Paulo Henrique Amorim

Uma das coisas que mais me irrita nos argumentos contrários às cotas é a apropriação e distorção de discursos de líderes negros. Todos fazem isso, principalmente com o famoso discurso “Eu tenho um sonho”, de Martin Luther King. Comentando o uso desonesto desse recurso em uma matéria da Veja, Liv Sovick escreve no excelente “Aqui ninguém é branco”:“(…) Salta aos olhos o uso descontextualizado do sonho de King, que muitas vezes é enaltecido para o estatuto de pensador utópico e não político. King se dirigia aos manifestantes, em sua maioria negros. Falou do propósito de estarem concentrados ali: cobrar a justiça econômica e social. Quando ele se voltou para o público nacional em geral, quatro minutos depois de começar um discurso que durou dezesseis, disse: “Também viemos a esse lugar sagrado para lembrar a América da urgência feroz do agora. Não é o momento de se dar ao luxo de esfriar os ânimos ou tomar a droga tranquilizante do gradualismo.” Retoma no parágrafo seguinte: “Seria fatal para a nação ignorar a urgência do momento”. As palavras famosas sobre o sonho de liberdade de um povo oprimido, motivo de uma esperança utópica dos negros, são enunciadas para confortar aqueles que apanharam e foram presos pela causa dos direitos civis, aqueles que iam voltar a enfrentar dificuldades. Na Veja as palavras são usadas como se descrevessem o atual estado brasileiro das coisas.” Antes, Liv tinha citado o trecho da revista: “Um absurdo ocorrido em Brasília veio em boa hora. Ele é sinal de que o Brasil está enveredando pelo perigoso caminho do tentar avaliar as pessoas não pelo conteúdo de seu caráter, mas pela cor de sua pele.”

É exatamente isso que fazem todos os que citam o discurso de King para justicar o ataque às cotas: tentar nos fazer acreditar que, vivo e nos dias de hoje, King estaria do lado daqueles que negam a existência do racismo como fator de divisão sócio-econômica da sociedade, e não do lado dos negros que estão lutando de fato por essa igualdade, sofrendo as consequências do racismo e necessitando de ferramentas auxiliares para vencê-lo. Trazendo o caso mais para a nossa realidade, situação mais grave ainda é o da historiadora Isabel Lustosa, em relação a Luiz Gama, no descuidado, para ser boazinha, livro “Divisões Perigosas – Políticas raciais no Brasil contemporâneo“. Luiz Gama foi o primeiro escritor brasileiro a se assumir negro em seus escritos, tendo sido filho de uma africana, que ele diz ser Luisa Mahin, e de um português. Nascido livre mas vendido pelo pai como escravo aos 10 anos de idade, mais velho Gama consegue a liberdade, torna-se jornalista, poeta, advogado e protetor de escravos em fuga, respeitado por todos os intelectuais de sua época e um dos nossos mais importantes abolicionistas, entrando para a História como grande exemplo a ser seguido pelas gerações negras vindouras. Ele chegou a dizer em júri, escandalizando muitos dos abolicionistas com quem se relacionava: “Todo escravo que matar o senhor, seja em que circunstância, mata em legítima defesa”. Essa tese destaca a fala da principal estudiosa da obra de Luiz Gama no Brasil, a professora Lígia Fonseca Ferreira, que analisa um pouco do trabalho de Gama a partir de seu principal poema, na introdução do livro “Primeiras trovas burlescas e outros poemas”: “A bodarrada [138 versos] cristalizou a imagem de um Luís Gama em cruzada contra o branco”. Mas Gama, com sua poesia ácida e sátirica, atacava também a Igreja, a sociedade, o mulato que negava sua raízes negras, o preconceituoso, não poupando nem a si mesmo, como nos conta a tese do link. São os versos finais desse poema, que Isabel Lustosa reproduz e dos quais se vale para escrever: “Nessa matéria de raça a minha posição coincide com a de Luis Gama, personagem ele mesmo de uma infame história de escravidão. Com seu senso de humor e ceticismo crítico, ele relativizou a questão das diferenças de raça no Brasil, ainda em 1873, quando publicou no jornal paulista A Reforma o poema “A bodarrada”.” (pág. 143)

Ou seja, ao dizer que relativiza a questão das diferenças de raça no Brasil, Isabel Lustosa não tem a menor vergonha de simplesmente ignorar a história e o histórico de luta de Luiz Gama. Ela não poderia terminar o artigo sem convocar um negro, usando-o em favor da causa que defende e que, possivelmente, seria contrária a dele, pois antes escreveu, ao comentar que tinha sido convidada por colegas do meio acadêmico a assinar o manifesto contra as cotas: “Sugeri a eles que procurassem intelectuais negros e pardos representativos para reforçar a causa.” (pág. 139) De fato procuraram e, na entrega do documento no Senado, fizeram questão de levar o ativista do Movimento Negro Socialista José Carlos Miranda que, ouso conjecturar, não teria sido levado se não fosse negro. Essa estratégia de usar negros que estejam dispostos a falar mal e ir contra lutas históricas dos movimentos negros é antiga nos EUA. Veja o espaço cedido por veículos de extrema direita, como Fox News, a intelectuais negros representativos como Thomas Sowell ou Walter Williams, que também já começam a ser louvados e cada vez mais citados no Brasil. Essa técnica de usar negros para ir contra os interesses dos próprios negros, ou de usar negros para atestar a idoneidade de um branco em um processo contra um negro, como fez Jair Bolsonaro, que convocou o cunhado negro para depor a seu favor e contra Preta Gil, Paulo Henrique Amorim também aplica, fazendo questão de ter negros entre suas testemunhas. Em uma defesa com a qual nem sei se todos eles concordariam.

A primeira estratégia é apresentar Paulo Henrique Amorim como um grande defensor da igualdade racial no Brasil, ocupando quase cinco páginas com citações de matérias publicadas em seu site, anexadas no final. A partir daí, tenta provar que não houve crime algum, primeiro dizendo que o acusado estava na verdade falando da “subserviência da Rede Globo” e não do jornalista Heraldo Pereira (ver item 57). Mais adiante, temos:

61.Portanto, a questão principal de que se tratava não era a condição de negro do jornalista Heraldo Pereira, mas a postura da emissora em que ele trabalha, produzindo entrevistas e matérias!

62. A questão racial foi tratada pelo acusado porque, como sobejamente comprovado, ele se dedica ao tema há muito tempo, apontando a existência de racismo no Brasil e combatendo-o, inclusive defendendo a adoção de políticas públicas que permitam ao negro “abrir a porta da oportunidade”, como discursou Lyndon Johnson.

É bem complicado entender o que quiseram dizer no item 66:

66. E foi exatamente nesse contexto que o acusado afirmou que o jornalista Heraldo é um “negro de alma branca”, ou seja, o negro bem-sucedido, que desmente a necessidade das políticas públicas formentadoras da igualdade racial e corrobora a tese de Ali Kamel, de que o Brasil não é racista.

Esse trecho afirma que, por ser negro e bem sucedido, e apenas por isso, Heraldo desmente a necessidade de ações afirmativas? Ou há declarações de Heraldo nesse sentido? Sendo bem sucedido e negro, apenas por isso, Heraldo corrobora a tese de Ali Kamel? É isso? E esse argumento só vale para o Heraldo ou para qualquer negro? Se vale para qualquer negro, nenhum negro pode ser bem sucedido para não corroborar a tese de que não existe racismo no Brasil?

A defesa continua:

67. A propósito, a expressão “negro de alma branca” tem raízes históricas e não tem cunho racista, como se sustentou na denúncia.

E traz, no item 68, uma tradução para “Zumbi” que eu nunca tinha visto. Perguntei de sua existência ao Nei Lopes e ele também desconhece. Está lá que Zumbi quer dizer “Deus negro de alma branca”, definição que creditam a Leila Dias, de quem reproduzem uma fala que distorcem para concluir (item 69): “(…) Ou seja, a expressão “alma branca” está, na verdade, relacionada à pureza do espírito e à coragem para lutar contra a opressão, e não à alegada superioridade da “raça branca” em detrimento da “raça negra”, estampada na denúncia.”

Bem, se “alma branca” está ligada a atributos positivos, “alma negra” seria seu inverso?

E se a defesa aqui quer nos fazer acreditar que o “alma branca” usado por Amorim é na verdade uma coisa boa, ele estava elogiando e não criticando Heraldo Pereira? Isso fica ainda mais interessante quando, no item 71, citando matérias em que o acusado e Mino Carta chamam Pelé de “negro de alma branca”, a defesa nos pergunta: “Onde está a ofensa?”

A defesa parece concluir isso mesmo, que Heraldo nunca deveria ter se sentido ofendido:

75. Portanto, no caso dos autos, a leitura das matérias demonstra que ainda que quisesse atribuir à expressão “negro de alma branca” conotação ou significado negativo (que não tem, conforme esclarecido), o contexto em que foi empregado demonstra que Heraldo Pereira foi assim denominado em razão de seu grande sucesso numa sociedade na qual, via de regra, aqueles de pele branca atingem tal status, tal notoriedade.

Aqui, eu já começo a achar que essa defesa também merece um processo. Pela cara de pau, o assassinato da língua portuguesa!! (sim, há pontos de exclamação duplos em várias frases), e o descuido com que resvala, ela própria, no racismo que tenta descaracterizar. Entendo os motivos de ter perdido (não ter razão nem argumentos sérios), levando o acusado a fazer o acordo. Vejam a decisão de recebimento de denúncia e concluam vocês mesmos onde isso ia terminar.

O outro lado da história

É bem importante, para entender esse caso, assistir ao vídeo a que se refere Paulo Henrique Amorim, exibido em 04/09/2009.

Queria destacar dois momentos nos quais, a não ser que Paulo Henrique Amorim acuse Heraldo Pereira de trabalhar no departamento de dramarturgia ao invés de no de jornalismo, Heraldo não me pareceu ser o “preto de alma branca” de que Amorim o acusa. Visivelmente emocionado, ao assisitir a uma reportagem que fez sobre João do Pulo, Heraldo Pereira faz questão de dizer:

“Foi um momento que me marcou muito. Eu, repórter, fazendo uma cobertura para o Jornal Nacional, e o João do Pulo era um herói da minha geração. Negro, como eu, do interior de São Paulo, como eu, de uma família humilde, como eu. Eu o tinha como um ídolo.”

Outro momento é quando fala da cobertura das viagens do presidente:

“Eu estive em todos os continentes com o presidente da República, mas o que mais me marcou foi eu estar no continente africano. Eu estive na África, em Angola, estive num local, era um porto, um antigo porto de escravos, de onde vinham os escravos para o Brasil. Provavelmente, alguns dos meus antepassados podem ter saído dali para vir ao Brasil. Isso me marcou muito. (…) Também tive um outro momento nessa mesma viagem à África, quando estive na África do Sul, o Nelson Mandela tinha sido libertado, e pude, ainda durante o regime do apartheid, eu como um jornalista negro, brasileiro, fazer uma reportagem na África do Sul. Eu frequentava as áreas de negros e a equipe tinha brancos que frequentavam a área destinada a brancos. Ainda quando a África do Sul tinha aquela situação, eu fui um repórter que esteve lá no apartheid.”

Foi esse vídeo, no qual Heraldo Pereira aproveita dois momentos que não me pareceram estar no script dos apresentadores Fátima Bernardes e William Bonner para falar de sua condição de negro, de seus ídolos negros e de duas reportagens que o marcaram, abordando a questão racial, que Paulo Henrique Amorim usa para chamá-lo de “negro de alma branca”. Não faz sentido. Essa defesa absurda de Paulo Henrique Amorim, feita por brancos e negros, alegando armação de inimigos políticos e pedindo que “negros e pessoas bem-intencionadas não se confundam: uma ação contra o racismo jamais viria de alguém da Rede Globo, a maior propagadora de racismo deste país”, abre um dos precedentes mais perigosos na luta contra o racismo no Brasil. Primeiro, porque concordam que um branco, no caso Paulo Henrique Amorim, pode duvidar da palavra de um negro quando ele diz que se importa sim com as questões raciais, como acabamos de ver Heraldo fazendo no vídeo em questão. Segundo, porque concordam que um branco pode dizer o que o negro precisa fazer para ser um verdadeiro negro. Terceiro, porque concordam que um branco podem dizer a um negro com o que ele pode ou não se ofender. Quarto, porque concordam que um branco pode distorcer o sentido racista histórico de uma expressão como “negro de alma branca” apenas por causa do lugar onde o negro ofendido trabalha e do tipo de profissão que exerce. Faço parte dos que não confiam no departamento de jornalismo da Rede Globo, por causa de situações como essas e de outras mais recentes, como a polêmica CNE X Monteiro Lobato, na qual estive diretamente envolvida. Mas nem por isso acho que o fato de Heraldo Pereira trabalhar lá autorize que ele seja vítima de ataques racistas e julgamentos em relação a como deve ser sua negritude. Quem fala sobre isso, e vale a pena ler, porque ela também aponta a amizade de Heraldo Pereira com um dos mais importantes jornalistas e ativistas negros do país, Hamilton Cardoso , é a jornalista negra Rosângela Malachias. Ou seja, será Heraldo Pereira realmente é tão alienado quanto querem nos fazer acreditar? Alguém já pensou em dizer ao Paulo Henrique Amorim como ele deve se comportar e onde deve trabalhar para ser um branco verdadeiro? Aliás, qualquer pessoa que ache justo atacar Heraldo apenas porque ele trabalha na Globo (eu não acho), sendo branca ou negra, e que tenha pelo menos um pouquinho de respeito pelas religiões de matriz africana como a umbanda e o candomblé, deveria aplicar o mesmo princípio e se lembrar imediatamente de que Paulo Henrique Amorim, aliado e defensor das causas dos movimentos negros, trabalha na Rede Record desde 2003.

A Rede Record é propriedade do bispo Edir Macedo, tem em seu quadro de diretoria vários bispos, e faz parte de um negócio bastante rentável chamado Igreja Universal do Reino de Deus. Nos seus templos são feitos sucessivos ataques a terreiros e à reputação de filhos, pais e mães de santo de todo o Brasil, inclusive com incitação à violência, pelos quais e Rede Record já foi condenada judicialmente. Seria interessante ler, caso ele as possa fazer, as declarações públicas do militante Paulo Henrique Amorim em relação a casos como esses:

1 – A expansão das igrejas pentecostais brasileiras pelo continente angolano, principalmente a Igreja Universal do Reino de Deus, que já adquiriu vários meios de comunicação locais. Isso é um perigo principalmente nas aldeias mais isoladas, de onde crianças estão sendo expulsas acusadas de serem feiticeiras. Seria interessante se Paulo Henrique Amorim fizesse reportagens para a Record denunciando isso, isso ou isso. Ou então nos esclarecendo o que de fato significam isso e isso, que são notícias bem preocupantes.

2 – O que Paulo Henrique Amorim tem a dizer sobre soldados que torturam mãe de santo fazendo-a se sentar em formigueiro e arrastando-a por seiscentos metros porque, segundo eles, ela estava com “o diabo no corpo”, ao incorporar Oxóssi?

3 – O que Paulo Henrique Amorim tem a dizer do best-seller (mais de 3 milhões de exemplares vendidos), Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios?, livro de autoria do dono da emissora na qual trabalha, bispo Edir Macedo? Muitos dos argumentos usados pelos fiéis da Universal para atacar terreiros e praticantes de religões de matriz africana são tirados desse livro e do que os pastores tem propagado durante os cultos, baseados nos ensinamentos do bispo-mor. Coisas como:

“A alma da mãe de santo, por exemplo, é vendida ao orixá. Há uma chantagem diabólica nesse meio que obriga a pessoa que “faz santo” a renunciar, enquanto vive, a todas as coisas, inclusive a própria salvação. Ameaças são feitas de tal maneira que há um temor imenso entre os praticantes dessas seitas em deixá-las. (fl. 25).”

“No Brasil, em seitas como o Vodu, Macumba, Quimbanda, Candomblé ou Umbanda, os demônios são adorados, agradados ou servidos como verdadeiros deuses.”

“Na nossa igreja temos centenas de ex-pais-de-santo e ex-mães-de-santo, os quais foram enganados pelos espíritos malignos durante anos a fio. (fl. 25). Decepcionaram-se ao constatar que os mais fortes “protetores” com quem contavam não passavam de demônios. Impressionaram-se ao ouvir os próprios orixás e caboclos confessarem diante da multidão que não passavam de demônios, cuja missão é enganar, arrasar e destruir os seus “cavalos”. (fl. 26).

Tirei esses trechos do processo movido pela Procuradoria da República da Bahia, do qual deixo o link para quem quiser conhecer um pouco mais do pensamento preconceituoso do dono da emissora na qual trabalha Paulo Henrique Amorim. Insuflados por esse tipo de pensamento, os fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus (que provavelmente contribuem para o pagamento do salário dos funcionários da emissora) invadem terreiros, destroem altares de oferendas, “exorcisam” frequentadores, torturam pais e mães-de-santo. Procurem por isso no Google e vão encontrar diversas notícias.

4 – Outro processo interessante também é esse que condenou a Rede Record a exibir um direito de reposta, baseado em intolerância religiosa e ataques às religiões de matriz africana. Leiam e tenham uma breve ideia do que vai ao ar na programação da emissora de Paulo Henrique Amorim . O processo ainda está correndo porque a Record apelou. Estou tentando conseguir mais informações e publico atualizações, caso consiga. Aliás, seria interessante, como repórter da casa, Amorim tentar saber lá dentro o que está acontecendo, os motivos pelos quais a Record se nega a dar declarações sobre o caso e, princicpalmente, porque embargou o belíssimo vídeo produzido como direito de resposta.

Em sua defesa oral, ele enfatiza: “MEU PROBLEMA COMO CIDADÃO DE UMA REPÚBLICA LAICA, ONDE DEVE IMPERAR A DEMOCRACIA, É, NO CASO EM TELA, NESTA ACUSACAO, COM A GLOBO”. O que tem feito então, dentro da própria emissora, cujos programas atacam todas as outras religiões que não a oficial da Igreja pertencente ao grupo?

Conhecendo um pouco o trabalho da Record, e levando isso em conta do mesmo jeito que estão levando o fato de Heraldo Pereira trabalhar na Globo, a alma de Paulo Henrique Amorim é de que cor mesmo? Branca ou negra? Do bem ou do mal? Engajada ou vendida? Ou será que esse tipo de classificação só vale pra negros? Se só vale pra negros, ainda assim, acham que não é racista? É bem complicado defender isso sem fazer colocações racistas, não é?

A turma de blogueiros e comentaristas que faz a defesa de Paulo Henrique Amorim, a faz em nome de um corporativismo limitador do pensamento e do diálogo, inimigo do avanço das lutas sociais. Assim como durante a ditadura militar os movimentos negros foram obrigados e se calar em nome do nacionalismo, para que o Brasil pudesse passar a imagem de ser democrático pelo menos na questão racial, eles agora querem nos fazer acreditar que a atitude racista de chamar alguém de “preto de alma branca” deve ser varrida pra baixo do tapete em nome de uma unidade da esquerda contra a direita perversa. Eu quero é estar no centro. No centro dessa luta contra o racismo. Se querem fazer disso uma luta política, mantenham a superficialidade e a hipocrisia típicas desse tipo de bandeira furada e briguem entre vocês, os que são brancos (com a alma de que cor mesmo?). Já tem preto demais machucado e sendo usado como bucha de canhão nessa história de racismo.

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Leia também...

Deprê em Porto Alegre, um paradoxo para ortodoxos

Kais Ismail - colaborador da PressAA

(Correspondência recebida por e-mail ao nosso Editor-Assaz-Atroz-Chefe)

Amigo Fernando, estou naquelas fases de maior deprê (situação financeira é o gerador). Ao mesmo tempo que tenho uma percepção triste e consigo enxergar os problemas (os meus e da humanidade), me sinto burro e impotente para qualquer tipo de reação. Estou chegando aos 50 anos de idade e percebendo que durante muito tempo agi como Dom Quixote, sem ter a loucura suficiente de ser um Dom Quixote. Por isso agora me sinto um tremendo fracassado. Fracassado profissionalmente, como pai e até mesmo como cidadão.

Já me decepcionei com todos os partidos politicos e politicos, como também me decepcionei com a Justiça brasileira. Aquele processo de indenização da justiça cearense, que aguardo há 16 anos, de certa forma me tranquilizava por saber que eu receberia um dinheiro e poderia enfim montar um negócio. Recentemente descobri que houve mudança na lei e o valor que devo receber agora mal chega a 10% do original e sem previsão de recebimento.

Ano passado, quando descobri que estou com enfisema pulmonar e hipertenso, a pedido da minha médica entrei na Justiça solicitando que a Souza Cruz revelasse quais são as 4.700 substâncias tóxicas que são anunciadas nos maços de cigarros. Só ela sabendo qual o veneno que o meu organismo está absorvendo é que poderia ministrar um antídoto. Um professor de direito da PUC pegou a causa, baseado no Código do Consumidor, que me garante o direito de saber o que estou consumindo. Além disso, também entrei em contato com a ouvidoria do SUS há mais de um ano, solicitando que me revelasse as substâncias para eu pudesse fazer o tratamento devido.

Tu acredita que já perdi em todas e agora estou recorrendo em Brasília? A Souza Cruz está alegando q isso é mito da Anvisa e que a Anvisa os obriga a divulgar esta mentira.

A Anvisa não se manifesta e nem a ouvidoria do SUS. A podridão é grande e já infestou todas as maçãs do cesto.

Quanto ao avaaz, pensei ter me enganado quando lançaram um baixo assinado a favor da Palestina. Mas, Fernando, o que são um milhão de assinaturas quando um milhão de pessoas morrem cruelmente de fome sem sensibilizar ninguém? Qual a força de um milhão de assinaturas de pessoas que não fazem força nem pra soltar um pum?

Já estamos dominados e controlados (?).

Entretanto, este controle de bilhões de pessoas, me parece que é apenas o resultado do tal "progresso" humano. Já havia sido previsto isso nas ficções e nada foi feito. Se nada foi feito, é porque a grande maioria desejava este tal "progresso". Se não desejavam, eram ignorantes para não perceberem o caminho que estavam trilhando. Enquanto tiverem apenas o controle, estamos vivendo. Porque, para nos matar, necessitam de exércitos e dificilmente conseguirão aliciar os humanos necessários para liquidar com os humanos indesejáveis. Ruim mesmo é quando tiverem exércitos de robôs, tais como nas ficções. Aí vai ser jogo duro

Forte abraço!

Kais Ismail - Porto Alegre

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Um final de semana alegre pra você também, Kais.

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons (a charge do PHA de Pinóquio foi extraída de PICICA - BLOG DO ROGELIO CASADO )

PressAA

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quinta-feira, 1 de março de 2012

O MUNDO "GLOBALITARIZADO - A NOVA CONFIRGURAÇÃO DA ORDEM POLÍTICA E ECONÔMICA

O MUNDO “GLOBALITARIZADO” – A NOVA CONFIGURAÇÃO DA ORDEM POLÍTICA E ECONÔMICA


Laerte Braga


A definição simples e precisa de Darcy Ribeiro sobre o surgimento do Estado como instituição nunca deixou de ser simples e precisa, por isso válida. O mais inteligente da tribo chamou o mais esperto e combinaram que um seria o rei, outro o sacerdote. O sacerdote receberia as “instruções divinas” determinando obediência ao rei, pagamento de tributos, o rei governaria pelo “bem comum” e, por via das dúvidas, chamaram o mais boçal e forte e deram-lhe uma borduna para garantir a aplicação da “lei e da ordem”.

Milhares de ogivas nucleares capazes de destruir o mundo cem vezes se necessário for fazem parte do arsenal dos Estados Unidos e seus principais aliados. É a borduna que garante a aplicação da “lei e da ordem” capitalista na Grécia por exemplo.

Ou que destrói a Líbia e infiltra mercenários na Síria para forçar uma guerra civil que a mídia veicula como protestos de opositores do presidente Bashar Al Assad (cento e sessenta soldados franceses foram presos pelas autoridades sírias e a mídia nem toca no assunto).

Que mantém palestinos acuados e aterrorizados numa política de extermínio praticada pelo estado sionista, Israel, mesmo à revelia de grande parte de seu povo.

A mesma força que queima páginas do Corão e as joga num lixo como se fossem superiores a uma cultura milenar com legados de extrema importância em todos os campos para toda a humanidade.

O governo de George Bush arrematou o processo que transforma os EUA em uma grande corporação. Já não bastava um banco central privado, mas todo o Estado norte-americano é hoje um grande conglomerado terrorista e que se volta para impor uma ordem que chamam de globalização e o geógrafo brasileiro Milton Santos definiu com singeleza –“globalitarização”.

A ordem política e econômica imposta ou pela mídia venal e disseminada por todos os cantos, ou pelas armas quando entenderem ser necessário que assim o seja.

É só olhar os acontecimentos no mundo desde o fim da União Soviética e a construção que eles próprio chamam de “nova ordem mundial”.

O capitalismo se exaure na ficção do cassino financeiro, submete trabalhadores a um momento de barbárie em todo o mundo e faz aflorar a configuração dessa nova ordem. O sistema financeiro, as grandes corporações e o latifúndio.

A Idade Média do horror nuclear, dos bombardeios devastadores sobre “inimigos”, os assassinatos seletivos, as tropas marchando com a suástica reformatada, mas o mesmo nível de crueldade, de estupidez.

O site WIKILEAKS começou a publicar os ARQUIVOS DA INTELIGÊNCIA/ESPIONAGEM/GLOBAL. Mais de cinco milhões de e-mails da empresa STRAFFOR com escritórios no Texas. Os e-mails referem-se ao período de julho de 2004 a dezembro de 2011 e mostram que a empresa sob a fachada de “editor-publisher” de artigos, estudos sobre inteligência e coisa e tal, vende serviços confidenciais de inteligência, espionagem privada a grandes empresas dentre elas a DOW CHEMICAL CO. DE BHOPAL, a LOCHHEED MARTIN, a NORTHROP GRUMMAM RAYTHEON e a agências estatais dos Estados Unidos.

Os e-mails mostram a rede de informantes da STRATFOR, a estrutura de pagamento, técnicas para lavagem de dinheiro para pagamentos ilegais e formas para obter controle visando o domínio pleno e absoluto dos “negócios” em todo o mundo. Esse controle inclui intimidação, controle financeiro, sexual ou psicológico.

Um dos exemplos citados é o e-mail enviado pelo presidente da STRATFORD, George Friedman a um dos analistas da empresa, em seis de dezembro de 2011, com instruções sobre como explorar um informante israelense sobre o estado de saúde do presidente Hugo Chávez da Venezuela.

Outros revelam as tentativas de corromper Julian Assange, fundador do WIKILEAKS e a interligação de empresas privadas de inteligência, fontes governamentais e agências governamentais norte-americanas para oferecerem em todo o mundo informações privilegiadas sobre política, eventos globais, etc, tudo devidamente remunerado.

Há uma rede de informantes em todo o mundo que são pagos através de contas em bancos suíços, cartões de crédito pré-pagos e essa rede inclui jornalistas, empresas jornalísticas, funcionários públicos, pessoal da diplomacia, num impressionante império de informações da “nova ordem”.

No Brasil as principais ligações são com o grupo Marinho (jornal O GLOBO, rede rádios GLOBO e rede GLOBO de tevê, além de jornalistas como William Waack – já citado em documentos anteriores do WIKILEAKS, Caio Blinder, Merval Pereira e outros.

Um caso específico dentre vários citado nos documentos revelados pelo WIKILEAKS o do processo de monitoramento dos ativistas ambientais que buscavam e buscam reparação pelos danos ecológicos causados pela empresa DOW CHEMICAL em Bhopal, fato acontecido em 1984 na Índia, que provocou milhares de mortes e atingiu mais de meio milhão de pessoas, além de ser causa de dano ambiental de longo prazo.

O que o conjunto de documentos liberados pelo WIKILEAKS mostra é maneira como grupos privados do sistema financeiro, grandes corporações e latifúndio, assumem o controle do Estado e transformam nações em conglomerados em função dos seus interesses e nas redes que tecem por todos os cantos moldando essa ordem política e econômica num processo que envolve toda a elite econômica em qualquer lugar e controla a maioria dos políticos.

O Brasil é um exemplo claro disso. Boa parte dos deputados federais e estaduais, senadores, governadores, prefeitos e vereadores é eleito a partir de financiamento de empresas privadas e nessa condição acabam sendo mero porta-vozes dos interesses dos que financiam, na prática, literalmente, empregados. Agentes recrutados.

De um lado a alienação vendida num bombardeio incessante – televisão principalmente – e de outro o poder militar, dos arsenais destruidores.

Quando Bush começou a mostrar o que já era realidade faz tempo, o complexo empresarial e militar norte-americano através de contratos de terceirização e privatização de serviços de inteligência, de recrutamento, treinamento e operações de guerra por soldados de empresas vestindo a farda dos EUA, estava tão somente exibindo essa nova configuração do seu país, que se impõe ao mundo no conglomerado ISRAEL/EUA TERRORISMO S/A.

A guerra virou um negócio de lucros extraordinários.

Não foi por outro motivo que Ângela Merkel, chanceler alemã, sugeriu ao governo do primeiro ministro grego que suspendesse ou adiasse as eleições legislativas na Grécia temerosa de uma vitória de forças contrárias ao acordo celebrado/imposto pelas colônias européias que formam a chamada Zona do Euro e atentam apenas à realidade do sistema financeiro, das grandes empresas e do latifúndio.

A democracia é só um detalhe, um show televisivo. Cada vez mais governos representam menos os interesses de seus povos. As nações deixam de existir como tal para ganharem essa forma, essa configuração.

É a ordem definida por Darcy Ribeiro e os “inteligentes”, os “espertos” e principalmente, os da borduna, geram um mundo em que a classe trabalhadora, fragmentada e fragilizada, se vê presa de uma ordem política e econômica terrorista e disfarçada de capitalismo na sua fase mais brutal, a crise da ficção financeira que preside as extintas nações do mundo.

A luta popular é nas ruas e é por sobrevivência.

É a nova ordem que gera assassinatos como os acontecidos na segunda-feira numa cidade do estado de Ohio, numa sociedade com 40 milhões de indigentes, sufocada pela barbárie e que transforma jovens estudantes em autores de massacres com freqüência assustadora.

Não poderia ser de outra forma, é uma sociedade doente.

Passando por Juliaca - Peru




(Excertos do livros "Viagem ao Umbigo do Mundo", publicado em 2006.)

Urda Alice Klueger*

A altitude, mesmo, não é para mim. Dormi por três vezes sobre a moto, naquela manhã, e por três vezes fui acordada pelo POC da batida no capacete da frente. Penso que já estava dormindo de novo quando vi todo o mundo parado e o carro de apoio com a porta aberta para eu subir:

- Dona Urda, já para o carro de apoio! – ordenava seu Chico, e eu não discuti nada. Tirei o capacete, enrodilhei-me no banco duro do Land-Rover, e como que desmaiei aos cuidados do Lobo Solitário! Estávamos a mais de 4.000 metros de altitude!

Seguíamos, então, em direção a Juliaca, mas antes de chegarmos lá o Dov sofreu sério acidente. Foi pouco antes de chegar a Santa Lúcia, depois de Imata, numa curva. As curvas, ali, eram muito inclinadas, e numa delas havia muito óleo derramado. Foi entrar no óleo e o Dov e o Kako caíram. Para Dov, mesmo, o acidente foi muito feio: caiu na vala cimentada do lado da estrada, arranhou-se muito, e sua moto ficou, para se usar um português bastante claro, estuporada. Há que se lembrar que o Dov era o que os harleyros chamam de road-capitain[1] da expedição, e mesmo todo “baleado” como estava, conseguiu sair da vala e voltar à estrada, onde postou-se antes da mancha de óleo, para que os demais companheiros que vinham atrás não caíssem nela também. Responsabilidades de capitão seguidas à risca!

Para falar a verdade verdadeira, eu quase não vi Juliaca, naquele quase desmaio de altitude em que estava. Lembro de ter ouvido alguém falar que estávamos em Juliaca, e então ter dado uma espiada desanimada para fora do Land-Rover – decerto passávamos por um subúrbio daquela cidade, e a rua em que seguíamos estava em obras, sendo calçada, com o solo muito revirado. Só mais tarde é que conheci Juliaca por fotos, a Cidade dos Ventos, mais de 3.800 metros acima do nível do mar – só tinha que estar assim desmaiadona mesmo! Andei lendo algumas coisas sobre Juliaca: como tudo, no Peru, tem ela uma longa História pré-colonial, e hoje há por lá muita pesquisa arqueológica, que se concentra num lugar chamado Huaynarroque. A antiga Juliaca, apesar das influências de Tiauanaco e Pucara[2], desenvolvera um estilo próprio de vida e, naquela altitude onde hoje as temperaturas variam entre 0 e 15 graus Centígrados, viveu ela no passado com uma economia já baseada na agricultura, criação de gado e pesca. Quase tudo o que li sobre o hoje de Juliaca sempre reportava aos grandes e pequenos Carnavais que lá acontecem, tendo, inclusive, lido que há quem ache os trajes das moças locais, durante os Carnavais, semelhantes aos das carnavalescas brasileiras. Fiquei pensando: será que naquele frio dá? Um dia assisti a um Carnaval em La Paz/Bolívia, e os trajes das moças de lá eram muito diferentes, pura lã e grosso veludo, mal e mal as pernas de fora, vestidas de meias. Descrevi aquele Carnaval paceño numa crônica chamada rio de Janeiro/La Paz, que também anda por aí correndo mundo, e até foi publicada em um livro.

Almoçamos nos arredores de Juliaca. Conseguimos comida num restaurante fora da cidadezinha, onde acabava de almoçar grande grupo de japoneses que atravessara o mundo para vir conhecer a História Inca bem de perto. Fora acordada para comer, e no restaurante dei de cara com os meus já conhecidos boizinhos que os peruanos tanto gostam, que costumam colocar sobre o telhado das suas casas, junto com cruzes, escadas, cravos, martelos, etc – os objetos da Paixão de Cristo. São boizinhos de cerâmica, e ali naquele restaurante eles eram usados como porta-guardanapos, e eram tão bonitinhos e bem decorados que pedi que se tirasse uma foto deles. Mas não curti muito aquele lugar, não – foi o tempo de comer e voltar a quase desmaiar no carro de apoio. Ainda vi alguma coisa da região de Juliaca, seus interessantes triciclos puxados a bicicleta, e às vezes, à motocicleta. Nunca soube de outro lugar do mundo onde houvesse daqueles veículos que lembravam um jinriquinxá[3], mas que eram carrinhos largos, com um amplo banco traseiro estofado e com encosto, onde caberiam duas ou três pessoas, que um ciclista puxava parecendo não fazer esforço. Eles funcionavam como táxi: podia-se alugar um triciclo daqueles e ir-se passear pela paisagem que ia se fazendo suave, com os delicados verdes daquela parte do Peru. Lembro de ter ficado observando uma suave descida onde diversos triciclos daqueles seguiam lentamente, com passageiros que talvez estivessem voltando das compras, ou quem sabe, namorando, mas logo a paisagem esvaneceu-se diante do meu sono. A maior parte daquela tarde dormi como morta enquanto o Lobo Solitário resistia à altitude e continuava dirigindo.

Quando acordei, a altitude diminuíra um pouco, e estávamos, creio, a uns 200 km de Cusco!

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[1] Road-capitain = eu traduziria por “puxador”, “guia”, ou algo assim. (Nota da autora.)
[2] Pucara : uma das muitas antigas culturas/civilizações que vicejaram no antigo Peru nos últimos 12.000 anos.
[3] Jinriquinxá : carrinho de duas rodas puxado por homens, usado no Oriente. (Dicionário Aurélio)

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Leia também...

Absurdo nacional, ou quem sabe multi?

por Elaine Tavares - jornalista




"Sinceramente eu não sou contra quem gosta da “longuineti”, mas é preciso que se deixe a escolha. Afinal, isso não é uma democracia? Caso fosse em Cuba que estivesse sendo implementada a ditadura da cerveja pequena já haveria grandes mobilizações em Miami. Mas como é no “mundo livre”, nada acontece. Vamos acompanhar esse caso, de interesse nacional, e se não houver uma mudança haveremos de ressuscitar o blumenauense Horácio Braun e todos os demais velhos compas cervejeiros para iniciar uma ofensiva radical."

Clique no título e leia artigo completo
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*Urda Alice Klueger: Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.
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Ilustração - AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons ( A charge da cerveja foi copiada do Blog Vianensidades )

PressAA

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SIGNATÁRIOS DO "MANIFESTO BRILHANTE USTRA" SERÃO ADVERTIDOS

A resposta do governo federal ao desafio dos oficiais da reserva ultradireitistas foi branda: advertência.

Assim, todos os signatários do   manifesto Brilhante Ustra   receberão um puxão de orelhas dos comandantes militares.

Como se tratou de uma evidente provocação, faz certo sentido a reação contida; parecerá, na caserna, que o ministro da Defesa Celso Amorim não deixou a insubordinação passar em branco, mas também foi magnânimo com os veteranos encrenqueiros. É como as famílias costumam administrar as inconveniências cometidas por seus idosos.

Mas, algo tem de ser feito nos bastidores para convencer os seguidores do Brilhante Ustra (foto) a baixarem a bola.

Já desacataram duas ministras, a própria presidente da República, o ministro da Defesa e o Congresso Nacional.

É óbvio que, se continuarem desafiando seus superiores supremos, bem como os poderes Executivo e Legislativo, a cada novo episódio terão de receber uma punição mais grave.

Vejamos o que vem ao caso no regulamento disciplinar do Exército.

O Art. 2o  estabelece que "estão sujeitos a este Regulamento os militares do Exército na ativa, na reserva remunerada e os reformados" (grifo meu).

Isto é reforçado no § 1o do Art. 40: "O Comandante do Exército, na área de sua competência, poderá aplicar toda e qualquer punição disciplinar a que estão sujeitos os militares na ativa ou na inatividade" (grifo meu).

Na Relação de Transgressões (anexo 1), as seguintes obviamente se aplicam às recentes bravatas dos nostálgicos do arbítrio:
  •  47. Provocar ou fazer-se causa, voluntariamente, de alarme injustificável;
  • 59. Discutir ou provocar discussão, por qualquer veículo de comunicação, sobre assuntos políticos ou militares, exceto se devidamente autorizado;
  • 86. Desconsiderar ou desrespeitar autoridade constituída;
  • 98. Desacreditar, dirigir-se, referir-se ou responder de maneira desatenciosa a superior hierárquico;
  • 99. Censurar ato de superior hierárquico ou procurar desconsiderá-lo seja entre militares, seja entre civis;
  • 101. Ofender a moral, os costumes ou as instituições nacionais ou do país estrangeiro em que se encontrar, por atos, gestos ou palavras;
  • 103. Autorizar, promover ou tomar parte em qualquer manifestação coletiva, seja de caráter reivindicatório ou político, seja de crítica ou de apoio a ato de superior hierárquico, com exceção das demonstrações íntimas de boa e sã camaradagem e com consentimento do homenageado;
  • 105. Autorizar, promover, assinar representações, documentos coletivos ou publicações de qualquer tipo, com finalidade política, de reivindicação coletiva ou de crítica a autoridades constituídas ou às suas atividades.
Finalmente, o parágrafo 1º do Art. 37 especifica que a aplicação da punição disciplinar deve obedecer aos seguintes parâmetros:
  • a) para a transgressão leve, de advertência até dez dias de impedimento disciplinar, inclusive;
  • b) para a transgressão média, de repreensão até a detenção disciplinar; e
  • c) para a transgressão grave, de prisão disciplinar até o licenciamento ou exclusão a bem da disciplina.
Divulgarem um manifesto colocando em xeque a autoridade e legitimidade de uma decisão do ministro da Defesa, na verdade, foi uma transgressão grave. A advertência está lhes saindo bem  barata.
 
Quanto aos promotores do Ministério Público Federal incumbidos dos crimes virtuais, há muito tempo deveriam ter verificado com atenção o que é colocado no ar por sites de remanescentes ou devotos da ditadura militar, como o pivô da investida contra o ministro Celso Amorim: A Verdade Sufocada, do Brilhante Ustra.

Parecem-me perfeitamente tipificados delitos como difamação, calúnia e injúria. Há incitações contra autoridades constituídas, pregações golpistas e outros excessos.

E se deturpa premeditadamente a História, agredindo as vítimas do arbítrio e a memória dos resistentes assassinados, o que nos leva a refletir se não caberia por aqui algo como os procedimentos criminais instaurados no mundo civilizado contra quem nega a existência do Holocausto (historiadores inclusos).

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OS TOTALITÁRIOS CONTRA-ATACAM
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VIÚVAS DA DITADURA PLANTAM NOTÍCIA CONTRA MINISTRAS DE DILMA


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

a Tortura DElles e as sequelas NOSSAS. POVO abra os olhos... somos vitimas todos. MUDA BRASIL

Mais uma vez abrimos espaço para um importante debate: A Tortura e as conseqüências direta a toda sociedade brasileira.


Semana que passou foi noticia nacional o Video  mostrando a tortura dentro de Presidio no ES. Desta uma novidade : O Presidente do TJ-ES ( do novo TJ-ES que sucumbi ao NAUFRÁGIO que expôs as vi ceras da justiça capixaba) Dr. Pedro Valls Feu Rosa quem as fez publicamente condenando-a: http://conscienciapoliticarazaosocial.blogspot.com/2012/02/video-mostra-detentos-sendo-torturados.html?spref=fb
http://www.abdic.org.br/totura_es.htm
www.abdic.org.br
Visto, outro dia, em Rede Nacional de Televisão , prestando o mais sincero, e embargado. depoimento, quanto a possível Pratica de Tortura em Presídio no Espírito Santo, essa semana, em que Vídeo veiculado na Internet exibe imagens que seriam de Presos sendo submetidos a Tratamento Degradante em Arac...
· · · · há 5 horas

OS TOTALITÁRIOS CONTRA-ATACAM

Teremos entrado num túnel do tempo? A
retórica é a mesmíssima dos tempos de Médici
Primeiramente, os presidentes dos Clubes das três Armas lançaram um pomposo Manifesto Interclubes, exigindo que a presidente Dilma Rousseff, comandante em chefe das Forças Armadas (à qual o trio deve obediência), desautorizasse duas de suas ministras. Vide aqui.

Depois, convencidos pelos ministros militares a respeitarem a hierarquia, os insubmissos recuaram: colocaram uma retratação no ar e, pouco depois, deletaram tudo, dando por encerrado o assunto. Vide aqui.

Agora, no site do torturador-símbolo do Brasil Carlos Alberto Brilhante Ustra (o único com  registro em carteira, já que foi declarado torturador pela 23ª Vara Cível de São Paulo...), os totalitários contra-atacam com um  alerta à Nação: "Eles que venham. Por aqui não passarão!". Vide aqui.

É a História se repetindo como farsa: soa muito mal, na boca dos herdeiros políticos do  generalíssimo  Francisco Franco, a célebre expressão com que Dolores Ibarrurí, a Pasionária, exortava o povo espanhol a resistir aos fascistas na década de 1930.

"Este é um alerta à Nação brasileira, assinado por homens cuja existência foi marcada por servir à Pátria", começa o papelucho de 2012, para logo enveredar por delírios megalomaníacos:
"São homens que representam o Exército das gerações passadas e são os responsáveis pelos fundamentos em que se alicerça o Exército do presente".
Traduzindo: eles são (*) os representantes daquele Exército que conspiradores contumazes, acumpliciados com uma potência estrangeira, conseguiram arrastar em 1964 para uma aventura golpista, cuja consequência foi a imposição de uma ditadura bestial e de um bestial terrorismo de estado aos brasileiros.

UNIFORMES HERÓICOS x FARDAS EMPORCALHADAS

Brilhante Ustra parece aguardar
os aplausos por sua nova obra...
A afirmação de que o Exército do presente se fundamenta no golpismo e no totalitarismo deveria ser repudiada firmemente pelos militares atuais --os que vieram depois das trevas e não têm esqueletos no armário. Eles têm é de orgulhar-se de vestirem o uniforme de Carlos Figueiredo e Roberto dos Santos, os heróis da Estação Antártica Comandante Ferraz; não o de Brilhante Ustra, aquele que “emporcalhou com o sangue de suas vítimas a farda que devera honrar”, segundo a frase imortal do ex-ministro da Justiça José Carlos Dias.

Na prática, trata-se de um manifesto subscrito por 13 generais, 6 tenentes coroneís, 73 coronéis, 2 capitães de mar e guerra, 1 capitão de fragata, 1 major e 1 tenente.

É muita pretensão uma centena de oficiais em pijama se declararem depositários dos valores em que se alicerça o Exército. E bizarro a lista incluir três representantes... da Marinha!

Mas, como a lógica anda meio distante dos antros das viúvas da ditadura, eles também se proclamam porta-vozes do Clube Militar:
"Em uníssono, reafirmamos a validade do conteúdo do Manifesto publicado no site do Clube Militar, a partir do dia 16 de fevereiro próximo passado, e dele retirado, segundo o publicado em jornais de circulação nacional, por ordem do Ministro da Defesa, a quem não reconhecemos qualquer tipo de autoridade ou legitimidade para fazê-lo... O Clube Militar não se intimida e continuará atento e vigilante".
Como a relação de signatários não inclui o presidente do Clube Militar, Renato Cesar Tibau da Costa, devemos supor que ele haja sido destituído? Ou os 97 estão falando em nome do Clube sem nenhuma delegação formal para o fazer? E desde quando três marujos são porta-vozes do clube do Exército?

O principal, claro, é a quebra da hierarquia, à qual, mesmo na reserva, eles continuam submetidos, segundo seu regimento disciplinar. Cometem, portanto, a mais crassa indisciplina ao confrontarem seus superiores supremos: o ministro da Defesa e a presidente da República. São estes os "fundamentos em que se alicerça o Exército do presente"?!

O objetivo último das escaramuças,
todos sabemos qual é...
Além de contestarem os dirigentes e as políticas do Executivo, eles também insurgem-se contra as decisões do Congresso Nacional, ao qualificarem a instituição da Comissão da Verdade de "ato inconseqüente de revanchismo explícito e de afronta à lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo".

Se 1985 significou alguma coisa, foi que não existe mais tutela fardada sobre os Poderes da República. É totalmente inaceitável a pretensão desses nostálgicos do arbítrio, de quererem impedir com ultimatos velados o resgate da verdade histórica --objetivo real da Comissão, destituída de autoridade para remeter os assassinos, torturadores, estupradores e ocultadores de cadáveres aos tribunais, como vem ocorrendo em países com tolerância menor ao despotismo e à barbárie.

Cabe agora ao Ministério da Defesa tomar as atitudes cabíveis para fazer a hierarquia das Forças Armadas voltar a ser respeitada.

Trata-se, evidentemente, de uma provocação. Mas, reagindo estritamente à transgressão disciplinar, Celso Amorim ganhará a parada.

Oficiais militares são extremamente avessos às quebras de hierarquia, pois temem vir a ser eles próprios desacatados pelos subalternos. Não apoiarão a bravata inconsequente desses gatos pingados, ainda mais por eles estarem agindo em causa própria e não em defesa da corporação: inquietam-se, sobretudo, com o que possa vir à tona a seu próprio respeito.

No fundo, estão em pânico face ao enorme risco de passarem à História com imagem tão hedionda quanto a de Brilhante Ustra, o signatário de nº 15 do manifesto tosco e, não por acaso, o primeiro dentre os 73 coronéis. Só a patente inferior impediu que ele encabeçasse a lista de apoio a um documento que inspirou, provavelmente redigiu e trombeteou no seu site.

* deveriam ter escrito "somos", mas desconhecem a gramática tanto quanto ignoram a Constituição Brasileira e a Declaração Universal dos Direitos do Homem... 

OUTROS TEXTOS SOBRE O MESMO EPISÓDIO (clique p/ abrir):
FIQUEI MUITO FELIZ AO VER OS FARDADOS SUBMETIDOS À AUTORIDADE PRESIDENCIAL
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ASSIM GRASNARAM OS CORVOS
VIÚVAS DA DITADURA PLANTAM NOTÍCIA CONTRA MINISTRAS DE DILMA


Azalea Robles: Secuestro carcelario, montajes judiciales, ‘cibercafés de la selva’ y persecución pol

En Colombia miles de mujeres y hombres sufren juicios políticos en los que reiteradamente el estado recurre a montajes judiciales para encarcelar al pensamiento crítico y compromiso social [28]. Miles de personas son privadas de la libertad, en parodias de juicios con ‘testigos’ pagados o con falsas 'pruebas' que la acusación militar aduce hallar en materiales informáticos supuestamente ‘incautados’ a los fallecidos comandantes guerrilleros. Hay un fenómeno alarmante de “secuestros carcelarios”. Algunos presos políticos son incluso encarcelados durante años sin pruebas, como es el caso actualmente de la socióloga Liliany Obando [29] que lleva más de 3 años encarcelada ilegalmente. O como el profesor Miguel Ángel Beltrán que pasó años preso de manera arbitraria: “El propósito del régimen al mantenerme privado de la libertad, pese a que se ha puesto al descubierto la ilegalidad de las pruebas, es enviar un mensaje a los académicos críticos: 'cuídense de estudiar el conflicto social y armado con una perspectiva diferente a la oficial, porque miren lo que les puede suceder.’” [30]. Otro ejemplo es el periodista Joaquín Pérez Becerra, entregado ilegalmente por Venezuela [31]: está preso sin pruebas desde abril 2011 [32], dado que la Corte Suprema declaró nulidad de los "computadores mágicos" que le endilgan los militares al fallecido Raúl Reyes [33]. Estas aducidas “pruebas” fueron declaradas nulas: hubo violación al DIH consistiendo en el bombardeo al Ecuador y el asesinato a quemarropa de los sobrevivientes heridos como lo demostraron las autopsias y testimonios de las 3 sobrevivientes; hubo igualmente ruptura de la cadena de custodia, y archivos con fecha de creación posterior a la muerte de Raúl Reyes. Sin pruebas, el periodista Joaquín Pérez Becerra está hoy secuestrado por el estado colombiano, como miles más de presos políticos. Los abogados del periodista expresaron que librarlo del montaje podría tardar entre uno y 10 años, en una lucha constante por desmantelar las trampas de un juicio político. Los perseguidos están a la merced del poderío de un estado y sus procederes ilícitos, como lo señala el abogado Rodolfo Ríos:
http://azalearobles.blogspot.com/2012/02/secuestro-carcelario-montajes.html#more
Ver tradução
azalearobles.blogspot.com

Entre João Nogueira e Millôr, há muito mais do que pode alcançar nossa vã filologia




Fernando Soares Campos

Eduardo, de Santos, SP, meu amigo e companheiro de trabalho na SGS do Brasil, no início dos saudosos e não menos lastimosos (os dois pra mim) anos 1980, chegou ao trabalho e soltou um desabafo um tanto desolado:

– Dia desses entrei numa loja de discos e perguntei à vendedora se eles tinham João Nogueira. Vocês acreditam que ela simplesmente me disse que não sabia? Então, me aconselhou a procurar nas gôndolas, apontando para a seção de música sertaneja: “Veja aí, tem muita gente nova na praça, pode ser que esse já tenha chegado aqui na loja”.

Meu amigo me disse que ficou ainda mais confuso quando soube que a moça, que não sabia nem mesmo quem era o “tal” João Nogueira a quem ele se referia, trabalhava ali há cerca de cinco anos. Evidente que não se poderia, nem se pode, esperar que todo brasileiro e brasileira soubesse, ou saiba, quem era, ou é, o consagrado cantor-compositor.

Mas, não seja por isso, pois, certa feita, um amigo do meu filho, o Fábio, estudante do curso de Letras da UERJ, e que gosta de de vez em quando trocar umas idéias com a gente, chegou aqui em casa, não mais que de repente. Papo vai, papo vem, não sei por que cargas d’água, perguntei a ele: “Tu lê o Millôr?” O jovem estudante me falou simplesmente que desconhecia esse “tal” de Melô.

Falei pra ele que se tratava de Millôr Fernandes, o papa do humor no Brasil, pelo menos até os saudosos e não menos lastimosos anos 1980s. Um dos meus mestres. Até ensaiei um trocadilho infame, mas não me atrevi a soltá-lo, a fim de não confundir ainda mais a cuca do rapaz. Mas quase disse: “Melhor, Fernando, né?” Putz! Pois, como acho que diria o próprio Millôr: “Esse sujeito não é humano que nem eu!”

Agora vejamos. Não faz tanto tempo assim, textos do Millôr eram aplicados em vestibulares de universidades diversas, principalmente as federais, estaduais e as municipalizadas. Nos cursinhos de pré-vestubular, o Millôr era consagrado. Os pré-vestibulandos queimavam as pestanas lendo textos do “tal” escritor “sem estilo”.

O Millôr (assim como o Fausto Wolff e tanta gente que sabe lidar com as pretinhas ou coloridas do monitor) não tem curso superior, mas certamente tem conhecimentos superiores.

Já me perguntaram: “Fernando, você tem nível superior?” E eu não me fiz de rogado, entendi bem o que o colega quis dizer com esse negócio de “nível”, e respondi: “Nível, provavelmente eu devo ter, mas não tenho curso superior”. Aliás, estou no mesmo “nível” do presidente Lula: fiz até a terceira série primária, lá em minha terra natal. Depois disso, fui elevado ao ensino, como dizíamos antigamente, ginasial, ou equivalente, quando fiz o curso de aprendiz-marinheiro, na Bahia.

A última vez que li o Millôr foi na revista Veja. Um brilhante savoir-faire que deu no que deu. Agora, tá lá o Millôr estendido no UOL. Uma das nossas fontes de pesquisa.

Bom, tudo bem mal, os anos se passam e a gente nem nota que as coisas mudam, não é mesmo?

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Agora fiquem com...

João Nogueira - Espelho



Mas não "matem a saudade"! Pois podem precisar dela a qualquer momento...
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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

PressAA

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