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domingo, 15 de janeiro de 2012

Abatido, Mantega pode deixar o governo

http://www.brasil247.com.br/pt/247/economia/35622/Abatido-Mantega-pode-deixar-o-governo.htm

Abatido, Mantega pode deixar o governo

Abatido, Mantega pode deixar o governoFoto: WILSON PEDROSA/AGÊNCIA ESTADO

O MOTIVO SERIA O CÂNCER DE SUA ESPOSA ELIANE BERGER; REPORTAGEM DA REVISTA ÉPOCA TAMBÉM FALOU SOBRE O PATRIMÔNIO DE R$ 20 MILHÕES DO MINISTRO, RECEBIDO COMO "HERANÇA"; SUBSTITUTO SERIA O SECRETÁRIO NELSON BARBOSA

14 de Janeiro de 2012 às 08:18
247 – Guido Mantega é, sem dúvida, o ministro mais forte do governo Dilma Rousseff. Além do caixa do Ministério da Fazenda, ele exerce grande influência sobre instituições como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e a Petrobras. Embora não cultive a imagem de poderoso, Guido se mantém ativo nos bastidores e foi personagem decisivo no episódio que culminou com a queda de Antonio Palocci e a saída de Henrique Meirelles do governo. Agora, é Mantega quem pode estar prestes a deixar o governo. Uma reportagem da revista Época, assinada pelo jornalista Luiz Maklouf Carvalho, faz uma radiografia completa sobre a vida, a obra e o legado de Mantega. Passa até pelo patrimônio de R$ 20 milhões amealhado pelo ministro. E diz que o motivo da queda seria o câncer de sua esposa, Eliane Berger, que vive em São Paulo, informação antecipada pelo jornalista Claudio Humberto há algumas semanas. O substituto seria o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Leia, abaixo, o perfil construído por Maklouf, que tem ar de despedida:
Dezembro foi cruel, no plano pessoal, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Trouxe-lhe a dura notícia de um câncer em sua mulher e mãe de seu quarto filho, a psicanalista Eliane Berger Mantega. O susto chegou no começo do mês. Abaladíssimo, Mantega praticamente se transferiu para São Paulo. Informou a presidente Dilma Rousseff, que já pulou essa fogueira, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – que está se tratando da mesma doença –, alguns poucos amigos e decidiu, firmemente, em comum acordo com a mulher, que não divulgaria o fato. Num círculo restrito à Presidência da República, já se comenta a possibilidade de que Mantega saia do governo, se considerar que a doença da mulher torne isso necessário. Como a presidente Dilma tem outro homem de confiança na Fazenda – o número dois, Nelson Barbosa, secretário executivo da Fazenda –, a eventual mudança, mesmo considerada indesejada, não chega a assustar.
No dia 2 de dezembro, quando recebeu ÉPOCA para a primeira de duas entrevistas – uma na sede da Presidência da República em São Paulo, outra no gabinete ministerial, em Brasília –, Mantega vestia, como sempre, um terno bem cortado. Abriu um sorriso quando recebeu elogios pela bem-disposta aparência e comentou, com uma pitada de desconcerto: “Precisa ver como é que está por dentro, precisa ver como é que está por dentro. E se estiver tudo detonado?”. Ele já vivia o drama familiar – do qual não deu a mais remota pista nas duas entrevistas. Um de seus bons amigos dos tempos de universidade, militância política e caratê é o hoteleiro paulistano Fábio Iunesco. “O Guido é um samurai”, diz Iunesco, em seu hotel da Avenida Ipiranga, no centro de São Paulo. “Nunca o vi ficar deprimido, nem nos momentos ruins. Ele toma o golpe, assimila e vai.”
Em seu nono ano de governo petista, Mantega foi ministro do Planejamento, presidente do BNDES e está ministro da Fazenda há quase seis anos. É o terceiro mais longevo no posto, perdendo para Pedro Malan (1995-2002) e para seu amigo e conselheiro econômico Delfim Netto (1967-1974), um dos principais formuladores do pensamento econômico da ditadura militar. Em meia hora de conversa sobre “o Guido” (pronuncia-se o ditongo), o hoje consultor (e articulista de vários jornais) enfileirou adjetivos: “extremamente competente”, “muito bem formado”, “ideias firmes”, “corajoso”, “educado”, “decente”, “muito afável”, “alegre”, “confiável”, “íntegro”. Os que discordam de Delfim costumam chamá-lo de “herbívoro”, “burrinho” ou “Forrest Gump” – termos ouvidos de alguns de seus adversários. A despeito deles, Mantega, trabalhando quase em silêncio, transformou-se no ministro mais poderoso da Esplanada. Ao ouvir isso, ele responde, com humor e a vaidade da modéstia:
– Olha, não sou poderoso. Poderosa é a presidenta. Ela teve 54 milhões de votos. Ela é a poderosa. Nós somos nomeados.
– O senhor não é o ministro mais influente e mais forte do governo?
– Tenho dúvidas. Não é algo claro, mensurável, não tenho nenhum termômetro. Você quer me perguntar se tenho bom relacionamento com a presidenta? Tenho um excelente relacionamento.
Forrest Mantega?
O bom humor para, por uns minutos, quando ele ouve a fileira de críticas de seus adversários. Das já citadas, estrila com “herbívoro”. Trata-se de uma insinuação de que Mantega não faria reformas realmente estruturais, concentrando-se na “verdura” – sem nunca atacar a “carne”. “Deve ter gente que não gosta de mim, claro. Isso é natural. E esses poderão falar qualquer bobagem. Deve ter gente com dor de cotovelo, gente que passou pelo governo anterior, que no passado era um fracasso. Muita gente fez um monte de bobagem aqui.” Ele se ajeita na cabeceira da grande mesa de reuniões, pensa mais um pouco e completa:
– O segundo motivo desses ataques é que sou desenvolvimentista, e isso não agrada aos ortodoxos. E um desenvolvimentista bem-sucedido. O país está crescendo mais, está gerando mais emprego. Então, isso deve dar uma dor de cotovelo. Imagino como é que eles se mordem. Então, se sou um herbívoro, que nem sei o que é, sou um herbívoro bem-sucedido. Aliás, eu gosto de salada. Como muita salada, vai ver que é isso.
– O senhor tem alguma admiração pelos carnívoros?
– Não sou muito carnívoro (risos). Essas pessoas são despeitadas, têm mau caráter ou ressentimento. Não vou dar bola para isso, estou pouco me lixando. Quero é ver o reconhecimento da sociedade, não de um indivíduo que possa ter algo contra mim. Os cães ladram e a caravana passa.
“O MUSSOLINI VEIO DA ESQUERDA”
Giuseppe Mantega, o pai do ministro, morreu em 1983. Ele foi soldado e oficial do Exército fascista na Itália de Benito Mussolini. Nasceu na Ilha da Sardenha, em janeiro de 1914. Entrou para o Exército quando já morava em Gênova. Lutou na Guerra Civil Espanhola, em apoio ao ditador Francisco Franco, e na Segunda Guerra Mundial, até a derrota para os Aliados. “Pois é, ele estava do lado errado”, diz Mantega. “Naquela época, quase toda a Itália estava com Mussolini. No início, ele era muito popular. Sob certos aspectos, lembra o Getúlio Vargas aqui. Fez reformas sociais na Itália. O povo gostava do Mussolini. O Mussolini veio da esquerda...”
Quando migrou para São Paulo, em 1951, Giuseppe trouxe, além das economias, as condecorações de guerra, uma das fardas e a marca de um estilhaço de granada na mão esquerda. Guido já nascera, em Gênova, em 7 de abril de 1949. Em 1952, quando Giuseppe disse à mulher, Anna, que tudo ia bem, ela e o filho tomaram um navio e, oito dias depois, desembarcaram em Santos.
Giuseppe prosperou com uma indústria de móveis e vidro. Faziam viagens anuais de férias à Itália – daí a paixão que até hoje o ministro e sua mãe, de 89 anos, continuam a ter por cruzeiros marítimos. Ao lado de Paula, única irmã, levava uma vida de classe média alta. Guido estudou em bons colégios. Estava mais para o almofadinha, “muito certinho, sempre querendo o chinelinho no lugar”, para usar uma expressão do fazendeiro Eduardo Ralston, seu amigo de juventude, universidade e (quase) cadeia. Guido odiava confusão. Uma vez, por brincadeira, Ralston paramentou-se de mendigo e infiltrou-se numa festa de colação de grau em que o italiano, como também o chamavam, estava presente. Na hora certa, saiu correndo e aos gritos em direção ao amigo, que se escafedeu. Aos 15 anos, a sorte informou que sempre acompanharia o rapaz. Guido saiu quase sem arranhões depois de capotar e praticamente destruir o carro do pai. Um pouco mais velho, surrupiava o Aero Willys de Giuseppe e levava os amigos para paquerar na Rua Augusta. “Sempre se deu bem com as garotas”, diz Ralston.
Giuseppe queria que Guido fosse trabalhar na fábrica. Ele queria, desde jovem, “ser intelectual”. Guido vivia na Móveis Mantega, no Itaim, aprendendo as manhas do vidro, das ferragens e da madeira. Quando entrou na universidade – na Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo, em 1966 –, trabalhou na fábrica. Para o pai, era um aprendizado que o curso superior aprimoraria. Para ele, uma chateação.
Mantega estudou quatro anos na FEA, onde se formou em 1971. Não deixou lembranças por lá. Nem mesmo para o único outro italiano da mesma escola, Franco Piponzi, hoje dono da rede de farmácias Droga Raia. “Soube disso muito depois, quando ele já era ministro”, diz Piponzi. Celso Marchi, um economista que hoje trabalha no governo Alckmin, era da mesma turma. “Tudo o que lembro é que, de vez em quando, a gente acrescentava um ‘i’ na lista de chamada, para ficar Manteiga”, diz Marchi. “Acho que ele tinha uma atividade política misteriosa em outro lugar, por isso se preservava.”
O outro lugar era, na mesma USP, a Faculdade de Ciências Sociais, onde Mantega também ingressara e era dirigente do centro acadêmico. Os tempos eram de ditadura e movimento estudantil. Mantega foi recrutado para o Partido Operário Comunista, o POC, contrário à luta armada. Seu codinome era Cláudio. Além das tarefas do movimento estudantil, havia as específicas da organização: fazer jornais ou panfletos em mimeógrafo a álcool e distribuí-los em áreas de concentração do operariado, como Osasco ou o ABC paulista. “A vantagem do POC é que ele não tinha adotado a luta armada”, diz Mantega. “Não teve, por exemplo, ações de banco, de sequestro. Eu não fiz nada disso.”
Comparada à da presidente Dilma, sua militância foi mais que discreta. Com seus riscos, claro. Um deles era a convivência, nas Ciências Sociais e fora dela, com os já citados Fábio Iunesco (também do POC), Eduardo Ralston e o hoje jornalista esportivo Juca Kfouri, os dois últimos ligados à ALN, a Ação Libertadora Nacional, de Carlos Marighela. Eram quatro mosqueteiros, formando um grupo de estudos teóricos com forte viés marxista. Ralston já fora preso duas vezes – ocasiões em que levou na conversa a polícia política.
Disciplina na ditadura
No dia 7 de setembro de 1971 – ano da formatura do Manteiga na FEA –, os quatro e a então mulher de Kfouri, Suzana, foram passar o fim de semana no apartamento que a família de Ralston tinha no Guarujá. Guido levou a namorada, Cristina, linda e praticante de artes plásticas. Na volta, a título de saideira, três dos mosqueteiros emendaram para o apartamento de Kfouri e Suzana. Guido recusou-se – e Cristina acatou. Iunesco botou seu carro na garagem do prédio de Kfouri. O de Ralston ficou numa esquina próxima, cheio de papéis subversivos. O carro chamou a atenção da polícia. Ralston foi preso, lá pelas 11 da noite. Iunesco aproximou-se, para entender o que acontecia, e também foi detido, assim como Kfouri e Suzana logo depois. Foram libertados nos dias seguintes, com Iunesco, sem tortura. Ralston, com o histórico das outras prisões, foi torturado e só saiu – graças à pressão da família – na véspera do Natal.
“Nunca fui preso, porque sempre fui muito disciplinado”, diz Mantega. “Meus colegas não cumpriam as regras de segurança. Eu seguia à risca. A regra era aguardar no ponto dez minutos e ir embora. O cara ficava lá meia hora, 40 minutos. Muita gente caiu de boba, de besta, porque os militares também não eram tão espertos assim. Todo mundo era amador, a verdade era essa.” (A hoje presidente Dilma Rousseff foi presa, em janeiro de 1970, ao ir a um ponto de encontro fora das regras de segurança, sabendo disso.)
Quando o POC rachou – uma parte aderindo à luta armada –, Cláudio saiu. Manteve a militância, ligado ao grupo Debate, que reunia exilados brasileiros. Sediado em Paris, tinha, entre os coordenadores, o ex-dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (a VPR de Carlos Lamarca) João Carlos Kfouri Quartim de Moraes, primo de Juca, também ligado ao grupo, e irmão de Maria Moraes, economista da Unicamp com quem Mantega dividiria um de seus livros – Acumulação monopolista e crises no Brasil, de 1980. “Fiz algumas viagens a Paris e ao Chile de Allende”, diz Mantega.
Prefácio de FHC
Com o diploma de economista na mão, e livre da insistência do pai em vê-lo empresário, Mantega qualificou-se para um mestrado em ciências sociais (por isso não se graduou nessa faculdade), com upgrade direto para o doutorado. Nos anos 1970, mantendo-se à esquerda, trabalhou no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o Cebrap de Fernando Henrique Cardoso (que assinou o prefácio do livro de Mantega e Maria Moraes). Foi também colaborador dos semanários Movimento e, depois, do Em Tempo, ambos perseguidos pela ditadura. “Ele estava sempre acompanhado de moças bonitas”, diz o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, ex-diretor de Movimento. “Defendia, firmemente, que a burguesia não devia participar da luta contra a ditadura.” Pelo Cebrap, Mantega dividia mesas de palestra com gente já ilustre – FHC, Chico de Oliveira, Octavio Ianni, José Arthur Giannotti. “Ele era muito estudioso e muito sério”, diz o hoje ministro Moreira Franco, que participou, com Mantega, da CPI das Multinacionais nos anos 1980. E hoje? “É muito aplicado, gosta do poder e sente um prazer enorme de ser ministro.”
Mantega conta que foi monitorado pelo Serviço Nacional de Informação da ditadura, o SNI: “Eu escrevia artigos, que eram fortes. Um dia, fazendo uma palestra na Venezuela, fiz críticas ao autoritarismo no Brasil. Saiu nos jornais de lá e um coronel do SNI me telefonou. A sede era onde hoje é o Ministério da Fazenda. Quem diria que um dia eu comandaria isso aí?”. Passado o ligeiro momento de emoção, ele prossegue: “Aí liguei para o Giannotti e para o Fernando Henrique, que estavam no Cebrap. ‘O SNI está atrás de mim. O que é que eu faço?’. ‘Em vez de você ir lá, chama na sua casa. Seu pai é empresário, chama na sua casa’”. Era um belo apartamento na Alameda Itu, nos Jardins, área nobre da capital paulista. Dois coronéis foram lá, em trajes civis. Giuseppe estava presente. “Eles levaram cópias de vários artigos que eu tinha escrito e me intimidaram, dizendo que eu era estrangeiro. Eu ainda não tinha me naturalizado, porque achava que, se a coisa apertasse, eu, como cidadão italiano, poderia recorrer à embaixada.” A última frase dos arapongas foi, segundo a memória de Mantega: “O senhor está sob alça de mira, estamos de olho”. Foi outro momento de sorte.
Aproximação com o PT
No começo dos 1980, Mantega aproximou-se do PT, partido em formação. Diz que participou de algumas reuniões preparatórias da fundação. Gente como o senador Eduardo Suplicy, que estava lá, não se lembra da presença dele em nenhuma das decisivas e incisivas reuniões preliminares. “É até possível que ele estivesse, mas eu não recordo”, diz Suplicy. “Eu estava, nas reuniões no sindicato dos jornalistas de São Paulo”, afirma Mantega. Tendo ficado no Cebrap, ele poderia ter aderido ao campo que depois entrou no MDB e depois virou tucano, a ala de FHC. Por que escolheu outro caminho? “Éramos todos de esquerda”, diz Mantega. “Mas tinha uma esquerda mais à esquerda, e uma esquerda mais ao centro.” Ele era, entenda-se, da esquerda mais à esquerda.
A banca que deu nota 10 à tese de doutorado de Mantega – Raízes e formação da economia política brasileira (a fase estagnacionista), de 493 páginas desordenadamente encadernadas na biblioteca da USP – foi integrada por Gabriel Cohn (orientador), Brasílio João Salum Junior, Paul Singer, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Carlos Bresser Pereira. “Li mais de 1.000 livros para escrever a tese”, diz Mantega. Ele a defendeu, aos 33 anos, em abril de 1982. É um trabalho de fôlego sobre o tema a que se propôs – uma leitura exaustiva dos principais pensadores econômicos no mundo e no Brasil. Não é brilhante, mas é aplicada.
Parte da tese virou o livro A economia política brasileira, publicado em 1984 e em mais quatro edições. Guido dedicou-o à namorada de então – a economista Franceschina Vilardo, ou Chica – e à memória do pai, fumante que um câncer de pulmão levou em fevereiro de 1983. Ele jaz no mármore cor-de-rosa do jazigo familiar no cemitério São Paulo, no bairro de Pinheiros. Mantega nunca fumou cigarros. Só experimentou cachimbo e diz que não apreciou. Giuseppe deixou uma bem fornida herança, principalmente em imóveis. Diante da estimativa de R$ 20 milhões para seu patrimônio, Mantega afirmou: “Isso aí é sigilo fiscal. Para dizer a verdade, nem sei exatamente. É que uma boa parte do meu patrimônio é de 30 anos, de muito tempo. Tenho imóveis declarados pelo valor histórico, como manda a lei. Nem sei exatamente quanto tenho”.
Sexo e poder, no final dos anos 1970, foi o primeiro livro em que o nome de Guido Mantega aparece na capa, como coordenador. Tem 215 páginas e é uma coleção de ensaios áridos sobre dois temas então explosivos. O artigo de Mantega chama-se “Sexo e poder nas sociedades autoritárias: a face erótica da dominação”. Leitor realmente ávido, e eclético, ele discorre sobre Freud, Reich, Marcuse e Foucault. Diz, às tantas: “O prazer mecanizado da sociedade de consumo (com bonecas de plástico, vibradores a pilha e outros engenhos) ilustra bem a solidão e alienação da sociedade contemporânea. Nesse contexto, pouco adianta multiplicar as posições sexuais ou inventar novos jogos amorosos (sexo grupal, sexo com melancias, com cães e outros bichos) sem alterar substancialmente a qualidade das relações”. Careta? A psicanalista Maria Rita Kehl, a economista Maria Quartim de Moraes e o novelista Aguinaldo Silva – de Fina estampa – são alguns dos outros colaboradores.
Mantega, assim como a presidente Dilma, jamais viveu a vida orgânica do Partido dos Trabalhadores. Nunca foi de tendência, nunca bateu chapa em eleições internas, nunca teve turma, nem cacique (que o diga José Dirceu) e nunca ligou a mínima para nada disso. Começou a se destacar para o partido, tecnicamente, quando o economista Paulo Sandroni, seu colega da FGV, convidou-o para ser diretor de orçamento da Secretaria de Planejamento do governo Luiza Erundina (1989-1992). O secretário era o economista Paul Singer. Quando Sandroni saiu da chefia de gabinete de Singer, Mantega assumiu o cargo. No final do mandato de Erundina, Lula pediu que passasse a trabalhar como seu assessor econômico direto. “O Lula o escolheu porque ele é um bom economista, bom professor e bem inteligente”, diz Singer, hoje lotado numa diretoria do Ministério do Trabalho.
Sandroni acha que Lula o escolheu “porque é um homem que merece confiança e segue uma orientação política mesmo quando eventualmente não seja favorável”. Sandroni já deixou o PT, por divergências. No jargão da luta de boxe, diz: “O Guido tem jogo de cintura e é um bom assimilador – no sentido de receber golpes e não parecer ser afetado por isso”. Sandroni acha que Mantega é um economista “keynesiano-kaleckiano”. O polonês Michel Kaleck é uma espécie de precursor, à esquerda, de John Maynard Keynes, o economista inglês que balançou as bases da teoria econômica clássica. Mantega diz conhecer todos esses autores a fundo. É capaz de falar de improviso sobre o primeiro livro que Keynes escreveu – Consequências econômicas da paz – muitos anos antes de sua obra maior, A teoria geral do emprego, do juro, da moeda.
Lula deve ter tido muitos motivos para guindá-lo a assessor econômico titular – entre eles, Mantega ser boa-praça –, mas o decisivo foi ter gostado de sua didática. Muito do que Lula aprendeu de economia deve-se à paciência e à clareza de Mantega. Certa vez, o economista João Machado, ainda da direção do PT, hoje no PSOL, achou curiosa uma folha de papel que Mantega lhe mostrou, parte de uma explicação econômica que entregaria a Lula. “Estava tudo datilografado em letras maiúsculas”, diz Machado. “Estranhei, perguntei o motivo, e o Guido disse que era o Lula que pedia assim.”
O economista Aloizio Mercadante era outro nas graças de Lula. Suas ambições e ocupações eleitorais – que Mantega não teve – abriram mais espaço para o professor da FGV (e também da PUC, entre 1982 e 1987). Em 1993, com Mercadante atolado na campanha que o elegeria deputado federal, Lula oficializou Mantega como seu assessor econômico. A partir de então, ele passou a comandar e a organizar toda a movimentação dos debates econômicos do Instituto de Cidadania. Momentos célebres da ONG de Lula – como a visita do senador Antônio Carlos Magalhães ou, mais tarde, do economista Maílson da Nóbrega e de uma certa economista do PDT gaúcho, Dilma Rousseff – têm muito a ver com Mantega. Mercadante deixou de ser uma sombra para Mantega quando magoou Lula na eleição presidencial de 1994. Com a perspectiva de uma eleição fácil para deputado federal, ele sacrificou o cargo para candidatar-se a vice-presidente na chapa de Lula, em substituição à saída intempestiva do senador José Paulo Bisol. Estavam na sede do PT, assistindo, pela televisão, à apuração dos votos. Quando entendeu que perdera tudo, a deputança e a Vice-Presidência, Mercadante deixou escapar, audível, um sinceríssimo “Me f***”. Lula achou mesquinho.
Mantega cresceu, assimilou, e nem por isso mudou sua relação civilizada com o hoje praticamente ministro da Educação. Nos tempos do Plano Real, Mantega e Mercadante cansaram de escrever, juntos, artigos sulfúricos destratando a base de muita coisa que viriam a apoiar depois, com a eleição de Lula. Depois da derrota de 1994, o senador Suplicy e os economistas Paulo Nogueira Batista e João Machado, entre outros, escreveram um livro – Combate à inflação, Plano Real e campanha eleitoral –, atribuindo um papel relevante na derrota aos erros de avaliação do Plano Real, no programa econômico de Lula, responsabilidade de Mantega. Ele divergiu e reagiu, classificando o livro como “intriga inoportuna”.
Nada se compara às respostas de Mantega a duas perguntas da página de opinião do jornal Folha de S.Paulo. À primeira, em 5 de abril de 1997, “O Proer deve ser extinto?”, o professor de economia da Fundação Getulio Vargas respondeu “Sim”. O Proer foi o plano de socorro aos bancos do governo tucano. O governo petista nunca o reviu. À segunda, em 19 de junho de 1999,“O sistema de metas de inflação é hoje o mais adequado à economia brasileira?”, o doutor pela USP respondeu “Não”. Mais tarde, como ministro da Fazenda, Mantega manteria e aplicaria com rigor o mecanismo de metas inflacionárias. O artigo chama-se “O rabo abanando o cachorro”. Um trecho: “Esse regime tem potencial destrutivo menor que o da sobrevalorização, mas é uma estratégia tosca e inadequada para ancorar a política econômica”. Mantega também antecipava tendências. Em 18 de novembro de 1997, tempos da crise asiática, escreveu, no mesmo jornal: “A elevação da taxa de juros pode ser trágica numa economia em dificuldades e pode desencadear uma quebradeira generalizada”. No mesmo artigo, bombardeou Itamar Franco, Ciro Gomes e Fernando Henrique Cardoso, chamado de “réu confesso” por ter feito uma abertura comercial “indiscriminada”.
Na campanha de 2002 – a que instaurou o reinado petista –, Mantega teve o papel que sempre tinha: assessor econômico do candidato Lula. Se pensou que a vitória podia fazê-lo ministro da Fazenda, enfiou a viola no saco com a entrada em cena de um ex-trotskista entusiasmado com a ortodoxia e o livre mercado, Antonio Palocci. Até hoje Mantega não absorveu o desprezo a que Palocci o submeteu em seu livro Sobre cigarras e formigas, onde ele aparece, ligeirissimamente, em apenas seis das 254 páginas.
Para o economista e professor José Marcio Rego, ex-aluno e velho amigo da Fundação Getulio Vargas, sete anos mais novo, Mantega perguntou, já ministro, ao vê-lo com o livro de Palocci: “Ô Zé Marcio, agora você anda lendo porcaria?”. Rego é coorganizador, com ele, do livro Conversas com economistas brasileiros II (422 páginas, 1999). Por alguns meses, os dois entrevistaram, longamente, 12 medalhões da área, entre eles: Singer, Francisco de Oliveira, José Serra, João Sayad, José Alexandre Scheinkman, Mercadante, Francisco Lopes e Gustavo Franco. “Se o Palocci continuasse ministro, a fritura do Guido era certa, o óleo já estava quente”, diz Rego.
ADMINISTRAÇÃO POR PIADINHAS
“O senhor pensa que isto aqui é a casa da Mãe Joana?”, perguntou a ministra Dilma Rousseff, nos tempos da Casa Civil, ao economista Júlio Gomes de Almeida. Àquela altura, 2007, Almeida era o secretário de Política Econômica do ministro da Fazenda. Fora à Casa Civil mostrar uma medida provisória em que trabalhava. Não estava como a dona da casa queria, e veio a admoestação. Quando Almeida ainda pensava 1) se devia responder e 2) que resposta poderia dar, Dilma voltou à carga: “Não é casa da Mãe Joana, não, doutor Julinho. Isto aqui tem ordem”. Almeida conta a história para fazer um paralelo com o jeitão do ministro Mantega, que era seu chefe direto. “Nunca vi ele pegar duro com ninguém. Quando não está gostando, fala por piadinhas”, diz.
Outra das características de Mantega é preocupar-se, demasiadamente, com o que os jornais e os colunistas dizem. Quando se sente injustiçado, algo fácil de acontecer, não deixa de reclamar a quem entenda de direito. Nos andares mais altos do Palácio do Planalto, é tido como um ministro carente – sempre está querendo um afago a mais. Os presidentes relevam – tanto Lula como Dilma –, porque, além de ser fiel e disciplinado, ele produz resultados.
Nos momentos em que estava irritado com Henrique Meirelles e as taxas de juros do Banco Central, o presidente Lula dizia: “O pior é que nem posso pedir nada a ele, porque, se eu pedir e ele não fizer, vou ter de demitir”. Mantega e Meirelles digladiaram-se, civilizadamente, mesmo quando trabalharam juntos – como na crise de 2008. A visão ortodoxa de Meirelles, ex-presidente do Banco de Boston e tucano de escola, chocava-se com o social-desenvolvimentismo de Mantega. Não se pode dizer que conspirava, porque Guido não é disso. Mas não perdeu a oportunidade para buzinar suas divergências ao presidente Lula. “Mesmo quando estava no BNDES, eu me reunia pelo menos uma vez por semana com o presidente Lula, defendendo minhas ideias”, diz Mantega. Lula não só conhecia a contradição, como gostava e sabia administrá-la. Achava saudável que o governo tivesse um foco interno de tensão.
OS DOIS ASSUNTOS PREDILETOS DE GUIDO MANTEGA SÃO ECONOMIA E MULHERES, NESSA ORDEM "
O economista e professor Luiz Gonzaga Belluzzo é interlocutor de confiança, há tempos, tanto de Lula quanto de Mantega. Hoje, com Delfim Netto, forma a dupla de consultores mais ouvida pelo ministro da Fazenda. Meses antes da crise de 2008, Lula chamou Belluzzo a Brasília e, na versão que ele conta, formalizou um convite para que substituísse Meirelles. “Relutei, mas aceitei”, diz Belluzzo. Não foi só uma sondagem? “Não, foi um convite. O presidente Lula estava decidido”, responde. A crise veio, agravou-se, e convergiu para que Meirelles ficasse no centro da meta.
Tempos atrás, Mantega recebeu, no Ministério da Fazenda, uma visita de cortesia de Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda no governo Sarney, dono da consultoria Tendências e crítico contumaz dos programas petistas, ontem como hoje. “Ô Maílson, por que você vive me criticando?”, perguntou Mantega, segundo a memória de Maílson. “Ele estava falando sério, mas levei na esportiva. O Guido tem uma visão de mundo típica de um grupo de economistas brasileiros, os autochamados desenvolvimentistas. Eu pergunto: e quem não está nessa, é atrasadista? O que me irrita é a arrogância, é intitular os outros de neoliberais, é dizer que os que não são desenvolvimentistas conspiram contra o Brasil. É um cacoete stalinista, para desmoralizar o interlocutor.” Maílson não sabia que, num de seus livros, Mantega chamara sua política quando ministro de Sarney de “Plano Arroz com Feijão, de gosto duvidoso, que promoveu a mais alta taxa de inflação da economia brasileira”. Ao ouvir a frase, Maílson fica indignado: “É uma linguagem de quinta categoria, quem a usa não deveria merecer a cátedra de professor”.
UMA BRAÇADA DE DISTÂNCIA
Existe pai que atende prontamente o celular quando é o filho quem está ligando. E existe pai que deixa para atender depois. É o caso de Mantega. Ou, pelo menos, foi, na tarde de 29 de dezembro. Seu iPhone soou, na sala de reuniões do gabinete, em Brasília. Ele olhou o visor. Era Carolina Vilardo Mantega. Ele disse, tranquila e espartanamente: “É a filha. Tem de esperar”. E continuou, sem precisar ser lembrado do assunto de que falava antes: “Existe sempre o risco de que a crise do euro não seja superada. Mas sou otimista. De qualquer modo, estamos preparados para o melhor e para o pior. Se o pior vier, vamos crescer menos, mas até mais do que este ano”.
Carolina, de 26 anos, é a bela segunda filha dos quatro que Mantega tem, de três casamentos – ou, como ele prefere, “dois relacionamentos e um casamento”. Bióloga formada pela Universidade Federal de São Carlos – “uma das melhores faculdades”, diz o pai –, ela é pesquisadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Escola de Administração de Empresas de São Paulo. É um órgão da Fundação Getulio Vargas, onde Mantega prestou concurso e fez carreira como pesquisador e professor. Enquanto fazia a faculdade, Carolina dava aulas de biologia em colégios e cursinhos de pré-vestibular. Praticante de mergulho, fez um estágio de férias no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha. Encantou-se e passou num concurso público estadual para dar aula de biologia numa escola de ensino médio do arquipélago pernambucano. “Ela começa agora em fevereiro”, disse Mantega. Ela perguntou o que o pai achava da ideia? “Perguntou”, ele respondeu. “Mas os filhos fazem o que querem, né?” Deu um suspiro – e continuou: “Não vamos falar dos filhos, nem de ex-mulher, porque não dá certo. Quem está interessado em ex-mulher?”. Diante da resposta – “Muitíssimo mais leitores do que o senhor possa imaginar” –, Mantega sorriu, algo desconcertado. Foi uma reação parecida à que teve uma hora e meia depois, diante da questão:
– Agora vamos falar de mulheres, ministro. O senhor é bom nisso...
– Não estou entendendo sua afirmação – respondeu, com um esgar.
– É um elogio – ouviu, com outro.
Mulheres, mulheres
Homens heterossexuais que têm ou tiveram alguma intimidade com Mantega – sempre pouca, porque ele mantém aquilo que o economista Bernard Appy, seu ex-secretário executivo, chama de “arm’s length” (uma braçada de distância, na tradução do inglês) – sabem que seus dois assuntos prediletos, em sentido perorativo, são economia e mulheres, nessa ordem. Para esses contados e pingados amigos mais próximos – mas não muito –, Mantega não economiza jocosidades sobre, digamos, o universo das beldades, no que ele tenha de melhor e de (supostamente) pior. Um exemplo: o engenheiro e quase doutor em economia Marcelo Estrela Fiche, seu chefe de gabinete, um solteiro renitente, ouve vez por outra o ministro brincar: “Vai casar? Pensa bem...”. Outro exemplo: quando completou 58 anos, em 7 de abril de 2007, Mantega ganhou de presente do segundo escalão da Pasta quatro comprimidos de Viagra, numa caixinha de madeira. Quando abriu, deu uma boa gargalhada, olhou obliquamente o autor da travessura, agradeceu à animada plateia e devolveu o mimo, com ereto orgulho: “Não estou precisando”.
Leonardo Vilardo Mantega, aluno da Escola Superior de Propaganda e Marketing, é irmão da professora Carolina, dois anos mais novo. Eles são filhos de Mantega com a economista Franceschina Vilardo, a Chica. Mantega a conheceu em 1980, tempos de fundação do PT, quando ela foi sua aluna, na PUC. Carioca de Copacabana – daquelas de parar o comércio, como se dizia –, Chica deu aulas na Unicamp, onde concluiu um mestrado com a dissertação A burguesia cafeeira paulista e a política econômica na Primeira República, defendida e aprovada em 1986, ano em que Carolina nasceu. É dedicada “ao Guido, meu companheiro” e a seus pais, que já morreram. Na introdução, Chica escreveu: “Ao Guido Mantega não agradeço. Só uma profunda relação de amor pode explicar seu empenho em toda essa trajetória. Só me resta reconhecer que sem sombra de dúvida o que há de melhor nesse trabalho pertence aos dois”. Viveram dez anos juntos – de 1981 a 1991, na conta dele, de 1980 ao começo de 1992, na dela.
Leonardo já teve o prazer de compartilhar os almoços de Mantega com os ilustrados amigos economistas, consultores e conselheiros Delfim Netto e Belluzzo. Ocorrem, quase uma vez por mês, em estrelados restaurantes italianos de São Paulo – como o Nonno Ruggero ou o Emiliano –, para honrar a origem dos três. Leonardo aprecia a conversa, e, claro, as iguarias. Uma vez ele pediu, na internet, mais detalhes sobre uma receita. E escreveu: “Gosto de cozinhar nas horas vagas, e, como filho de italianos, da Calábria, meu forte é massas”.
A paulista de Piracicaba Lavinia Hungria Cardim, hoje empresária, é a mãe da filha mais conhecida do ministro – a também bela, e exuberante, Marina Mantega. Com 31 anos, ela é a mais velha. Num concurso de beleza, os jurados teriam dificuldade para escolher entre ela e Carolina. O leitor pode fazer a experiência no Facebook, onde uma é amiga da outra. Se for muito curioso, verá, também, algumas diferenças entre as duas. Carolina tem 329 amigos e cinco fotografias suas. Marina tem 2.242 amigos e 655 fotos. Administradora de empresas, atriz em formação, empresária, apresentadora de televisão, colecionadora de namorados famosos, midiática por excelência, Marina quer muito que o mundo saiba que ela existe – qual é o problema? – e, mais, que quer crescer com ele – o que é que tem de mais?
No final dos anos 1970, Lavinia, com cursos de língua e literatura inglesa em Miami, parecia a atriz Jane Fonda e trabalhava como comissária de bordo da Pan Am. Seria mais uma na lista de namoradas bonitas de Mantega. Mas engravidou. Quando Marina veio, com a bênção dos pais e a graça de Nossa Senhora da Conceição, em 8 de dezembro de 1980, o economista do Cebrap já era de Franceschina Vilardo. Não foi fácil para ninguém. “Tivemos um relacionamento”, diz Mantega quando o nome de Lavinia entra na pauta. E corta a conversa.
SEM CARTEIRADAS EXPLÍCITAS
O mesmo se dá quando ele percebe que o assunto serão as já passadas e pontuais incursões de Marina no governo durante o período Lula. Numa lista dos temas por que Mantega tem ojeriza, esse viria em primeiro lugar. Ele fez saber, na gestão Lula, como faz saber, na gestão Dilma, que não apenas não endossa, como reprova qualquer entrada das que a jovem empresária tenha feito – como fez – ao presidente Lula, a dois ou três ministros e a poucas outras autoridades do governo, para pedir apoio a projetos sociais e empresariais. Não consta que qualquer tostão tenha saído dos cofres públicos para qualquer deles. Com o presidente Lula, Marina esteve uma vez: foi apresentar o americano Anthony Kennedy Shriver, sobrinho do Kennedy mais famoso e presidente da ONG Best Buddies, que trabalha na socialização de portadores de deficiência física em vários países. No Brasil, suas representantes são Lavinia Cardim e sua filha.
Marina não foi tão ostensiva em suas relações com o governo como se possa pensar. Não deu carteiradas explícitas. Apenas usou o nome (que afinal é seu), a fama (idem) e submeteu-se, primeiro, às secretárias ministeriais. Mesmo assim, o pai contrariou-se, algumas vezes ariana – ele é de 7 de abril – e apopleticamente. Foi tão ríspido que Marina recolheu as velas. Com um ministro ou outro que contou tê-la recebido, no tempo do governo Lula, como se fizesse favor, Mantega foi quase grosseiro, deixando implícito que, por ele, outro posto na FGV ou mais um concurso como o de Fernando de Noronha não seria mau. Fora isso, um detalhe, Marina é um xodó do pai.
Um casamento só
Numa noite de janeiro ela respondeu, via Blackberry, a um pedido de entrevista: “Meu pai é muito reservado, sempre foi, muito sério. E bom no que faz. Tenho orgulho de ser filha dele e acho que foi o melhor ministro da Fazenda que tivemos. Não falo isso só por ser filha, mas o Brasil está como está muito por causa do trabalho dele”.
Mantega teve, entre amigas e namoradas, algumas muito bonitas. Caso, para citar uma de fechar quarteirão, de Sílvia Sette Whitaker Ferreira, hoje no comando da Divisão de Paz e Segurança Internacional do Itamaraty. Entre as amigas, até hoje, estão a economista e professora Maria Moraes, da Unicamp, e a psicanalista e ensaísta Maria Rita Kehl. Mantega fez terapia com Kehl (ela não quis dar entrevista). Maria Moraes disse, gentil, que só falaria se o ministro autorizasse. Ele não se entusiasmou. Com Sílvia Whitaker foi a mesma coisa. “Eu levava uma vida austera, uma vida totalmente franciscana. Ia à igreja toda semana, rezava, estudava muito”, diz Mantega, sem esgares, encerrando os comentários sobre a fase dos relacionamentos.
“Casamento mesmo, de papel passado, foi só com a atual, em 1994”, afirma Mantega ajeitando-se na cadeira. A atual é a psicóloga Eliane Berger, mãe do caçula, Marco. O casal tem uma relação tão forte que o e-mail pessoal de ambos combina as iniciais dos dois. A doutora Berger foi, quando mais jovem, uma animada militante do movimento sionista paulistano. Ela trabalha no Instituto Sedes Sapientiae, na Zona Oeste de São Paulo, dá cursos e coordena debates como “Versões do sintoma na neurose, depressão e instituição”. Sua frase mais conhecida foi dita depois de um grande susto – um assalto em Ibiúna, no Carnaval de 2007, quando o casal passava um fim de semana no sítio do empresário Victor Garcia Sandri. “Os caras foram supergentis, só queriam dinheiro”, disse Eliane. O contexto era a defesa de melhorias na economia como a melhor solução para a violência na sociedade. Custou-lhe farpas na imprensa e uma grosseria do líder do então PFL, Onyx Lorenzoni: “Agora, só falta a senhora Mantega se unir aos assaltantes numa cruzada para derrubar o presidente do Banco Central”. (Mantega teria adorado: abater Henrique Meirelles foi tudo o que ele quis durante muito tempo.)
No começo de dezembro, o casal Mantega tomou um susto muito pior que o assalto de Ibiúna: o diagnóstico de câncer em Eliane. Se o ministro, por um acordo familiar, já vinha todas as semanas para São Paulo – chegando sexta-feira, às vezes quinta-feira, e voltando na segunda –, em dezembro ele praticamente se mudou. Tirou uns dias de férias em janeiro – mas, ao contrário de todas as outras vezes, não viajou para a Itália, onde tem família e imóveis, nem para Paris, onde tem um apartamento. Ficou em São Paulo, com as providências médicas, sem se desligar completamente do ministério. Na quarta-feira da semana passada, interrompeu as férias e foi a Brasília conversar com a presidente Dilma. Pode ter sido uma conversa corriqueira – a presidente não espera quando quer ser atendida – ou uma conversa mais séria sobre a possibilidade de deixar o cargo. Se Mantega conseguir assimilar o golpe e seguir em frente, será, com mais algum tempo, o recordista na Fazenda no período democrático.

Enviado pelo companheiro Paulo Avila.

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