Por Adriana Maximiliano no Opera Mundi
Nos tempos da Guerra Fria, eles eram temidos,
perseguidos e odiados. Hoje, quando os membros do Partido Comunista dos
Estados Unidos (CPUSA) aparecem em público, a reação é de surpresa.
Vinte e dois anos depois da queda do Muro de Berlim, pouca
gente sabe que ainda existem comunistas no país. Juntos, o CPUSA e sua
irmã mais nova, a Liga Comunista Jovem dos Estados Unidos (YCLUSA, na
sigla em inglês), têm cerca de 3 mil membros cadastrados. Para mudar
este quadro, a YCLUSA inaugurou há duas semanas a Red School Bus Tour,
que oferece aulas gratuitas sobre comunismo de costa a costa.
"Temos aulas e debates sobre marxismo e o movimento político;
Construindo o movimento para mudar; A crise do capitalismo hoje; Classe
Trabalhadora e o Movimento Operário (...). E também muitas atividades
culturais, sociais e recreativas", enumera a propaganda no site da liga.
Transmitida ao vivo pela internet, a Red School Bus Tour é uma das
poucas novidades do site. A última edição da revista da liga saiu em
2008, o último post do blog é de 2009 e o último podcast, do ano
passado. No entanto, a página da YCLUSA no Facebook respira bem, com
mais de 900 fãs e posts sobre Che Guevara e Tania, a Guerrilheira.
"O futuro do partido é certo. Estamos envolvidos em todas as
principais lutas dos trabalhadores do país", garante o presidente do
CPUSA, Sam Webb, de 65 anos. Durante os protestos contra a redução de
direitos trabalhistas em Wisconsin, na semana passada, os membros do
partido foram convocados para participar das manifestações em suas
cidades. Em Washington, uma pequena multidão vestida de vermelho e
branco - em homenagem à Universidade de Wisconsin-Madison -, pedia
melhores condições de trabalho e o fim das desigualdades sociais. "É
inspirador ver esse povo vestindo vermelho e lutando por direitos
trabalhistas.
Queremos ver essa multidão crescer por todo o país",
comentou o manifestante russo Vlad Gurenko, que mora em Washington e
usava uma camiseta vermelha da aviação russa Aeroflot. Mas a procura no
ponto de partida do Red School Bus Tour, em Los Angeles, não chegou a
ser revolucionária. "Apareceram entre 20 e 30 pessoas. Mas, se somarmos
o público online, tivemos um total de cem alunos. E alguns deles
viraram membros no mesmo dia", garante o organizador nacional da liga,
Jordan Farrar, de 27 anos.
Filho de republicanos, Farrar acredita que o Partido Comunista passa
por um bom momento: "É encorajador ser um comunista nos Estados Unidos
hoje. Diferentemente do que a mídia capitalista acredita, nós somos
cada vez mais bem-vindos". Ele tem certa razão. Uma pesquisa do
Washington Post e da rede de TV ABC mostrou em janeiro que 36% do
americanos simpatizam com o socialismo, enquanto 35% simpatizam com o
ultra-conservador Tea Party. "O Tea Party é uma besta. Eu tenho grande
familiaridade com eles. Minha mãe é um deles e Lloyd Marcus, um
ativista notável do partido e cantor horroroso, é um velho amigo da
minha família. Minha mãe se casou no quintal dele", conta Farrar.
Até abril, a Red School Bus Tour vai passar pelos Estados de Texas,
Flórida, Michigan e Connecticut. Desde que a novidade foi anunciada, a
liga vem recebendo ameaças anônimas. "Se eu vir comunistas perto de
crianças, vou deixá-los com a cara vermelha!", escreveu no site da
YCLUSA um leitor, escondendo sua identidade sob um apelido impublicável.
Os ataques provocaram debates no site e na página da liga no Facebook.
Mas os anônimos anti-comunistas não são nada perto do inimigo que eles
tentam combater, como explica um dos professores do Red School Bus
Tour, o vice chairman do CPUSA, Jarvis Tyner: "Nossos inimigos são as
corporações e os bancos. São eles que fecham fábricas, cortam salários
e benefícios, e forçam as pessoas, especialmente os jovens, a trabalhar
por salários baixos ou entrar para a carreira militar a fim de ter uma
educação e uma renda".
Exatamente o mesmo inimigo desde 18 de setembro de 1919, quando um
dos fundadores do CPUSA, C. E. Ruthenberg, escreveu um documento
anunciando a criação do partido: "O Partido Comunista é um fato". Este
e outros milhares de documentos acabaram sendo doados para a Biblioteca
Tamiment, da Universidade de Nova York, há quatro anos. "Nem imaginava
que eles (comunistas) ainda existiam", disse o diretor da Tamiment,
Michael Nash, ao jornal The New York Times na época.
Reforma ecologicamente correta
Na ocasião, o partido precisava abrir espaço em sua sede para novos
inquilinos. Do prédio de oito andares no Chelsea, bairro nobre de
Manhattan, os comunistas habitam hoje apenas um andar. Os outros foram
alugados, inclusive a loja no térreo, onde ficava a livraria do
partido. Uma corretora de imóveis e uma loja de produtos de arte, entre
outros inquilinos, ajudam a reforçar o orçamento do partido,
possibilitando, há três anos, uma reforma 100% ecologicamente correta
na sede.
Ao custo de um milhão de dólares, a reforma fez o partido voltar à
mídia – ainda que por poucos dias. Balançando a bandeira da ecologia
com o slogan "Pessoas e Natureza antes dos Lucros", o CPUSA optou por
carpetes biodegradáveis, sensores de luz, tinta não-tóxica e janelas
imensas para aproveitar a luz natural. Mas sempre com a cor vermelha
prevalecendo na decoração.
Se agora eles vivem de doações dos membros e dos aluguéis, a
história era outra até o fim dos anos 80. Numa época em que os líderes
do partido ainda eram obrigados a usar codinomes para se protegerem, o
Kremlin enviava dinheiro regularmente. Entre 1971 e 1990, o CPUSA
recebeu, em segredo, 40 milhões de dólares.
O partido ainda tinha, naquela época, candidato a presidente dos
Estados Unidos. Gus Hall, um dos líderes mais famosos do partido,
concorreu à presidência quatro vezes (1972, 1976, 1980 e 1984), foi
apontado pelo FBI como um inimigo poderoso e ficou preso oito anos por
causa de seus ideais políticos. Em 1976, ele obteve o maior número de
votos da história do partido - cerca de 58 mil - e terminou em oitavo
lugar, entre os 17 candidatos. Desde a última candidatura de Hall, em
1984, o partido não teve mais candidato. "Eu vou poder me candidatar
quando completar 35 anos", conta, entusiasmado, o líder da YCLUSA, que
tem uma página no Facebook com o título "Jordan Farrar para presidente em 2020!".
A morte de Gus Hall, no ano 2000, poderia ter sido um divisor de
águas na história do CPUSA. Com mais de 30 anos no partido, Sam Webb
assumiu o cargo de presidente disposto a tirar os comunistas do
ostracismo nos Estados Unidos. Mas Webb, até agora, não conseguiu nada.
Não há nenhum representante do CPUSA entre senadores, deputados,
governadores ou prefeitos.
"Eleições a nível nacional dependem de muito dinheiro. A de 2012 vai
ser marcada por campanhas bilionárias e este é exatamente o problema
com o processo democrático num sistema capitalista. Nós somos uma
organização de trabalhadores e não temos o dinheiro que os partidos
Republicano e Democrata têm", lamenta Jordan, que termina a conversa
com a saudação "Viva Dilma!".
O momento, no entanto, não é dos piores. Com o fim da Era Bush, o
presidente Barack Obama assumiu o país contando ter tido um mentor
comunista nos anos 1970. Ele também apoiou a candidatura do senador
Bernard Sanders, que está desde 2006 no Capitólio, em Washington.
Sanders faz parte do Partido Independente e foi o primeiro socialista
declarado a assumir este cargo nos Estados Unidos. "É preciso
esclarecer que o senador Sanders se identifica com o Partido
Democrático Socialista da Escandinávia, que prioriza a educação e o
sistema de saúde", joga areia o porta-voz do político, Will Wiquist.
O CPUSA não tem hoje 80 mil membros, como aconteceu nos anos 30, nem
potenciais candidatos a cargos importantes. Mas ainda sobra otimismo.
As convenção nacionais do partido, que acontecem a cada quatro anos,
são uma prova disso. A mais recente foi realizada no ano passado, em
Nova York, e terminou com líderes veteranos e novatos cantando hinos
comunistas. Mais uma vez, ficou claro que a maior esperança do partido
repousa sobre jovens como Jordan Farrar.
"Estamos planejando um movimento de base para combater a crise
econômica e fazer crescer o Partido Comunista e a Liga Comunista Jovem.
Esta é nossa melhor contribuição para as eleições de 2012 e para
construir uma classe trabalhadora maior e um movimento popular de longa
duração", escreveu a líder do partido em Connecticut, Joelle Fishman,
num artigo publicado no site do CPUSA, há três semanas.
A boa notícia, para os simpatizantes do partido é que movimentos de
base bem estruturados costumam dar certo nos Estados Unidos. Não
importa o partido. Em 2008, a campanha que tirou os republicanos do
poder começou com um movimento de base dos democratas. Por outro lado,
no ano passado, os republicanos conseguiram vitórias surpreendentes por
causa do movimento de base do Tea Party.
A má notícia é que o Red School Bus Tour é a chave do movimento de base do CPUSA.





