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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A BATALHA DO RIO DE JANEIRO

Canso de repetir: a criminalidade é intrínseca ao capitalismo.

Porque as molas mestras do capitalismo são a ganância, a busca do privilégio e da diferenciação, e o consumismo.

Ter cada vez mais posses e recursos materiais.

Competir zoologicamente com os semelhantes, no afã de se colocar em situação superior à deles.

Mitigar todas as suas insatisfações adquirindo e desfrutando coisas.

E se relacionando com os outros seres humanos como se eles fossem também coisas a serem desfrutadas; coisificando-os, enfim.

Com isto, nunca é preenchido por completo o vazio da irrealização, sempre falta algo e sempre o que falta é mais importante do que o já conquistado. O homem moderno é um Cidadão Kane que nunca encontra o  rosebud.

Pois os seres humanos só se realizam plenamente na coexistência cooperativa, solidária, harmoniosa e amorosa com outros seres humanos.

O capitalismo é um sistema perverso, que se alimenta do desequilíbrio e da desarmonia.

Que não garante a todos o necessário para todos, embora meios haja para tanto.

Que gera sempre, como uma secreção, seu exército industrial de reserva, seus excluídos, seus miseráveis.

Eles são o resultado da mais-valia, que continua firme, forte e toda poderosa.

Apenas sofisticou-se, ocultando-se atrás dos hologramas projetados pela indústria cultural; o grande truque do diabo é fingir que não existe.

A mais valia continua dividindo a humanidade em exploradores e explorados.

Continua estabelecendo graduações entre os explorados, de forma que eles mirem apenas o degrau superior e não a sociedade sem graduações nem classes; que nunca vejam a floresta por trás das primeiras árvores.

O dado novo é que alguns dos que estavam bem embaixo perceberam a inutilidade de tentarem realizar seus sonhos consumistas subindo a escada, degrau por degrau.

Descobriram atalhos para passar ao lado dos degraus e chegar logo ao topo.

Ironia da História: o capitalismo passou à fase das corporações, da liderança compartilhada, tornando quase impossível que grandes empreendedores ergam impérios do nada (Bill Gates é uma exceção que confirma a regra), mas a criminalidade forneceu uma válvula de escape para tais indivíduos.

Pablo Escobar foi o Henry Ford dos novos tempos. E outros não conhecemos porque os néo-Escobares perceberam que não lhes convinha alardear seu poderio.

Mas, a brecha que existiu era provisória e começa a ser fechada: também nesta modalidade de negócios o capitalismo selvagem está sendo substituído por práticas criminosas mais eficientes, com melhor relação custo-benefício.

Vale reproduzir a ótima avaliação de Luiz Eduardo Soares, ex-secretário nacional de Segurança Pública (2003) e ex-coordenador de Segurança, Justiça e Cidadania do RJ (1999/2000), no seu artigo A crise no Rio e o pastiche midiático:
"O modelo do tráfico armado, sustentado em domínio territorial, é atrasado, pesado, anti-econômico: custa muito caro manter um exército, recrutar neófitos, armá-los (nada disso é necessário às milícias, posto que seus membros são policiais), mantê-los unidos e disciplinados, enfrentando revezes de todo tipo e ataques por todos os lados, vendo-se forçados a dividir ganhos com a banda podre da polícia (que atua nas milícias) e, eventualmente, com os líderes e aliados da facção.

"Quando o tráfico de drogas no modelo territorializado atinge seu ponto histórico de inflexão e começa, gradualmente, a bater em retirada, seus sócios – as bandas podres das polícias - prosseguem fortes, firmes, empreendedores, politicamente ambiciosos, economicamente vorazes, prontos a fixar as bandeiras milicianas de sua hegemonia.

"Discutindo a crise, a mídia reproduz o mito da polaridade polícia versus tráfico, perdendo o foco, ignorando o decisivo: como, quem, em que termos e por que meios se fará a reforma radical das polícias, no Rio, para que estas deixem de ser incubadoras de milícias, máfias, tráfico de armas e drogas, crime violento, brutalidade, corrupção?
"O modelo policial foi herdado da ditadura. Ele servia à defesa do Estado autoritário e era funcional ao contexto marcado pelo arbítrio. Não serve à defesa da cidadania. A estrutura organizacional de ambas as polícias [a civil e a PM] impede a gestão racional e a integração, tornando o controle impraticável e a avaliação, seguida por um monitoramento corretivo, inviável".
No fundo, os traficantes dos morros sempre foram complementares ao capitalismo e dele indissociáveis, fornecendo aquilo de que muitos explorados necessitam para continuar suportando sua existência insatisfatória.

Mas, o seu  modelo de gestão  caducou e outros  empreendedores, que já eram seus sócios, estão prontos a substitui-los com mais discrição e eficiência empresarial: os policiais-bandidos.

Desesperados por perceberem que perdiam terreno dia a dia, partiram para um desafio insensato, atingindo um dos valores mais sagrados da classe média: o automóvel.

Foi o suficiente para desencadear uma bestial demonstração de força do Estado, com seu poder de fogo infinitamente superior.

Morreram muitos inocentes no fogo cruzado, o cidadão comum sofreu prejuízos e enfrentou transtornos, a indústria cultural faturou em cima das manchetes empolgantes, traficantes foram presos ou mortos -- e a única certeza é de que empresários mais aptos herdarão os negócios dos que estão sendo excluídos do mercado.

De quebra, a mentalidade policialesca ganha reforço e penetra mais fundo na cabeça dos videotas: a repressão é o que nos salva de termos nossos carros queimados!

E dá-lhe mais repressão, mais tropas de elite! A fascistização da sociedade vai avançando imperceptivelmente, naturalmente.

Antes, gatos escaldados por 1964, os mais sensatos queriam as Forças Armadas longe das questões sociais, defendendo apenas o Brasil dos seus inimigos externos.

Agora, já se aplaudem os blindados da Marinha subindo o morro.

Como tantos aplaudiram a defesa da tortura e das truculências policiais num filmeco repulsivo.

De toda essa tempestade de som e fúria, o que restará?

O Estado venceu, como era de se prever, a  Batalha do Rio de Janeiro.

Que só não foi de Itararé porque houve mortos e feridos. Mas, não decidiu guerra nenhuma.

Decidiria se os traficantes vencessem. Mas, eles nunca venceriam. Nem aqui, nem na Colômbia que os pariu. Pelo contrário, para eles significou o canto do cisne.

O Estado não quer, verdadeiramente, acabar com o tráfico. Consentirá que, aos poucos, reassuma a antiga magnitude, sob nova direção e com outra metodologia operacional.

Só teremos solução real quando: 
  • identificarmos o capitalismo como o verdadeiro inimigo, oculto por trás dos espantalhos que ele, em cada instante, tenta fazer crer que sejam responsáveis por todos os males. Escobar, Castro, Bin-Laden, Saddam, Chávez, Ahmadenijad, há sempre um na berlinda, sem que nada melhore quando sai de cena, pois a indústria cultural imediatamente o substitui por outro, para que as ilusões e a alienação sejam mantidas;
  • e, consequentemente, quando nos mobilizarmos para dar um fim ao capitalismo, antes que -- condenado pela História e cada vez mais devastador em sua agonia -- seja ele a nos levar juntos para a destruição, ao aniquilar as bases naturais que sustentam a vida humana no planeta.

Paulo Freire

Diálogo con Paulo Freire


Esther Pérez y Fernando Martínez Heredia • La Habana

Paulo Freire nació en 1921. O, como él mismo dice, “poco después del triunfo de la Revolución de Octubre”. Joven aún, pero casado ya con Elza, su compañera a lo largo de 40 años, comenzó a dirigir el Sector de Educación del Servicio Social de la industria en Recife. De su experiencia en esa institución a dicho Freire: “Me fui espantado y tratando de comprender la razón de ser del espanto [...] aprendiendo, de un lado, a dialogar con la clase trabajadora, y de otro, a comprender su estructura de pensamiento, su lenguaje, a entender lo que yo llamaría la terrible maldad del sistema capitalista”. Allí, sin llamarla aún así, comenzó a hacer y a pensar la educación popular.
A principios de la década de los 60, en Río Grande do Norte, Freire concibió y comenzó a aplicar su método de alfabetización, basado en la comprensión del lenguaje popular y en el descubrimiento y la discusión de temas políticos, económicos, sociales e históricos relevantes para los que se alfabetizan. Una gran cantidad de educadores comprometidos con la causa popular acogió y comenzó a profundizar en la práctica esta propuesta pedagógica.
En junio de 1964, poco después del golpe militar en Brasil, Paulo Freire fue apresado por el ejército. De ahí saldría para el exilio en Chile y Europa, compartiría sus experiencias de educador trabajando en diversos países (Guinea-Bissau, Angola, Cabo Verde, São Tomé y Príncipe, Granada, Nicaragua).
Poco después de concluir este doloroso y fecundo exilio, Paulo Freire nos visitó como invitado al Congreso de Psicología celebrado recientemente en Cuba[1]. En esta primera estancia en nuestro país, nos concedió esta entrevista que fue más aun: un diálogo fraterno en que se abordaron algunos de los puntos fundamentales de su pensamiento y sus reflexiones más actuales.
Hacer una entrevista a quien ha dicho que no hay pregunta tonta ni respuesta definitiva resulta tranquilizador.
¿Dónde fue que dije eso? ¿Lo recuerdas?
En una intervención durante un Congreso de Educación Popular celebrado en Buenos Aires, donde exigió que lo llevaran a oír tangos.
Exacto, exacto.
Me pregunté qué exigiría usted cuando llegara a La Habana.
He venido con tan poco tiempo esta vez que no me ha alcanzado ni para plantear exigencias. Solamente he querido conocer personas y crear amistades. Creo que pueden darse cuenta de lo que significa para mí, un brasileño, un hombre de ideas —aunque conserve ciertas ingenuidades de interpretación— que hizo una opción a favor de las clases populares, llegar a Cuba por primera vez. Creo que entienden la emoción que siento al pisar un suelo donde no hay un niño sin escuela, donde no hay nadie que no haya comido hoy. Como ustedes dos son de la generación que casi nació con la Revolución, quizá no comprendan la emoción que siento yo, que nací hace muchísimo tiempo, un poquito después de la Revolución de Octubre. Comparar, por ejemplo, esta realidad con la gente de mi país que no comió hoy, que no comió ayer, que no comió antes de ayer y que no va a comer mañana; la cantidad de niños que murieron hoy, que están muriendo ahora, y saber que estoy en una tierra donde nadie muere de hambre, donde hay una solidaridad en la posibilidad histórica, donde no hay una riqueza que te hiera ni una pobreza y una miseria que te humillen. Para mí es una emoción inmensa. Yo les confieso que lo único que me hace sufrir hoy en La Habana es no estar aquí con Elza, que fue mi mujer, mi amante, la profesora de mis hijos, la abuela de mis nietos. Fue mi educadora y amaba a Cuba. Pero no hay que llorar, hay que cantar la alegría de estar en Cuba. La amabilidad de los cubanos es increíble. Es la amabilidad que nace de la alegría, de la felicidad. Sentí una gran emoción ayer al oír a Fidel, que hablaba como político y como pedagogo. Su discurso estaba lleno de pedagogía, de esperanza, de realidad[2]. Yo creo que vine en un buen momento, aunque me pregunto cuál es el momento malo para venir a Cuba. Ese momento no existe.
Creo, sin embargo, que este es un momento especialmente bueno por más de una razón. Primero, por el enorme interés que están despertando en Cuba las posiciones de los cristianos, las comunidades eclesiales de base y su creciente importancia en diversos puntos de la América Latina, y las experiencias de la educación popular. Pero, además, porque estamos viviendo un proceso autocrítico del conjunto de la sociedad que, por supuesto, pasa por la educación. No sé si sabe que durante el último Congreso del PCC y el último de la UJC la educación fue un tema muy debatido[3]. Después de la Campaña de Alfabetización, que fue el hecho cultural más grande de la Revolución...
¡Exacto! Y para mí, la Campaña de Alfabetización de Cuba, seguida años después por la de Nicaragua, constituye uno de los más importantes hechos de la historia de la educación en este siglo.
Después de la Campaña, Cuba consiguió hacer masiva su educación; que, como usted decía, no haya niños sin escuelas, que ningún adulto que quiera estudiar no pueda hacerlo. Hemos estimulado fuertemente la educación de los adultos. Y, sin embargo, la educación cubana atraviesa en estos momentos un período autocrítico.
En otras palabras, está siendo reestudiada. Mira, yo percibía ayer en el discurso de Fidel toda la cuestión de la rectificación. Creo que es extraordinariamente importante la cuestión de la dimensión de humildad que creo que tiene que tener una revolución. En el momento en que una revolución no reconoce probables errores cometidos, se pierde, porque se piensa a sí misma hecha por santos. Precisamente porque son hechas por hombres y mujeres, y no por ángeles, las revoluciones cometen errores. Lo fundamental es reconocer probables errores y rectificarlos. El empuje hacia la rectificación es la prueba de la vitalidad. Es la humildad necesaria que una revolución tiene que tener. Y creo que esto es aplicable a la educación: es necesario revisar la práctica educativa para encontrar aquella que se corresponda más adecuadamente con el proceso revolucionario.
Uno de los grandes problemas que una revolución tiene en su transición, en sus primeros momentos de vida, consiste en que la historia no se hace mecánicamente; la historia se hace históricamente. Esto significa que el cambio, las transformaciones introducidas por la revolución en su primer momento —en la medida en que se empieza a salir del modo de producción capitalista—, las relaciones sociales adecuadas al nuevo modo de producción, no se construyeron de la noche a la mañana. Se cambia el modo de producción y lo que hay de superestructural en el dominio de la cultura, incluso del derecho, y sobre todo de la mentalidad, de la comprensión del mundo —de la comprensión del racismo, por ejemplo, del sexo—; la ideología, en fin, queda 20 años por detrás del modo de producción cambiado, porque está forjada por el viejo modo de producción, que tiene más tiempo histórico que el nuevo modo de producción socialista.
Si la cuestión histórica fuera mecánica, yo ya habría hecho la revolución en Brasil. Yo no, claro, yo ayudaría a los Lula a hacer la revolución. Pero no es un proceso mecánico, sino histórico.
Uno de los grandes problemas que tiene una revolución en su transición, que a veces es muy prolongada, es el siguiente: la vieja educación, de naturaleza burguesa, llena de ideología burguesa, obviamente no responde a las necesidades nuevas, a la nueva sociedad aún no creada; la nueva sociedad comienza a crearse, por supuesto, durante el proceso de movilización popular, de organización popular para la revolución. Ahí empieza la creación de la nueva sociedad, pero esta todavía no tiene un perfil definido a no ser teóricamente. Lo que sucede es que, llegada al poder, la revolución se enfrenta a la permanencia de residuos de la vieja ideología, a veces hasta dentro de nosotros los revolucionarios, que estamos marcados, invadidos, por la ideología dominante, que se aloja en nosotros mañosamente. Lo que pasa entonces es que en el momento de la transición, la educación tiene poco que ver —no quiero decir “no tiene nada que ver”, para no parecer demasiado exigente— con el proceso de construcción de la nueva sociedad, del nuevo hombre y la nueva mujer.
Hay que hacer una nueva escuela. Y el problema reside precisamente en que la nueva educación necesita de la nueva sociedad, y esa sociedad no está todavía parida. Hay un momento de perplejidad. El educador dialéctico, dinámico, revolucionario tiene que enfrentar los obstáculos que su propio proyecto pedagógico, más revolucionario que lo que la media piensa que debería ser, le crea; en esta fase de transición —la he estudiado, no en los libros, sino a nivel de experiencia personal...
En Guinea-Bissau, por ejemplo.
En Guinea-Bissau, en Granada. Allí conversé durante seis horas con Maurice Bishop y leí posteriormente la reflexión de Fidel acerca de los errores cometidos. Y también en Angola, São Tomé, antes en Chile, en un proceso diferente. Y en Nicaragua. He andado por todas esas tierras, y afortunadamente invitado por las revoluciones, grandes y medias; no importan los tamaños de las revoluciones, lo que importa son los ímpetus revolucionarios. Por eso me dediqué a pensar un poco sobre estos problemas. Y lo que pasa es que siempre ocurre esto. No es casual que las universidades sean las últimas fortalezas en convertirse a la revolución. Están cargadas de la ideología anterior, son mantenedoras de la ideología anterior. Y lo peor es que a veces nosotros los revolucionarios sostenemos la ideología anterior.
Hay contradicciones fantásticas, por ejemplo, entre la escuela y la revolución en una transición revolucionaria. La escuela, al mismo tiempo que sueña con un empuje hacia una formación más profunda del alumnado, repite procedimientos característicos y adaptados a la pedagogía de la clase dominante. Es que en el fondo guardamos en nosotros, contradictoriamente, las marcas ideológicas, la posición de clase con que nacemos. Pero hay que ser un buen marxista para entender estas cosas. Y no se trata de ser muy estudioso, muy lector, sino de tener una buena sensibilidad de la importancia de la carga, de la fuerza, del peso de la ideología. La ideología es material, no es solamente ideal. Tiene peso, tiene fuerza.
Entonces, yo creo que uno de los grandes desafíos de los educadores revolucionarios es lograr la transición entre la escuela que sirvió bien a la clase dominante antes de la revolución, y la escuela que ha de servir bien a las clases populares, a la sociedad ahora; y esa transición se hace revolucionándose, superando las marcas más fuertes de la tradición anterior. Una escuela revolucionaria tiene que ser una escuela de alegría, pero no de irresponsabilidad. Es como el trabajo y la vida en el hogar. Yo tengo que despertar contento, porque voy al trabajo, y regresar feliz, porque vuelvo a la casa. Si no construyo esto con mi compañera, si no construyo esto en el trabajo, es que hay algo errado. La escuela, igualmente, tiene que ser un espacio y un tiempo de satisfacción. El acto de conocer que la escuela debe hacer, debe crear, debe estimular, no puede ser un acto de tristeza ni de dolor solamente. Y es obvio que conocer demanda sufrimiento, pero hay en la intimidad, en el movimiento interno del acto de conocer, una alegría, que es la alegría de quien conoce. La escuela tiene que crear esto; crear una disciplina seria, rigurosa, pero que no olvide la satisfacción. Y estas cosas no pueden ocurrir en la transición revolucionaria “de frentón”, como dicen los chilenos. Esas cosas son rehechas. Por eso me siento muy contento cuando me dices que uno de los temas centrales del Congreso del PCC fue exactamente la pedagogía, es decir, la práctica educativa en Cuba, y hasta qué punto es posible revolucionariamente hacerla más dinámica, más creativa. Yo no tengo duda alguna de que la escuela es importante, la escuela es fundamental; no hay que superar, no hay que suprimir la escuela. Pero hay que hacerla un espacio-tiempo de alegría, de satisfacción y de saber, y, por tanto, de disciplina. No puede ser un espacio de irresponsabilidad. Pero tampoco debe ser, sobre todo en una revolución, un espacio de autoritarismo. Hay que encontrar exactamente los caminos de la creatividad de los alumnos, de los niños y las niñas, un camino de libertad. La revolución se hace, precisamente, porque no hay libertad.
Para mí las experiencias de ustedes en Brasil consisten precisamente en crear espacios de libertad en un contexto en el que no está dada. Esto, indudablemente, requiere por parte de ustedes de una creatividad enorme. Leía, por ejemplo, de las experiencias de Betto para, según sus palabras, “dotar de la palabra” a las personas que no cuentan con ella...
Exacto extraordinario…
Comienza por demostrarles a las personas que tienen boca.
Yo quedé absolutamente emocionado al oír a Betto en el libro que “hablamos” juntos. Y admirado de la creatividad de Betto, que es extraordinaria. Un educador sin capacidad de creación no puede trabajar. Por otra parte, quedé espantado de la necesidad de hacer aquello. A ciertos niveles de dominación los hombres y las mujeres se ven a tal punto disminuidos que casi se objetivan, como señalara Marx, casi se transforman en cosas.
Me resulta muy interesante tratar de vincular estas experiencias de ustedes con nuestra realidad, que es radicalmente diferente. Me hacía pues la siguiente pregunta: ¿Qué es la educación popular? Confundirla con educación de adultos resulta una reducción enorme, ¿no es cierto? Se trata de una concepción completamente diferente de la escuela, de la enseñanza, del aprendizaje. ¿Se trata de dotar al pueblo de aquello con lo que contó y cuenta la burguesía, es decir, una pedagogía, una universidad, una escuela? ¿Cómo vincular estas cosas, entonces, con la realidad de una revolución en el poder, con su necesidad de extender la educación con los medios a su alcance al total de la población? Me parece que su experiencia de vida lo hace una persona especialmente capaz para responder esta pregunta, porque comenzó usted en Brasil con la experiencia de alfabetización, pero se dio cuenta de que la alfabetización era un momento. Y después, tras la desgracia del exilio, tuvo la suerte de participar en proyectos educativos en varias partes del mundo en disímiles condiciones. Su experiencia en Guinea-Bissau, en Granada, en Angola, en Nicaragua, tiene que haberle dado una idea de los problemas que enfrenta la revolución en el campo educativo tras el advenimiento de las clases populares al poder.
Es un momento difícil que demanda de los educadores una enorme capacidad creadora; y demanda una virtud que yo vi en Amílcar Cabral. A mí, en este siglo, hay tres revolucionarios que me han impresionado.
Voy a citarlos a los tres, aunque esté siendo injusto con otros, y sé que hay montones de otros revolucionarios. Pero yo me quedaría con dos muertos y uno vivo que me llenan de esperanza, de fe, de humanismo, en el sentido no burgués de la palabra. Los dos muertos son Amílcar y Che. Y el vivo es Fidel. A estos tres símbolos acostumbro a llamarlos “pedagogos de la revolución”, y establezco una diferencia entre el pedagogo de la revolución y el pedagogo revolucionario. Yo hago un esfuerzo fantástico para ser un pedagogo revolucionario, y no sé si lo soy todavía, pero lucho para serlo. El pedagogo de la revolución es esto que ustedes tienen aquí, es Fidel. Amílcar lo fue también. Yo estoy escribiendo un ensayo sobre él con este título: “Amílcar Cabral, pedagogo de la revolución”. Che Guevara fue también un pedagogo de la revolución.
Yo considero que los pedagogos revolucionarios, que tienen tanta responsabilidad como los pedagogos de la revolución, que no pueden traicionar a la revolución, como decía Fidel anoche, en una dimensión menor tienen que asumir con absoluta responsabilidad su tarea, que no es nada fácil. Esa tarea se desarrolla en los primeros años de la transición. Y no me refiero a los primeros diez años, o 20 años; creo que el tiempo de una revolución no se mide en décadas. El hecho de que la Revolución Cubana tenga casi 30 años, no significa que está hecha: nunca estará hecha. Eso es lo que pido: que nunca esté hecha, porque una revolución que está hecha yerra; cuando no está siendo, ya no es. La revolución tiene que ser como decía ayer Fidel. Esta comprensión de la revolución es sustantivamente pedagógica. Pero tiene que ser encarnada pedagógicamente en métodos coherentes. Ahí está la revisión —no en el sentido peyorativo que esta palabra tiene—, la recreación, que la práctica educativa tiene que estar sufriendo siempre.
Porque la práctica educativa tampoco puede ser: para ser, tiene que estar siendo. Yo tengo que cambiar, yo tengo que marchar como educador y como político. Entonces, los métodos, las técnicas tienen que estar al servicio de los contenidos. Primero en relación con los contenidos, segundo en relación con los objetivos. Y en estos momentos de transición revolucionaria, que son los más difíciles, precisamente por la carga que arrastramos del período anterior, de las experiencias en que fuimos formados y deformados, hay que desarrollar, incentivar, estimular una curiosidad incesante. La pregunta es fundamental. Yo tengo un libro reciente, realizado en colaboración con un chileno exiliado, que se llama Hacia una pedagogía de la pregunta[4].
Una de mis preocupaciones actuales es que la educación nuestra está siendo una educación de la contestación, de la respuesta, y no de la pregunta. Entramos en la clase, sean los alumnos niños o jóvenes, empezamos a responder a preguntas que ellos no han hecho. Y lo peor es que a veces ni siquiera sabemos quiénes hicieron las primeras preguntas fundamentales de las que resultaron las respuestas que estamos dando. Estamos dando respuestas a preguntas antiguas y no sabemos quiénes las hicieron. Y es como si estuviéramos empezando un discurso, y de hecho estamos dando respuestas. Yo propongo lo contrario: una pedagogía de la pregunta. No tengo duda alguna de que la mujer y el hombre, al empezar a no ser solamente animales, al transformarse en este tipo de animal que somos, lo hicieron preguntando. Se engendraron socialmente preguntando. Cuando no se hablaba todavía el lenguaje que hoy tenemos, el cuerpo ya preguntaba. En el momento en el que se hicieron humanos, el hombre y la mujer prolongaron sus brazos en un instrumento que les sirvió para seguir conquistando el mundo, y con el cual consiguieron su estabilidad y su alimento. En ese momento, independientemente de que si hablaban o no, ya se preguntaban y preguntaban. Entonces, desarrollar una pedagogía que no pregunte, sino que solo conteste preguntas que no han sido hechas, parece herir una naturaleza histórica, no metafísica, del hombre y de la mujer. Por eso defiendo tanto una pedagogía que, siendo conceptual, sea también una pedagogía dialógica, entendiendo que el diálogo se da entre diferentes e iguales.
Me parece que se trata de una pedagogía profundamente respetuosa, de una pedagogía que tiene un respeto profundo por los considerados tradicionalmente ignorantes, no poseedores de conocimientos “que no valen la pena”, poseedores de conocimientos “que no hay que aprender”.
Exacto, exacto. Te acuerdas ahora de las conversaciones mías con Betto, cuando él se refiere a una mujer que sentía inseguridad, porque pensaba que no sabía nada. Él le preguntó quién resolvería mejor su vida perdido en un bosque: un médico que ha pasado por la universidad y no sabe cocinar, o ella, que sabe matar una gallina. Esta afirmación tuya me lleva a una cuestión fundamental de la educación popular y a una reflexión fundamental de carácter político-filosófico. Se trata de la cuestión del sentido común y el saber riguroso, en otras palabras, de la relación entre sabiduría popular y conocimiento científico o académico.
Hablabas de mi respeto a este saber de experiencia que tiene el pueblo, y yo insisto en ese respeto. Incluso insisto en que la educación popular tiene ahí su punto de partida, pero nunca su punto de llegada. Jamás dije que los educadores populares progresistas (y en Cuba diría los educadores populares revolucionarios, porque progresista es la forma que tiene de ser un educador revolucionario en un país todavía burgués; yo me considero en Brasil un educador popular progresista, y tengo la osadía de decir que si viviera en Cuba, yo sería un educador revolucionario; si fuera cubano, y aun siendo brasileño, porque soy también cubano, por el amor que le tengo a esta revolución, a este pueblo, a esta valentía, que históricamente fue posible y ustedes hicieron posible). Pero volviendo a la cuestión, estoy absolutamente convencido de que si bien el educador progresista y revolucionario no puede alojarse en el sentido común y quedar satisfecho con eso en nombre del respeto a las masas populares, tampoco puede olvidarse de que ese sentido común existe. No se puede negar su nivel de saber. Hay que saber incluso que el conocimiento científico un día fue ingenuo también y hoy día sigue siendo ingenuo. La sabiduría científica, la ciencia, no es un a priori, sino que se hace históricamente, tiene historicidad. Eso significa que el saber científico, riguroso, exacto, de hoy no será necesariamente el de mañana. Lo que sabíamos hace 20 años de la luna fue superado por lo que se sabe hoy.
Cuando yo afirmo que es partir de la sabiduría popular, de la comprensión del mundo que tienen los niños populares, su familia, su pueblo, que debe comenzar la educación popular, no estoy diciendo que es para quedarse ahí, sino para partir de ahí y así superar las ingenuidades y las debilidades de la percepción ingenua.
A esto llamaba usted en sus primeros escritos “concientización”.
Exacto. Pero probablemente en mis primeros escritos, al llamarla concientización, cometía un error de idealismo, que se encuentra fácilmente en mi primer libro. Consiste en lo siguiente: le daba tanto énfasis al proceso de concientización que era como si concientizando acerca de la realidad inmoral, de la realidad expropiadora; ya se estuviera realizando la transformación de esta realidad. Eso era idealismo.
Eso es lo que se encuentra en La educación como práctica de la libertad.
Exacto. Es ahí donde está la gran fuente de los momentos idealistas que marcaron el comienzo de mi madurez. Yo soy un escritor tardío. He hablado mucho, soy un hombre de mi cultura. La cultura brasileña es todavía de memoria oral. Por eso hablé mucho antes de escribir. Y sigo hablando mucho. Soy más un productor oral que un escritor. Pero me gusta lo que escribo, también me gusta. Cuando escribo, lo hago como si estuviera hablando. Mi leer es mi escuchar.
Pero la cuestión que se plantea —y esto es muy importante en la teoría del currículum, por ejemplo— es que hay que conocer cómo el pueblo conoce, hay que saber cómo el pueblo sabe. Hay que saber cómo el pueblo siente, cómo el pueblo piensa, cómo el pueblo habla. El lenguaje popular tiene una sintaxis, una estructura de pensamiento, una semántica, una significación de los significados que no puede ser, que no es igual a la nuestra, de universitarios. Y hay que conocer esto. Hay que vivir todas estas diferencias en las escuelas de niños populares. Imagínate que un niño popular brasileño, por ejemplo, que escribe un trabajito en su escuela en el primer grado y usa una sintaxis de concordancia estrictamente popular, escriba “A gente chegamos”, y la profesora lo tacha con un lápiz rojo y le dice: “Equivocado”. Esto es un absurdo. Es como si mañana tuviéramos una revolución popular en Brasil y mi nieta llegara a mi casa y me dijera: “Mira, abuelo, yo no entiendo nada. Escribí ‘A gente chegou’ y la profesora me lo tachó y escribió ‘A gente chegamos’ ”. Y ella me diría: “Mira abuelo, tú dices ‘A gente chegou’. Y mi madre, mis hermanos, mis vecinos —los vecinos son de ‘clase’—, mis amigos dicen ‘A gente chegou’. Yo no comprendo nada”[5]. Hace 480 años que hacemos esto contra el pueblo en Brasil. Esto crea problemas que no son estrictamente lingüísticos, sino de personalidad, de estructura de pensamiento. Si tú me preguntas: “Paulo, ¿y te parece entonces justo, legítimo, que las masas populares no aprendan, no aprehendan, la sintaxis llamada erudita?”, yo te respondería: No, es necesario que la aprendan, pero como un instrumento de lucha. Las masas populares brasileñas, los niños populares, tienen que aprender la sintaxis dominante para poder luchar mejor contra la clase dominante. No porque sea más bella la sintaxis dominante, no porque sea mejor y más correcta, porque yo te diría un poco enfáticamente que el lenguaje popular, tanto allá como acá, es muy rico, precisamente por el uso de las metáforas, de la simbología. El lenguaje popular es mucho más poético, porque necesita ampliar el vocabulario y lo hace a través de la metáfora. No quiero parecer populista, sino defender el derecho que el pueblo tiene a ser respetado en su sintaxis y en su estructura de pensamiento. Y en segundo lugar, defender el derecho del pueblo a aprender y aprehender la sintaxis dominante para poder trabajar mejor políticamente contra los dominantes. Esta es una de mis luchas.
Y yo encuentro que esto tiene que ver con la escuela revolucionaria, con la escuela en Cuba. Una pedagogía revolucionaria en Cuba —y no me estoy refiriendo a lo que se hace en Cuba, sino a lo que creo que se debe hacer en cualquier sociedad que hace una revolución— tiene que ser una pedagogía que siendo viva, dinámica, provoque, desafié a los niños, a los adolescentes, a los jóvenes en la universidad para lograr la creatividad, el riesgo. ¿Cómo hacer una pedagogía revolucionaria que no se fundamente en el riesgo? Sin correr riesgos es imposible crear, es imposible innovar, renovar, revivir, vivir. Y por ello el diálogo es arriesgado, porque la posición dialógica que se asume frente a los alumnos descubre los flancos, abre el espacio del profesor. Puede que el profesor resulte investigado por el alumno y puede que no sepa. Y hay que tener la valentía de decir simplemente: “Aunque yo sea diferente a ti como profesor, yo no sé esto”. Y es reconociendo que no se sabe que se puede empezar a saber.
Volviendo atrás. Al inicio, entonces, concebía usted la concientización como el paso de la conciencia ingenua a la conciencia crítica. Después introdujo usted el concepto de —no conozco si existe la palabra en español― la “politicidad de la educación”.
Así es. Y si no existe la palabra habría que crearla. La politicidad de la educación reforzaría la comprensión de la concientización.
¿Qué cosa es la politicidad de la educación?
Hoy hablé mucho de eso con los psicólogos. En términos simples: si los que estamos sentados alrededor de esta mesa salimos de aquí con ayuda de la imaginación, nos situamos frente a una clase y empezamos a analizar la práctica docente que se realiza ―imaginemos que se trata de una profesora de primero, segundo o tercer grado— y comenzamos a preguntamos sobre lo que pasa en el aula, inmediatamente captamos determinados elementos constituyentes de la práctica con respecto a la cual estamos tomando una distancia para poder conocerla. Descubrimos que no hay práctica educativa sin profesor; que no hay práctica educativa sin enseñanza; que no hay práctica educativa sin alumnos; que no hay práctica educativa sin objeto de conocimiento o contenido. Hacen falta muchísimas otras cosas, pero vamos a quedamos con estas.
En el momento en que se comprueba que toda práctica educativa es un modo de enseñanza; que el profesor enseña alguna cosa que debe saber, y por tanto que debe haber conocido antes de enseñar y que debe reconocer al enseñar, uno comprende que toda práctica educativa es cognoscitiva, que supone un acto de conocimiento, que no hay práctica educativa que no sea una cierta teoría del conocimiento en práctica. Pero uno se pregunta: ¿qué conocer en la práctica educativa? Y esta pregunta lleva directamente a la cuestión del currículum, a la cuestión de la organización programática de los contenidos en la educación, en el campo de la Biología, de la Sociología, de la lengua, de los Estudios Sociales. Hay un conjunto de contenidos, de programas, que se relacionan, y lo ideal es conseguir cierta interdisciplinariedad.
Pero en el momento en que uno se pregunta sobre qué conocer, cuando uno se sitúa frente a los contenidos, a los programas, uno de inmediato se plantea: ¿a favor de quién se conoce esto?, ¿a favor de qué? Y cuando uno se pregunta ¿qué hago yo como profesor?, ¿a favor de quiénes trabajo?, ¿a favor de qué trabajo?, hay que preguntarse de inmediato: ¿contra quiénes trabajo?, ¿contra qué trabajo? Y la contestación de esa pregunta pasa por la calidad política del que se la plantea, por el compromiso político del que la hace. En ese momento se descubre eso que llamo la politicidad de la educación, la cualidad que la educación tiene de ser política. Esto es, ni hubo nunca, ni habrá, una educación neutra. La educación es una práctica que responde a una clase, sea en el poder o contra el poder. Esto es la politicidad. Si lees nuevamente el primer libro mío tú no descubres esto. Y ahí estaba unas de mis debilidades, una de mis ingenuidades. Mi alegría es que soy capaz de reconocer mis debilidades. Por eso es que no me parece correcto que me hagan críticas basadas en un libro, cuando he escrito más de 14. O si no, hay que decir que se está criticando solo el primer libro, pero eso no quiere decir que se está criticando el pensamiento de Paulo Freire. Para eso, hay que leer toda mi obra, todas mis entrevistas, todo lo que he hecho, porque si no, no es correcto. Recientemente, una muchacha que vivió largo tiempo en la revolución de Nicaragua y que pasó cuatro horas conmigo en Brasil, publicó una entrevista con una introducción en la que hacia una crítica a las críticas a Paulo Freire. Y publicó un libro muy lindo donde muestra el error de mucha gente.
¿Es Rosa María?
Sí, Rosa María Torres. ¿Tienen el libro? ¿No? Ahora que he venido les voy a mandar la colección completa de mis obras y de críticas sobre mi obra, las buenas y las malas[6].
Excelente. Tengo dos cosas más que quería precisar. La primera: ¿diría usted que la educación popular en su práctica y en su teoría es el intento de hacer una pedagogía de las clases populares en contra de una pedagogía de la burguesía?
Exacto, exacto. Tu pregunta contiene mi respuesta. A Rosa María, cuando me preguntó esto con otra formulación, le dije que la educación popular es algo que se desarrolla en la interioridad del esfuerzo de movilización y de organización de las clases populares para la toma del poder; su propósito es la sistematización de una educación nueva e incluso de metodologías de trabajo diferentes a las burguesas.
Pero ahora podrías hacerme otra pregunta que me adelanto a formular: “Paulo, ¿piensas que todo lo que la burguesía ha hecho está equivocado?” La respuesta es “no”. Otra cosa sería errónea, estrecha. Nunca olvido las afirmaciones de Amílcar Cabral sobre la cultura. Él les decía a sus compañeros de lucha en Guinea-Bissau —y no lo estoy citando literalmente—: “la cuestión no es la negación absoluta de las culturas extranjeras, sino la aceptación de las cosas adecuadas a nuestra sociedad”.
Eso lo dijo Martí de una manera muy bella. Dijo: “injértese en nuestras repúblicas el mundo; pero el tronco ha de ser el de nuestras repúblicas”.
¡Exacto! Entonces, mira, no se puede negar la importancia de los movimientos de la escuela nueva que han surgido paso a paso con el desarrollo de la revolución industrial y que no pueden ser reducidos a una sola experiencia de escuela nueva. Hay varias expresiones de escuelas nuevas en el movimiento general grande, en el que se encuentran desde la locura maravillosa de un Ferrer, español, anarquista, que influyó extraordinariamente sobre la educación en Nueva York, y en Brasil también a comienzos de este siglo. Ferrer fue asesinado por el estado español en 1910. Estas experiencias, repito, van desde Ferrer hasta posiciones más intermedias como la de Montessori, basada en la idea de la libertad. O la exageración de la escuela de Hamburgo, con sus maestros camaradas, que eran todos iguales a los alumnos, con lo cual se llegaba casi a la irresponsabilidad, pero que era, al mismo tiempo, una cosa muy linda. Yo no estoy a favor de esto, pero lo que quiero decir es que no se puede hacer una crítica general y estrecha. Eso no sería científico, no lo acepto, creo que es ideológico. Y no se trata de que crea que la ciencia no tenga ideología, porque la tiene, pero quiero más ciencia que ideología, respetando el valor y la fuerza de la ideología cuando se trata de la ideología proletaria.
Pero volviendo a tu pregunta, te digo más que antes. Creo que si uno parte hacia la educación popular sin la intención de construir una pedagogía de las clases populares, tarde o temprano va a descubrir que ella aparece en su práctica. A partir de ahí, o desiste, o sigue adelante. Esto no significa, sin embargo, que la creación de una pedagogía popular niegue los avances logrados por la pedagogía burguesa.
Pero por otra parte, no pienso que incluso la pedagogía que pudiéramos llamar burguesa, porque ha sido creada dentro de la dominación burguesa, pueda ser en su totalidad catalogada de burguesa. O sea, la pedagogía popular no puede remitirse al conocimiento popular del que hablábamos, como su única fuente, sino que tiene que remitirse también a la protesta contra las sociedades burguesas que dentro de ellas se ha generado.
Exacto. Si no hace esto, no es dialéctica y corre el riesgo de perderse; yo estoy totalmente de acuerdo con lo que hay de afirmación en tu pregunta. Las preguntas casi siempre traen una afirmación, y yo estoy de acuerdo contigo. Ahora, en una sociedad como la nuestra, la sociedad brasileña, la educación popular hoy en día tiene que orientarse en el sentido de cómo movilizar, orientar. La educación popular tiene que colocarse en el centro, en la interioridad de los movimientos populares, de los movimientos sociales. De ahí, la necesidad de que los partidos revolucionarios olviden su tradicionalismo. Los partidos de izquierda en este fin de siglo, o se hacen nuevos, revitalizándose cerca de los movimientos populares sociales, o se burocratizan.
Uno de mis esfuerzos en el Partido de los Trabajadores, en el que milito, es mi trabajo en una semilla de universidad popular. Dirijo este centro de formación, del cual tuve el honor de haber sido nombrado presidente. Porque en el fondo fui nombrado. Un día llegó una comisión de líderes sindicales y me dijeron que yo era presidente. Y yo les dije: “ustedes me están nombrando, nadie me ha elegido”. Pero acepté. Lo que ha hecho este instituto en sus seis meses de vida, a nivel latinoamericano incluso, en términos de formación de la clase trabajadora, es una cosa que da alegría.
¿Cómo se llama el instituto, Paulo?
Instituto de Cajamar, que es la municipalidad en que está ubicado. Yo soy el presidente del Consejo. Lula es miembro del Consejo. Y el lunes antes pasado el día completo todos juntos discutiendo los programas del centro, y yo me responsabilicé con él; porque el instituto comenzó muy poco después de la muerte de Elza, que era mi amor, fue y es mi vida, mi amante, la madre de mis hijos, la abuela de mis nietos, la infraestructura de la familia. Yo soy superestructura solamente. Te imaginas lo que pasa a una superestructura cuando le falta la infraestructura. Estoy un tanto perdido, pero vivo y lucho por seguir vivo. Esta es la opción que hice. Pero, como te decía, el instituto se creó muy poco después de la muerte de Elza y en aquel momento me resultaba difícil. Ahora asumí el compromiso de hablar por lo menos una vez en todos los cursos que se organicen para la formación de cuadros de la clase trabajadora. Es emocionante conversar con un líder obrero que pasó muchas experiencias y te dice después: “Yo antes tenía la intuición de que este era el camino; ahora lo sé”. Hay un grupo de intelectuales, académicos, en Brasil, que han optado por las clases trabajadoras y que no se sienten propietarios de la sabiduría de la revolución. Porque esta es una cosa que los intelectuales han tenido que aprender: la humildad de no ser los propietarios del saber revolucionario. Hay que aprender también con la clase trabajadora, con los obreros, con los campesinos. Una dosis de humildad no le hace daño a nadie.
Yo estoy viendo cómo esta politicidad de la educación, y en general cómo la educación popular hoy significa un avance de las masas populares en la América Latina capitalista, diferente a la expansión de las matrículas de los 60, frente a los mecanismos de la tecnificación de las décadas pasadas, que eran todos propiedad de la burguesía. Veo como está surgiendo también de ahí una comprensión muy fuerte de que es en el terreno de la política que se van a decidir los dilemas fundamentales, en definitiva. Pero esta comprensión no consiste meramente en “saludar” a los políticos, sino en formar parte del movimiento político. Ya usted mencionaba antes que esto le exige transformaciones al partido político.
Exacto. Esta es una de mis preocupaciones. En un libro que salió recientemente en Brasil y también en Argentina, hecho con un filósofo chileno, en un cierto momento discutimos esta cuestión[7]. Yo tengo la convicción de que estos últimos años del siglo serán decisivos en lo que respecta a la preservación de los partidos de izquierda. Sin pretender hacer vaticinios, la impresión que tengo es que los partidos de izquierda tienen que renovarse apartándose de su tradicionalismo. Si me pides que elabore más estas ideas, quizá no pueda hacerlo. Pero presiento, casi adivino por el olfato, que nosotros, nosotras, los que compartimos las posiciones de izquierda, tendríamos que hacernos una serie de preguntas. No digo ya en Cuba, pero también en Cuba. En los países como Brasil hay que citar menos a Marx y vivirlo más. Hay que cambiar el lenguaje. Hay que aprender la sintaxis popular. Hay que perder el miedo a la sensibilidad. Hay que rehacer y revivir a Guevara, cuando hablaba de los sentimientos de amor que animan al revolucionario. Es decir, hay que ser menos dogmáticos y más radicales.
Hay que superar los sectarismos que no crean, que castran. Hay que aprender la virtud de la tolerancia. Y la tolerancia es una virtud no solamente espiritual, sino también revolucionaria, que significa la capacidad de convivir con el diferente para luchar contra el antagónico.
Esto es la tolerancia. Y en la América Latina vivimos peleando contra los diferentes y dejando al antagónico dormir en paz. Y los partidos de izquierda que no aprendan esto, están destinados a morir históricamente. Hay que abrirse.
Yo creo que en lo que queda del siglo, los partidos revolucionarios tienen que aprender a confiar un poco más en el papel de la educación popular. Esto, independientemente de que no pueden jamás, de manera idealista, pensar que la educación es la palanca de la revolución. Pero tiene que reconocer que aun no siendo la palanca, la educación es importante.
Yo no olvido nunca una conversación que tuve hace tres años en Canadá con el Secretario General del Partido Comunista y con el responsable del sector de educación del Partido de ese país. Conversamos mucho sobre esto. Sobre cómo los partidos revolucionarios se vuelven tímidos por no creer en última instancia en las masas populares. La Revolución Cubana resulta de una creencia casi mística en las masas populares, una creencia no ingenua, pero sí inmensa. Una creencia que se fundaba incluso en una desconfianza. Se trata de una desconfianza que no es una desconfianza en las masas, sino en los dominadores introyectados en las masas. Recuerdo —hablé de esto en la Pedagogía del oprimido al citar a Guevara, a Fidel— que repetía una advertencia que Guevara le hacia a un muchacho de un país centroamericano, al que le decía: “Mira, tienes que desconfiar del campesino que te busca. Desconfiar de la sombra del campesino”. Cuando Guevara decía esto no se contradecía. Recuerdo una crítica muy dura contra mí publicada en los EE.UU., en la que decían que yo era el contradictorio. Y no, no lo era: como tampoco lo era Guevara cuando decía: “Muchacho, tienes que desconfiar del campesino que llega corriendo para adherirse a tu proyecto”. Lo que Guevara estaba diciendo es que hay que desconfiar del opresor introyectado en el oprimido. Porque si la revolución no advierte estos riesgos no llega a hacerse.
El discurso de Fidel fue todo un discurso político y pedagógico y un discurso de esperanza y crítica, y de valentía, y de sufrimiento. Es una cosa extraordinaria. Te diría que fue una de las cosas más importantes de estos últimos años. Llamaba la atención sobre todas estas cosas y decía cómo fue que él aprendió. Y cuando decía “yo”, estaba diciendo “nosotros”. Habló de cómo aprendió a lidiar con la traición; cómo aprendió a trabajar mejor. Y decía que nada nos podrá detener, porque una traición nos enseña a defendernos de la traición siguiente.
Creo que esta capacidad es extraordinaria. Es la capacidad que tuvo Guevara, que habla desde sus memorias y sus diarios, de llegar a la Sierra Maestra como médico y conversar con los campesinos sencillos y aprender con ellos. Y él dijo una cosa linda: dijo que fue conversando con los campesinos cuando estaba en la Sierra Maestra que se formó radicalmente en él la convicción del acierto de la revolución, de la necesidad de la transformación agraria del país. Y mira, Guevara no subió a la Sierra inocentemente. Sin embargo, tuvo la valentía, el coraje, la humildad de decir cuánto le enseñó el sentido común campesino. Es esto lo que creo que se impone: esta humildad, esta cientificidad, nunca cientificismo; esta radicalidad, nunca sectarismo; esta valentía, nunca bravata. Es esto lo que tienen que aprender los partidos revolucionarios.
Ya no resulta posible seguirse apropiando de la verdad y dictarla a las clases populares en nombre de Marx o de Lenin. Es imposible leer ¿Qué hacer? sin comprender el tiempo de Lenin. El mismo Lenin lo dijo. Pretender entender a Lenin sin su contexto es dicotomizar el texto del contexto. Y esto no es dialéctico. Para finalizar, tengo una esperanza en que todos nosotros estemos aprendiendo. No es que esté pretendiendo darles clases a los líderes de los partidos. A los partidos de derecha yo no me dirijo. Obviamente, no tengo nada que decirles. Me dirijo a los compañeros de izquierda que están en diferentes posiciones —y todos son mis compañeros; diferentes, pero compañeros— para decirles que es preciso ser tolerantes. Este es un discurso que hago mucho más en el resto de América Latina que en Cuba. No es a Cuba a quien me dirijo enfáticamente, sino a nosotros, los otros.
Tengo todavía otra pregunta. Hace ya un buen rato usted hablaba de que la transición no se puede medir ni por decenios. Volviendo a aquel tema recuerdo un problema importante. El poder revolucionario en nuestros países no puede estar ajeno a una idea peligrosa, que es la idea civilizadora.
Exacto, exacto.
Esa idea civilizadora supone que nuestros países son, pues, atrasados. Debemos, ahora que tenemos el poder, civilizarnos. Esto está lleno de necesidad real y de peligros reales.
Exacto.
Falta otro problema. La revolución en nuestros países, que son relativamente débiles, necesita unidad: ser todos uno para poder sobrevivir y avanzar. La unidad está llena de beneficios y de bondades. Y también tiene peligros: el autoritarismo; la unidad que se vuelve unanimidad, donde la necesidad se convierte en virtud. ¿Usted cree que la educación popular puede ayudar a esto?
Lo que dijiste es macanudo. ¿Conoces la palabra? Es chilena.
Y argentina, y nuestra también.
La aprendí en Chile y cuando hablo portuñol me viene siempre a la mente. Mira, creo que estas preguntas que me planteas no son preguntas, sino afirmaciones. Son de una importancia tremenda para los partidos, para los revolucionarios, para los educadores revolucionarios.
En primer lugar, tengo miedo también del consenso. Defiendo una unidad en la diversidad: una diversidad de diferentes, no de antagónicos. Probablemente el antagónico dirá que no soy demócrata, y desde el punto de vista de él, obviamente no lo soy. Volviendo atrás, temo el consenso, aunque lo acepto en momentos críticos. No se trata ni siquiera de que lo acepte, sino de que es necesario en un momento de crisis. Pero pasada la fase crítica, creo que la discusión debe continuar. Y hay una ilusión a veces de un aparente consenso, que es la ilusión del autoritario, que piensa que no hay divergencias, aunque sí las hay. Y las divergencias son legítimas, son necesarias para el desarrollo del proceso revolucionario.
Repito que no quiero dar clases de revolución a quienes han hecho la revolución. Esto sería y falta de humildad de mi parte, y yo soy humilde. Es a nivel teórico que estoy convencido de que la divergencia no sustantiva es importante para el propio desarrollo del proceso de crecimiento. Y yo no tengo duda alguna de que la educación tiene que ver con eso. Tiene que ver en tanto sea una educación estimulante de la interrogación y no de la paz, en tanto desarrolle una postura crítica, curiosa, que no se satisfaga con facilidad, que indague, que provoque la interrogación, la procure constantemente y que cree incluso situaciones difíciles, porque esto provoca curiosidad y creo que eso es fundamental.
Volviendo al inicio: que recuerde esta es la primera entrevista a Paulo Freire que va a salir en una publicación cubana. ¿Qué querría usted que apareciera especialmente en ella?
Me gustaría ahora enfatizar una cuestión que me es muy cara, y que tiene que ver con no tener miedo a mis sentimientos y no esconderlos. Me gustaría expresarles mi agradecimiento a ustedes, los cubanos, por el testimonio histórico que ustedes dan, por la posibilidad y todo lo que ustedes representan en tanto revolución; lo que ustedes representan de esperanza. No hay en esto ningún discurso falso: sé que no veré la misma cosa en mi país, pero la estoy viendo acá. Es una contradicción dialéctica: no voy a ver, pero ya estoy viendo.
El hecho de que, por ejemplo, un brasileño pueda venir a Cuba sin tener que enfrentarse a la policía; el hecho de poder hablar de Cuba en Brasil; el hecho de que un profesor como yo pueda escribir en mi país las cosas que te he dicho aquí; todo esto no significa que mi país ya haya hecho la revolución. No, es un país lleno de vergüenzas, lleno de cosas horribles, de violaciones de derechos, de explotación de las clases populares. Pero hay por lo menos hoy en día la posibilidad de hablar, de decir. Y hay que llenar los espacios políticos que hay en Brasil hoy. Yo no soy un hombre de la llamada república nueva. Yo soy un hombre del Partido de los Trabajadores; que tiene otro sueño. Pero yo decía que no puedo esconder mis sentimientos de alegría, porque, mira, es un absurdo, un absurdo, que un hombre como yo esté ahora por primera vez en Cuba. Pero es un absurdo que tiene explicación. No se trata de que nunca, nunca, Cuba me haya cerrado las puertas; no fue tampoco que yo tuviera dudas sobre el momento en que debería venir a Cuba. Hubo “n” motivos, “n” razones para que en las diversas oportunidades en que fui invitado, no pudiera venir.
Yo decía que no espero ver en Brasil esta transformación que he visto, y que vi también en Nicaragua, que ahora empieza allí.
¿Se imaginan lo que es para un brasileño poner el televisor y ver que el pueblo de tu país puede elegir ver el ballet dos días a la semana, y que otros dos días puede elegir ver y escuchar la ópera? Esto es también cultura, esto es universalidad, esto es pedagogía, esto es la satisfacción de un derecho que la clase trabajadora tiene a disfrutar de todo.
Yo sabía de todo esto, pero aquí vi, aquí escuché. Saber que el pueblo, todo el pueblo de tu país comió hoy. Saber que todos los niños de tu país van a la escuela, aunque haya cosas que decir a favor y en contra de la pedagogía que se hace. No dudo de que diverja en algunas cosas, pero concuerdo con la totalidad, que es la revolución. Y mi crítica se hace desde dentro de la revolución, y nunca desde afuera. Y soy muy radical en esto.
Estoy en un país en el que hay un horizonte de libertad, de creatividad, en que la Revolución tiene la valentía de decir que también se equivoca, en que la Revolución tiene la valentía de decir que hay compañeros de la dirección revolucionaria que se equivocan. Esto para mí —y parece un absurdo casi mágico lo que les voy a decir— es como si yo no pudiera partir del mundo sin conocer materialmente, palpablemente, sensiblemente a Cuba. He depositado mi cuerpo en tu país, porque ya antes había depositado en él mi alma —sin dicotomizar una cosa de la otra, ¿eh?
Notas:
1- El Congreso de Psicología se celebró en 1987.
2- Se refiere a la comparecencia de Fidel Castro en la televisión el 24 de junio de 1987. [N. del E.]
3- En diciembre de 1986 tuvo lugar el III Congreso del PCC, al que alude el periodista. En abril de 1987 se había celebrado el V Congreso de la UJC. [N. del E.]
4- P. Freire y A. Faúndez, Por una pedagogía da pregunta, Paz e Terra, Río de Janeiro, 1985. Se trata de un diálogo entre ambos autores, realizado en Ginebra en agosto de 1984.
5- En el habla brasileña popular el sujeto “a gente” toma significado de “nosotros”. [N. del E.]
6- Se refiere al libro de la educadora ecuatoriana Rosa María Torres, Educación Popular. Un encuentro con Paulo Freire, Bibliotecas Universitarias, Centro Editor de América Latina, Buenos Aires, 1988. Un extenso fragmento de este ha sido recientemente publicado por nuestra editorial, como parte del volumen Palabras desde Brasil, Editorial Caminos, La Habana, 1996, pp. 7-46. [N. del E.]
7- Se refiere al libro en coautoría con A. Faúndez, Por una pedagogía da pregunta.
Esta entrevista fue publicada originalmente en la revista Casa de las Américas, No. 164, La Habana, septiembre-octubre de 1987, pp. 114-118.


(La Jiribilla)

Foucault

O corpo utópico. Texto inédito de Michel Foucault


Nesta conferência de Michel Foucault – que acaba de ser publicada em espanhol – o corpo é, em primeiro lugar, “o contrário de uma utopia”, lugar “absoluto”, “desapiedado”, com o qual a utopia da alma se confronta. Mas, finalmente, o corpo, “visível e invisível”, “penetrável e opaco”, é “o ator principal de toda utopia” e cala apenas diante do espelho, do cadáver ou do amor.
A conferência “O corpo utópico”, de 1966, integra o livro El cuerpo utópico. Las heterotopías, cuja versão espanhola acaba de ser publicada (Ed. Nueva Vision). Esta versão está publicada no jornal argentino Página/12, 29-10-2010. A tradução é do Cepat.
Eis a conferência.
Basta eu acordar, que não posso escapar deste lugar que Proust [A recuperação do corpo no processo do acordar é um tema recorrente na obra de Marcel Proust – Nota da Redação], docemente, ansiosamente, ocupa uma vez mais em cada despertar. Não que me prenda ao lugar – porque depois de tudo eu posso não apenas mexer, andar por aí, mas posso movimentá-lo, removê-lo, mudá-lo de lugar –, mas somente por isso: não posso me deslocar sem ele. Não posso deixá-lo onde está para ir a outro lugar. Posso ir até o fim do mundo, posso me esconder, de manhã, debaixo das cobertas, encolher o máximo possível, posso deixar-me queimar ao sol na praia, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente, nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia, é o que nunca está sob outro céu, é o lugar absoluto, o pequeno fragmento de espaço com o qual, em sentido estrito, eu me corporizo.
Meu corpo, topia desapiedada. E se, por ventura, eu vivesse com ele em uma espécie de familiaridade gastada, como com uma sombra, como com essas coisas de todos os dias que finalmente deixei de ver e que a vida passou para segundo plano, como essas chaminés, esses telhados que se amontoam cada tarde diante da minha janela? Mas, todas as manhãs, a mesma ferida; sob os meus olhos se desenha a inevitável imagem que o espelho impõe: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, careca, nada lindo, na verdade. Meu corpo é uma jaula desagradável, na qual terei que me mostrar e passear. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. Meu corpo é o lugar irremediável a que estou condenado.
Depois de tudo, creio que é contra ele e como que para apagá-lo, que nasceram todas as utopias. A que se devem o prestígio da utopia, da beleza, da maravilha da utopia? A utopia é um lugar fora de todos os lugares, mas é um lugar onde terei um corpo sem corpo, um corpo que será belo, límpido, transparente, luminoso, veloz, colossal em sua potência, infinito em sua duração, desligado, invisível, protegido, sempre transfigurado; e é bem possível que a utopia primeira, aquela que é a mais inextirpável no coração dos homens, seja precisamente a utopia de um corpo incorpóreo. O país das fadas, dos duendes, dos gênios, dos magos, e bem, é o país onde os corpos se transportam à velocidade da luz, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos machucar, onde se é visível quando se quer e invisível quando se deseja. Se há um país mágico é realmente para que nele eu seja um príncipe encantado e todos os lindos peraltas se tornem peludos e feios como ursos.
Mas há ainda outra utopia dedicada a desfazer os corpos. Essa utopia é o país dos mortos, são as grandes cidades utópicas deixadas pela civilização egípcia. Mas, o que são as múmias? São a utopia do corpo negado e transfigurado. As múmias são o grande corpo utópico que persiste através do tempo. Há as pinturas e esculturas dos túmulos; as estátuas, que, desde a Idade Média, prolongam uma juventude que não terá fim. Atualmente, existem esses simples cubos de mármore, corpos geometrizados pela pedra, figuras regulares e brancas sobre o grande quadro negro dos cemitérios. E nessa cidade de utopia dos mortos, eis aqui que meu corpo se torna sólido como uma coisa, eterno como um deus.
Mas, talvez, a mais obstinada, a mais poderosa dessas utopias através das quais apagamos a triste topologia do corpo nos seja administrada pelo grande mito da alma, fornecido desde o fundo da história ocidental. A alma funciona maravilhosamente dentro do meu corpo. Nele se aloja, evidentemente, mas sabe escapar dele: escapa para ver as coisas, através das janelas dos meus olhos, escapa para sonhar quando durmo, para sobreviver quando morro. A minha alma é bela, pura, branca. E se meu corpo barroso – em todo o caso não muito limpo – vem a se sujar, é certo que haverá uma virtude, um poder, mil gestos sagrados que a restabelecerão em sua pureza primeira. A minha alma durará muito tempo, e mais que muito tempo, quando o meu velho corpo apodrecer. Viva a minha alma! É o meu corpo luminoso, purificado, virtuoso, ágil, móvel, tíbio, fresco; é o meu corpo liso, castrado, arredondado como uma bolha de sabão.
E eis que o meu corpo, pela virtude de todas essas utopias, desapareceu. Desapareceu como a chama de uma vela que alguém sopra. A alma, as tumbas, os gênios e as fadas se apropriaram pela força dele, o fizeram desaparecer em um piscar de olhos, sopraram sobre seu peso, sobre sua feiúra, e me restituíram um corpo fulgurante e perpétuo.
Mas meu corpo, para dizer a verdade, não se deixa submeter com tanta facilidade. Depois de tudo, ele mesmo tem seus recursos próprios e fantásticos. Também ele possui lugares sem-lugar e lugares mais profundos, mais obstinados ainda que a alma, que a tumba, que o encanto dos magos. Tem suas bodegas e seus celeiros, seus lugares obscuros e praias luminosas. Minha cabeça, por exemplo, é uma estranha caverna aberta ao mundo exterior através de duas janelas, de duas aberturas – estou seguro disso, posto que as vejo no espelho. E, além disso, posso fechar um e outro separadamente. E, no entanto, não há mais que uma só dessas aberturas, porque diante de mim não vejo mais que uma única paisagem, contínua, sem tabiques nem cortes. E nessa cabeça, como acontecem as coisas? E, se as coisas entram na minha cabeça – e disso estou muito seguro, de que as coisas entram na minha cabeça quando olho, porque o sol, quando é muito forte e me deslumbra, vai a desgarrar até o fundo do meu cérebro –, e, no entanto, essas coisas ficam fora dela, posto que as vejo diante de mim e, para alcançá-las, devo me adiantar.
Corpo incompreensível, penetrável e opaco, aberto e fechado: corpo utópico. Corpo absolutamente visível – porque sei muito bem o que é ser visto por alguém de alto a baixo, sei o que é ser espiado por trás, vigiado por cima do ombro, surpreendido quando menos espero, sei o que é estar nu. Entretanto, esse mesmo corpo é também tomado por uma certa invisibilidade da qual jamais posso separá-lo. A minha nuca, por exemplo, posso tocá-la, mas jamais vê-la; as costas, que posso ver apenas no espelho; e o que é esse ombro, cujos movimentos e posições conheço com precisão, mas que jamais poderei ver sem retorcer-me espantosamente. O corpo, fantasma que não aparece senão na miragem de um espelho e, mesmo assim, de maneira fragmentada. Necessito realmente dos gênios e das fadas, e da morte e da alma, para ser ao mesmo tempo indissociavelmente visível e invisível? E, além disso, esse corpo é ligeiro, transparente, imponderável; não é uma coisa: anda, mexe, vive, deseja, se deixa atravessar sem resistências por todas as minhas intenções. Sim. Mas até o dia em que fico doente, sinto dor de estômago e febre. Até o dia em que estala no fundo da minha boca a dor de dentes. Então, então deixo de ser ligeiro, imponderável, etc.: me torno coisa, arquitetura fantástica e arruinada.

Não, realmente, não se necessita de magia, não se necessita de uma alma nem de uma morte para que eu seja ao mesmo tempo opaco e transparente, visível e invisível, vida e coisa. Para que eu seja utopia, basta que seja um corpo. Todas essas utopias pelas quais esquivava o meu corpo, simplesmente tinham seu modelo e seu ponto primeiro de aplicação, tinham seu lugar de origem em meu corpo. Estava muito equivocado há pouco ao dizer que as utopias estavam voltadas contra o corpo e destinadas a apagá-lo: elas nasceram do próprio corpo e depois, talvez, se voltarão contra ele.
Uma coisa, entretanto, é certa: o corpo humano é o ator principal de todas as utopias. Depois de tudo, uma das utopias mais velhas que os homens contaram a si mesmos, não é o sonho de corpos imensos, sem medidas, que devorariam o espaço e dominariam o mundo? É a velha utopia dos gigantes, que se encontra no coração de tantas lendas, na Europa, na África, na Oceania, na Ásia. Essa velha lenda que durante tanto tempo alimentou a imaginação ocidental, de Prometeu a Gulliver.
O corpo é também um grande ator utópico quando se pensa nas máscaras, na maquiagem e na tatuagem. Usar máscaras, maquiar-se, tatuar-se, não é exatamente, como se poderia imaginar, adquirir outro corpo, simplesmente um pouco mais belo, melhor decorado, mais facilmente reconhecível. Tatuar-se, maquiar-se, usar máscaras, é, sem dúvida, algo muito diferente; é fazer entrar o corpo em comunicação com poderes secretos e forças invisíveis. A máscara, o sinal tatuado, o enfeite colocado no corpo é toda uma linguagem: uma linguagem enigmática, cifrada, secreta, sagrada, que se deposita sobre esse mesmo corpo, chamando sobre ele a força de um deus, o poder surdo do sagrado ou a vivacidade do desejo. A máscara, a tatuagem, o enfeite coloca o corpo em outro espaço, o fazem entrar em um lugar que não tem lugar diretamente no mundo, fazem desse corpo um fragmento de um espaço imaginário, que entra em comunicação com o universo das divindades ou com o universo do outro. Alguém será possuído pelos deuses ou pela pessoa que acaba de seduzir. Em todo o caso, a máscara, a tatuagem, o enfeite são operações pelas quais o corpo é arrancado do seu espaço próprio e projetado a outro espaço.
Escutem, por exemplo, este conto japonês e a maneira como um tatuador faz passar a um universo que não é o nosso o corpo da jovem que ele deseja:
“O sol lançava seus raios sobre o rio e incendiava o quarto das sete esteiras. Seus raios refletidos sobre a superfície da água formavam um desenho de ondas douradas sobre o papel dos biombos e sobre o rosto da jovem em sono profundo. Seikichi, depois de ter corrido os tabiques, tomou entre as suas mãos suas ferramentas de tatuagem. Durante alguns instantes permaneceu imerso numa espécie de êxtase. Precisamente agora saboreava plenamente a estranha beleza da jovem. Parecia-lhe que podia permanecer sentado diante desse rosto imóvel durante dezenas ou centenas de anos sem jamais experimentar nem cansaço nem aborrecimento. Assim como o povo de Mênfis embelezava outrora a terra magnífica do Egito de pirâmides e de esfinges, assim Seikichi, com todo o seu amor, quis embelezar com seu desenho a pele fresca da jovem. Aplicou-lhe de imediato a ponta de seus pincéis de cor segurando-os entre o polegar, e os dedos anular e pequeno da mão esquerda, e à medida que as linhas eram desenhadas, picava-as com sua agulha que segurava na mão direita”.
E quando se pensa que as vestimentas sagradas ou profanas, religiosas ou civis fazem o indivíduo entrar no espaço fechado do religioso ou na rede invisível da sociedade, então se vê que tudo quanto toca o corpo – desenhos, cores, diademas, tiaras, vestimentas, uniformes – faz alcançar seu pleno desenvolvimento, sob uma forma sensível e abigarrada, as utopias seladas no corpo.
Mas, se fosse preciso descer mais uma vez abaixo das vestimentas, se fosse preciso alcançar a própria carne, e então se veria que em alguns casos, em seu ponto limite, é o próprio corpo que volta contra si seu poder utópico e faz entrar todo o espaço do religioso e do sagrado, todo o espaço do outro mundo, todo o espaço do contra-mundo, no interior mesmo do espaço que lhe está reservado. Então, o corpo, em sua materialidade, em sua carne, seria como o produto de suas próprias fantasias. Depois de tudo, acaso o corpo de um dançarino não é justamente um corpo dilatado segundo todo um espaço que lhe é interior e exterior ao mesmo tempo? E também os drogados, e os possuídos; os possuídos, cujo corpo se torna um inferno; os estigmatizados, cujo corpo se torna sofrimento, redenção e salvação, paraíso sangrante.
Bobagem dizer, portanto, como fiz no início, que meu corpo nunca está em outro lugar, quer era um aqui irremediável e que se opunha a toda utopia.
Meu corpo, de fato, está sempre em outro lugar. Está ligado a todos os outros lugares do mundo, e, para dizer a verdade, está num outro lugar que é o além do mundo. É em referência ao corpo que as coisas estão dispostas, é em relação ao corpo que existe uma esquerda e uma direita, um atrás e um na frente, um próximo e um distante. O corpo está no centro do mundo, ali onde os caminhos e os espaços se cruzam, o corpo não está em nenhuma parte: o coração do mundo é esse pequeno núcleo utópico a partir do qual sonho, falo, me expresso, imagino, percebo as coisas em seu lugar e também as nego pelo poder indefinido das utopias que imagino. O meu corpo é como a Cidade de Deus, não tem lugar, mas é de lá que se irradiam todos os lugares possíveis, reais ou utópicos.
Depois de tudo, as crianças demoram muito tempo para descobrir que têm um corpo. Durante meses, durante mais de um ano, não têm mais que um corpo disperso, membros, cavidades, orifícios, e tudo isto não se organiza, tudo isto não se corporiza literalmente, senão na imagem do espelho. De uma maneira mais estranha ainda, os gregos de Homero não tinham uma palavra para designar a unidade do corpo. Por mais paradoxal que possa parecer, diante de Tróia, sob os muros defendidos por Hector e seus companheiros, não havia corpo, havia braços levantados, havia peitos valorosos, pernas ágeis, cascos brilhantes acima das cabeças: não havia um corpo. A palavra grega que significa corpo só aparece em Homero para designar o cadáver. É esse cadáver, por conseguinte, é o cadáver e é o espelho que nos ensinam (enfim, que ensinaram os gregos e que ensinam agora as crianças) que temos um corpo, que esse corpo tem uma forma, que essa forma tem um contorno, que nesse contorno há uma espessura, um peso, numa palavra, que o corpo ocupa um lugar. O espelho e o cadáver assinalam um espaço à experiência profunda e originariamente utópica do corpo; o espelho e o cadáver fazem calar e apaziguam e fecham sobre um fecho – que agora está para nós selado – essa grande raiva utópica que deteriora e volatiliza a cada instante o nosso corpo. É graças a eles, ao espelho e ao cadáver, que o nosso corpo não é pura e simples utopia. Ora, se se pensa que a imagem do espelho está alojada para nós em um espaço inacessível, e que jamais poderemos estar ali onde estará o nosso cadáver, se pensamos que o espelho e o cadáver estão eles mesmos em um invencível outro lugar, então se descobre que só utopias podem encerrar-se sobre elas mesmas e ocultar um instante a utopia profunda e soberana de nosso corpo.
Talvez seria preciso dizer também que fazer o amor é sentir seu corpo se fechar sobre si, é finalmente existir fora de toda utopia, com toda a sua densidade, entre as mãos do outro. Sob os dedos do outro que te percorrem, todas as partes invisíveis do teu corpo se põem a existir, contra os lábios do outro os teus se tornam sensíveis, diante de seus olhos semi-abertos teu rosto adquire uma certeza, há um olhar finalmente par ver tuas pálpebras fechadas. Também o amor, assim como o espelho e como a morte, acalma a utopia do teu corpo, a cala, a acalma, a fecha como numa caixa, a fecha e a sela. É por isso que é um parente tão próximo da ilusão do espelho e da ameaça da morte; e se, apesar dessas duas figuras perigosas que o rodeiam, se gosta tanto de fazer o amor é porque, no amor, o corpo está aqui.
Para ler mais:
• Corpo e sexualidade. A contribuição de Michel Foucault
• Foucault: a crítica errante de um pensamento rebelde
• Foucault, 25 anos depois
• Revista IHU On-Line. Michael Foucault 80 anos
• (INst. Humanitas Unisinos)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Meio Ambiente

O mar sobe, e uma catástrofe espreita


As geleiras do mundo dão sinais de derreter mais depressa do que se acreditava; alguns preveem que o nível do mar suba 1 metro até 2100.
A reportagem é de Justin Gillis e está publicada na Folha de S.Paulo, 22-11-2010.
Tasiilaq, Groenlândia
Com grande risco e apoio reduzido, os cientistas correm para responder a uma das perguntas mais urgentes -e mais amplamente discutidas- que a humanidade enfrenta: com que rapidez o gelo do mundo vai derreter?
Os cientistas há muito acreditavam que o colapso das gigantescas capas de gelo da Groenlândia e da Antártida demoraria milhares de anos, com o nível do mar possivelmente subindo apenas 18 centímetros neste século, mais ou menos a mesma altura que no século 20.
Mas pesquisadores, recentemente, se assustaram ao ver grandes mudanças ocorrerem na Groenlândia e na Antártida.
Em consequência de cálculos complexos que levam em conta essas mudanças, muitos cientistas dizem que o nível do mar provavelmente aumentará 1 metro até 2100 -o que representaria uma ameaça para regiões costeiras do mundo todo.
E cálculos sugerem que a elevação poderá superar 1,80 metro, o que colocaria milhares de hectares do litoral dos Estados Unidos embaixo d'água e, provavelmente, deslocaria dezenas de milhões de pessoas na Ásia.
Os cientistas dizem que um aumento de até 1 metro inundaria terras baixas em muitos países, tornando algumas áreas inabitáveis. Inundações costeiras que ocorrem uma ou duas vezes por século passariam a ser mais frequentes. Esse fenômeno causaria erosão muito mais rápida das praias, ilhas de barreira e pântanos. Contaminaria com sal os suprimentos de água doce.
Algumas das maiores cidades do mundo -Londres, Cairo, Bancoc, Veneza e Xangai entre elas- ficariam criticamente ameaçadas. Nos Estados Unidos, partes da costa leste e da costa do Golfo seriam duramente atingidas. Em Nova York, a inundação litorânea se tornaria rotineira.
Os cientistas climáticos admitem prontamente que a estimativa de 1 metro pode estar errada. Sua compreensão das mudanças ainda é precária, mas eles dizem que poderia facilmente ser uma estimativa modesta.
"Acho que precisamos começar imediatamente a pensar em nossas cidades costeiras -como vamos protegê-las?", disse John A. Church, cientista australiano que é um dos principais especialistas em nível do mar. "Não podemos proteger tudo. Teremos de abandonar algumas áreas."
O aumento do nível do mar tem sido um elemento especialmente polêmico no debate sobre o aquecimento global. Uma estimativa sugeriu que a ameaça era tão terrível que o nível do mar poderia subir até 4,60 metros neste século.
Os céticos do aquecimento global alegam que qualquer mudança que ocorra nas camadas de gelo, provavelmente, se deve à variabilidade natural do clima, e não aos gases do efeito estufa lançados pelos seres humanos.
A grande maioria de cientistas do clima afirma que os gases que retêm o calor são quase certamente um fator decisivo. Eles acrescentam que a falta de políticas para limitar as emissões aumenta o risco de que o gelo entre em um declínio irreversível antes do final deste século.
No entanto, enquanto o aumento do mar poderia ser a conseqüência isolada mais séria do aquecimento global, nenhum país rico tem uma estratégia nacional prioritária para entender as mudanças no gelo. A consequência disso é que os pesquisadores não têm informações elementares, e essa desinformação torna impossível para os cientistas ter certeza da gravidade da situação.
Fugindo dos icebergs
Em um dia do final do verão no sudeste da Groenlândia, o piloto de helicóptero Morgan Goransson desceu em direção à água. Pendurados na lateral da aeronave, cientistas enviaram um equipamento de medição entre os blocos de gelo flutuantes.
As águas gélidas do fiorde Sermilik estavam apenas 9m abaixo, de modo que qualquer problema mecânico faria o helicóptero mergulhar no mar. "É muito perigoso", disse Goransson.
Medir a temperatura da água perto da camada de gelo é essencial para compreender o que está acontecendo na Groenlândia.
Mas é complexo e arriscado.
Os cientistas -Fiammetta Straneo, do Instituto Oceanográfico Woods Hole em Massachusetts, e o doutor Hamilton- fazem parte de uma equipe financiada pela Fundação Nacional de Ciências.
Algumas semanas atrás, eles obtiveram uma leitura de quatro graus centígrados perto do fundo do fiorde, amais alta que já viram lá. A leitura se encaixou em um padrão mais amplo.
Água mais quente que se originou muito ao sul está correndo para os fiordes da Groenlândia.
Cientistas desconfiam que, conforme derrete o gelo por baixo, a água afrouxa a conexão das geleiras como solo. Isso permite que as geleiras se movam mais depressa e despejem mais gelo no oceano.
A perda geral de gelo parece estar se acelerando, um sinal ameaçador, pois a ilha contém gelo suficiente para elevar os níveis globais do mar em mais de 6 metros.
Falando estritamente, os cientistas não provaram que o aquecimento global induzido pelos seres humanos seja a causa dessas mudanças.
Eles estão cientes de que o clima no Ártico sofre grandes variações naturais. Mas os cientistas dizem que as mudanças recentes na Groenlândia estão ocorrendo ao mesmo tempo que as temperaturas do ar e do oceano aumentam e o derretimento do gelo se acelera em grande parte do mundo.
A geleira Helheim, que termina no fiorde Sermilik, é uma de um grupo de geleiras no sudeste da Groenlândia que exibiram mudanças especialmente grandes.
Algo fez que a geleira, uma das maiores da Groenlândia, avançasse acentuadamente na metade da última década, e ela despejou tanto gelo no oceano que afinou cerca de 91metrosempoucos anos.
A geleira se comportou de maneira errática desde então, e esse padrão está se repetindo em toda a Groenlândia.
Oceano em elevação
Para a maioria dos cientistas climáticos, a questão não é se o gelo terrestre vai derreter, mas se isso acontecerá depressa demais para que a sociedade se adapte.
Pesquisas recentes sugerem que o volume do oceano pode ter ficado estável durante milhares de anos. Mas ele começou a subir no século 19, mais ou menos na mesma época em que os países avançados começaram a queimar grandes quantidades de carvão e petróleo.
O mar subiu cerca de 20cm desde então, em média. Esse aumento é insuficiente para causar uma erosão substancial.
Em seu último grande relatório, em 2007, o grupo da ONU que avalia a ciência climática, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, disse que o nível do mar aumentaria pelo menos mais 18 cm e poderia chegar a 61 cm no século 21.
Mas o grupo advertiu que essas estimativas não incluem completamente a possibilidade de que as grandes camadas de gelo do mundo comecem a derreter no oceano em um ritmo muito mais rápido do que poderiam derreter na terra.
Evidências de satélite sugerem que o aumento domar acelerou no final do século 20, de modo que o nível hoje está aumentando pouco mais de 2,5cm por década, em média.
O aumento do derretimento do gelo terrestre parece ser um fator importante. Outro é que a maior parte do calor adicional retida pelas emissões de gases do efeito estufa está aquecendo o oceano e não a atmosfera, e com o aquecimento a água se expande.
Um consenso que se amplia entre cientistas climáticos situa a estimativa do ritmo do aumento do mar em pouco mais de 1 m entre hoje e 2100.
Cálculos sugerem que isso faria a erosão litorânea se acelerar. Em lugares que antes só eram inundados por um grande furacão, uma tempestade comum poderá ter o mesmo resultado.
Os piores efeitos provavelmente ocorreriam onde a terra está afundando enquanto o mar sobe. Isso se aplica a algumas grandes cidades do mundo. Barreiras podem ser construídas para deter o mar, é claro, como os diques de Nova Orleans e dos Países Baixos. Mas a despesa provavelmente subirá junto como oceano.
Tempestades que açoitam os litorais do mundo a intervalos de alguns anos quase certamente obrigariam as pessoas a fugir para o interior. E os cientistas dizem que, caso suas projeções estejam certas, o mar não vai parar de subir em 2100. Naquela altura, as camadas de gelo poderão estar sofrendo um extenso derretimento.
Sem plano nem informação
Como nenhum país adiantado deu prioridade ao estudo do gelo terrestre, os cientistas não têm as informações elementares de que precisam para compreender o que está acontecendo.
Eles não conhecem a camada de terra embaixo da maioria das geleiras do mundo o suficiente para calcular com que rapidez o gelo poderá recuar. Eles têm apenas leituras aleatórias da profundidade e da temperatura do oceano perto da Groenlândia, necessárias para descobrir por que tanta água quente parece estar atacando a camada de gelo.
Os problemas de informação são ainda mais graves na Antártida. escobrir se a Antártida está perdendo gelo como um todo é essencial, porque essa camada de gelo contém água suficiente para elevar o nível do mar global em quase 61 m.
Daniel Schrag, um geoquímico e diretor do Centro para o Meio Ambiente da Universidade Harvard, elogiou os cientistas que fazem um trabalho difícil estudando o gelo, mas acrescentou: "A escala do que eles podem fazer, diante dos recursos disponíveis, está completamente fora de sintonia como que é necessário".
(Inst. Humanitas Unisinos)

Blogues

Blogueiros com Lula: uma entrevista para história política brasileira
24 de novembro de 2010 às 15:16 14 Comentários
Alguns bastidores da entrevista com Lula.
Ao final da entrevista o presidente, com as câmeras e microfones já desligados, disse que queria se comprometer a já agendar uma próxima entrevista com aquele grupo para logo depois que deixasse a presidência. “Porque eu quero tratar com vocês do mensalão, quero falar longamente dessa história e mostrar a quantidade de equívocos que ela tem. Porque o Zé Dirceu pode ter todos os defeitos do mundo, mas…”
Quando o presidente ia completar a frase um dos fotógrafos pediu para que ele se ajeitasse para a foto e o pensamento ficou sem conclusão. Ficou claro que o presidente considera esse caso mal resolvido e que vai entrar em campo assim que sua residência oficial passar a ser em São Bernardo do Campo.
Em muitos momentos da entrevista Lula demonstrou que considera que o comportamento da imprensa brasileira foi mais do que parcial, foi irresponsável. Isso ficou evidente quando disse que a cobertura do acidente da TAM foi o momento mais triste do seu período presidencial. Lembrou que à época alguns jornais e revistas escreveram editoriais falando que o governo carregava nas costas 200 cadáveres.
Ele também introduziu na entrevista, sem que a blogosfera perguntasse, a questão da política internacional. E falou dos bastidores de sua ação na negociação com o Irã. Ao trazer uma negociação desse porte para a pauta da entrevista, o presidente pode ter sinalizado que o palco internacional faz parte do seu projeto futuro.
Lula não fala nada sem pensar e gratuitamente. Quando se está frente a frente com ele isso se torna ainda mais evidente. Lula é hoje um político preparadíssimo. E falou, por exemplo, que o PT do Acre errou e que por isso Dilma perdeu feio lá para mandar um recado aos irmãos Viana, que controlam o partido no estado.
Aliás, depois da entrevista ele fez questão de chamar o blogueiro Altino Machado de lado e voltou a tocar no assunto. Disse que vai ao Acre ainda no primeiro semestre de 2011. E que quer conversar com Altino quando for lá.
Ele também falou que vai tratar do caso Paulo Lacerda quando sair da presidência. Tudo indica que a sua melhor entrevista ainda está por vir. Será aquela em que ele vai poder falar de tudo sem o ritual do cargo.
Esse encontro com Lula ainda merecerá outros posts deste blogueiro, mas aproveito para contar um pouco dos bastidores que o antecederam. Em agosto, solicitei em nome da comissão do 1º Encontro da Blogosfera Progressista essa coletiva com o presidente. A resposta veio rápida. O presidente aceitava, bastava construir uma agenda.
Entre a organização do encontro se estabeleceu um debate sobre se seria conveniente ou não que ele ocorresse antes das eleições. De comum acordo com a assessoria da presidência definiu-se que seria jornalisticamente mais interessante que acontecesse agora. Para que se evitasse o inevitável, que se tentasse descaracterizar o encontro com acusações do tipo “ação de campanha”.
Uma das preocupações que também surgiu desde o início foi a de que os blogueiros que participassem representassem a diversidade do país. Isso foi conseguido. Entre os 10 que estiveram com Lula hoje, havia gente de sete estados brasileiros e de todas as regiões. Também havia diversidade de gênero na lista inicial. Eram quatro as mulheres que participariam: Helena, do Blog Amigos do Presidente Lula; Ivana Bentes, da UFRJ; Conceição Lemes, do Viomundo; e Maria Frô, do blog da Maria Frô.
Por motivos diferentes elas não puderem vir a Brasília. Maria Frô conseguiu participar pela twitcam. Ivana Bentes, que também ia entrar por esse sistema, não conseguiu por problemas técnicos.
Ao fim, quem imaginava que seria um encontro chapa-branca se surpreendeu. Quantas vezes na história deste país o presidente da República foi perguntado, por exemplo, sobre por que não se avançou na democratização das comunicações? Quantas vezes lhe perguntaram por que recuou no PNH3? Quantas vezes ele teve de se explicar sobre a saída de Paulo Lacerda da PF? Quantas vezes ele foi cobrado sobre o governo não ter se empenhando para a aprovação das 40h semanais? Quantas vezes Lula falou sobre o Acre e suas idiossincrasias políticas? Quantas vezes discutiu o capital estrangeiro na mídia? Quantas vezes falou sobre AI 5 digital? Quantas vezes tratou da educação para o povo negro? Quantas vezes abordou a cobertura da Globo no episódio da bolinha de papel?
Pode-se gostar ou não desta entrevista, mas uma coisa não se pode negar. Ela entra para a história da cobertura política brasileira.
(Blog do Rovai)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Israel

Soldados israelenses que usaram menino palestino como escudo humano recebem penas leves
Dois soldados israelenses, considerados culpados pelo uso de um menino palestino de nove anos como escudo humano durante invasão à Faixa de Gaza em janeiro de 2009, foram rebaixados e condenados a uma pena de prisão sem efeito, de apenas três meses.

Enquanto serviam na ofensiva terrestre de Israel contra o Hamas, durante a operação "Chumbo Fundido", os dois soldados de infantaria ajudaram no ataque a um prédio de apartamentos no bairro de Tel Al-Hawa, em Gaza.

Após cercar residentes, a dupla ordenou que Majed Rabah revistasse sacos de explosivos escondidos, de acordo com a decisão de Israel, que continha relatos de testemunhas. Como Rabah não conseguiu abrir um dos sacos, os soldados atiraram no objeto, colocando em risco todos os que estavam presentes, indicou o veredicto. Mais tarde, a criança foi devolvida sem ferimentos à família.

"Achei que eles iriam me matar. Tive muito medo, tanto que fiz xixi na calça", afirmou o garoto em um depoimento concedido à organização Defence for Children International, com sede em Genebra. O garoto disse que foi agarrado pelos cabelos e teve o rosto esfregado no chão quando não conseguiu abrir um dos sacos. "Ele então atirou no saco...achei que tinha atirado em mim, depois gritei e coloquei minhas mãos na cabeça. Outro soldado veio e disse: 'Vá atrás da sua mãe'. Eu corri e me escondi nos braços dela e falei que estava tudo bem".

Leia mais:
Análise: O Estado de Israel é a origem do ódio
Entrevista: pessimismo impera entre crianças de Gaza
"Israel está fazendo muito dinheiro com a ocupação da Palestina", diz economista israelense
Grupos armados de Gaza retomam lançamento de foguetes contra Israel
Israel começará construção de cerca na fronteira com o Egito em duas semanas

Rabah ficou desapontado com a decisão judicial: "É injusto. Deveriam ficar presos por um ano ou dois", disse à agência de notícias Reuters. A mãe de Rabah, Afaf, disse que os soldados israelenses deveriam ser levados a um tribunal internacional de crimes de guerra. "Isso é um escândalo, que somente encoraja outros a continuarem esse comportamento violento, que envia mensagens negativas tanto para as vítimas quanto para os soldados", afirmou ao site israelense Ynet.

Por sua vez, o advogado dos soldados, Ilan Katz, afirmou que estava satisfeito com o resultado. "Poderíamos ter chegado a um acordo sem ter submetido os soldados a esse julgamento. São heróis, precisamos de mais pessoas assim no exército", afirmou Katz.

"Chumbo Fundido"

A invasão à Faixa de Gaza em dezembro de 2008 e janeiro de 2009 aconteceu após mísseis disparados do território palestino atingirem cidades israelenses próximas à fronteira. Durante o ataque, as tropas israelenses mataram 1.400 pessoas, em sua maioria civis.

A infraestrutura de Gaza foi severamente afetada e houve diversas denúncias de que Tel Aviv utilizou em pontos civis armamento proibido por convenções internacionais, como bombas de fósforo.

Uma investigação da ONU (Organização das Nações Unidas), coordenada pelo juiz sul-africano Richard Goldstone, acusou Israel e o Hamas de terem cometido crimes de guerra durante o conflito. O juiz recomendou um recurso à Corte Penal Internacional se o Estado hebreu não organizar uma investigação digna de crédito.
(Opera Mundi)

Guantánamo

REFÉM DE BUSH DURANTE SEIS ANOS E MEIO EM GUANTÁNAMO
Sami El Haj, jornalista da Al Jazeera, testemunha
Hirto, alto, impressionante, libertando um sentimento de intensa interioridade, Sami El Haj avança coxeando, apoiado numa bengala. Nem um riso, nem um sorriso animam o rosto fino deste homem, envelhecido antes do tempo. Uma profunda tristeza habita-o. Tinha 32 anos quando, em Dezembro de 2001, a sua vida, como a de dezenas de milhares de outras pessoas de confissão muçulmana, caiu no horror.
19 DE JULHO DE 2008
Sami El Haj
Sofreu imenso. Enfraquecido por uma greve da fome que durou 438 dias, libertado no 1º de Maio de 2008, acolhe¬ vos com cuidado e doçura. Fala-vos, sem insistir, de um universo cujo horror vos ultrapassa, vos assusta, vos abafa.
É o primeiro escapado dos campos, construídos pela administração Bush na base naval de Guantánamo Bay, a ser autorizado a viajar.
«Vim a Genebra, à cidade da ONU e das liberdades [1], para pedir que sejam respeitados os direitos, para exigir o encerramento do campo de Guantánamo e das prisões secretas, e para acabar com esta situação ilegal» diz calmamente. A palavra saiu. Tudo é “ilegal”; é tudo falso, manipulado, absurdo, kafkiano nesta guerra dirigida essencialmente contra as pessoas de religião muçulmana.
Hoje sabemos muitas coisas, nomeadamente que um certo número de atentados atribuídos aos muçulmanos desde 1996, foram financiados e manipulados pelos agentes secretos do MI 6, da CIA, da Mossad. São testemunhos corajosos, tais como o do antigo ministro alemão Andreas Von Bülow [2], que descobriram e denunciaram este tipo de actividades criminosas, praticadas pelas grandes potências. Se exceptuarmos os novos meios de comunicação, qual foi o jornalista que nos falou das revelações desse grande senhor que é Andreas Von Bülow?
Em Guantánamo, apoiado pela sua paixão pela justiça, pela sua convicção de que todo jornalista tem o dever de testemunhar o que vê, Sami El Haj teve a força psíquica de aguentar, de resistir aos piores abusos, pondo o seu próprio sofrimento de lado. Conheceu sentimentos de grande dor, mas soube, nos piores momentos, guardar a esperança de que sairia de lá vivo. E dizer a si próprio que devia observar tudo, porque amanhã poderia testemunhar, ajudou-o a suportar o indizível.
É assim, pelo olhar do jornalista observando com recuo este universo aterrorizador, desejado por Bush, e que poderia ter sido o seu túmulo, que Sami El Haj pôde sobreviver e guardar a sua razão. Outros, que tiveram menos sorte que ele, morreram ou tornaram-se dementes; logo incapazes de transmitir o seu testemunho.
Sem lápis, nem papel, Sami El Haj esforçou-se em memorizar tudo para continuar, mesmo enclausurado, o seu trabalho de «jornalista da Al Jazeera em reportagem», como diz.
Hoje, está comprometido com a ideia de chamar a atenção do mundo sobre estas dezenas de milhares de prisioneiros que permanecem nas jaulas de Guantánamo, Bagram, Kandahar a sofrer um tratamento desumano. Responde incansavelmente, e com gentileza, a todos os jornalistas que o interrogam, esperando que a sua palavra poderá dar voz àqueles que já não a têm.
A sua exposição dos factos é essencial. À semelhança de todos os outros cativos, abusivamente qualificados, como ele, de “terroristas”, Sami El Haj nunca foi julgado e nunca soube de que era acusado. O que demonstra que Bush, e os jornalistas que apoiaram a sua tese dos “terroristas islamitas”, tiveram de os fabricar. Pessoas como Sami El Haj nunca poderiam ter sido encarceradas, nem permanecer tanto tempo reféns desta barbárie, por serem muçulmanos, sem a cumplicidade dos governos europeus e dos propagandistas islamofobos rendidos a Telavive e Washington que, há décadas, desinformam a opinião e influenciam as elites com base em mentiras.
Silvia Cattori : Como se sente, algumas semanas apenas após a sua libertação?
Sami El Haj : Sinto-me bem, obrigado. Quando vejo que há pessoas que se comprometem para salvar seres humanos e que lutam pela defesa dos seus direitos, isso reconforta-me. Claro, há dois meses, quando saí de Guantánamo, não estava nada bem. Mas agora estou melhor, quando descubro pessoas cá fora que lutam e não esquecem o principal objectivo: obter a paz e a liberdade para todos.
Silvia Cattori : Depois destes anos dolorosos, passados nos campos, quais são os seus sentimentos os seus votos mais queridos?
Sami El Haj : Bem, evidentemente, sinto-me feliz por estar novamente livre. Reencontrei a minha família, a minha esposa, o meu filho. Durante seis anos e meio, não me viu, foi à escola sem mim. Esperou-me e disse-me: «Pai, senti a tua falta tanto tempo! Sofri sobretudo quando via os meus colegas na escola, acompanhados pelos seus pais, que me perguntavam “Onde está o teu pai?” Não tinha resposta para lhes dar. Foi por isso que pedi à mãe para me levar à escola de carro, porque não queria que me fizessem sempre a mesma pergunta».
Respondi ao meu filho: «Agora já posso levar-te à escola, mas deves compreender que tenho uma mensagem a transmitir, uma causa justa a defender. Quero lutar pela causa dos direitos humanos, pelas pessoas que foram privadas da sua liberdade. Não vou lutar sozinho. Há milhares de pessoas que lutam pelos direitos humanos em todos os sítios onde a dignidade dos homens é desprezada. Não te esqueças que lutamos pela paz, para defender os direitos onde estes são violados, para construir um futuro melhor para ti. Talvez consigamos um dia e então poderei ficar ao teu lado e levar-te à escola».
Não sei se percebeu, porque ainda é pequenino, mas sorriu-me. A minha esposa também não queria que me fosse embora novamente. Mas quando lhe lembrei a situação dolorosa em que se encontram as pessoas encarceradas em Guantánamo, pessoas que também têm uma família, filhos, filhas e uma esposa de que sentem falta e que, se ficasse sem lutar, estas pessoas iriam permanecer encarceradas mais tempo, ela compreendeu que devia continuar a viajar, a juntar a minha voz a todas as outras vozes, para que os detidos possam voltar para casa o mais rapidamente possível. Deu-me o seu apoio total. Ao acompanhar-me ao aeroporto, disse-me: vou rezar por ti.
Silvia Cattori : Assim, ao ir para o Afeganistão para filmar os massacres de civis, vítimas da guerra de Bush, você mesmo tornou¬ se uma das suas vítimas? Não receia o que lhe pode ainda acontecer?
Sami El Haj : Para mim, não há dúvidas, vou continuar o meu trabalho de jornalista. Devo continuar a levar uma mensagem de paz a todo o custo. No que me diz respeito, passei seis anos e seis meses na prisão, longe da minha família; mas, para outros, foi muito pior. Perdi um amigo muito querido, jornalista na Al Jazeera: morreu em Bagdade, aquando do bombardeamento do hotel onde se encontrava. Perdi também uma colega, que considerava como uma irmã, que trabalhava comigo na Al Jazeera: morta, ela também, em Bagdade.
Muita gente perdeu a vida por causa desta guerra. Deve saber que a administração Bush quis impedir a cobertura dos meios de comunicação independentes, como Al Jazeera, no Médio Oriente. Os escritórios da Al Jazeera em Cabul e em Bagdade foram bombardeados.
Em 2001, quando deixei o meu filho e a minha esposa para ir filmar a guerra iniciada pelos Estados Unidos contra o Afeganistão, podia encontrar a morte num bombardeamento. Fui, consciente dos riscos. Todo o jornalista sabe que cumpre uma missão e deve estar pronto a sacrificar-se para testemunhar o que se passa, através dos seus filmes e dos seus escritos. E para ajudar as pessoas a perceberem que a guerra não traz nada mais que a morte de inocentes, destruição e sofrimentos. Foi com base nesta convicção que os meus colegas e eu fomos para países em guerra.
Agora, depois de todos estes anos de cativeiro, posso novamente fazer algo em prol da paz. Vou empenhar¬ me nesse sentido até lá chegarmos. Tenho a certeza de que um dia, mesmo que não seja eu a recolher os frutos, acabaremos por obter a paz e o respeito pelos direitos humanos, assim como a protecção dos jornalistas no mundo inteiro. Tenho a certeza de que conseguiremos que os jornalistas já não sejam torturados ou feridos exercendo a sua profissão, defendendo o direito das pessoas à informação e revelando os abusos contra os seres humanos.
Silvia Cattori : Disse, no início, que se sentia bem. Mas, depois de uma experiência tão horrível, e após ter sido libertado sem um pedido de desculpas por parte dos seus torcionários, como pode evocar esse passado sem ressentimentos nem rancor?
Sami El Haj : Claro que esse passado é extremamente duro e a minha situação pessoal é difícil. Mas quando penso naqueles que ainda estão em Guantánamo, que sentem a falta das suas famílias, de que não têm nenhuma notícia, penso que a minha situação, por muito difícil que seja, é melhor que a deles.
Não posso esquecer que deixei em Guantánamo irmãos que estão destruídos, que enlouqueceram. Penso em particular num médico iemenita que vive todo nu na sua célula, porque perdeu a razão.
Silvia Cattori : Que tipo de torturas vos infligiam eles?
Sami El Haj : Todo o tipo de torturas físicas e psíquicas. Como os detidos eram todos muçulmanos, a administração do campo submetia¬ nos a muitas vexações e humilhações tocando a religião. Vi, com os meus próprios olhos, soldados rasgar e deitar para a sanita o Corão. Vi-os, durante os interrogatórios, sentar-se em cima do Corão, enquanto não respondíamos às perguntas. Insultavam as nossas famílias, a nossa religião. Faziam de conta que telefonavam ao nosso Deus, para lhe pedir, troçando de nós, que nos viesse salvar. O único Imã do campo foi acusado de conivência com os detidos e foi despedido, em 2005, por se ter recusado a dizer aos visitantes que o campo respeitava a liberdade religiosa.
Espancavam-nos. Cobriam-nos de insultos racistas. Fechavam-nos em quartos frios, com temperaturas abaixo de zero, com uma única refeição fria por dia. Penduravam-nos pelas mãos. Impediam-nos de dormir e, quando dormitávamos, batiam-nos na cabeça. Mostravam-nos filmes ilustrando sessões de torturas atrozes. Mostravam-nos fotos de torturados falecidos, tumefactos, sanguinolentos. Mantinham-nos sob a ameaça de nos transferir para outro lado para nos torturar ainda mais. Regavam-nos com água gelada. Forçavam-nos a fazer a saudação militar ao som do hino dos Estados Unidos. Forçavam-nos a vestir roupa de mulher. Forçavam-nos a ver fotos eróticas. Ameaçavam-nos de violação. Punham-nos nus e faziam-nos andar como burros, mandando-nos ir para aqui e para acolá. Pediam-nos para nos sentarmos e para nos levantarmos 500 vezes seguidas. Humilhavam os detidos envolvendo-os em bandeiras dos Estados Unidos e de Israel; o que era uma forma de nos dizer que estávamos encarcerados no quadro de uma guerra religiosa.
Quando, coberto de piolhos e sujo, o detido era levado da sua célula para ser submetido a novas torturas, a fim de levá-lo a colaborar, ele acabava por dizer qualquer coisa e não saber mais quem era.
Fui submetido a mais de 200 interrogatórios sob tortura. 95% das perguntas diziam respeito à Al Jazeera. Queriam forçar-me a aceitar trabalhar como espião no seio da Al Jazeera. Em troca, ofereciam-me a nacionalidade estado-unidense, para mim e para a minha família, e um salário em função dos meus resultados. Recusei. Repeti-lhes que o meu ofício era o de jornalista, não o de espião, e que tinha o dever de dar a conhecer a verdade e obrar para que os direitos humanos fossem respeitados.
Silvia Cattori : Hoje, pode perdoar os seus torcionários?
Sami El Haj : Claro que lhes vou perdoar se fecharem Guantánamo. Mas se continuarem a fazer mal, vou dirigir¬ me a um tribunal e intentar uma acção contra eles.
Apesar de saber que a administração Bush fez tanto mal, continuo a pensar que não é tarde demais para que essas pessoas corrijam os seus erros.
Há que saber distinguir entre a administração e o povo. Os detidos de Guantánamo sabem que têm amigos nos Estados Unidos, como o advogado que veio a Guantánamo e que se bateu pelo meu caso.
Silvia Cattori : Ficamos com a sensação de que não conseguiram quebrá-lo?
Sami El Haj : Porque não estou sozinho. Há pessoas por trás de mim; este sentimento dá-me força. Na prisão, fui buscar a minha força à convicção de que nenhum homem livre pode aceitar ser colocado nessa situação de inferioridade e de desumanização. Experimentamos sentimentos de dor, de pena, mas guardamos a esperança de que haverá uma saída; e a ideia de que, mesmo na prisão, se pode continuar o trabalho de jornalista, acaba por limitar o sofrimento.
Silvia Cattori : Enquanto estava em Guantánamo, sabia que havia pessoas no exterior a lutarem para que fosse libertado?
Sami El Haj : Na verdade, não as conhecia, porque, dentro da prisão, as notícias são difíceis de obter, mesmo quando se tem um advogado, porque ele está proibido de vos informar. Hoje conheço as pessoas que trabalham pelos direitos humanos, e aquelas que não gostam da administração Bush. Creio que as suas vozes são cada vez mais fortes.
Silvia Cattori : Quando o viu, o seu irmão disse que parecia um homem velho. É o que sente?
Sami El Haj : Naquilo que me diz respeito, vivo pelo coração e não pelo meu rosto ou pelo meu corpo. Sinto o meu coração sempre jovem e mais forte que antes.
Silvia Cattori : Portanto, foi uma experiência muito dolorosa, mas no fundo regressou rico de um potencial insuspeitável?
Sami El Haj : É exacto. Do tempo passado em Guantánamo, soube tirar algum proveito. Antes de ir para Guantánamo, tinha apenas uma pequena família; agora tenho uma grande família, ganhei centenas de amigos no mundo inteiro. Isso é muito positivo. Perdi seis anos e seis meses, mas agora tenho mais amigos.
Silvia Cattori : Ainda é considerado como um “inimigo combatente” [3]?
Sami El Haj : Não sei, mas quando me libertaram, disseram : Agora já não é perigoso para os Estados Unidos.
Silvia Cattori : E o seu nome já não consta na “lista de terroristas”?
Sami El Haj : Não sei. Penso que, na mentalidade deles, todos os que são qualificados de “terroristas” vão permanecer “terroristas”. E que, agora, têm medo de nós porque nos fizeram mal sem nenhuma razão.
Silvia Cattori : Pensa que os agentes da CIA vão continuar a espiá-lo?
Sami El Haj : Sim. Na verdade, não tenho nada contra este país e o seu povo. Se a administração Bush corrigir os seus erros, não me vou queixar de nada.
Silvia Cattori : Ficou surpreendido quando, no momento em que saiu, um oficial do Pentágono, vendo-o com uma bengala, o acusou de ser manipulador?
Sami El Haj : As pessoas do Pentágono alegam que os prisioneiros de Guantánamo são malfeitores, mas, na verdade, 500 já voltaram para casa. Como é que os teriam deixado ir embora se realmente fossem malfeitores? Eles mentem sempre.
Silvia Cattori : Dois outros sudaneses foram libertados ao mesmo tempo que você, Amir Yacoub Mohamed al Amin e Walid Mohamed. Como estão agora?
Sami El Haj : O governo e a administração do Sudão trataram-nos muito bem. Acolheram-nos aos três directamente no aeroporto. Apesar de os Estados Unidos me terem tirado o passaporte, deram-me outro no espaço de duas horas e não me impediram de viajar para fora do Sudão.
Silvia Cattori : Em Guantánamo, os militares chamavam-no pelo nome ou pela sua matrícula de prisioneiro: “numero 345”?
Sami El Haj : Nunca me chamavam pelo meu nome, mas por “three, four, five”, o meu número de matrícula. Nos últimos tempos chamavam-me “Al Jazeera”. Só os delegados da Cruz Vermelha me chamavam pelo meu nome.
Silvia Cattori : Esses delegados visitaram-no frequentemente?
Sami El Haj : Quando estavam autorizados a visitar-nos, todos os dois ou três meses; falava com eles, traziam-me cartas da minha família.
A administração Bush e os oficiais encarregados de o torturar sabiam que era um homem honesto, um simples jornalista desejoso de dar a conhecer as brutalidades que eles cometiam contra o povo afegão, não um “terrorista”. Sabe por que razão lhe fizeram tanto mal?
Lá a maioria dos soldados obedeciam às ordens dos seus oficiais. Torturavam sem estado de alma. Mas devo à verdade dizer que alguns deles eram bons. Alguns soldados sabiam usar o seu cérebro.
Silvia Cattori : Os agentes da CIA redigiram um relatório sobre as torturas em Guantánamo. Quando o torturavam, tinha a sensação de ser observado, que faziam experiências consigo?
Sami El Haj : Estávamos sob a vigilância constante de médicos psiquiatras em uniforme militar. Não estavam presentes para nos tratar, mas para participar nos interrogatórios, para observar os torturados de forma que nenhum pormenor no comportamento do prisioneiro lhes escapasse. Era sob a responsabilidade do coronel Morgan, médico especialista de psiquiatria, que se faziam os interrogatórios. Este coronel foi colocado em Guantánamo em Março de 2002. Tinha servido na prisão afegã de Bagram desde Novembro de 2001. Dava indicações aos oficiais que nos interrogavam, estudava as nossas reacções, anotava todos os pormenores para, depois, adaptar as torturas às personalidades de cada detido, o que deixou marcas profundas no psiquismo deles.
Falei com eles. Disse-lhes que a missão de médico era nobre, era ajudar as pessoas e não torturᬠlas. Reponderam¬ me: «Somos militares, devemos obedecer às regras; quando um oficial me dá uma ordem, devo executᬠla, senão metem¬ me na prisão como a si; quando assinei o contrato com o exercito, nesse momento, percebi que devia obedecer em tudo».
Silvia Cattori : Entre as torturas praticadas em Guantánamo, vejo semelhanças com as torturas praticadas em Israel sobre os prisioneiros políticos palestinianos. A “tortura” do sono, por exemplo, é a especialidade deles.
Sami El Haj : Penso que a maior parte dos Serviços de informações do mundo inteiro foram a Guantánamo. Vi britânicos, vi canadianos. Vieram para se concentrarem nos interrogatórios, e também para fornecer aos oficiais da CIA e do FBI conselhos sobre a forma de torturar, a forma de interrogar com base nas suas experiências.
Silvia Cattori : Consegue dormir tranquilo?
Sami El Haj : Já não é como antes de Guantánamo. Não durmo mais do que 3 a 4 horas. Hoje, quando estive com pessoas da Cruz Vermelha, pedi-lhes que me ajudassem a ultrapassar as minhas dificuldades, que me aconselhassem um médico que me possa examinar. Sete anos não são pouco.
Silvia Cattori : A grave da fome, não foi um pouco como uma tortura dirigida contra si próprio? Porquê tê-la feito durante períodos tão longos, quando os seus guardiães se serviam disso para lhe infligirem ainda mais humilhações e sofrimentos?
Sami El Haj : Porque pensávamos que não podíamos ficar silenciosos, que devíamos fazer algo. Só tínhamos essa maneira de ser ouvidos. É claro que a greve da fome é um meio de acção muito penoso, muito difícil de suportar. Mas quando se está privado de liberdade, há que lutar para obtê-la. Era a única coisa que tínhamos para dizer à administração Bush, que um detido tem dignidade, que não vive só de pão, que a liberdade é mais importante.
Silvia Cattori : Como é que as coisas se passavam quando vos alimentavam à força?
Sami El Haj : Quando havia mais de quarenta detidos a fazer greve da fome, a administração do campo tentava quebrar a sua resistência infligindo¬ nos ainda mais torturas. Éramos isolados em quartos gelados, despiam-nos, impediam¬ nos de dormir durante longos períodos. Duas vezes por dia os soldados amarravam-nos numa cadeira especial. Aplicavam-nos uma máscara na boca; introduziam-nos um tubo grosso no nariz, não no estômago. Enquanto a ração normal era de 2 latas, castigavam-nos injectando-nos 24 latas e 6 garrafas de água. O estômago, encolhido pelas longas greves da fome, não conseguia conter essas quantidades. Adicionavam produtos que provocavam diarreia. O detido, mantido preso na cadeira mais de 3 horas, vomitava, vomitava. Deixavam-nos no vomitado e nos excrementos. Terminada a sessão, arrancavam o tubo com violência; quando viam o sangue escorrer, riam-se de nós. Como utilizam tubos infectados, nunca limpos, os detidos sofrem de doenças deixadas por tratar.
Silvia Cattori : Foi graças a essa longa greve da fome que foi libertado?
Sami El Haj : Não foi só por causa dela, mas foi uma das razões que levaram a administração a libertar-me.
Silvia Cattori : O que pensar das confissões de Khaled Sheik Mohamed [4], que se acusa de ter organizado mais de 30 atentados em 17 países?
Sami El Haj : Talvez o tenham torturado ao ponto em que já não somos nós próprios. Nunca me encontrei com ele, porque o colocaram num campo especial. Um oficial disse-me que foi duramente atingido; você pode duvidar: torturaram¬¬ no terrivelmente.
Silvia Cattori : Quando os estados Unidos afirmam que ele é o “terrorista n.º 3 da Al-Qaeda”, isso tem alguma coisa a ver com a realidade?
Sami El Haj : Verdadeiramente, não acredito em nada do que vem da administração Bush. Porque, também a mim, me acusaram de ser um “terrorista”. E sei melhor que ninguém do que se trata. Esta gente mente demasiado. Nunca acredito em nada do que vem desta administração. Conheço um prisioneiro que foi tão torturado, que no final disse : sou Ossama Bin Laden. Dizia o que eles queriam para fazer parar as torturas.
Silvia Cattori : Então, a Al-Qaeda, será ela uma invenção dos serviços de informações ocidentais?
Sami El Haj : Pelo que sei, na minha vida, nunca conheci ninguém que me dissesse: pertenço à Al-Qaeda.
Em Guantánamo, conheci a maior parte dos detidos, porque a política dos nossos guardas era de nunca deixar os detidos viver juntos na mesma célula muito tempo. Transferiam¬ nos todas as semanas; assim, conhecíamos novas pessoas. Todas as pessoas que conheci em Guantánamo são pessoas pacíficas.
Desde que saí, falei com mais de 100 deles. Os que eram casados recomeçaram as suas vidas, os solteiros casaram¬ se.
Silvia Cattori : Aqueles que procuram forças nas orações têm mais hipóteses de escapar à loucura?
Sami El Haj : Claro! Se sentimos que alguém nos acompanha, sobretudo se é Deus, seremos pacientes e, a qualquer momento, lembrar¬ nos¬ emos de que Deus tem mais poder que os seres humanos. Devo rezar a Deus e agradecer- lhe. Devo também agradecer a todas as pessoas que me apoiaram. Penso que, mesmo que passasse a minha vida a agradecer, não conseguiria agradecer¬ lhes a todos. Agora, através do meu trabalho em prol dos direitos humanos, talvez possa contribuir para tornar a vida de outras pessoas mais feliz.
Silvia Cattori : Creio que os media e as ONG, entre nós, não deram a devida importância à defesa dos direitos destes prisioneiros muçulmanos [5]. Durante muito tempo, denunciar os abusos cometidos contra eles, era visto como um sinal de simpatia para com os “terroristas”. Sabe que os responsáveis da “Repórteres sem fronteiras”, por exemplo, cuja missão é proteger os jornalistas, foram criticados por terem esperado cinco anos antes de falar do seu caso [6]?
Sami El Haj : Infelizmente, as pessoas acreditaram no que dizia a administração dos Estados Unidos. Agora que perceberam que isso era mentira, irão corrigir. Como lhe disse, se alguém comete um erro, não é um problema; o problema é perseverar no erro.
Se os jornalistas não se sentem tocados quando jornalistas são aprisionados no quadro da sua profissão, quiçá um dia, esses mesmos jornalistas encontrar-se-ão em prisão e não terão ninguém para defendê-los. Devemos trabalhar juntos, devemos ocupar-nos de cada caso. Se sabemos que um jornalista foi preso, devemos apoiá—lo, independentemente da sua cor ou da sua religião.
Enquanto jornalista, quero empenhar-me em apoiar os jornalistas que trabalham para a defesa dos direitos e das liberdades. Há um imenso trabalho pela frente. Devemos empenhar¬ nos totalmente para libertar as pessoas encarceradas em Guantánamo e nas numerosas prisões secretas onde a administração Bush priva dos seus direitos dezenas de milhares de outras.
Esta experiência em Guantánamo marcou-nos profundamente. O que quero reter é a necessidade e a importância da defesa dos direitos do homem. Depois de todo o mal que foi feito, penso que toda a gente se sente mais tocada. Não é aceitável abandonar pessoas que sofrem. Temos a obrigação imperiosa de nos solidarizar com elas.
A Al Jazeera conta associar-se aos meios de comunicação livres para coligir informações em torno dos direitos dos homens e das liberdades. Peço a todos os jornalistas para cooperar connosco neste sentido. Havia mais de 50 nacionalidades em Guantánamo; é uma questão mundial, e não uma questão deste ou daquele detido.
É vergonhoso que, na nossa sociedade, inocentes que foram vendidos se encontrem fechados em jaulas, e que esta violação dos direitos fundamentais seja o feito de um país que pretende ser o garante dos direitos e das liberdades.
Não sinto qualquer ódio. Respeitamos os cidadãos dos Estados Unidos. É o governo actual que deve assumir as consequências destes actos.
Os direitos Humanos e a segurança não são separáveis, não pode haver segurança sem o respeito pelos direitos fundamentais.
Silvia Cattori : Tem razão em apelar aos homens honestos e aos jornalistas a não aceitarem que as leis internacionais sejam violadas e que sejam infligidos tratamentos cruéis e degradantes a seres humanos. Mas esta política não teria podido durar se não tivesse o apoio tácito dos governos das grandes potências; foi com o assentimento deles que pessoas designadas como “inimigos combatentes” foram torturadas [7]. Todos os países europeus, por exemplo, subscreveram o conteúdo do “Patriot Act”, promulgado após o 11 de Setembro nos Estados Unidos. Foi no quadro desses Acordos secretos que os agentes da CIA e do FBI puderam raptar e torturar, na Europa, milhares de inocentes como você.
Sami El Haj : Quero dizer-lhe o seguinte: não acredito na acção dos governos. Porque qualquer governo, de qualquer país, prefere governar sem se confrontar com os verdadeiros problemas das pessoas. Talvez, por vezes, intervenham para dizer que apoiam tal causa, mas, no fundo, não a apoiam. É apenas por razões de oportunismo político que se pronunciam. E talvez também afirmem apoiar, por cálculo político, uma coisa em que não acreditam. Esqueça os governos, porque seguem a sua política. Sim, devemos continuar a trabalhar duro para defender os direitos e as liberdades de cada um.
Silvia Cattori : Podemos concluir dizendo que os "terroristas", tais como foram apresentados pela administração Bush e os meios de comunicação, não existem?
Sami El Haj : Posso assegurar-lhe que os detidos de Guantánamo que conheci não são “terroristas”. Tive a oportunidade de falar com eles, de os conhecer: são pessoas pacíficas.
Silvia Cattori : Então encarceraram-no, assim, porque era preciso mostrar aos outros países europeus que os “terroristas” muçulmanos efectivamente existiam?
Sami El Haj : Fomos presos após o atentado do 11 de Setembro, de que ninguém até agora pode dizer quem foi o autor. Bush não queria dizer: cometi erros, não assegurei a segurança correctamente. Disse: vamos iniciar uma guerra contra esse “terroristas”. Resultado: não trouxe segurança a ninguém.
Mandou bombardear o Afeganistão, enviou os seus soldados fazer a guerra a povos inteiros, mas não prendeu as pessoas que tinha estabelecido prender. Pagou quantias de dinheiro aos paquistaneses para que, em troca, eles começassem a prender pessoas e a enviá-las à sua administração.
89% das pessoas, em Guantánamo, foram compradas por dinheiro sonante às autoridades paquistanesas. Onde as encontraram? Encontraram-nas no Paquistão, não no Afeganistão.
Silvia Cattori : Esses prisioneiros foram depois torturados, com a promessa de pararem, se aceitassem tornar-se espiões ao serviço da CIA!? É um sistema aterrorizador?!
Sami El Haj : Sim. Esperemos que Bush deixe a administração. Quando tenha deixado a sua poltrona, tenho a certeza de que muita gente vai falar das suas más acções.
Silvia Cattori : O seu testemunho é muito importante. Massacraram a sua juventude. E tem a magnanimidade de transformar este desastre em algo construtivo. Recusa considerar-se como vitima. Sois verdadeiramente excepcional! Muita gente na prisão deve esperar a ajuda de pessoas com as suas qualidades.
Sami El Haj : Temos que trabalhar duro, para que aqueles que continuam a apoiar a administração Bush acabem por se sentir envergonhados pelos seus actos. Nesse momento, mais ninguém os irá ajudar. E quando mais ninguém os ajudar, pararão.
Todo a história de Guantánamo é uma mancha negra. A administração Bush quis iludir a opinião dizendo que éramos terroristas. Ora, esses homens que foram encarcerados, são na sua maioria como eu, inocentes.
Silvia Cattori : Obrigado por nos ter concedido esta entrevista.
* * *
Cada um pode constatᬠlo: os presumidos “terroristas” que as nossas sociedades perseguem são na realidade vítimas.
Sami El Haj toca-nos pela sua sabedoria, a sua maturidade e a sua elevação de pontos de vista. Faz-nos pensar no Cristo na cruz, pois o seu calvário não acabou; as feridas são demasiado profundas.
A sua delicadeza contrasta com a descrição dos presumidos “terroristas” que as autoridades e os meios de comunicação tradicionais nos transmitiram durante todos estes anos.
Sem reivindicações, nem queixumes; o seu relato é sóbrio e sem ênfase. Deveria poder fazer mudar as coisas. Coloca a tónica na acção a conduzir para fazer sair, sem tardar, aqueles que permanecem cativos. Diz e repete que não encontrará descanso enquanto não forem libertados todos os detidos de Guantánamo.
Doravante, há urgência e obrigação moral de reagir, de explicar com honestidade o que se passou realmente, a advogar por que as nossas sociedades adoptem uma política onde o mundo árabe e muçulmano possa esperar outra coisa que guerras e racismo.
Se o conjunto dos meios de comunicação suíços relataram correctamente a passagem por Genebra de Sami El Haj, não é menos verdade que a televisão pública local (TSR) minimizou o acontecimento e não se dignou a convidᬠlo para os seus estúdios. Note-se– isto explica aquilo? – que os redactores da TSR deram, nos últimos sete anos, abundantemente a palavra aos “bons árabes”, como Antoine Basbou ou Antoine Sfeir, que vão repetindo aquilo que os nossos redactores dizem ou querem ouvir, trazendo assim um apoio às teses belicistas que têm, ao que parece, o seu favor.
Os raptos, os centros de torturas como Guantánamo, Abou Ghraib, Bagram, Kandahar não são, como nos deixam frequentemente acreditar, simples “deslizes” [8], mas sim a expressão de uma política criminosa que serve os interesses ocultos de dois Estados principalmente: os estados Unidos e Israel. Podemos aliás perguntar¬ nos se este último não será o único vencedor destas guerras, que devastaram povos inteiros, mas também arruinaram as finanças e a imagem dos Estados Unidos no mundo.
Esta “guerra contra o terrorismo”, de que nos enchem os ouvidos, é uma guerra criminosa; uma guerra manipulada pelas grandes potências e os seus serviços de informações.
Há cada vez mais pessoas a perceber que as sanções da ONU, as “listas de terroristas” que a Europa também estabeleceu, as campanhas de difamação contra os muçulmanos, são instrumentos de manipulação da opinião, destinados a manter artificialmente um clima conflitual.
De resto, os atentados do 11 de Setembro serviram de pretexto imediato para orientar a política internacional de Telavive e de Washington no sentido de objectivos militares há muito programados. Serviram nomeadamente para liquidar todo o tipo de resistência à sua política criminosa. Começando pela resistência palestiniana e muçulmana.
Após o desmantelamento do império soviético, o mundo islâmico foi designado como “novo eixo do mal”. Desde o início dos anos 90, os Estados Unidos e Israel manobraram de forma a suscitar o medo e a intolerância contra os muçulmanos e a incentivar os serviços secretos de vários países, a infiltrá-los, manipulá-los, financiá-los, e a encorajar “desequilibrados” a cometer atentados; para, em seguida, apontar-lhes o dedo, justificar medidas coercivas, raptos, torturas e detenções arbitrárias.
Desde 2001, enquanto os principais meios de comunicação faziam complacentemente o eco de campanhas contra “anti-semitas” a maior parte das vezes imaginários, dezenas de milhares de muçulmanos eram raptados, encapuçados, aprisionados, moídos por torcionários com o fim de forçá-los a aceitar trabalhar como espiões para os serviços de informações estatais. Tudo isto decalcado dos métodos dos serviços secretos israelitas do Shin Beth [9], que funcionaram tão bem para esmagar uns quantos 700.000 palestinianos aprisionados arbitrariamente, durante estes últimos 40 anos.
É esta sociedade que queremos?
O que é mais lamentável e desalentador nesta triste história, é o facto de que os governos europeus se serviram desta pretensa “ameaça islamita” para se desembaraçarem de um bom número de protecções constitucionais e aplicaram, eles também, as medidas ilegais ditadas por Bush, permitindo deste modo à CIA raptar muçulmanos no seu território, sabendo que iam ser entregues a centros de torturas, fora da legalidade e por tempo indeterminado.
O que nos interroga igualmente é o lugar que os chefes de redacção deram, e continuam de dar, a estes pretensos “especialistas em terrorismo” que alimentaram o fantasma do “perigo islamita”. “Especialistas” que retomam a propaganda estado-unidense, que associam Islão e “terrorismo”, quando sabem perfeitamente que a estratégia de Washington e de Telavive é de associar, sem nenhuma prova, muçulmanos a “terroristas” [10].
Todos nos lembramos das campanhas enviesadas, destinadas a vilipendiar e destruir a carreira de dois irmãos : Hani e Tariq Ramadan, nomeadamente em França e na Suíça. Nos outros países houve montagens semelhantes.
Se não queremos uma sociedade pervertida, baseada na mentira, que autoriza os raptos, os centros de torturas, os assassinatos dirigidos, as estratégias de infiltração, destinadas a transformar pessoas em informadores, é tempo de reagir.
Ver Sami El Haj, esse retornado do inferno, apelar, sem ódio nem espírito vindicativo, aos jornalistas para trabalharem para fazer triunfar os direitos humanos, para apagar esta “mancha negra da memória”, é uma grande lição.
A nossa “civilização ocidental”, as nossas “democracias” tão louvadas, em nome das quais se fizeram tantas guerras e se cometeram tantos crimes, os nossos meios de comunicação social “livres”, terão doravante que contar com todos estes retornados que apelam ao nosso despertar.
Silvia Cattori
(Blogue da silvia cattori)
Tradução de Ana da Palma (19/07/08):