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sábado, 31 de julho de 2010

URGENTE a todo POVO de Nuestra America: Luta pela soberania da Venezuela e de AL. . O USA nos usa. BASTA!

PCV: llamamos al pueblo a cerrar filas para acompañar al gobierno nacional


Caracas, 30 jul. 2010, Tribuna Popular TP.- ³Es Urgente y necesario a convocar al pueblo, a todos los sectores sociales, económicos y políticos que apoyan la Revolución Bolivariana, a cerrar filas en apoyo al gobierno nacional, ante las nuevas arremetidas del imperialismo estadounidense y su brazo ejecutor de turno, el gobierno de Álvaro Uribe².

Así se expresó Carolus Wimmer, secretario de Relaciones Internacionales del Partido Comunista de Venezuela (PCV), en el momento de llamar al pueblo venezolano a estar alerta y mantenerse vigilante ante cualquier agresión que sufra el territorio o el gobierno venezolano.
³El imperialismo estadounidense ha ido preparando aceleradamente su maquinaria de guerra para tratar de frenar los procesos progresistas y revolucionarios que se desarrollan en Latinoamérica y en especial a nuestra revolución. Por ello establece recientemente bases militares en Perú, Colombia, Panamá e introduce una gran cantidad de soldados y armamentos pesados en Costa Rica, con el fin de ir cercando a nuestro País y a otros que ya no responden a los dictados de Washington², agregó Wimmer, quien es vicepresidente del Parlamento Latinoamericano (Parlatino).
El diputado recalcó que ante este escenario el pueblo venezolano debe estar preparado para enfrentar cualquier agresión.
Por otra parte, manifestó su apoyo el plan de paz para Colombia que propone el gobierno venezolano, por ser una salida pacífica a un conflicto que ya tiene más de 60 años.
³La propuesta de un plan paz que vaya acompañado por los países de la región puede ser una salida al conflicto armado, aunque no hay que guardar muchas esperanzas porque la guerra es un negocio para la oligarquía colombiana y que además le permite eliminar físicamente a sus adversarios, tal como ha sucedido en las últimas 6 décadas², reiteró el dirigente comunista.
De la misma manera, aseguró que a Estados Unidos tampoco le convendría un escenario de paz en la región, pues este país se ha erigido en potencia dominante a través de la guerra.
³Esta va a ser otra propuesta torpedeada por el Departamento de Estado estadounidense porque es parte de la naturaleza del imperialismo hacer la guerra para mantener sus objetivos expansionistas y no va a dejar que Colombia establezca ningún acuerdo de paz, pues el papel que le tiene señalado a la oligarquía colombiana es sembrar división en la región y alejar cualquier intento integracionista² , reiteró el parlamentario.
Sin embargo el diputado Carolus Wimmer afirmó que confía en la ³conciencia antiimperialista y las fuerzas organizadas de los pueblos latinoamericanos para avanzar en la política de Paz, Unidad y Amistad en América Latina².
Enviado por JACOB BLINDER

Faz-se necessário não só a luta de hermanos venezuelanos ao lado de Chavez, mas a UNIAO DE POVOS de NUESTRA AMERICA, pois esta luta é a  luta de todo o POVO Hermano.  Vamos juntos divulgar e nos aliar aos que defendem a soberania da pátria e os ideais  de Luta: Independencia, liberdade, autonomia.
Juntos Somos Fortes


Agência Assaz Atroz PODE MAIS que o presidente Lula

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“Não posso dizer tudo [que pensa sobre a revista Veja] porque eu sou presidente da República, sabe?”

Mas nós aqui não somos presidentes nem mesmo de escola de samba, portanto podemos mais que Lula.

Assim sendo...

(in)Vejam bem: VÃO SE ROÇAR NAS OSTRAS, BABACAS!

Editor-Assaz-Atroz-Chefe

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Lula manda Veja às favas: "Eu não preciso deles para nada"

Numa de suas mais sinceras entrevistas desde que chegou ao Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que não apenas ignora as opiniões da Veja como também dispensa qualquer tipo de relação com a decadente revista da Editora Brasil. O depoimento foi dado na semana passada à repórter Adriana Araújo, do Jornal da Record.

Lula deixou claro que prefere a aprovação popular ao reconhecimento da grande mídia. “Se dependesse de alguns jornais, se dependesse de algumas televisões e se dependesse de algumas rádios — eu estou falando ‘algumas’, para não generalizar —, eu teria zero na pesquisa (sobre seu governo).”

Adriana perguntou, em seguida, qual é a resposta de Lula diante de uma caricatura grosseira que a Veja fez dele — “um rei com a coroa na cabeça e acima de todas as leis, que passa um mau exemplo para o cidadão brasileiro, desrespeitando as leis”. Foi o estopim para o desabafo do presidente — e uma quase promessa de expor, ao sair do governo, o que realmente pensa da Veja.

“Primeiro, eu não vejo essa revista — portanto, para mim não quer dizer nada isso. Como eu não preciso deles para nada — para nada, sabe? —, eles têm a liberdade de dizer o que eles quiserem a meu respeito. E eu quero ter a liberdade de dizer o que eu penso deles, do jeito que eu quiser”, declarou Lula. “Não posso dizer tudo porque eu sou presidente da República, sabe?”, explicou na entrevista.

Segundo ele, é possível que, ao fim de seu segundo mandato presidencial, todas as suas opiniões sobre a Veja venham à tona. “Um dia? Quem sabe?!”

Da Redação,
André Cintra

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http://www.youtube.com/watch?v=g20hobir9R4&feature=player_embedded

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Temendo ser preso, Diogo Mainardi foge

Por Altamiro Borges

Em sua coluna na Veja desta semana, Diogo Mainardi, o pitbul da direita nativa, deu uma notícia que alegrou muita gente. Anunciou que deixará o Brasil. Num texto empolado, ele não explica os motivos da decisão. A única pista surge na frase “tenho medo de ser preso” – será uma confissão de culpa? “Oito anos depois de desembarcar no Rio de Janeiro, de passagem, estou indo embora. Um vagabundo empurrado pela vagabundagem”. Concordo totalmente com a primeira descrição!

O enigmático anúncio levantou muitas suspeitas. Para o blogueiro Paulo Henrique Amorim, uma das vítimas das difamações e grosserias deste pseudojornalista, ele está fugindo para não pagar o que deve. “O Mainardi me deve dinheiro. Ele perdeu no Supremo Tribunal Federal, por decisão do Ministro Toffoli, recurso em uma causa que movo contra ele. Contra ele e o patrão, o Robert (o) Civita... Interessante é que o próprio Mainardi foi quem disse que só escrevia por dinheiro”.

Leia artigo completo no Blog do Miro...


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Ilustração: AIPC – Atrocious International Piracy of Cartoons

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PressAA

Agência Assaz Atroz

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Os bancos dos EUA e a liberdade comercial… das drogas e seus traficantes



Os bancos dos EUA e a liberdade comercial… das drogas e seus traficantes


Os bancos dos EUA e a liberdade comercial… das drogas e seus traficantes



31.Jul.10 :: Outros autores

“Quem disse que o crime não compensa? (…) O Departamento da Justiça [dos EUA] resolve as acusações criminais utilizando acordos de adiamento do processo, em que o banco paga uma multa e promete não voltar a violar a lei». Para os banqueiros não há pistolas taser…”


A Wells Fargo, uma das maiores instituições financeiras dos EUA, confessou em tribunal que a sua unidade bancária Wachovia «não havia monitorizado e participado [às autoridades] suspeitas de lavagem de dinheiro por parte de narco-traficantes» (Bloomberg, 29.6.10).
O montante do «lapso» é estonteante: 378 mil milhões de dólares. Trata-se de dinheiro proveniente de «casas de câmbio» mexicanas nos anos 2004-07. A notícia acrescenta que «o Wachovia habituara-se a ajudar os traficantes de droga mexicanos a movimentar dinheiro».
Martin Woods, ex-chefe do combate à lavagem de dinheiro no Wachovia em Londres informou o banco e as autoridades do que se passava. «Woods disse que os seus patrões mandaram-no estar calado e tentaram despedi-lo».
Qual foi a penalização do banco? Pagou 160 milhões de dólares de multa («menos de 2% dos seus lucros de 12,3 mil milhões em 2009») e prometeu melhorar o sistema de vigilância. Se o fizer, «o governo dos EUA deixará cair todas as acusações contra o banco em Março de 2011, segundo o acordo alcançado» (Bloomberg 7.7.10).
Quem disse que o crime não compensa? É sempre assim: «Nenhum grande banco dos EUA – incluindo a Wells Fargo – foi alguma vez formalmente acusado de violar a Lei dos Segredos Bancários ou qualquer outra lei federal. Em vez disso, o Departamento da Justiça resolve as acusações criminais utilizando acordos de adiamento do processo, em que o banco paga uma multa e promete não voltar a violar a lei». Para os banqueiros não há pistolas taser…
Entretanto, o México desintegra-se na violência que «já matou mais de 22 000 pessoas desde 2006» (Bloomberg, 7.7.10). A carnificina – e a catástrofe social – não suscitam campanhas indignadas.
Fosse na Venezuela, já haveria inflamados comentaristas a invectivar contra o «Estado falhado» e exigir «intervenções humanitárias». Mas aqui, não.
Talvez porque «o Wachovia é apenas um dos bancos dos EUA e Europa que têm sido utilizados para lavar dinheiro da droga». Ou porque, como afirmou o chefe do Gabinete da ONU sobre Droga e Crimes (UNODC), no auge da crise do sistema financeiro em 2008 «em muitos casos o dinheiro da droga era o único capital de investimento líquido. […] empréstimos inter-bancários eram financiados pelo dinheiro da droga e outras actividades ilegais. Houve sinais de que alguns bancos foram salvos desta forma» (Observer, 13.12.09).
Os EUA estão numa escalada militar maciça na América Latina. O pretexto oficial é o combate ao narcotráfico. Mas há um longo historial de ligação das intervenções dos EUA com os tráficos de vária ordem.
Foi assim na Nicarágua, no Kosovo, com o regime colombiano. É assim no Afeganistão. País que, segundo o relatório UNODC de 2010 «é responsável por cerca de 90% da produção ilícita de ópio nos últimos anos». Na página 38 há um gráfico eloquente.
Praticamente inexistente até 1980, a produção afegã de ópio cresceu de forma acentuada nos anos da ingerência imperialista. A grande excepção foi 2001, o ano antes da invasão, quando os talibã no poder erradicaram mais de 90% da produção. Depois da ocupação EUA/NATO foram batidos todos os recordes de produção.
Grandes alvos do tráfico de droga são os países vizinhos: a Rússia «livre» é hoje «o maior mercado nacional de heroína afegã, um mercado que se expandiu rapidamente desde a dissolução da URSS». E também as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, o Paquistão, a região oriental da China e o Irão.
O relatório da ONU elogia o papel deste último país no combate ao tráfico. «São frequentes os combates mortíferos entre tropas iranianas e traficantes, como é evidenciado pelos milhares de baixas sofridas pelos guardas fronteiriços iranianos nas últimas três décadas». Entre 1996 e 2008 o Irão «é responsável por mais de dois terços das apreensões de ópio a nível mundial» e cerca de um terço das apreensões de heroína.
Em meados do Século XIX o imperialismo britânico desencadeou as duas Guerras do Ópio contra a China, em nome da «liberdade de comércio»… do ópio. Parece que os EUA lhe querem seguir o exemplo.
* Professor da Universidade de Lisboa e analista de política internacional.

Este texto foi publicado em Avante nº 1.913 de 28 de Julho de 2010 (Liberdade Comercial)

extraído d'ODiário.info  (A Banca e a liberdade comercial... Da droga)
http://redecastorphoto.blogspot.com/2010/07/os-bancos-dos-eua-e-liberdade-comercial.html



Enviada por Castor Photo
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Venezuela e Colômbia: Conflito versus Integração




Retirado do site da revista Caros Amigos
 
Por Beto Almeida*

Terminou sem solução a reunião da Unasul, com a participação de chanceleres, destinada a debater o conflito instalado entre Venezuela e Colômbia. Uma proposta apresentada pelo Brasil com um conjunto medidas para a normalização das relações biletqarais foi rejeitada pela Colômbia no último instante. Em razão disto, decidiu-se pela convocação de nova reunião com a presença dos presidentes. A dificuldade para um consenso talvez esteja de fato expressando o antagonismo de projetos e de expectativas entre os países citados sobre qual destino histórico almejam para a América do Sul, especialmente sobre os passos já dados para a integração do continente, sendo a própria constituição da Unasul uma prova de que algo caminha, aos trancos e barrancos, apesar dos esforços do neocolonialismo para sabotar a idéia da cooperação sul-americana.

Notoriamente, localizam-se na Colômbia os maiores obstáculos para o desenvolvimento das políticas de integração. Ainda que muitas das iniciativas energéticas, econômicas de cooperação incluam a pátria de Gabriel Garcia Marquez no projeto, apesar da canina obediência de seu governo à ideologia que preservaria, na América do Sul, os “interesses vitais” dos Estados Unidos. Em outras palavras, um confronto de vida e morte está instalado no coração na Colômbia, produzindo uma situação socialmente catastrófica para a maioria de sua população e sendo parte dos fatores que ajudariam a explicar as acusações grosseiras feita pelo governo Uribe à Venezuela. Maior presença militar estadunidense na Colômbia só podera agravar tal situação e ameçar, concretamente, o curso da integração continental, que pressupõe soberania e autonomia em relação aos EUA.

Vale lembrar, primeiramente, que Álvaro Uribe, que deixa o cargo em 7 de agosto próximo, tentou durante seus dois mandatos manter uma estratégica política de conflito permanente e regulado com a Venezuela e também com o Equador. Mas, por que somente a apenas 15 dias do fim de seu mandato lançaria um ataque midiático de tal porte contra o governo Chávez? Já encontramos aí um sinal de sua própria debilidade, já que contra o Equador, em março de 2008, suas forças militares primeiro atacaram e só depois apresentaram o que chamaram "provas" de uso de território equatoriano por guerrilheiros das Farc, até hoje sem uma comprovação cabal que as retire da sombra da manipulação e da falsificação. Já as “provas” apresentadas recentemente contra a Venezuela em tudo e po r tudo guardam semelhança com as chamadas “armas de destruição em massa de Sadam Husseim”, esgrimidas com estardalhaço midiático mundialmente para justificar a sangrenta invasão e as encomendas da indústria bélica, até hoje banhadas em lucro estupendo.

Outro sinal das dificuldades do uribismo para cumprir sua função de ser tocador dos tambores de guerra sul-americana, impedindo qualquer projeto de integração ou até mesmo uma simples nornalização de relações políticas, que também podem levar a planos de cooperação já que a Colômbia também foi afetada pela crise mundial do capitalismo, é a derrota do presidente em duas ações centrais: primeiro, não conseguiu apoio para um terceiro mandato; segundo, também não conseguiu que a Suprema Corte anistiasse seus correligionários mais próximos, inclusive alguns familiares, das robustas acusações de vínculo com o paramilitarismo colombiano e, também, como desdobramento, com o narcotráfico que ,retóricamente, anuncia combater.

Discensões no uribismo?

Embora Santos, o presidente eleito, tenha sido seu minitro da defesa, suas primeiras declarações após a vitória eleitoral, cuja abstenção atingiu quase 60 por cento do eleitorado , chamaram a atenção por indicar interesse em normalizar as relações com os governos chamados bolivarianos, ou seja, com a Venezuela e o Equador. Além deste sinal, há poucos dias houve a troca de toda cúpula militar colombiana, e já após o ataque circense-midiático feito pelo embaixador colombiano na OEA contra a pátria de Bolívar. Sem contar, que já foram nomeados pelo menos três ministros que são claros desafetos de Uribe, entre eles o novo chanceler.

Tais fatos não devem ser menosprezados e podem estar revelando as dificuldades do uribismo para tentar manter intacta a mesma linha política no governo que se inicia. Se por um lado a oligarquia, especialmente a cafeeira, pode contentar-se com a posição subalterna ante os planos estadunidenses de transformar a Colômbia simplesmente num novo Israel, por outro, para a burguesia industrial colombiana, a Venezuela é um excelente mercado para seus produtos, sobretudo automóveis, têxteis, calçados, laticíneos. Portanto, não dispondo de espaços no mercado dos EUA e outros, sabe que a normalização das relações com a Venezuela lhe assegura acesso a um mercado consumidor em fortalecimento, já que o salário mínimo venezuelano é hoje o mais elevado de toda a América Latina.

São contradições desta natureza que fazem com que esteja em construção um gasotudo ligando Colômbia e Venezuela, ou seja, um plano concreto de integração energética e econômica, apesar de no plano político os dois países estarem sempre em posição de embate. Cabe assinalar, também, a presença de pelo menos 4 milhões de colombianos vivendo hoje na Venezuela, onde recebem documentação, cidadania, tratamento médico e dentário gratuitos, com especialistas cubanos, educação gratuita e uma razoável segurança para trabalhar, o que haviam perdido nas áreas de conflito entre as Farc, o exército e os paramilitares em sua terra colombiana Não teriam direito a nada disso caso - numa hipótese remotíssima - emigrassem par os EUA, onde, se entrassem, seriam tratados como sub-cidadãos. O próprio povo estadunidense não dispõe, ainda hoje, em sua maioria, de uma saúde e previdência públicas...

Uribe versus Lula

Por fim, o protesto de Uribe contra as declarações de Lula não poderiam ser mais ridículo. Lula, deixando claro de que lado está, aposta na integração sul-americana, sua política externa e os investimentos estatais e privados brasileiros o indicam concretamente. Mas, para que esta integração avance é necessária a consolidação das iniciativas de cooperação. Elas estão em curso, muito embora o uribismo que grassa, inclusive, na própria mídia comercial brasileira diga tratar-se apenas de “retórica itamarateca”. A cooperação energética entre Brasil, Argentina e Bolívia, para dar apenas um exemplo, já permitiu que uma importante crise no abastecimento de gás do país de Gardel fosse contornada com sucesso por meio do redirecionamento transitório para l á do gás boliviano que viria para o Brasil. Cooperação, planejamento e integração.

Porém, iniciativas desta natureza defrontam-se com obstáculos para serem implementadas, entre eles o governo da Colômbia, muito embora sua população, pelos indicadores sócio-econômicos negativos que ostenta, também delas necessitem. A instalação de sete bases militares estadunidenses pode fortalecer enormemente os sinistros planos da oligarquia colombiana, mas não expandem a indústria, o mercado, portanto, não geram emprego, nem fortalecem as políticas públicas de saúde, educação e democratização cultural, como as que foram instaladas na Venezuela mas também no Equador, no Uruguai, Bolívia, Argentina e Brasil.

Ao credenciar-se compor o tabuleiro mundial do xadrez estadunidense como um peão belicista tal como Israel, Coréia do Sul e o Paquistão, a Colômbia caminha na contra-mão do processo de integração da América do Sul. Mas, deve considerar que a própria Turquia, que adotava posições também recalcitrantes, foi obrigada pelo curso do processo a dar uma virada radical em sua política externa em relação ao Irã, a Israel, à Palestina e também em relação à Rússia e OTAN, Veremos até onde a Colômbia poderá caminhar nesta rota de contramão, um verdadeiro beco sem saída, que desemboca inevitavelmente na guerra. E no seu próprio isolamento. Enquanto isto, Raul Castro já declarou que Cuba, que foi à África de armas nas mãos para derrotar o regime do aparthei e defender Angola, estará, obviamente, ao lado da Venezuela. O caminho está na integração e na cooperação sul-americanas.

*Diretor da Telesur no Brasil

Congresso absolve MST

Retirado da Adital  

Por Frei Beto

O MST jamais desviou dinheiro público para realizar ocupações de terra - eis a conclusão da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito), integrada por deputados federais e senadores, instaurada para apurar se havia fundamento nas acusações, orquestradas pelos senhores do latifúndio, de que os movimentos comprometidos com a reforma agrária se apoderaram de recursos oficiais.

Em oito meses, foram convocadas treze audiências públicas. As contas de dezenas de cooperativas de agricultores e associações de apoio à reforma agrária foram exaustivamente vasculhadas. Nada foi apurado. Segundo o relator, o deputado federal Jilmar Tatto (PT/SP), "foi uma CPMI desnecessária".
Não tão desnecessária assim, pois provou, oficialmente, que as denúncias da bancada ruralista no Congresso são infundadas. E constatou-se que entidades e movimentos voltados à reforma fundiária desenvolvem sério trabalho de aperfeiçoamento da agricultura familiar e qualificação técnica dos agricultores.
O que os denunciantes buscavam era reaquecer a velha política - descartada pelo governo Lula - de criminalizar os movimentos sociais brasileiros. Esse tipo de terrorismo tupiniquim a história de nosso país conhece bem: Monteiro Lobato foi preso por propagar que havia petróleo no Brasil (o que prejudicou os interesses usamericanos); foram chamados de comunistas os que defendiam a criação da Petrobras; e, de terroristas, os que lutavam contra a ditadura e pela redemocratização do país.
A Comissão Parlamentar significou, para quem insistiu em instaurá-la, um tiro saído pela culatra. Ficou claro para deputados e senadores bem intencionados que é preciso votar, o quanto antes, o projeto de lei que prevê a desapropriação de propriedades rurais que utilizam trabalho escravo em suas terras. E resolver, o quanto antes, a questão dos índices de produtividade da terra.
A investigação trouxe à luz, não a suposta bandidagem do MST e congêneres, como acusavam os senhores do latifúndio, e sim a importância desses movimentos no atendimento à população sem-terra. Eles cuidam da organização de acampamentos e assentamentos e, assim, evitam a migração que reforça, nas cidades, o cinturão de favelas e o contingente de famílias e pessoas desamparadas, sujeitas ao trabalho informal, ao alcoolismo, às drogas, à criminalidade.
Segundo Jilmar Tatto, os inimigos da reforma agrária "fizeram toda uma carga, um discurso muito raivoso, colocaram dúvidas em relação ao desvio de recursos públicos e perceberam que a montanha tinha parido um rato. Porque não havia desvio nenhum. As entidades e o governo abriram todas as suas contas. Foram transparentes e, em nenhum momento, conseguiu-se identificar um centavo de desvio de recurso público. Foram desmoralizados (os denunciantes), e resolveram se ausentar dos trabalhos da CPMI. (...) Foi um trabalho produtivo, no sentido de deixar claro que não houve desvio de recurso público para fazer ocupação de terras no Brasil. O que houve foi a oposição fazendo uma carga muito grande contra o governo e o MST."
Os parlamentares sensíveis à questão social no Brasil se convenceram, graças ao trabalho da comissão, que é preciso aumentar os recursos para a agricultura familiar; garantir que a legislação trabalhista seja aplicada na zona rural; e incentivar sempre mais os plantios alternativos e os alimentos orgânicos, sobre cuja qualidade nutricional não paira a desconfiança que pesa sobre os transgênicos. E, sobretudo, intensificar a reforma agrária no país, desapropriando, como exige a Constituição, as terras improdutivas.
Dados recentes mostram que, no Brasil, se ocupam 3 milhões de ha (hectares) com a lavoura de arroz e 4,3 milhões com feijão. Segundo o geógrafo Ricardo Alvarez, se compararmos com os 851 milhões de ha que formam este colosso chamado Brasil veremos que as cifras são raquíticas. Apenas 0,85% do território nacional está ocupado com o cereal e leguminosa. Um aumento de apenas 20% na área plantada significaria passar de 7,3 para 8,7 milhões de ha, com forte impacto na alimentação do povo brasileiro.
Para Alvarez, o aumento da produção levaria à queda de preços, ruim para o produtor, bom para os consumidores. Caberia, então, ao governo implantar uma política de ampliação da produção de alimentos, garantir preços mínimos, forçar a ocupação da terra, combater o latifúndio, gerar empregos no campo e atacar a fome. Ação muito mais eficiente, graças aos 20% de acréscimo na área plantada, do que o assistencialismo alimentar.
O latifúndio ocupa, hoje, mais de 20 milhões de ha com soja. No início dos anos 90, o número beirava os 11,5 milhões. A cana-de-açúcar foi de 4,2 para 6,5 milhões de ha no mesmo período. Arroz e feijão sofreram redução da área plantada. Hoje o brasileiro consome mais massas do que a tradicional combinação de arroz e feijão, de grande valor nutritivo.
Alvarez conclui: "Não faltam terras no Brasil, faltam políticas de distribuição delas. Não faltam empregos, falta vontade de enfrentar a terra improdutiva. Não falta comida, falta direcionar a produção para atender as necessidades básicas de nossa população."

Venezuela

Tensão com a Venezuela é ‘último ato de amor’ aos EUA do lacaio Uribe
Escrito por Atilio Boron
30-Jul-2010

Incondicional peão do império, Álvaro Uribe se despede da presidência da Colômbia com uma nova provocação: a denúncia da existência de acampamentos das FARC em território venezuelano. Sem lerdeza ou desatenção, o Departamento de Estado dos EUA saiu a respaldar sem reservas a acusação formulada por Bogotá na OEA, motivada pela suposta "contundência" das provas apresentadas por Uribe que denunciam o governo de Hugo Chávez por permitir a instalação de acampamentos das FARC e a realização de diversos programas de treinamento militar a cerca de 1500 efetivos de guerrilha em território venezuelano. O porta-voz do Departamento de Estado, Philip Crowley, declarou com singular insolência que "a Venezuela mostrou uma conduta inapropriada e insolente" com seu vizinho e ameaçou que se o país "não cooperar, os Estados Unidos e demais países obviamente levarão em conta".

Deve se lembrar que desde 2006 os EUA incluem a Venezuela na lista dos países que não cooperam na luta contra o terrorismo. Na mesma linha se manifestou o Subsecretário Adjunto para a América Latina, Arturo Valenzuela, declarando que a denúncia feita por Uribe era "muito séria". Ambas as declarações jogam espessas sombras de dúvidas sobre as capacidades intelectuais dos dois funcionários e, ainda mais grave, alimentam a suspeita de que por conta da fixação pela mentira a qualidade moral de ambos não parece muito diferente da de Uribe.

É evidente que para os administradores imperiais qualquer coisa que convenha a seus interesses tratam de fazê-la aparecer aos olhos da opinião pública como "séria e contundente". E são esses interesses que moveram a Casa Branca a pedir uma última "prova de amor" ao governante colombiano poucos dias antes de abandonar a presidência. Como é de público conhecimento, o prontuário que a DEA, a CIA e o FBI vêm construindo sobre Uribe por seus íntimos e ramificados vínculos com os narcotraficantes não permite ao mandatário colombiano desobedecer nenhuma ordem originada de Washington, sob pena de ter a mesma sorte do ex-presidente panamenho Manuel A. Noriega e terminar seus dias em uma prisão de segurança máxima nos EUA.

A disparatada denúncia de Uribe, um mentiroso inveterado, vem sob medida para impulsionar a desestabilização que Washington quer produzir às vésperas de cruciais eleições venezuelanas programadas para 26 de setembro, e ao mesmo tempo legitimar o impressionante programa de militarização que está impondo na América Latina, sendo que uma de suas maiores expressões foi a assinatura do tratado Obama-Uribe, mediante o qual o país sul-americano cede ao menos sete bases militares para uso das forças armadas dos EUA. Por isso os porta-vozes do governo norte-americano simulam que consideram "sérias e contundentes" as provas que respaldam a denúncia de Uribe, sabendo que não têm sustentação alguma e que são pura conversa fiada e montagens fotográficas. Mas as mentiras são parte do discurso oficial dos EUA, elementos imprescindíveis para dar legitimidade aos desígnios do imperialismo norte-americano, e isso por várias razões.

São mentiras porque, em primeiro lugar, se as FARC controlam cerca de 30% do território nacional (coisa mais que sabida na Colômbia) não se entende que sentido pode ter desviar nada menos que 1500 homens do teatro de operações, enviar seus chefes para tirar férias na Venezuela e organizar 85 acampamentos guerrilheiros no país vizinho. Se há um político que mente sistematicamente em nossa região – e há muitos! – Uribe leva todos os aplausos: é na própria Colômbia onde a crise e a putrefação do Estado oligárquico permite que amplas faixas de seu território, especialmente nas zonas selvagens, estejam controladas pela guerrilha, os narcos e os paramilitares.

Diversas autoridades equatorianas comentaram após o ataque que as forças colombianas realizaram em seu território que o Equador não faz fronteira ao norte com a Colômbia, mas com uma terra de ninguém controlada pelas organizações mencionadas acima. Com uma estupidez sem limites Uribe acusa seus vizinhos de não fazer o que ele mostrou com sobras ser incapaz de realizar: controlar seu próprio território. Fechando os olhos ante essa realidade, os EUA se montam sobre essa denúncia falaciosa para, a partir dali, acossar o governo bolivariano por sua falta de colaboração na luta contra o narcotráfico, ocultando da opinião pública – com a cumplicidade da "imprensa livre", claro! – o incômodo fato de que o maior exportador mundial de cocaína (e também de narcotraficantes) é a Colômbia militarizada por Uribe e transformada, graças à sua imensurável colaboração, em um protetorado norte-americano. 

Diante de tal quadro de descomposicão política, denunciar que as FARC se instalam na Venezuela – e pra completar com o aval e cumplicidade do governo de Hugo Chávez – não passa de uma vulgar armadilha a serviço do império; uma acusação que carece completamente de integridade para ser minimamente levada a serio. É a calúnia que revela um personagem totalmente inescrupuloso como Uribe.

Em segundo lugar, como esquecer que Uribe foi o homem que mentiu aleivosamente quando suas forças, apoiadas pelas dos EUA, fizeram incursão em território equatoriano, alegando que perseguiam uma coluna das FARC? As provas demonstraram que os guerrilheiros a que supostamente se perseguiam após um enfrentamento ocorrido em chão colombiano estavam dormindo – inclusive vestidos de pijamas – no momento que se produziu o ataque, e que, em conseqüência do ocorrido, em Santa Rosa de Sucumbios não houve um combate, mas um claro e cristalino massacre indiscriminado.

Nessa operação, realizada pouco depois da meia-noite de 1º de março de 2008, foi levado a cabo com apoio logístico e material dos efetivos norte-americanos estacionados na base de Manta (EQU), os únicos que dispunham de tecnologia necessária e de aviões capazes de efetuar um bombardeio de assombrosa precisão em plena selva e em meio a mais absoluta escuridão. Uma mostra mais da doentia fixação de Uribe pela mentira foi a história montada em torno do famoso laptop de Raul Reyes, que numa prodigalidade tecnológica sem precedentes sobreviveu incólume a um bombardeio que destruiu tudo que havia a sua volta e cujo disco rígido tinha entregado valiosíssima informação sobre os numerosos contatos de Reyes com as FARC e com todos os inimigos de Uribe e dos EUA.

Em terceiro lugar, como se pode acreditar num homem que da posição de presidente da Colômbia chancelou a ação de paramilitares e do terrorismo de Estado? Em 16 de fevereiro deste ano a unidade de "Justiça e Paz" da Receita colombiana publicou um informe em que se revela que algo mais de 4000 paramilitares das AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia) asseguraram ter perpetrado 30470 assassinatos no período compreendido de meados dos anos 80 até sua "desmobilização", entre 2003 e 2006. Não só isso: a Receita recebeu também declarações dos paramilitares dando conta de 1085 massacres; 1437 recrutamentos de menores. 2520 desaparecimentos forçados; 2326 deslocamentos forçados; e 1642 extorsões, além de 1033 seqüestros. Em que pese esse lamentável recorde, Uribe é considerado por seus mandantes de Washington como um campeão na luta pelos direitos humanos.

Com relação a isso, se o ansiado TLC entre a Colômbia e os EUA não foi ainda ratificado pelo Congresso norte-americano é porque, tal como assinala o conservador jornal colombiano El Tiempo, tão somente no ano de 2009 os "paras" e as "forças de segurança" assassinaram 40 sindicalistas, transformando a Colômbia no país mais perigoso do mundo para tal atividade. Sobre um total de 76 dirigentes sindicais assassinados no mundo inteiro, 52% desses crimes se perpetraram num país que os EUA consideram exemplar paradigma da luta pelos direitos humanos e combate ao terrorismo. A Central Única dos Trabalhadores da Colômbia informou poucos meses atrás que desde 1986, ano de sua criação, 2721 ativistas e dirigentes da entidade foram assassinados pelas "forças de segurança". Apesar disso, as credencias democráticas colombianas jamais foram postas em dúvida por Washington.

Quarto, o denunciante é nada menos que o responsável intelectual e político do massacre serial conhecido pelo nome de "falsos positivos". Tal como afirmam distintas matérias publicadas na Colômbia pelo Observatório Latino-americano, Cronicón, durante os três últimos anos de governo Uribe o balanço é funesto. Comprovou-se que as forças militares, diante da pressão do governo para que mostrassem resultados concretos na luta contra a guerrilha, desenharam e executaram um plano criminoso: recorrer às comunidades e aldeias mais pobres do país oferecendo trabalho à enorme massa de desempregados, recrutando um elevado número de indigentes, camponeses, indefesos, jovens e marginalizados, que depois eram assassinados a sangue frio e tinham seus cadáveres contabilizados como de guerrilheiros executados em combate, de modo a receber a recompensa estabelecida pelo governo ou obter estímulos ou promoções na carreira militar. Segundo estimativas muito conservadoras, estes crimes de Estado, perpetrados quando o futuro presidente do país, Juan Manuel Santos, era ministro da Defesa, superam 1700 casos.

Outra faceta dessa criminosa política mal denominada de segurança democrática foi a descoberta, levada a público em 16 de fevereiro de 2010, "da maior fossa comum da história contemporânea do continente americano, horrenda descoberta que foi quase totalmente invisibilizada" pelos principais meios de comunicação de massas da Colômbia e do mundo. "A fossa comum contém restos de ao menos 2000 pessoas, está em Macarena, departamento de Meta... (e foi descoberta) graças à perseverança dos familiares dos desaparecidos e à visita de uma delegação de sindicalistas e parlamentares britânicos que investigava a situação dos direitos humanos na Colômbia, em dezembro de 2009. Cabe adicionar que essa região tinha sido objeto de preferencial atenção por parte das forças armadas colombianas desde 2005, com os nefastos resultados recentemente revelados.

Como ocorreu com todos os terrorismos de Estado que assolaram a região nos anos 70 do século passado, os crimes de lesa-humanidade cometidos pelos seus perpetradores tinham também um pano de fundo econômico. No caso da Colômbia de Uribe, com seu comparsa de sanguinárias experiências, entre as corruptas forças armadas, os paramilitares e os narcos dividiram-se milhões de hectares que em seu desesperado êxodo deixavam para trás os camponeses deslocados pelos bombardeios e massacres indiscriminados a que estavam submetidos. Tal como expusera Jomary Orteon Osorio, do Coletivo de Advogados da Colômbia, na conferência do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Cultuais da ONU reunida em Genebra no início de maio deste ano, a cifra de camponeses expulsos de suas terras subiria para 4,5 milhões e suas terras foram logo transferidas, para grande proveito dos encarregados de desalojá-los, dos latifundiários e do agronegócio, entusiastas e co-financiadores do paramilitarismo.

Nesta mesma conferência se estabeleceu que apesar dos "êxitos" do governo de Uribe o número de desalojados segue crescendo em cerca de 150 mil pessoas por ano. O ministro do Planejamento da Colômbia, Esteban Piedrahita Uribe, chefe da delegação colombiana na citada conferência, não desmentiu as alegações antes formuladas e se limitou a dizer que "confiscamos 2 milhões de hectares de grupos criminosos que se apropriaram ilegalmente dessas terras, e agora a justiça vai decidir pela devolução aos seus verdadeiros donos". Em todo caso, há que se destacar que o cálculo do número de hectares expropriados nessa selvagem reedição do processo de acumulação originária que Marx descobrira em seu célebre capítulo 24 do primeiro volume de O Capital está sujeito a fortes controvérsias. Há quem sustente que o número de hectares assim transferidos subiria para 6 milhões, enquanto outros colocam a cifra em torno dos 10 milhões. De toda forma, qualquer que seja o número que finalmente se estabeleça mais além de qualquer dúvida, o certo é que se a política de segurança democrática assegurou alguma coisa efetivamente foi a expropriação da massa camponesa e a apropriação das mesmas pelo capitalismo agrário.

Esse é o homem que hoje aponta seu dedo acusador contra a revolução bolivariana. É evidente que se trata de uma manobra mais, ditada pelos estrategas do império, para acossar o governo Chávez e legitimar a política do "hardpower" (poder duro) ao qual parece ter ficado mais afeito Obama que seu ignominioso antecessor, apesar de suas declarações oficiais e dos escritos de alguns analistas próximos à Casa Branca, como Joseph Nye, falarem com insistência das vantagens do softpower (poder brando, ou a diplomacia tradicional) ou ainda o smartpower (o poder inteligente, da nova diplomacia) sobre a brutalidade e elevado custo do primeiro.

Mesmo assim, o império insiste no poder duro e seu impressionante dispositivo militar: por isso as bases na Colômbia, em Aruba e Curaçao, a poucos quilômetros do litoral marítimo venezuelano; isso além das bases que se encontram em El Salvador e Honduras, e agora a autorização para introduzir nada menos que 7000 marines e todo tipo de armamento, além de porta-aviões, helicópteros, navios anfíbios e aviões de última geração na vizinha Costa Rica. E por isso também a 4ª. Frota Naval.

O governo de Uribe cumpre dessa forma um serviço de extraordinária importância para facilitar os planos destituintes do imperialismo: incapaz de proteger sua fronteira de 586 quilômetros com o Equador, à qual destina apenas oito minúsculos destacamentos militares, e muito mais incapaz ainda de fazer o mesmo em 2216 km de fronteira com a Venezuela, transformada em zona liberada para narcos e paras, trata por todas as maneiras de criar as condições que justifiquem a intervenção militar estadunidense na América do Sul. No plano imediato, consegue manter viva a tensão entre Colômbia e Venezuela depois da mudança de presidente, evitar que Santos modifique a agenda de confrontação permanente com a revolução bolivariana instituída por Uribe e enlamear o pasto para que Chávez chegue desgastado e ameaçado internacionalmente às eleições de fins de setembro. Preocupado com seu futuro e assombrado pelo fantasma de Noriega apodrecendo numa prisão gringa ou de uma querela ante a Corte Penal Internacional, Uribe se esmera até o último dia de seu mandato para mostrar sua total submissão aos ditames imperialistas.

Por isso é importante desmascarar o denunciante e exigir a pronta intervenção da Unasul a fim de desbaratar os planos de Washington em Nossa América. Este não é um assunto para a OEA (que além de tudo não soube esvaziar a provocação uribista), mas para a Unasul, que será posta à prova com este incidente. É de se esperar que essa nascente organização dos países sul-americanos atue de imediato, agora mesmo, porque do contrário pode ser tarde demais para evitar as graves conseqüências de toda ordem que teriam a consumação do projeto belicista dos Estados Unidos, implementado por Washington e seus prepostos latino-americanos.

Atilio A. Boron é diretor do PLED, Programa Latinoamericano de Educación a Distancia em Ciências Sociais, Buenos Aires, Argentina.  
Website: http://www.atilioboron.com/.
Traduzido por Gabriel Brito, jornalista.
(Correio da Cidadania)

João Ubaldo

Guerra anunciada na ABL: João Ubaldo x FHC
Esse artigo de João Ubaldo ficou comigo tanto tempo porque, no fundo, eu tinha certeza que a vaidade intelectual de FHC iria levá-lo, em algum momento, a pleitear uma vaga na ABL, como agora se noticia em notas discretas de colunas de jornal, certo de que se trata de uma confraria historicamente vulnerável a influências políticas, quando não à bajulação pura e simples, como qualquer um pode constatar, embora abrigue grandes escritores, como o próprio João Ubaldo Ribeiro. O artigo é de Leandro Fortes.
Leandro Fortes - Brasília, eu vi
Do blog Brasília, eu vi

Guardei, por 12 anos, em meio à minha papelada imunda de recortes de jornais e revistas velhas, numa caixa de papelão em frangalhos, um artigo de João Ubaldo Ribeiro datado de 25 de outubro de 1998, porque esperava justamente esse momento: a hora em que Fernando Henrique Cardoso, alijado da político e na iminência de cair no esquecimento público, se candidatasse a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. O artigo, intitulado "Senhor Presidente", foi escrito logo depois da vitória de FHC, no primeiro turno das eleições de 1998, graças ao Plano Real e à aprovação, no Congresso Nacional, da Emenda Constitucional da reeleição, conseguida à custa de um escandaloso esquema de compra de votos. O texto é pau puro e, surpreendentemente, foi escrito numa época em que a mídia nacional era, praticamente, uma assessoria de imprensa do consórcio PSDB/PFL. Não por outra razão, foi inicialmente censurado em "O Estado de S.Paulo", para onde o cronista escrevia, embora o jornal tenha sido obrigado a publicá-lo, uma semana depois, para evitar se envolver em um escândalo de censura justo com um dos mais respeitados escritores do país. Num tempo de internet incipiente, a repercussão do artigo foi mínima, ficando restrita às redações e ao meio intelectual, de resto, também acovardado pela força do pensamento único imposto à sociedade pela imprensa e pelo governo de então.

Esse retalho jornalístico ficou comigo tanto tempo porque, no fundo, eu tinha certeza que a vaidade intelectual de FHC iria levá-lo, em algum momento, a pleitear uma vaga na ABL, como agora se noticia em notas discretas de colunas de jornal, certo de que se trata de uma confraria historicamente vulnerável a influências políticas, quando não à bajulação pura e simples, como qualquer um pode constatar, embora abrigue grandes escritores, como o próprio João Ubaldo Ribeiro. Contudo, lá também estão escribas do calibre de José Sarney e do cirurgião plástico Ivo Pitanguy. No passado, também circulavam entre os imortais o general Aurélio de Lira Tavares (codinome "Adelita), eleito em 1970, com o apoio do ditador Emílio Médici, e Roberto Marinho, das Organizações Globo. A presença de FHC, que pelo menos escreveu uns livros de sociologia não seria, portanto, um escândalo em si. O problema é o artigo de João Ubaldo.

No texto, o escritor baiano, entre outras considerações, refere-se assim a Fernando Henrique Cardoso: "(...) o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico". Mais adiante, relembra um dos piores momentos da vida de FHC: "(...) o senhor, que já passou pelo ridículo de sentar-se na cadeira do prefeito de São Paulo, na convicção de que já estava eleito, hoje pensa que é um político competente e, possivelmente, tem Maquiavel na cabeceira da cama. O senhor não é uma coisa nem outra, o buraco é bem mais embaixo".

E por aí vai, até se lembrar, a certa altura do texto, que FHC, em algum momento da vida, poderia se interessar pela vida imortal da ABL. João Ubaldo, então, cospe uma fogueira de brasas para cima de Fernando Henrique: "(...) E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais".

Eu posso estar errado, já se passou mais de uma década, a ira de João Ubaldo pode ter se perdido na poeira do tempo, mas a julgar pelo teor do imortal artigo do escritor e jornalista baiano, FHC vai ter que pensar duas vezes antes de se candidatar a uma vaga na ABL. Ou considerar o fato de que só vai entrar lá por cima do cadáver de João Ubaldo Ribeiro. A conferir.

Abaixo (e aqui, retirado do ótimo site Alma Carioca), o artigo completo, para quem quiser se deleitar:

Senhor Presidente – João Ubaldo Ribeiro

25 de outubro de 1998

Senhor Presidente,

Antes de mais nada, quero tornar a parabenizá-lo pela sua vitória estrondosa nas urnas. Eu não gostei do resultado, como, aliás, não gosto do senhor, embora afirme isto com respeito. Explicito este meu respeito em dois motivos, por ordem de importância. O primeiro deles é que, como qualquer semelhante nosso, inclusive os milhões de miseráveis que o senhor volta a presidir, o senhor merece intrinsecamente o meu respeito. O segundo motivo é que o senhor incorpora uma instituição basilar de nosso sistema político, que é a Presidência da República, e eu devo respeito a essa instituição e jamais a insultaria, fosse o senhor ou qualquer outro seu ocupante legítimo. Talvez o senhor nem leia o que agora escrevo e, certamente, estará se lixando para um besta de um assim chamado intelectual, mero autor de uns pares de livros e de uns milhares de crônicas que jamais lhe causarão mossa. Mas eu quero dar meu recadinho.

Respeito também o senhor porque sei que meu respeito, ainda que talvez seja relutante privadamente, me é retribuído e não o faria abdicar de alguns compromissos com que, justiça seja feita, o senhor há mantido em sua vida pública – o mais importante dos quais é com a liberdade de expressão e opinião. O senhor, contudo, em quem antes votei, me traiu, assim como traiu muitos outros como eu. Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico. Mas, como dizia antigo personagem de Jô Soares, eu acreditei.

O senhor entrou para a História não só como nosso presidente, como o primeiro a ser reeleito. Parabéns, outra vez, mas o senhor nos traiu. O senhor era admirado por gente como eu, em função de uma postura ética e política que o levou ao exílio e ao sofrimento em nome de causas em que acreditávamos, ou pelo menos nós pensávamos que o senhor acreditava, da mesma forma que hoje acha mais conveniente professar crença em Deus do que negá-la, como antes. Em determinados momentos de seu governo, o senhor chegou a fazer críticas, às vezes acirradas, a seu próprio governo, como se não fosse o senhor seu mandatário principal. O senhor, que já passou pelo ridículo de sentar-se na cadeira do prefeito de São Paulo, na convicção de que já estava eleito, hoje pensa que é um político competente e, possivelmente, tem Maquiavel na cabeceira da cama. O senhor não é uma coisa nem outra, o buraco é bem mais embaixo. Político competente é Antônio Carlos Magalhães, que manda no Brasil e, como já disse aqui, se ele fosse candidato, votaria nele e lhe continuaria a fazer oposição, mas pelo menos ele seria um presidente bem mais macho que o senhor.

Não gosto do senhor, mas não tenho ódio, é apenas uma divergência histórico-glandular. O senhor assumiu o governo em cima de um plano financeiro que o senhor sabe que não é seu, até porque lhe falta competência até para entendê-lo em sua inteireza e hoje, levado em grande parte por esse plano, nos governa novamente. Como já disse na semana passada, não lhe quero mal, desejo até grande sucesso para o senhor em sua próxima gestão, não, claro, por sua causa, mas por causa do povo brasileiro, pelo qual tenho tanto amor que agora mesmo, enquanto escrevo, estou chorando.

Eu ouso lembrar ao senhor, que tanto brilha, ao falar francês ou espanhol (inglês eu falo melhor, pode crer) em suas idas e vindas pelo mundo, à nossa custa, que o senhor é o presidente de um povo miserável, com umas das mais iníquas distribuições de renda do planeta. Ouso lembrar que um dos feitos mais memoráveis de seu governo, que ora se passa para que outro se inicie, foi o socorro, igualmente a nossa custa, a bancos ladrões, cujos responsáveis permanecem e permanecerão impunes. Ouso dizer que o senhor não fez nada que o engrandeça junto aos corações de muitos compatriotas, como eu. Ouso recordar que o senhor, numa demonstração inacreditável de insensibilidade, aconselhou a todos os brasileiros que fizessem check-ups médicos regulares. Ouso rememorar o senhor chamando os aposentados brasileiros de vagabundos. Claro, o senhor foi consagrado nas urnas pelo povo e não serei eu que terei a arrogância de dizer que estou certo e o povo está errado. Como já pedi na semana passada, Deus o assista, presidente. Paradoxal como pareça, eu torço pelo senhor, porque torço pelo povo de famintos, esfarrapados, humilhados, injustiçados e desgraçados, com o qual o senhor, em seu palácio, não convive, mas eu, que inclusive sou nordestino, conheço muito bem. E ouso recear que, depois de novamente empossado, o senhor minta outra vez e traga tantas ou mais desditas à classe média do que seu antecessor que hoje vive em Miami.

Já trocamos duas ou três palavras, quando nos vimos em solenidades da Academia Brasileira de Letras. Se o senhor, ao por acaso estar lá outra vez, dignar-se a me estender a mão, eu a apertarei deferentemente, pois não desacato o presidente de meu país. Mas não é necessário que o senhor passe por esse constrangimento, pois, do mesmo jeito que o senhor pode fingir que não me vê, a mesma coisa posso eu fazer. E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais.
(Carta Maior)

Pensamentando...

Sacrifício em megahertz
.
Por Sílvio Fernando


(Sketch para rádio)

Locutor – Nossos repórteres tiveram acesso a pergaminhos e objetos datados da época da escrita do Gênesis. Os documentos, gastos pelo tempo, sugerem terem sido escritos à mão pelo próprio Moisés.

O Washington Post classificou esta, que talvez seja a maior descoberta arqueológica feita nos últimos 50 anos, como “embuste” e “picaretagem”, descrença talvez motivada pela presença de um walkman encontrado junto às relíquias.

Caso a veracidade dos manuscritos seja comprovada por especialistas, duas revelações poderão abalar Igrejas de todo o mundo. Primeiro; a versão do Pentateuco tal como a conhecemos não foi a única a existir. Havia uma versão mais antiga e completa, só que em quadrinhos. E segundo; Moisés tinha uma letra muito feia.

Transmitiremos, agora, trechos referentes ao sacrifício de Isaque por seu pai, Abraão. As passagens foram traduzidas em tempo recorde pelo Instituto de Idiomas Israelense. A gíria da época foi rigorosamente preservada.

Cena 1

Abraão – Isaque... tive um sonho à noite passada no qual a voz do Todo Poderoso me mandava sacrificar você, meu único filho!
Isaque – Como é que é?
Abraão – Vamos! Acha que estou brincando?
Isaque – M-mas... tem certeza? Há que horas foi isso? Você anda comendo muito carneiro com lentilha e isso faz mal à noite...
Abraão – Eu sei que é o Senhor. Ele tem uma voz empostada, grave, linda! Parecida com a do Frank Sinatra. Chega de conversa, vamos logo. (Pausa) E, Isaque... põe o casaco que está frio.
Isaque –Minhas notas subiram na escola...
Abraão –Venha!

(Música ambiental)

Cena 2

Abraão – Aqui parece um bom lugar, percebe? Bela paisagem, tranquilo, ensolarado, florido...
Isaque – Não acho não.
Abraão – Ih! Como você é negativo! O que te fiz pra você ser assim tão de mal com a vida? (Pausa) Estenda as mãos. Vou dar uma volta só na corda para não te machucar os pulsos, tá?
Isaque – Obrigado, papai.
Abraão – Viu onde deixei meu cutelo? Ah, achei!
Isaque – Jeová abençoe sua vida.
Abraão – Vamos lá, erga o pescocinho...
Deus – Pera aí! O que pensa que está fazendo?
Abraão – Isaque, sua voz engrossou!
Deus – Ai, saco... (cantarola My Way)
Abraão – Oh! O Senhor! Tenho que me ajoelhar (ruído de metal) Droga de cutelo! Ai...
Deus – Ias mesmo fazer esta asneira?
Isaque (maldoso) – Ia!
Deus– Me aborreces há tanto tempo pedindo por um filho. Como sou coração-mole, vou lá, te dou um e pronto, já fazes besteira! Desnaturado!
Abraão – Mas... ó, Senhor, eu achei...
Deus – Levas tudo a sério. Foi a mesma coisa quando te pedi para sair de Ur. Estava só brincando, pô! Não sabes distinguir as coisas!
Abraão – Bem, é que...
Deus – Cale-se! Olha, estou ocupado, vou andando. Os hebreus estão jogando uma partida contra os amorreus e Eu quero ver quem vai ganhar!
Abraão – Perdoe-me, Senhor, mas achei que estavas sempre ao lado dos hebreus.
Deus – Quem disse? Com aquele primeiro-ministro de vocês? Por isso é que andam tão convencidos! Depois, não gosto de sair espalhando revelações e profecias por aí... Israelitas são doidos para fazer apostas! Mas, pra você não perder o dia, tome! (ruído) Eis o seu sacrifício! (Balido de ovelha) . A churrasqueira está logo ali, divirta-se. (Cantarola My Way. A música diminui indicando sua saída) .
Abraão – Adeus, Deus! (Pausa. A Isaque) Dessa você escapou, héin?
Isaque – Como sou sortudo. (ruído fraco de chuva) Pai... Você não acha que está na hora de me desamarrar?
Abraão – Não me olhe com essa cara. Malcriado!
Isaque – Não tô brincando. Estou com medo que a ovelha fuja.

(O barulho de chuva aumenta. Ouvem-se trovões)

Locutor 2 – E atenção para o boletim da tarde! Termina com placar de 5 x 1 e sob forte tempestade, a partida entre Hebreus e Amorreus! Nova goleada sobre o time de Israel. Lembramos que, se sofrer mais uma derrota, Israel será desclassificado para a Copa de Hebrom. Os amorreus, a equipe favorita, disputa no próximo sábado uma vaga com os, até agora invictos, Jebuseus, valendo uma taça de ouro. O time perdedor será vendido como escravo!

Notícias extraordinárias: segundo nossos meteorologistas, a chuva de hoje se prolongará de maneira ininterrupta por mais 40 dias e 40 noites. A milícia palaciana aconselha toque de recolher para toda a população. A maioria dos estabelecimentos comerciais permanece fechada. A única exceção mantém-se para “A Arca de Noé”, restaurante familiar especializado em comida silvestre, localizado próximo à represa.

Outras notícias no programa desta noite...

(Trovões. Balido de ovelha)

27/6/2009

Fonte: ViaPolítica/O autor

Silvio Fernando, que estreia em ViaPolítica, é jornalista e psicólogo formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo. Formou-se também em roteiro e dramaturgia pelo Núcleo do Teatro de Arena paulista. Entre outros veículos, foi colunista e crítico de cinema do site Bibliaworldnet, repórter da rádio baiana Brasil FM e atualmente é redator e roteirista das rádios Terra AM e Musical FM. No teatro, integrou as companhias Quarteto em Rir Maior e Os Terroristas do Riso. Escreveu e dirigiu peças de cunho educativo encenadas por populações em desvantagem social e jovens em situação de risco.

FARC

A vida nos acampamentos das FARC
(Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia)
Nestor Kohan entrevista o historiador Ezequiel Rodríguez Labriego
Um dos principais feitos da fabricação industrial do consenso consiste no cancelamento a priori de toda dissidência radical. Trata-se de eliminar de antemão qualquer pensamento crítico e até a menor possibilidade de oposição séria ao sistema.
Mesclando em uma mesma colagem as imagens mais obscuras das novelas anti-utópicas clássicas (Um mondo feliz de Aldous Huxley, 1984 de Goerge Orwell ou Fahrenheit 451 de Ray Bradbury) com as histórias mais truculentas de terror infantil, as usinas comunicacionais do imperialismo têm fabricado um novo fantasma, macabro, tenebroso e ameaçador. Trata-se do suposto “narco-terrorismo”, que ocupou o lugar do antigo espantalho conhecido como “conspiração comunista”, típico do cinema da guerra fria.
Assim foi fabricado um novo demônio, completamente amorfo, onipresente, incomensurável, impensável e, inclusive, inimaginável.
Esse novo Lúcifes é o que persegue a caça às bruxas contemporânea, esporte preferido do neo-macartismo, pois assume diversos nomes e rostos, segundo a conveniência do momento. Um dos mais célebres é o das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP), inimigo mortífero em todas as hipóteses de conflito que manejam os yankees.
Por trás das telas desinformativas do poder, além do labirinto de manipulação dos cabos, agências e comunicados oficiais, do outro lado das operações da guerra psicológica, campanhas midiáticas e totalitarismo cultural, como serão realmente as FARC-EP? Que rosto terão na intimidade estes guerrilheiros sem documento, sem rastro e sem nome? Que costumes têm em sua vida cotidiana? O que sonham a cada noite, cada manhã, cada aniversário e cada dia 31 de dezembro?
Para imaginar a vida das guerrilhas, contamos com aqueles relatos épicos do Che Guevara (Passagens da guerra revolucionária), de Omar Cabezas (A montanha é algo mais que uma imensa estepe verde) ou o já clássico de Jorge Ricardo Masetti (Os que lutam e os que choram). Trata-se de histórias, em todos esses casos, sobre Cuba e Nicarágua. Não obstante, até onde sabemos, excetuando duas excelentes biografias de Manuel Marulanda escritas pelo historiador Arturo Alape (As vidas de Pedro Antonio Marin, Os sonhos e as montanhas) e os diários de campanha de Jacobo Arenas e Manuel Marulanda (que são ilustrativos do início da insurgência), a revolução colombiana não possui relatos que mostrem o mundo cotidiano da insurgência. As FARC esperam essas histórias, tarefa que começou a ser realizada no cinema pelo recente filme Guerrillera Girl (do diretor norueguês Frank Piasecki Poulsen, disponível na internet). Excelente documentário que dá um rosto cotidiano ao espectro itinerante e clandestino da guerrilha. Fantasma temido, odiado ou admirado, mas sempre desconhecido.
O historiador uruguaio Ezequiel Rodrígues Labriego teve, este ano, o privilégio de conhecer ao vivo e diretamente a vida cotidiana das guerrilhas colombianas, o suposto “monstro”, segundo o imaginário inquisitório do Pentágono, a CNN, Uribe e a extrema direita troglodita.
Junto a um sacerdote francês, dois sociólogos italianos e uma jornalista norte-americana, Rodríguez Labriego visitou nas montanhas da Colômbia os acampamentos das FARC. Ali pôde observar, dialogar e conviver com os combatentes deste exército do povo que, em pleno século XXI segue incomodando o imperialismo yankee e suas prepotentes bases militares com as bandeiras intrínsecas de Simón Bolívar, Che Guevara e Manuel Marulanda.
Em seguida reproduzimos parte da entrevista que fizemos a Rodríguez Labriego, focalizando o interesse nos aspectos mais cotidianos de sua experiência, aqueles que humanizam a todos e todas combatentes comunistas, os resgatam do retrato gótico e monstruoso que a CIA debulhou para demonizá-los, devolvendo-os ao simples, porém belo, terreno da construção do homem novo e a mulher nova do século XXI.
A entrevista ao historiador uruguaio, que muito amavelmente respondeu a nossas perguntas, foi realizada na Universidade do Rio de Janeiro em 28 de outubro de 2008, ocasião em que tivemos a honra de conhecer e dialogar com a historiadora brasileira Anita Prestes, filha de outro legendário combatente revolucionário da América Latina, Luis Carlos Prestes.
Néstor Kohan: Por que decidiu ir conhecer as FARC-EP?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Por múltiplas razões, mas principalmente por duas. Em primeiro lugar, por uma curiosidade que me surgiu ao ler o livro Rebeldes do célebre historiador marxista britânico Eric Hobsbawm, que analisa diversas rebeldias camponesas e disse, referindo-se às FARC (Hobsbawm as conheceu em primeira mão), que o caso colombiano constitui “a maior mobilização camponesa do hemisfério ocidental”. Em segundo lugar, porque me surpreende, me incomoda e me indigna o brutal silêncio –muitas vezes próximo à cumplicidade com o poder- que hoje rodeia e encobre a Colômbia. Então me pergunto: devemos dar crédito de veracidade ao terrorista e guerreirista Uribe? Vamos acreditar nele? Vamos calar a boca sobre o genocídio que hoje padece o povo colombiano? Por estas razões, algumas históricas, outras presentes, queria conhecer de forma direta as FARC, sem “filtros” macartistas. Por isso fui. Lhe asseguro que não me arrependo.
Néstor Kohan: Como viajou até os acampamentos?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Bom, através de uma longa travessia. Não é fácil chegar. Vários dias de ônibus, caminhão, camionete, lombo de mula, muitos penhascos, encostas íngremes, vales agressivos, travessias de riachos e finalmente caminhadas na montanha, no barro e debaixo de chuva, enquanto os combatentes que nos guiavam iam contando histórias sobre a luta de Simón Bolívar. Era realmente emocionante sentir que Bolívar nos acompanhava, que não era uma figura meramente decorativa ou um frio objeto de estudo, como acontece na Academia quando se estuda a história da América Latina.
Néstor Kohan: Que imagem esses jovens guerrilheiros tinham de Bolívar?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Tive a impressão que eles, os jovens das FARC, sentia Bolívar como mais um de seus companheiros, como maus um de seus próprios combatentes. Eles imaginavam, por exemplo, que Bolívar, apesar de aparecer em todas as estátuas das praças esculpido ou retratado a cavalo e com um gesto napoleônico, de conquistador, na realidade andaria de mula, já que nessas montanhas onde lutou o Libertador, o cavalo mal consegue marchar enquanto a nobre mula, talvez menos elegante e majestosa, pode subir e descer facilmente as ríspidas, molhadas e lamacentas encostas. Se perguntavam também se Bolívar gostava de dançar, se escaparia para ver mulheres (diziam, rindo, que quando o Libertador ia ver a noiva não podia ir na mula, tinha que ir a cavalo, para ter mais ‘presença’ como galã [Risos]). Também se perguntavam se Bolívar, por acaso, não teria a pele escura e o cabelo crespo, em lugar de parecer um branquelo... Para estes combatentes, Bolívar era um ser humano de carne e osso, com uma vida cotidiana como qualquer um deles, não um pedaço de bronze, não uma estátua morta e petrificada.
Néstor Kohan: Como foi a chegada?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Todos cheios de barro! [Risos]. Caímos diversas vezes. Os combatentes nos ajudaram solidariamente a nos levantar. Tratavam de nos ajudar. Nos apoiavam. Ali descobrimos um detalhe prático, nenhum calçado da cidade serve para esses lugares. Os revolucionários insurgentes estão acostumados a caminhar por lamaçais de 20 ou 30 centímetros de barro como algo “normal”. Como chovia muitíssimo, nos emprestaram capas impermeáveis. Foi então que escutei a primeira de muitas piadas. Chamaram a mim e o sacerdote francês de “Batman e Robin da primeira geração, antes que inventassem o automóvel, quando ainda andavam de mula” [Risos]. O primeiro vínculo com os guerrilheiros comunistas abriu-se então, com uma piada. Outra piada marcou o final da experiência. Quando fomos nos despedir, nos disseram: “Esta terra os saúda e despede-se com orgulho... Não é qualquer um que a dá tantos beijos com a bunda...”, fazendo alusão a todas as nossas quedas no barro [Risos]. O humor esteve na ordem do dia o tempo todo.
Néstor Kohan: Então o pessoal das FARC não estavam derrotado, desmoralizado e cabisbaixo?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Não! Pelo contrário! Os encontrei alegres, com uma moral muito alta, com uma convicção muito forte e seguros de que vão triunfar. Não era uma pose ou uma encenação. Dava para ver que estavam seguros. Por isso todo o humor e as piadas (entre eles e com os visitantes, sempre em um tom de cordialidade, de amizade solidária e camaradagem). Se estivessem derrotados, como o presidente Uribe e a inteligência militar colombiana apresentam, assim como os grandes meios de comunicação que difundem os comunicados das Forças Armadas e sua visão da guerra, se eles se sentissem vencidos, pensando que vão ser aniquilados –sobretudo por um exército tão selvagem e impiedoso como o colombiano, assessorado e dirigido no terreno pelos próprios yankees- não ficariam fazendo graça e contando piadas. Isso é óbvio, certo? O humor expressa algo. Acredito que é produto de uma moral combativa alta e de uma forte convicção no triunfo popular.
Néstor Kohan: O acesso aos acampamentos era direto?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Não, havia que dar antes muitas voltas. Mas o que mais me surpreendeu foi o contato prévio com as populações que os apóiam e sustentam. A propaganda oficial, da qual fazem eco os grandes meios de comunicação, os pintam como bandoleiros, como um grupo de foragidos armados e sem ideologia, isolados do povo ou presos no tempo. Eu vi outra coisa bem diferente. Não li, não me contaram, vi com meus próprios olhos. Gente comum dos povoados e vilas que os apóiam, trabalhadores em sua maioria, camponeses, vestidos com roupa muito humilde. Mulheres do povo com muitos filhos (lembro, por exemplo, de uma senhora, muito jovem, muito humilde, com uma mula onde iam três crianças e ela ia a pé grávida de um quarto filho...). Toda essa gente dos povoados, civis, falam deles, dos combatentes das FARC e de seus acampamentos na montanha, dizendo “lá em cima”, “o pessoal lá de cima”, “os camaradas”... (na Colômbia quase não se utiliza a palavra “companheiro”, todo o mundo se chama “camarada”, que é muito mais comum”. Essas expressões eram referências elípticas aos acampamentos na montanha das FARC. As pessoas dos povoados lhes dão comida, cigarros, várias coisas. Um grupo revolucionário que não tivesse apoio popular não contaria com essa simpatia e essa colaboração. Por isso os militares e paramilitares da Colômbia assassinam tantos civis, porque estes últimos apóiam a guerrilha. É evidente o apoio que dão às FARC. Eu vi. As FARC e suas frentes de trabalho político fazem trabalho social com as pessoas, com as populações: vacinam os guris (quer dizer, as crianças), constroem escolas, postos de saúde, estradas, pequenas represas para os rios, registram as crianças que ainda não possuem documentos. Em síntese, vi muitas famílias e muitas crianças rodeando as FARC. Definitivamente é uma guerrilha popular.
Néstor Kohan: Como os receberam nos acampamentos?
Ezequiel Rodrígues Labriego: O primeiro contato foi com os postos de guarda. Tínhamos que caminhar olhando para o chão de barro, para que não tropeçássemos e, ao levantar os olhos um momento, surpreendentemente nos encontrávamos com os guardas do acampamento a meio metro [Risos]. Cuidavam do acampamento contra as incursões do Exército. O primeiro que dissemos foi “não podemos cumprimentá-los porque estamos todos cheios de barro” [Risos]. Cruzamos com eles sem tê-los visto. Logo seguimos subindo e chegamos ao posto de comando. Ali os comandantes nos receberam. Foram muito amáveis. Nos sentamos ao redor de uma mesa cheia de livros. Logo trouxeram a comida. Haviam muitos livros e, repito, muito bom humor. Riam o tempo todo, o que me surpreendeu. Eu esperava encontrar gente muito séria, como nos filmes e me encontrei com algo muito diferente. Muitas piadas. Ao longo de toda essa experiência, em várias ocasiões, quando fazia perguntas tinha que perguntar várias vezes, porque é certo que as primeiras respostas eram piadas. Não demoramos para nos acostumar, também começamos a devolver as piadas (ainda que demorasse um pouco para os visitantes europeus compreenderem as ironias). Nada mais distante desses combatentes, desses garotos e garotas, que a tristeza, a sensação de derrota ou desânimo.
Néstor Kohan: Chegaram de noite ou de dia?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Era plena noite, não se via nada. A selva é muito escura. As árvores são altas, muito altas. A vegetação é espessa. Às vezes tem até neblina.
Néstor Kohan: Tinha iluminação com tochas ou velas, como fazemos no campo, onde não há luz elétrica?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Não! [Risos]. É muito diferente do campo que nós estamos acostumados a ver. Havia pouquíssima luz, porque os aviões do exército colombiano contam com uma nova tecnologia militar proporcionada pelos Estados Unidos. Essa nova tecnologia de controle, que facilita a repressão do exército, está formada pelo uso de satélite, de globos espiões e até aviões não-tripulados, que contam com instrumentos que detectam em tempo real concentrações de fumaça, calos e luz na selva e assim, automaticamente, vêm os aviões militares e começam a bombardear. Portanto, de noite há pouquíssima luz. Mas nesse primeiro encontro vimos os rostos. Havia um pequeno fogo e lanternas. De repente um combatente alertou “Avião...” e todo mundo apaga a lanterna. O acampamento inteiro fica no escuro e não se vê absolutamente nada. E mesmo ali aparece uma piada nova. Como na guerrilha não se sabe se o barulho é de um avião comercial ou avião militar, ou seja, bombardeiros das forças armadas, simplesmente se referem ao avião como “o jato”. Então depois especificam, rindo, que se trata do “jato... o cheio de bombas...”. Um humor muito apurado.
Néstor Kohan: Escutavam música?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Na realidade havia muito silêncio, escutava-se apenas os sons da selva, os grilos, a chuva, as folhas que se moviam quando ventava, às vezes o correr da água de um rio, e sempre escutavam as notícias. O que acontece é que “a guerrilheirada”, como eles se referem às pessoas da guerrilha, estavam escutando as notícias... Ainda que nos fizessem escutar música das FARC, escrita e interpretada pela própria guerrilha, com letras revolucionárias e música em diferentes ritmos: rock, merengue, tango, salsa, ballenato e etc. A escutamos em um computador. Aos domingos há música, interpretada por eles. Os jovens tocam violão, sanfona e também cantam.
Néstor Kohan: Quais foram os primeiros relatos e as primeiras conversas?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Obviamente, tudo começou com diálogos políticos. A situação na Colômbia, a violação aos direitos humanos de Uribe sobre a qual ninguém fala, quando semana a semana são seqüestrados e assassinados dirigentes sindicais, camponeses, padres, monges, estudantes, etc. Também se falou do terrível tratamento que recebem os combatentes capturados pelo exército, a necessidade da solidariedade internacional, os debates atuais do marxismo, etc. Mas na hora de dormir também aparecem outros tipos de histórias. Histórias de ursos, tigres (os tigres que comem os animais domésticos das pessoas), as cobrinhas... Por sorte, só depois fiquei sabendo que o que eles, os colombianos, chamam de “cobrinhas” são as víboras. Eu pensei que falavam de cobrinhas pequenas de 10, 15 ou 20 centímetros de comprimento e, afinal de contas, falavam de cobras de até dois ou três metros [Risos]. Menos mal que só descobri isso na hora de ir embora! [Risos]. Me contaram uma história, uma das tantas histórias dessa oralidade mágica onde a selva cobra a vida desses habitantes das montanhas, sobre um guerrilheiro que capturava as víboras com a mão, falava com elas e não as matava, as soltava. Então as cobras iam serpenteando... Porque estavam humilhadas! Moviam-se assim pela humilhação diante do homem, do guerrilheiro, do camponês [Risos]. Nós começamos a brincar, esperando que as familiares dessa não viessem se vingar por sua parente... [Risos]. Também nos contavam a história de outro guerrilheiro que falava com os bichos do bosque, o chamavam carinhosamente de “o louco”. Parece que era um dos melhores guerrilheiros, por sua mística, por sua entrega e sua disciplina, mas riam quando contavam que era “louco” porque não parava um segundo de contar piadas e falava com os animais do bosque.
Néstor Kohan: Onde dormiam?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Em barracas. Haviam camas de bambu, madeira, folhas. Haviam colchões. Plásticos para se cubrir da chuva. Barro. Devo destacar o esforço que essa gente fazia para que os convidados se sentissem acomodados. A chuva, por momentos, era torrencial. Não passou um dia sequer sem chover nos acampamentos. O barro era onipresente. Sentia-se o tempo todo o aroma da terra molhada no meio da chuva ou da neblina. Nesse panorama, se esforçavam para brindar nos com a maior comodidade possível. Nos contaram que os guerrilheiros devem dormir com grande parte de suas coisas preparadas caso se apresente uma situação de “ordem pública”, combate ou assédio militar iminente.
Néstor Kohan: A que hora se levantavam?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Cedíssimo. Antes das 5 am. A vida na montanha e no campo é muito diferente da cidade. Tudo começa antes e termina antes. Tanto que teve um dia em que os comandantes queriam ler, discutir e debater as teses de um livro que falava sobre a Colômbia e a América Latina, parece que era muito polêmico, e se levantaram ás 3 da manhã. Ali tudo se escuta. Desde longe,. Onde estava nossa barraca, escutávamos o debate. Deve-se estar muito politizado e ter muita vontade de polemizar para acordar às 3 da manha... para debater um livro! Não é verdade? Nada mais longe da realidade que eu vivi do que a imagem oficial de “bandoleiros narcotraficantes sem ideologia”.
Néstor Kohan: O que comiam no café da manhã?

Ezequiel Rodrígues Labriego: A primeira coisa que tomam, cerca das 5 da manhã, é um “tinto”. Não é vinho! [ Risos] Eles chamam de o café negro de “tinto”. Mais tarde, por volta das 7 am, comem muita comida, arepas (comida feita com farinha de milho), ovos, etc. Muita comida, não apenas para os convidados ou as visitas internacionais. Um velho guerrilheiro nos explicou que as FARC brindam aos seus combatentes com boa alimentação, entre outras coisas, para prevenir doenças. Um guerrilheiro mal alimentado pode ficar doente mais fácil. Inclusive, em termos econômicos, é melhor comer bem que ficar doente. Cada combatente tem também uma escova de dentes e sua pasta para prevenir enfermidades na boca.
Néstor Kohan: Como é a vida durante o dia? Praticavam tiro ou pontaria o tempo todo?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Não, são atiradores muito bons (os militares chamavam o comandante Marulanda de ‘Tirofijo’, ou seja, ‘tiro certeiro’) mas, na realidade, a maior parte do dia, todo o acampamento é um gigantesco coletivo de trabalho. Trabalham muito durante o dia! Há grupos de trabalho por esquadra de combate. Cortam lenha, serram, trabalham a madeira, lavam cozinham, constroem, transportam distintos materiais. Os acampamentos se parecem mais com enormes coletivos de trabalhadores do que qualquer outra coisa. Por isso nos explicavam a necessidade de uma boa alimentação: muito trabalho físico. As mulheres trabalhavam ao lado dos homens, em todos os serviços. Na marcha pela selva, as mulheres e os homens carregam mochilas de 30 quilos aproximadamente (eles medem em libras) com roupa, armas, munição, comida, etc.
Néstor Kohan: Haviam mulheres na guerrilha?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Muitas! Carregavam armas longas (diversos tipos de fuzis), uniforme das FARC e, ao mesmo tempo, lixas de unha, espelhos e esmalte. Elas levavam as mesmas cargas que os homens e todo mundo trabalhava por igual.
Néstor Kohan: Quem cozinhava?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Haviam várias cozinhas, com fornos fabricados por eles mesmos, ao estilo vietnamita ou cubano, segundo nos explicavam. Eles os denominavam “ranchas”. Vi gente cozinhando, tanto mulheres como homens, ambos por igual.
Néstor Kohan: Todos se vestiam igual?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Sim, com uniforme verde-oliva e as insígnias das FARC-EP. Tinham todos, homens e mulheres, um asseio tremendo. Se nos viam sujos de barro por conta das caminhadas, faziam piadas, sugerindo que trocássemos de roupa. Cada combatente tem mais de um uniforme, que eles mesmos confeccionam. A limpeza dos combatentes está regulamentada. No meio desse lamaçal, tudo estava limpo. Incrível! De alguma forma sentiam-se orgulhosos, se minha percepção não me enganou, de saber caminhar longas jornadas de barro sem se sujar. Sentiam-se de estarem assim, limpos no meio da selva. Inclusive nos perguntavam com ironia porque estávamos cheios de barro, dizendo: “Vocês não estão acostumados a caminhar no barro, certo?” Ainda que, ao mesmo tempo, com a maior naturalidade, alguns combatentes também nos perguntavam: “É verdade que é a primeira vez que visitam acampamentos guerrilheiros?”... como se fosse a coisa mais normal do mundo... [Risos]. Vestiam-se igual, mas as pessoas eram as mais variadas possíveis. Vimos combatentes brancos, mestiços, indígenas, afro descendentes, homens e mulheres. Dava para perceber que eram integrados, em um coletivo integrado. Por exemplo, vi gente branca cozinhando e servindo gente mestiça ou afro descendente. Tudo ao contrário do capitalismo racista e da discriminação a qual nossa sociedade nos tem acostumados.
Néstor Kohan: Durante o dia todo só trabalhavam?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Não, além de comer, trabalhar e descansar, também vi reuniões e discussões que transcorriam a tarde. Essas reuniões eram chamadas “a hora cultural”. Na realidade, duravam uma hora e meia ou duas. Juntavam-se e escutavam as notícias, primeiro, para analisá-las depois. Logo debatem em uma espécie de assembléia sobre a notícia do dia.
Néstor Kohan: Notícias de que tipo?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Notícias da Colômbia e da América Latina, principalmente. Mas também de outras partes do mundo.
Néstor Kohan: De onde obtém as notícias na selva e em plena montanha?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Da rádio e da TV. Assistem TV em uma hora do dia. Principalmente noticiários, como TELESUR. Também obtém notícias de Caracol, etc. mas também viam uma série de TV, jogos de futebol, etc. Lembro uma das tantas piadas que faziam: “Fulano é um leninista estrito, porque primeiro de tudo vem o partido... o partido de futebol” [Risos]. Esta pessoa não perdia um jogo por nada no mundo.
Néstor Kohan: Como debatiam?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Por grupos, por esquadras. As esquadras são as menores estruturas de combate, mas, ao mesmo tempo, são células políticas [na tradição do pensamento leninista, as “células” constituem-se na menor forma de organização de todo partido político] . O interessante é que cada esquadra tem seu comandante mas também possui seu secretário político. Os dois cargos não podem ser exercidos pela mesma pessoa. Dessa maneira fica garantida a democracia interna nas FARC e a possibilidade de debate. Então nas horas culturais dedicadas à informação, à educação e ao debate, cada esquadra é responsável por transmitir uma notícia. Quando todas as esquadras disserem a sua, começa o debate coletivo sobre as notícias. Ali elas são analisadas criticamente. Todos e todas falam, a palavra circula. Participam desde os que tem melhor oratória, mais fluida, até aqueles que penam mais em falar ou ler em público. O chamativo é que falam e debatem no escuro ou com pouquíssima luz. Ao presenciar essas cenas vêm à memória os relatos do marxista norte-americano John Reed quando escrevia a história da revolução bolchevique. John Reed, aquele jornalista dos EUA, se espantava pelo fato dos soldados bolcheviques de Lenin, ainda que estivessem com fome e no meio da guerra, se desesperavam por receber notícias ou livros no front de batalha... As horas culturais na selva colombiana me fizeram lembrar aquele livro.
Néstor Kohan: Por que as horas culturais aconteciam no escuro?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Pela possibilidade de bombardeios dos aviões militares. A ausência de luz estava destinada a esconder dos aviões as posições dos acampamentos guerrilheiros. Os combatentes nos contavam que essas horas culturais antes eram feitas com toda a luz, dando para ver as caras, mas como Uribe recrudesceu a guerra –tudo em nome da “paz” e da “democracia”... – têm recebido ultimamente tecnologia militar yankee de última geração, dedicada a aniquilar a insurgência com o chamado “Plano Patriota”, então já não se podia continuar desenvolvendo essas atividades com luz. Essa tecnologia militar yankee inclui globos espiões ou informação por satélite, destinada a detectar concentrações de luz, fumaça ou calor na selva. Isso motiva os debates no escuro. É muito raro para alguém que vive na cidade assistir a essa espécie de assembléias no escuro, no meio do barro, onde se discute a informação de conjuntura. É um sacrifício muito grande viver assim! Mas todo mundo participa com entusiasmo, com “mística”, com alegria nas discussões. O que conheci é, realmente, uma força político-militar muito informada, muito politizada e muito atualizada no dia a dia.
Néstor Kohan: Não são então uns loucos soltos, perdidos na selva, que não foram enterrados quando caiu o Muro de Berlim...
Ezequiel Rodrígues Labriego: [Risos] Não! Estão muito, mas muito informados mesmo. E não apenas da Colômbia, mas também de outros países. Recebem visitas. Conversam sobre a luta popular de outros países. São internacionalistas convencidos. Além do que, a maioria dos combatentes que conheci ingressou nas FARC após a queda do Muro de Berlim. Não são “dinossauros nostálgicos”. São marxistas leninistas, guevaristas e bolivarianos, com um projeto político atual, pensado para a América Latina no século XXI. Este projeto bolivariano não está pensado apenas para a Colômbia, mas para a Grã - Colômbia e a Pátria Grande, ou seja, para toda a América Latina. As FARC constituem uma organização guerrilheira muito conectada com o mundo.
Néstor Kohan: Não haviam diferenças de formação entre seus integrantes?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Na verdade, pelo tempo que passei não poderia afirmar. Mas acredito que sim. Haviam trabalhadores, camponeses, estudantes. Alguns tinham oratória fluida, outros custavam a ler em voz alta. Mas todos e todas participavam por igual. A palavra era rotativa! Até os mais tímidos tinham que falar. Os papéis de organização das “horas culturais” (espécie de assembléias culturais) trocavam e se alternavam todos os dias. Sinceramente, os vi muito informado e muito interessados no que acontecia na Colômbia (por exemplo as mobilizações urbanas, crise política, etc.) e em outros países.
Néstor Kohan: Isso se referindo aos combatentes. E os comandantes?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Bom, devo reconhecer que me surpreenderam. Ainda que tivesse lido a historiografia sobre as guerrilhas e tenha entrevistado alguma vez dirigentes políticos e guerrilheiros de outros países, estes comandantes me fizeram rir muito [Risos]. Como já te contei, viviam fazendo piadas, entre eles e com os visitantes (os visitantes europeus demoravam um pouco para captar as piadas, mas também contavam algumas). Além disso, discutiam poesia e literatura. Estavam metidos em uma discussão, entre eles, sobre a obra e o pensamento do escritor Vargas Vila [modernista, da geração de Rubén Dario]. Na mesa de comando tinham a Crítica da razão pura de Kant!... Ali também vi livros do poeta e revolucionário salvadorenho Roque Dalton, escutei conversas sobre Mariátegui, Nietzche, Habermas, os manuais soviéticos de Konstantinov, polêmicas sobre Saramago, entre outros. Os escutei conversar também, com erudição e devoção sobre Simón Bolívar, se morreu de morte natural ou se foi morto. Também falavam sobre o pensamento de Che Guevara. Me pareceu, em suma, gente muito instruída, muito lida e preparada. Sobretudo muito sensível. Inclusive, quando um dos visitantes perguntou sobre as recordações sobre o comandante Marulanda, percebi uma lágrima rodando por aí. Também vi rostos de nojo, indignação e muita raiva quando se falavam dos crimes dos “paracos” (os paramilitares colombianos), o uso que fazem da moto-serra para mutilar gente, a tortura, o aniquilamento de dirigentes populares, indígenas, sindicais, camponeses, jovens estudantes. Um dos comandantes que conheci, de evidente origem camponesa, tinha seis irmãos mortos. Ao conhecer esse comandante camponês, antigo lugar-tenente de Marulanda, recordamos os relatos histográficos sobre a guerra civil e a revolução da Espanha, com seus generais operários e camponeses. Mas em todas as conversas predominava o humor, as piadas e a falta de cerimônia. Sobre todas as coisas, muita ironia e muito humor. Não é, por acaso, o humor o melhor gesto de saúde mental, imprescindível para levar adiante qualquer luta radical em condições tão difíceis?
Néstor Kohan: Como se levava a vida na selva?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Era difícil. Muito sacrifício! Apesar de ninguém se queixar e todo mundo encará-lo com “naturalidade”, esta gente vive com muito sacrifício. Em primeiro lugar, nuvens inteiras e permanentes de mosquitos. Complicado viver assim todos os dias, certo? Eles o chamam “a praga”. Diziam, por exemplo, “hoje há muita praga”, como quem diz “está nublado”, com naturalidade. Nas zonas onde não há tantos mosquitos...tem carrapatos! Nesses outros lugares também há vespas. Depois estão as víboras... Enfim, a vida das guerrilhas das FARC é uma vida tremendamente abnegada e sacrificada. Só pode ser encarada, eu imagino, se houver um projeto político claro, realista e viável, que lhe dê sentido e se tenha intimamente fé no triunfo. Senão, não entendo como poderiam viver assim cotidianamente. As FARC estão certas de que vão vencer.
Néstor Kohan: Como as pessoas fazem para ir ao banheiro?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Fazendo as necessidades fisiológicas em um poço (homens e mulheres), rodeado de folhas, sem teto, no meio da chuva permanente... Dizem que as FARC vivem como “magnatas”, cheios de luxo e dólares, e como “milionários narcos”... Por favor! Que infâmia! Te asseguro que tudo isso não passa de uma mentirosa e absurda propaganda militar, destinada a deslegitimá-los e isolá-los de possíveis apoios, seguramente elaborada pelos assessores em guerra psicológica dos yankees.
Néstor Kohan: Que balanço geral você faz de tudo o que viu e conheceu nos acampamentos das FARC-EP?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Quando me lembro do que conhecemos nos acampamentos, penso em tanto acadêmico medíocre bancado por alguma ONG, ou nesses jornalistas ignorantes pagos pelos grandes monopólios, que vivem insultando e depreciando estes jovens guerrilheiros e guerrilheiras, afirmando que são “narcos” e não sei quantas outras besteiras do tipo. Me causa muita indignação ver esses submissos e medíocres caluniarem as FARC. Entendo se alguém não compartilha da estratégia política da insurgência comunista e bolivariana. É lógico e compreensível. Cada um tem direito a seu ponto de vista e a opinar a respeito. Mas me parece que, qualquer um que opine, deveria antes tirar o chapéu. Ou seja, falar com sumo RESPEITO [Rodríguez Labriego faz o gesto para que sublinhe a palavra] diante de tanta dignidade, diante de tanta abnegação, diante de tanto sacrifício.
Como conclusão pessoal, queria enfatizar o tremendo RESPEITO, a sincera admiração que sinto e que me geram estas pessoas, as pessoas das FARC. Os vi muito sérios, muito esforçados, principalmente muito convencidos da causa do socialismo. Não apenas do socialismo na Colômbia, mas em toda a Pátria Grande latino-americana e no mundo. Me parece que necessitam de muita solidariedade internacional. Além das anedotas ou as impressões, acredito que isso seja o fundamental. A solidariedade.
Néstor Kohan: Por que acredita que se fala tão pouco de Colômbia? Por que pensa que a esquerda mundial hesita em levantar como própria a bandeira insurgente das FARC?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Talvez por muitas causas. Em primeiro lugar, pela impressionante campanha macartista contra as FARC. A esquerda, reconheçamos, não permaneceu alheia nem à margem dos efeitos desse macartismo oficial que obriga a todos que se “afastem” das FARC (e outros grupos radicais) para obter um certificado de “boa conduta”. Não é verdade? Ou estou errado? Em segundo lugar, as FARC e o Partido Comunista Clandestino da Colômbia (PC3 ou PCCC) marcam uma continuidade com a esquerda revolucionária de outras décadas, mantendo a centralidade da luta pelo poder, apesar de várias décadas de domínio pós-moderno e/ou social-democrata. Não se coloca a Colômbia no centro da agenda latino-americana (onde habitualmente se fala de Bolívia e Venezuela sem sequer mencionar a Colômbia) porque isso implicaria automaticamente em discutir a pertinência da luta armada. Apesar de milhares e milhares de mortos e desaparecidos, isso provoca medo. Muito medo. Devemos reconhecê-lo...eles têm medo, apesar de não o confessarem publicamente ou o encobrirem com falsas elaborações “teóricas”. Deve-se vencer de uma vez esse medo!
Então trata-se de recuperar a solidariedade. Não podemos abandoná-los! Não devemos continuar cedendo à chantagem macartista. Não podemos cair no silêncio cúmplice nem na comodidade da indiferença.
Néstor Kohan: Quando você fala de solidariedade, você se refere exclusivamente à esquerda?
Ezequiel Rodrígues Labriego: Não necessariamente. Não apenas a esquerda. As FARC se definem antiimperialista e bolivarianos. O arco de solidariedade vai muito além da esquerda. Toda pessoa que se oponha ao guerreirismo de Uribe e a violação dos direitos humanos deveria se solidarizar. Da mesma forma que se apoiaram no sandinismo na Nicarágua, no FMLN em El Salvador, a Fidel e Che em Cuba, à URNG na Guatemala, ao zapatismo no México, ao MST no Brasil ou a Chávez na Venezuela. Hoje deve-se apoiar as FARC. As FARC são parte insubstituível e fundamental desse conjunto latino-americano. Não podemos continuar nos fazendo de distraídos frente à luta do povo colombiano. O apoio às FARC-EP deve estar na ordem do dia na esquerda latino-americana e mundial.
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