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sábado, 10 de julho de 2010

Censura e truculência contra jornalistas. Onde está a ANJ?



sábado, 10 de julho de 2010

Censura e truculência contra jornalistas. Onde está a ANJ?



As demissões de jornalistas na TV Cultura de São Paulo e o silêncio dos grandes meios de comunicação sobre as causas destas demissões evidenciam mais uma vez um preocupante comportamento cínico, submisso e hipócrita. Mais uma vez, são blogs e sites de jornalistas independentes que cumprem o dever de informar ao público o que é de interesse público. Entidades como a Associação Nacional de Jornais, supostamente comprometidas com a defesa da liberdade de expressão, exibem um silêncio ensurdecedor.

Editorial - Carta Maior

O comportamento cínico e hipócrita da maioria das grandes empresas de comunicação do Brasil ficou mais uma vez evidenciado esta semana, e de um modo extremamente preocupante. Não se trata apenas de valores ou sentimentos, mas sim de fatos objetivos e de silêncios não menos objetivos. O relato sobre demissões na TV Cultura de São Paulo, causadas pelo interesse de jornalistas no tema dos pedágios, justifica plenamente essa preocupação. Um desses relatos, feito nesta sexta-feira pelo jornalista Luis Nassif, chega a ser assustador. Em apenas uma semana, dois jornalistas perderam o emprego, escreve Nassif, em função de uma matéria sobre pedágios. Ele relata:

Há uma semana, Gabriel Priolli foi indicado diretor de jornalismo da TV Cultura. Ontem (7), planejou uma matéria sobre os pedágios paulistas. Foram ouvidos Geraldo Alckmin e Aloízio Mercadante, candidatos ao governo do estado. Tentou-se ouvir a Secretaria dos Transportes, que não quis dar entrevistas. O jornalismo pediu ao menos uma nota oficial. Acabaram não se pronunciando.

Sete horas da noite, o novo vice-presidente de conteúdo da TV Cultura, Fernando Vieira de Mello, chamou Priolli em sua sala. Na volta, Priolli informou que a matéria teria que ser derrubada. Tiveram que improvisar uma matéria anódina sobre as viagens dos candidatos.

Hoje (8) , Priolli foi demitido do cargo. Não durou uma semana.

Semana passada foi Heródoto Barbeiro, demitido do cargo de apresentador do Roda Viva devido às perguntas sobre pedágio feitas ao candidato José Serra (ver vídeo abaixo). Para quem ainda têm dúvidas: a maior ameaça à liberdade de imprensa que esse país jamais enfrentou, nas últimas décadas, seria se, por desgraça, Serra juntasse ao poder de mídia, que já tem, o poder de Estado.

http://www.youtube.com/watch?v=ZK4s6KaUdzc&feature=player_embedded


Não é o primeiro relato sobre a truculência do ex-governador de São Paulo com jornalistas. Nos últimos meses, há pelo menos dois outros episódios, um deles envolvendo a jornalista Miriam Leitão, na Globonews, e outros envolvendo jornalistas da RBS TV, em Porto Alegre. A passagem da truculência à ameaça ao trabalho dos jornalistas é algo que deveria receber veemente manifestação da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), sempre prontas a denunciar tais ameaças. No entanto, ao invés disso, o que se houve é um silêncio ensurdecedor.

Mais uma vez, são blogs e sites de jornalistas independentes que cumprem o dever de informar ao público o que é de interesse público. E, mais uma vez também, os chamados jornalões e seus braços no rádio e na TV, calam-se, aliando submissão e cumplicidade com a truculência e o desrespeito ao trabalho de experientes profissionais. O mesmo silêncio, a mesma submissão e a mesma cumplicidade manifestadas nos recentes casos de assassinatos de jornalistas em Honduras, em função de sua posição crítica ao golpe de Estado ocorrido naquele país.

Esse triângulo perverso que une cinismo, hipocrisia e silêncio não é um privilégio da imprensa brasileira. Um outro caso, esta semana, envolveu uma das maiores cadeias de televisão do mundo. A CNN demitiu a jornalista Octavia Nasr, editora de noticiário do Oriente Médio, por causa de uma mensagem publicada por ela em sua página no Twitter onde manifestou “respeito” pelo ex-dirigente do Hezbollah, Sayyed Mohammed, que morreu no final de semana passado. Octavia tinha 20 anos de trabalho CNN. O que ela escreveu no twitter e causou sua demissão foi: “(Fiquei) triste por saber do falecimento do Sayyed Mohammed Hussein Fadlallah…Um dos gigantes do Hezzbollah que eu respeito muito”. Parisa Khosravi, vice-presidente-sênior da CNN International Newsgathering, afirmou em um memorando interno que “teve uma conversa” com a editora e “decidimos que ela irá deixar a companhia”.

Essa mesma CNN não hesita em denunciar agressões à liberdade de imprensa em outros países quando isso é do interesse de sua linha editorial e dos interesses geopolíticos da empresa. Crime de opinião? Segundo as versões oficiais, isso só existe em países do chamado eixo do mal.

Esse mesmo triângulo perverso ajuda a entender por que essas grandes corporações midiáticas não querem debater com a sociedade a sua própria atuação. Colocam-se acima do bem e do mal como se fossem portadores de legitimidade pública. Não são. Ao cultivarem esse tipo de comportamento e prática, o que estão fazendo, na verdade, é auto-atribuir-se, de modo fraudulento, uma suposta representação pública. Representam, na verdade, os interesses dos donos das empresas e, cada vez menos, o interesse público.

Neste exato momento, o planeta vive aquele que pode vir a se confirmar como o maior desastre ecológico de sua história. O acidente com a plataforma da British Petroleum no Golfo do México e o vazamento diário de milhões de litros de óleo no mar tem proporções ainda incalculáveis. No entanto, a cobertura midiática sobre o caso nem de longe é proporcional, em quantidade e qualidade, à gravidade e importância do caso. Organizações ambientalistas já denunciaram que a BP vem operando pesadamente nos bastidores para bloquear e filtrar informações.

É preciso ter clareza que são os dirigentes e porta-vozes dessas corporações midiáticas e seus braços políticos e empresariais que não hesitam em denunciar qualquer proposta de tornar transparente à sociedade o seu trabalho, supostamente de interesse público. O bloqueio e seleção de informações, a demissão de jornalistas incômodos e a truculência com aqueles que ousam fazer alguma pergunta fora do script são diferentes faces de um mesmo cenário: o cenário da privatização da informação, da deformação da verdade e da destruição do espaço público.

Fonte:
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16791
 

Encontro de Amigos


O motivo inicial foi o câncer. Descobriram, de repente, que um deles poderia desaparecer, definitivamente desaparecer. Que todos desaparecem, mais cedo ou mais tarde, não tinham nenhuma dúvida. Todos, algum dia, todos todos todos sem dúvida um dia iriam, num futuro remoto, sumir. De morte morrida, matada ou suicídio. Todos. Mas uma coisa, que só a lógica humana explica, uma coisa é todos desaparecerem. Outra, bem distinta, era desaparecer um deles, um indivíduo conhecido, com quem viveram, conviveram, alguém íntimo, sim, outra bem distinta era desaparecer aquele indivíduo chato, aborrecido, mas que tinha, “ah, todos temos”, algo de humano e amoroso. E como se não bastasse, um alguém com a embaraçosa qualidade de ser “um dos nossos”.
- Saturnino pegou um câncer!
- Como foi isso?
Era a pergunta imediata, que vinha como resposta. Isso queria dizer: o que foi que ele fez de errado? Sim, alguma e algumas ele deveria ter feito. Está vendo? não se cuidou, é o pau que dá: não se cuidou, usou e abusou de extravagância, está aí, câncer. E isso queria também dizer, nós, que nos cuidamos, que seguimos dietas saudáveis, que praticamos exercícios físicos, que caminhamos, que fazemos amor dentro dos limites, que bebemos pouco, que comemos só o necessário, nós, a caminho da imortalidade, não, nós nos cuidamos.
- Como foi isso?

Vamos, queriam dizer, comprove-nos o quanto ele errou, o quanto não erramos nós, o quanto … não diziam, mas pela progressão da exigência de fatos explicadores poderiam dizer, o quanto ele é culpado do câncer que pegou.
- Ele mesmo não sabe. Havia deixado de beber, fazia cinco anos que não fumava, fazia caminhada, vivia de casa para o trabalho, do trabalho para casa,  estava com uma vida de santo. E câncer!…
- Ele estava sentindo alguma coisa?
Era a pergunta seguinte, porque isso também queria dizer, vamos, enumere urgente os sintomas que não temos.
- Nada, ele não sentia nada. Absolutamente nada. Entende? Nem uma só dorzinha, nem o mais leve mal-estar, nada.

Ah, e como um fel que se masca e mastiga, diziam ah, e isso queria dizer o quanto a doença era traiçoeira, o quanto ela avançava em silêncio, como um fila, pior, pior que um cão fila brasileiro, porque ao sentir as dores da mordida o indivíduo está no ponto final. Ah, então foram lembrando, aos poucos, sem reunião, sem que se comunicassem, como uma reflexão coletiva, como um pensamento que corre sem que se enuncie, o quanto outros males vinham se anunciando. Ah. Todos haviam ultrapassado os sessenta anos. Bolívar estava com regurgitação, e isso queria apenas dizer que não podia mais comer como antes, o que engolia voltava, contra a sua vontade. (Mas isso era melhor que o câncer!) Elísio estava com uma palpitações estranhas no peito, depois que recebera umas pontes de safena. Três, três pontes, mas benditas, porque isso ainda era melhor que um câncer. Isaltino fizera uma cirurgia remodeladora do estômago, da vesícula, extraíra um dos rins, essas coisas secundárias, que não se sabe por que temos dois, que felicidade, divorciado de alguns órgãos, mas paciência, isso, ainda assim, era melhor que um câncer. Vespúcio, com receitas infalíveis de vida saudável, alimentação milagrosa, chás de ervas de qualidades ainda não descobertas, exercícios e meditação budista, estava a caminho de perder o equilíbrio mental.   Demente, mas saudável, diziam-se. Será um atleta sênior, com um sorriso idiota, mas de qualquer modo isso ainda era muito melhor que um câncer.
Sim, mas ainda aqui, nesse levantamento em que tudo era o melhor dos mundos, porque ausente de câncer, e o mundo com tal ausência era o paraíso sem a oposição do satanás, ainda aqui, descobriram, se deixassem de ter como referência o mal maior, se voltassem os olhos para a vida de quando jovens, ah, se se comparassem aos que nada têm, ah. Era de amargar. Fel que não dava nem para mascar com aparência de jovens com chicletes. Ah. Porque então se deram conta, terrível novidade, que já haviam vivido mais que 70% dos seus melhores anos.
- Setenta? Olhe, você está sendo muito otimista, contestou Elísio. Olhe, para alguns de nós, estamos nos dez por cento finais.
Então decidiram fazer uma reunião de amigos. Um reencontro. A pretexto de uma solidariedade ao infeliz que sofrera o que não queriam , resolveram ter um reencontro, antes que fosse tarde. E aqui, somente aqui, nos dez por cento finais começa a nossa história. Porque aqui começam as novas dificuldades.
A começar pela estrela, o canceroso. Não queria falar com ninguém. Danem-se! “Deixem-me em paz”, espalhem aos quatro cantos, “esqueçam-me, eu quero ficar sozinho, eu quero morrer só, eu estou sentindo um fedor de hipocrisia, vão pra puta que os pariu”.
- Ele não está bem do juízo, dizia a sua esposa, ao telefone.
- Por quê? Ele está agressivo, quero dizer, ele está mais agressivo do que antes?
- Não, ele só quer ouvir João Gilberto.
- Ah, então o caso é sério, e desligavam.
Mas não desistiram de, aqui e ali, fazerem uma ligação. E ele, melhorou? Diga-lhe que todos desejamos vê-lo, revê-lo, que todos torcemos por ele, que ele é muito importante para nós… e demais frases e fórmulas de adulação, que por serem corteses, educadas, são enganosas, mas guardam, por isso mesmo,  o doce gosto de uma consolação.

- Como foi mesmo que ele disse? o paciente impaciente perguntava à esposa.
- Que você é importante para eles.
- Mas você disse antes que ele disse que eu era “muito, muito importante”.
- Sim, eles disseram assim: ele é muito importante para nós.
- Só isso?
E continuavam o assédio, por mensagens, por mails. Exageravam, no estímulo: “Levante a cabeça, o câncer é uma doença como qualquer outra”. Isso muito, muito o irritava. Uma doença qualquer?! Respondia, no mesmo tom: “Recomendo ao amigo essa doença qualquer. É uma bobagem, é como uma gripe, um sarampo”. E vinha outro, com estímulo semelhante: “Todos vamos morrer…”.  Que consolo. E vinha uma bondosa amiga: “Existem uns passes de energia, com os dedos, feitos com a proximidade das mãos, que conseguem uma cura revolucionária”. (E aqui, mesmo no esoterismo, não se perdia o jargão de antigos militantes da esquerda: passes de energia, esotéricos, mas  “revolucionários”.). E outro: “Melhore o humor, homem. Eu tenho uma tia, que com bom humor…”, o que seria algo, o paciente resmungava, algo como a cura do câncer pela risada. E se imaginava numa câmara de cócegas. Nela, um médico com máscara de cirurgião, como um boneco de marionetes, lhe anunciava: “A terapia das cócegas venceu a sua doença”.
Ao fim, no entanto, de 90 longos dias os amigos venceram.  Aconteceu de repente, naquele que desejava ficar sozinho, morrer sozinho, como se a morte não fosse em si uma imensa solidão, aconteceu de repente no homem de vidro uma saudade, uma vontade de beber, um desejo imenso de rever os amigos, de entrar com eles em um bar, num café do quadro de Van Gogh. De conversar  bobagem, de ver suas caras, como se fosse pela primeira vez. Está certo, como se fosse a última ou a penúltima vez. E pediu que marcassem o dia, o dia e a hora para o reencontro. Então os safados, surdina e quixotescamente, disseram-lhe, por mail, que as esposas não iriam. Que esse era um encontro tão-só e somente deles, sem mulheres, para melhor, não diziam, mas era isto, para melhor delas poderem falar. E quem sabe, talvez, possibilidades aos sessenta anos de idade abertas, se energias e fogo houvesse, talvez, quem sabe, a fuga para um bar que fosse um quadro de Toulouse-Lautrec. Com muito can-can. Ah…

As mulheres não aceitaram  a condição, estava escrito. Dizia uma:
- Então eu sou boa para ser enfermeira. Mas não para companheira…

Dizia outra:
- O que vai fazer um bando de homens juntos?
A
o que outra completava:
- Procurar mulher, é claro.

A isto respondiam com protestos os amigos, com sentidos e ofendidos protestos:
- Que é isto? Assim você nos ofende. Mulheres já temos. Vocês já nos preenchem, completamente… (Até o pescoço, até a fronte, acenava um safado, por trás.)

E quando pensavam que haviam vencido, numa tola esperança, porque desconheciam que ao fim e ao cabo as mulheres sempre vencem, quando pensavam que com tais declarações de amor conjugal haviam vencido, eis que vinha a carga, mais pesada:
- Um bando de homem junto, sem mulher… Então vão dar o cu! Quem vai comer o cu de quem? Era bom saber. Quem come quem?
- Minha querida, em nossa idade….
- Não perca a esperança. Velhice é desespero!

Então houve um grau supremo de apelação. Os amigos proferiram discursos comoventes, que argumentavam com um mundo só de homens, de recordações só masculinas, de necessidade imperiosa de se fazer um balanço sentimental desde a infância, de se contar fatos vexatórios que os homens não contam às mulheres, “vocês também possuem o seu mundo, entendem?”, discursos verdadeiros e mentirosos, demagógicos e grandiosos, de ternura e de raiva em iguais proporções. Inútil. Como diria mais tarde o sociólogo do grupo, a passar a mão no ventre esvaziado do rim esquerdo e de pedaços dispensáveis do estômago, como diria ele, a passar a mão pelas cicatrizes do abdômen, “o impasse estava configurado”.

E completava:
- O amor é guerra, bicho. Se você se fizer de fraco, a mulher monta, monta e não desce. Então eu virei a mesa, e gritei: “Eu vou, eu vou de qualquer forma e jeito! Eu vou sozinho. E fim!”.

Mas se o amor é guerra, o vencedor não é o que grita mais alto. Pelo contrário. Todos tiveram a generosa permissão de ir sozinhos, “era uma questão de princípio, disso não abro mão”, proclamavam. Mas sob a condição, o que não se disseram nem exaltaram, de deixarem a informação exata do bar, do local, da hora, e com os telefones celulares acesos, dentro da área de cobertura. Sozinhos, mas… Liberdade condicional, sob controle remoto e vigiada. Então chegaram.

Estavam jovens, joviais e serelepes. E aqui a mão que escreve oscila entre o cômico e a comoção. A flor breve da juventude havia murchado. Todos estavam de cabelos grisalhos, com exceção de um, cujos cabelos enegrecidos deviam ser objeto de muita tinta e cuidados. Ativos, pesados, ágeis, mas só no olhar, na rapidez com que os olhos evitavam questões desconfortáveis.

- Você é feliz?
- Eu sou um homem prático.

E se olhavam, e se mediam, “será que estou tão velho quanto ele?”.
- Você está com a mesma cara! (Era o supremo elogio, porque o corpo não era mais o mesmo). É impressionante.
- Você acha? A gente se acostuma com o espelho e não nota. É preciso que outra pessoa diga. Você acha mesmo que estou com a mesma cara?
F
eitas as “apresentações”, as retomadas dos contatos, voltaram então as brincadeiras, as ácidas e pesadas brincadeiras, ferinas, uma herança da adolescência.
- Como você faz para ficar assim  tão jovem?
- Eu? Alimentação, alimentação saudável e exercícios.
- Sei,  pão, queijo e café?
- Não, eu já notei que você não come frutas. Vai ver que foi por isso…

Ia dizer que “foi por isso que pegou um câncer”, mas suspendeu a frase. Ao que o atingido responde:
- Então comi errado nos meus últimos sessenta anos. Sim, como devo comer? Ensine-me, como devo comer?

A ironia não é percebida, porque o cultivador de “saúde é tudo, em primeiro e perimeiríssimo lugar saúde”, passa a enunciar uma receita:
- Olhe, pela manhã, um copo de suco de laranja, uma folha de couve, uma fatia de pão de centeio. Seis ovos de codorna, uma xícara de chá preto. E limão. Pode usar e abusar do limão, se quiser. Limão é muito bom para as artérias, até pra potência.
- Limão? – Todos se interessam na mesa .  – Limão?
- Sim, limão.
- Via oral, você quer dizer.
- Claro, por onde seria? E água, muita água. A receita da felicidade é a água.
- Água água?
- Sim, água, água. Bebam 8 copos de água por dia. Mas o ideal são dois litros de água. Limpa a pele, desintoxica, emagrece, lubrifica e dá tesão.
- Água mesmo, sem aditivo?

E entra-se então no capítulo de observações que se apresentam como gerais, como se dissessem respeito a outros.
- Há pessoas que na maturidade, no envelhecimento, não, porque todo velho é feio, mas há pessoas que na maturidade ficam melhores de aparência. Já notaram?
- Já, não é o teu caso.
- Mas você disse que a minha cara era a mesma.
- Então, isto mesmo: estás tão feio quanto antes.

Riem. E as vítimas rodam, substituem-se, como num jogo de bola, de “doidinho”, em que um indivíduo perde a bola para outro, e passa a tentar recuperá-la, que vai de um pé a outro, em roda.
- Você se lembra do dia em que o ladrão invadiu a sua casa?
- O ladrão jamais invadiu a minha casa.
- Então foi pior. Você pensava que o ladrão havia invadido. Você ficava a pular, de coluna a coluna da sala, com uma faca de mesa, sem ponta, a gritar para a sua filha: “o que é, porra?, o que é, porra?”. Aparentemente, era o chefe do lar a pôr ordem na histeria da filha, apavorada. Na verdade, eram anúncios para o ladrão, “vá embora, desgraçado, por favor vá embora, que estamos acordados”.
Riem.
- Mas o pior foi no outro dia. A filha lhe perguntou: “papai, por que o senhor ficou a pular, de uma coluna para outra?”. E a resposta: “era para o ladrão errar a pontaria do revólver”. Mas dizes bem: jamais houve ladrão em tua casa. Houve só o terror.

Então os casos, os “doidinhos” se sucedem. Até a exaustão, até o ponto em que os ridículos de cada um são mais do que conhecidos, e por isso perderam o interesse, ou então, são conhecidos, mas não se dizem, mesmo na bebedeira, porque ainda ferem, magoam, mesmo sendo cômicos. Ninguém diz, por exemplo, que a miséria humana, sexual, era tamanha na juventude que galinhas pretas, no quintal, eram adoradas pelas frestas do banheiro do quintal, em vigorosas masturbações. Ninguém diz tampouco que um deles recebeu um falso bilhete, onde uma enamorada teria marcado um encontro, e que ele ao comparecer ao local, perfumado e em sua melhor roupa, recebeu uma sonora vaia dos colegas. Isso não se diz. Nem tampouco a miséria material de outro, que para comer um prato de carne, deixou-se masturbar por um homossexual. Não, isso ninguém diz. Não se fala tampouco de casamentos que não deram certo, de filhos separados, fodidos, longe. Não se diz. Porque isso ficou além do ridículo. Porque há uma lâmina fina que separa o riso da dor. O limite talvez seja o ridículo que dói.

Então descobre-se que, por nada, os senhores sessentões ficaram sentimentais, estupidamente sentimentais, brutalmente sentimentais, que por nada choram, de repente choram, em meio a um relato aparentemente objetivo, trivial, perdem a voz, ficam com a voz embargada, e não conseguem avançar, param de falar. Escondem o rosto, vão ao banheiro, e voltam com a cara inchada e os olhos vermelhos. E então se dá um silêncio, e uma vontade imensa de gritar:
- O que é, porra?!

Mas não se grita, porque o grito seria um berro de menino sem mãe, órfão. Então sem aviso, começa-se a cantarolar, como se estivesse marcado, como se fosse uma música marcada no script do encontro, o Hino de Batutas de São José:

“Eu quero entrar na folia, meu bem
Você sabe lá o que é isso?
Batutas de São José, isto é parece que tem feitiço.
Batutas tem atrações que ninguém pode resistir
Um frevo desses bem faz demais a gente se distinguir.
Deixa o frevo rolar
Eu só quero saber
Se você vai ficar
Ai, meu bem, sem você
não há carnaval
Vamos cair no passo
E a vida gozar”

E repete-se o refrão, com os braços nos ombros, os velhos, os jovens amigos:
- Vamos cair no passo, e a vida gozar.

Então a voz começa a fraquejar. Então começa uma saída para o banheiro. Então começam a virar a cara, uns para os outros, a se ficarem de costas, a buscar um lenço.
- O primeiro a chorar é bicha. O primeiro a chorar é veado, certo?
- Certo.

E o banheiro começa a se encher de amigos. Até que um deles desaba, literalmente desaba e se põe num pranto alto. O choro contagia, todos os amigos se contaminam. Num fiozinho de voz, alguém diz:
- O nosso mundo está indo. O nosso mundo está se acabando.

Cai uma chuvinha fina, de fim de tarde, no bar que seria o Café de Van Gogh, se fosse de noite, em Arles, em setembro de 1888. Mas é um bar em Olinda, onde o mar bate, insensível àquele bando de velhos que acenam para um  mundo que não volta. Um celular toca. Toca, chama, em vão.  Silêncio, só murmúrio dos homens que choram. Todos estão fora da área de cobertura.



Urariano Mota
Conferir 'Encontro de amigos'
Abraços.
Link:
Encontro de amigos

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CARTA DAS CENTRAIS SINDICAIS!!!

Brasil 9 de Julho de 2010 - 2h00 Centrais acusam tucano de impostura e golpe contra trabalhadores As centrais sindicais lançaram manifesto conjunto na última quarta-feira (7) onde alertam a população para que não se deixe enganar pelas mentiras veiculadas na rádio e na televisão por José Serra, candidato de Fernando Henrique e do PSDB à Presidência da República, a respeito de pretensas medidas que teria proposto em prol da classe trabalhadora. Serra age como um verdadeiro lobo vestido em pele de cordeiro. Sob o título “Serra: impostura e golpe contra os trabalhadores”, CUT, Força Sindical, CTB, CGTB e Nova Central denunciam que “o candidato José Serra (PSDB) tem se apresentado como um benemérito dos trabalhadores, divulgando inclusive que é o responsável pela criação do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) e por tirar do papel o Seguro-Desemprego. Não fez nenhuma coisa nem outra. Aliás, tanto no Congresso Nacional quanto no governo sua marca registrada foi atuar contra os trabalhadores”. De acordo com as centrais, “a mentira tem perna curta e os fatos desmascaram o tucano”. Falsificando a história A nota assinada pelos presidentes das centrais (Wagner Gomes, da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil; Artur Henrique, da Central Única dos Trabalhadores; Miguel Torres, em exercício, da Força Sindical; Antonio Neto, da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil e José Calixto Ramos, da Nova Central Sindical dos Trabalhadores) ressalta é fundamental que a população seja bem informada a respeito dos fatos para que dimensione o tamanho da falsidade que vem sendo divulgada pelo PSDB. “A verdade”, esclareceram, é que “o seguro-desemprego foi criado pelo decreto presidencial nº 2.284, de 10 de março de 1986, assinado pelo então presidente José Sarney. Sua regulamentação ocorreu em 30 de abril daquele ano, através do decreto nº 92.608, passando a ser concedido imediatamente aos trabalhadores”. Da mesma forma, “o FAT foi criado pelo Projeto de Lei nº 991, de 1988, de autoria do deputado Jorge Uequed (PMDB-RS). Um ano depois Serra apresentou um projeto sobre o FAT (nº 2.250/1989), que foi considerado prejudicado pelo plenário da Câmara dos Deputados, na sessão de 13 de dezembro de 1989, uma vez que o projeto de Jorge Uequed já havia sido aprovado”. Reprovado pelo Diap Na Assembleia Nacional Constituinte (1987/1988), o candidato tucano votou reiteradamente contra os trabalhadores, assinala o manifesto: “Serra não votou pela redução da jornada de trabalho para 40 horas; não votou pela garantia de aumento real do salário mínimo; não votou pelo abono de férias de 1/3 do salário; não votou para garantir 30 dias de aviso prévio; não votou pelo aviso prévio proporcional; não votou pela estabilidade do dirigente sindical; não votou pelo direito de greve; não votou pela licença paternidade; não votou pela nacionalização das reservas minerais”. Por isso, conforme recordam os sindicalistas, José Serra foi reprovado pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), que conferiu aos parlamentares uma nota entre zero a dez de acordo com a posição assumida na votação dos temas de interesse da classe trabalhadora, em particular o capítulo sobre direitos sociais. Serra, que a esta altura já tinha se bandeado para o lado da direita, teve nota 3,75 pelo desempenho na Constituinte. Vale lembrar que no primeiro turno da Constituinte, o atual candidato tucano tirou nota 2,50 e, no segundo turno, por se ausentar em várias votações em que havia votado contra, levou nota 5,0 – o que lhe elevou a média para 3,75. Homem do capital financeiro Já em 1994, diante da proposta de Revisão Constitucional, lembram as centrais, “Serra apresentou a proposta nº 16.643, para permitir a proliferação de vários sindicatos por empresa, cabendo ao patrão decidir com qual sindicato pretendia negociar. Ainda por essa proposta, os sindicatos deixariam de ser das categorias, mas apenas dos seus representados. O objetivo era óbvio: dividir e enfraquecer os trabalhadores e propiciar o lucro fácil das empresas. Os trabalhadores enfrentaram e derrotaram os ataques de Serra contra a sua organização, garantindo a manutenção de seus direitos previstos no artigo 8º da Constituição”. Conforme o manifesto, “é por essas e outras que Serra, enquanto governador de São Paulo, reprimiu a borrachadas e gás lacrimogêneo os professores que estavam reivindicando melhores salários; jogou a tropa de choque contra a manifestação de policiais civis que reivindicavam aumento de salário, o menor salário do Brasil na categoria; arrochou o salário de todos os servidores públicos do Estado de São Paulo”. “As Centrais Sindicais brasileiras estão unidas em torno de programa de desenvolvimento nacional aprovado na Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, em 1º de junho, com mais de 25 mil lideranças sindicais, contra o retrocesso e para garantir a continuidade do projeto que possibilitou o aumento real de 54% do salário mínimo nos últimos sete anos, a geração de 12 milhões de novos empregos com carteira assinada, que acabou com as privatizações, que descobriu o pré-sal e tirou mais de 30 milhões de brasileiros da rua da amargura”, conclui o documento assinado pela CUT, Força Sindical, CTB, Nova Central e CGTB. Enfim, Serra é um homem do capital financeiro e, como tal, já se revelou inimigo da classe trabalhadora. Definitivamente não merece a confiança das centrais sindicais.

O MARECHAL LOTT, JÂNIO QUADROS E AS ELEIÇÕES DE 2010

O MARECHAL LOTT, JÂNIO QUADROS E AS ELEIÇÕES DE 2010


Laerte Braga

Henrique Dufles Baptista Teixeira Lott foi um dos grandes vultos das forças armadas brasileiras. Entre outras coisas não se subordinava a Washington como boa parte dos nossos militares e tampouco tinha aversão ao processo democrático, pelo contrário. Impediu em 11 de novembro de 1955 um golpe dos “patriotas” contra a legalidade.

Ministro da Guerra, era como se chamava o Ministério do Exército, hoje abrigado como Secretaria dentro do Ministério da Defesa, evitou duas tentativas de golpe contra o governo de JK e acabou candidato da coligação PSD/PTB à presidência da República em 1960.

Disputou as eleições contra Jânio Quadros, ex-governador de São Paulo e um terceiro candidato, Ademar de Barros, uma espécie de Paulo Maluf da pré-história, também ex-governador de São Paulo.

Perdeu-as. Jânio foi eleito presidente até por larga maioria de votos.

Lott não tinha boa oratória, as campanhas àquela época se sustentavam principalmente em comícios e aliado a esse fato, boa oratória, Lott tinha a mania da franqueza. Da honestidade em suas palavras. Em suas propostas.

Jânio era um produto da demagogia, mero projeto pessoal de ditador (renunciou numa manobra tragicômica esperando que o povo o reconduzisse ao governo com plenos poderes, tudo sob efeito da “mardita pinga). Candidato da UDN sem nunca ter sido udenista e de Carlos Lacerda, a quem usou até espremer e terminar espremido, não era necessariamente louco como diziam. Demagogo, de interromper comícios para tomar uma injeção de glicose (vivia bêbado) alegando que o cansaço na “luta pelo povo” o obrigava a “sacrifícios” que prejudicavam sua saúde.

Tinha o hábito de assistir filmes de western ao contrário, ou seja, do fim para o princípio. Achava interessante o bandido levantar-se e tomar um soco de John Wayne do que a ordem natural da cena, tomar o soco e cair.

O marechal Lott passou a campanha inteira advertindo aos brasileiros que Jânio levaria o País ao caos. Num dado momento, talvez consciente das dificuldades para sua eleição (tradicionalmente militares foram sempre derrotados em eleições livres para presidente, a exceção de Dutra, mesmo assim porque disputou com outro militar, o brigadeiro Eduardo Gomes), chegou a propor um pacto de unidade nacional em torno de uma candidatura única, no caso o general Juracy Magalhães, governador da Bahia e que havia sido derrotado por Jânio na convenção da UDN.

Para que se possa ter uma idéia da personalidade do marechal Lott, em visita a uma cidade no interior de Minas, descia num automóvel para o centro da cidade, saindo do aeroporto, quando um eleitor de Jânio enfiou uma vassoura dentro do carro, pela janela e tentou atingi-lo. Mandou o carro parar e em meio a lotistas de um lado e janistas de outro, foi até o cidadão, tomou-lhe a vassoura, jogou-a no chão e disse com o dedo em riste –“o senhor pode votar em quem quiser, é um direito que eu assegurei quando garanti a posse do presidente Juscelino, mas o senhor respeite a mim e a democracia, proceda como homem de caráter” -.

Voltou ao automóvel sob aplausos de seus correligionários e silêncio dos janistas que, por sinal, perdeu, Jânio, as eleições nessa cidade.

Em muitas cidades que visitava, pouco antes de subir ao palanque, Jânio dirigia-se a um botequim estrategicamente escolhido, pedia um sanduíche de pão com mortadela, alegava falta de tempo para jantar, uma pinga e uma cerveja quente, assentava-se à mesa com alguém que lá estivesse, chegou a assentar-se no meio fio e com gestos teatrais ia comendo, bebendo e conversando com as pessoas.

Já ex-presidente, escreveu com Afonso Arinos (que redimiu-se depois, era um homem inteligente e um político íntegro) uma enciclopédia da língua portuguesa. No lançamento no Rio de Janeiro, em 1967, almoçava no Clube Ginástico, no centro da cidade, presentes o próprio Arinos (fora seu ministro das Relações Exteriores), outras figuras do antigo udenismo, quando surpreendeu a todos, inclusive jornalistas, com seu pedido. Uma omelete simples, uma pinga especial e uma cerveja quente.

A surpresa maior veio depois. Foi recortando a omelete até dar-lhe a forma de uma suástica e sequer engoliu uma garfada. O que sobrou amassou com as mãos, formou um bolo e colocou fora do prato. Bebeu a pinga, duas ou três cervejas quentes e foi-se.

Segundo Foucault, “não há exclusão entre loucura e crime, mas sim uma implicação que os une. O indivíduo pode ser um pouco mais insano, ou um pouco mais criminoso, mas até o fim a loucura mais extremada será assombrada pela maldade”.

Referia-se, embora seja um conceito amplo, a Doucelin, conde D’Albuterree, que avocava a si a condição de herdeiro da coroa de Castela e que dizia falar com Deus todos os dias, além de receber a visita de Maria algumas vezes por semana.

O problema é que Jânio não rasgava nota de cem, pelo contrário, cultivou a fama de honesto e implacável na defesa do dinheiro público, enquanto ia guardando o “seu” em bancos suíços.

As advertências do marechal Lott se confirmaram e foram além. Com a renúncia de Jânio, em 25 de agosto de 1961, depois de ter proibido desfile de miss com biquíni, briga de galo e imposto o slack como uniforme para os servidores públicos, militares brasileiros comandados por Washington se levantaram contra a posse do vice, João Goulart que se encontrava em missão na China, a pedido de Jânio. Queria-o longe à hora do “golpe” e uma das primeiras prisões feitas foi a do marechal Lott que logo se pronunciou pela legalidade. Jânio mandara Jango à China exatamente por ser aquele país governado pelo Partido Comunista, Mao Tse Tung e Chou em Lai e assim criar um complicador maior para uma eventual posse de Jango tornando mais fácil seu retorno triunfal.

Jango acabou tomando posse, foi decisiva a reação de Brizola, mas os mesmos militares golpistas, complementando o que Lott dissera em 1960, deram um golpe em 1964 e impuseram ao Brasil uma sombria e cruel ditadura sob controle dos EUA. Inclusive comando militar de general norte-americano.

Outra vez, um ano após o golpe, impediram a candidatura do marechal ao governo do antigo estado da Guanabara, temerosos que sua liderança acabasse por despertar a reação popular e de militares íntegros e brasileiros à quartelada. Como Lott fosse eleitor em Teresópolis, criaram a figura do domicílio eleitoral.

José Arruda Serra é uma versão abstêmia de Jânio Quadros. O que às vezes costuma ser pior. Quando secretário de Franco Montoro tinha mania de dar batida nos órgãos públicos do governo do estado de São Paulo para verificar se estava havendo desperdício de clips, elásticos e aparas de papel.

Jânio, quando candidato a prefeito de São Paulo pela primeira vez chegou a colocar um boné de motorneiro e tentar dirigir um bonde. Nesse dia estava numa água só. E dava incertas (mas avisava a imprensa) em repartições públicas.

O curioso é que morto politicamente Jânio foi ressuscitado por FHC, em 1985, derrotando-o numa eleição para a mesma prefeitura de São Paulo. No dia da posse pendurou um par de chuteiras à entrada de seu gabinete para comunicar que estava encerrando sua vida pública.

A insistência com que setores das forças armadas brasileiras tentam a todo custo impedir que os documentos da ditadura venham à tona é simples. Não pode passar pela cabeça de um torturador como o coronel Brilhante Ulstra, que os brasileiros tomem conhecimento de tortura, assassinatos, estupros praticados em prisões da ditadura por “bravos patriotas”. Uma laia de canalhas sintetizada na frase de Samuel Johnson sobre patriotismo.

E tampouco de velhos generais que encobriram esses crimes, tanto quanto promoveram um expurgo nas forças armadas, afastando militares do porte de Rui Moreira Lima, Ladário Pereira Teles, major Cerveira e outros. Foram milhares.

Voltando à vaca fria José Arruda Serra é só uma versão abstêmia de Jânio Quadros. Demagogo, corrupto, sem qualquer escrúpulo ou respeito pelo que quer que seja. É evidente que sendo abstêmio, ou seja o oposto, tenha manias do tipo desinfetar as mãos com álcool ao fim de uma sessão de cumprimento a eleitores, como não se assenta ao meio fio e nem come sanduíche de mortadela. Mas usa o tal desinfetante bucal que protege por doze horas já que em campanha tem que beijar crianças.

Vale-se da sofisticação que as campanhas políticas ganharam nos dias atuais e que permite a demagogos, corruptos e trapaceiros como ele Arruda Serra vender um peixe que não existe.

É a velha alma udenista/golpista assombrando o Brasil (e olha que na UDN, creio que por equívoco, havia figuras como Afonso Arinos, Adauto Lúcio Cardoso, Milton Campos e outros, de caráter e integridade indiscutíveis).

A simples hipótese de um sujeito como Arruda Serra presidente da República (está cada dia mais difícil, mas todo cuidado é pouco) aterroriza.

É só olhar o governo de FHC e multiplicar por um fator que podemos chamar de muitas vezes pior e teremos o resultado.

Pior ainda que um bêbado como Jânio, projeto mambembe de ditador, é um abstêmio doentio e sem escrúpulos como Arruda Serra.

Tucanos são a UDN repetida como farsa e por isso mesmo, revestidos de cinismo, amoralidade, se tornam muito mais nocivos e perigosos que a de outrora, se é que isso é possível.

No fundo seria um passo gigantesco atrás. Um retrocesso sem tamanho.

Lott continua tendo razão absoluta sobre os “jânios” que volta e meia aparecem.

Reside aí a grandeza do velho marechal. O ser brasileiro, ter tido em toda a sua vida compromisso com a democracia sem adjetivos.

Ao contrário de seu antigo adversário Jânio Quadros, que levou o País ao caos e da versão seca, José Arruda Serra, que intenta o mesmo, o caos.

A solução é simples. Ou percebemos isso, ou nos lascamos.

E não adianta a GLOBO, VEJA, ou FOLHA DE SÃO PAULO culpar o Irã, Chávez, fabricar pesquisas o que seja. José Arruda Serra não é um candidato a presidente do Brasil. É uma ameaça ao Brasil e aos brasileiros.

E para não dizer que não falei de flores, nas eleições de 1960 as organizações GLOBO se limitavam ao jornal THE GLOBE, editado em português como O GLOBO, algumas emissoras de rádio e a família Marinho, dona do complexo da mentira, apoiou Jânio Quadros. Roberto Marinho ainda era o “comandante”.

Quem disse que o marechal Lott não tem a ver com as eleições de 2010?

A História não morreu não, está mais que viva.

E a propósito de bêbados, nem todos são Jânio, ou como dizia o poeta Sílvio Machado, “nunca vi uma boa idéia nascer em leiteria”. Por isso mesmo Arruda Serra é uma versão Drácula da barbárie patriótica udenista.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Entenda por que foram condenados os presos que Cuba vai libertar

A igreja católica de Cuba anunciou, dia 7, um acordo com o governo de Raúl Castro e o cardeal Jaime Ortega, arcebispo de Havana, com a assistência do ministro de Relações Exteriores da Espanha, Miguel Ángel Moratinos, para libertar 52 presos remanescentes do desmantelamento da conspiração de 2002/2003 pelo fim do socialismo na ilha. Além dos questões humanitárias, o tema envolve aspectos políticos referentes à resistência antiimperialista na ilha que não podem ser postas de lado.
O acordo beneficia 52 presos; cinco presos terão libertação imediata (Antonio Villarreal Acosta, Lester González Pentón, Luis Milán Fernández, José Luis García Paneque e Pablo Pacheco Ávila), e os demais 47 sairão num prazo entre três e quatro meses e poderão viajar para a Espanha, "se assim o desejarem", como declarou o chanceler espanhol. Em maio, quando as negociações entre o governo de Havana e a Igreja começaram, já havia sido libertado o preso Ariel Sigler. Os presos fazem parte de um grupo detido, julgado e condenado em 2003 por fazerem parte de uma ampla conspiração antissocialista articulada em torno do chamado Projeto Varela, que, com apoio ativo do governo dos EUA, reuniu 48 organizações antirrevolucionárias (cinco delas com sede nos EUA) para investir contra o governo socialista e iniciar o que chamavam de "transição" para o capitalismo. O plano previa a formação de uma grande aliança opositora com o objetivo de restabelecer a Constituição de 1940 e, segundo Angel Polanco (presidente do Comitê Pró-Mudança), obter adesões a um abaixo-assinado pela renúncia do governo socialista, pela mudança no sistema político e pela convocação de um Congresso da República, levando ao poder um governo provisório para promover o desmonte do estado socialista.
Apresentada pela imprensa conservadora como um movimento pacifista de oposição ao regime instaurado em 1959, o Projeto Varela fez parte da tentativa norte-americana de desestabilizar o regime e surgiu num ambiente onde as ameaças contra a soberania e a independência de Cuba se multiplicavam.
Declarações de autoridades norte-americanas deixavam claro que ele fazia parte dos preparativos da invasão da ilha. Em 2002 o governador da Flórida, Jeb Bush (irmão de George Bush), pedira ao irmão presidente para providenciar aquela invasão; o embaixador dos EUA na República Dominicana, Hans Hertell disse que o ataque ao Iraque era um "sinal muito positivo e exemplo muito bom para Cuba", sendo o começo de "cruzada libertadora que abarcará todos os países do mundo, Cuba incluída"; o secretário da Defesa Donald Rumsfeld disse, por sua vez, que, se fossem encontrados sinais de armas de destruição em massa em Cuba, "teríamos de agir".
Em abril de 2003 o governo Bush colocou Cuba no "eixo do mal", países que estavam na mira dos EUA por resistirem a suas ameaças de agressão. Um dos pretextos para isso era a acusação falsa feita por John Bolton, subsecretário de Estado, de que Cuba mantinha um programa de armas biológicas. Em outubro de 2003, o próprio Bush disse que "Cuba deve mudar" e que, evidentemente, "o regime de Castro não mudará por decisão própria". E em dezembro circulavam notícias de que vários órgãos do governo dos EUA trabalhavam em planos para a intervenção em Cuba.
No interior da ilha, sob a coordenação de James Cason, chefe do Escritório de Interesses dos EUA em Cuba, os preparativos para a ação contra o governo socialista foram acelerados. A distribuição de dólares foi farta, envolvendo desde o apoio à implantação de emissoras de rádio até o pagamento de cerca de 100 dólares mensais para aqueles que compareciam àquele departamento que é uma espécie de embaixada não formal dos EUA.
Foi uma enxurrada de pelo menos 45 milhões de dólares para financiar a conspiração. Em 2000 a Agência Internacional para o Desenvolvimento dos EUA (Usaid) deu 670 mil dólares para a publicação de panfletos anticomunistas. Outro 1,6 milhão de dólares foi destinado para ONGs contrarrevolucionárias; mais 2,4 milhões foram para o planejamento da "transição" e avaliação do programa.
O Centro para uma Cuba Livre recebeu 2,3 milhões em 2002 para aliciar grupos de oposição; o Grupo de Trabalho da Dissidência Interna ficou com 250 mil; Freedom House e seu Programa para a Transição de Cuba teve 1,3 milhão; o Grupo de Apoio à Dissidência, 1,2 milhão; a agência Cubanet, 1,1 milhão entre 2001 e 2002; o Centro Americano para o Trabalho Internacional de Solidariedade, 168 mil; a Ação Democrática Cubana, 400 mil em 2002.
Enquanto isso, o secretário de Estado assistente para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Curtis Struble, disse que a Usaid investiria mais 7 milhões na conspiração anticastrista, e o general Colin Powell, secretário da Estado de Bush, anunciou o investimento de 26,9 milhões na Rádio e na Televisão Martí, mantidas pela CIA para transmitir programação contrarrevolucionária e articular a ação dos conspiradores.
Foi a participação ativa nesta conspiração estrangeira contra o governo de seu país que levou à prisão daqueles que, agora, são beneficiados pelo acordo entre o governo de Raúl Castro e o cardeal Jaime Mendonça. Eles foram condenados sob a acusação de crimes contra a independência e a integridade territorial de Cuba. Foram condenados por trair a pátria socialista a serviço da principal potência imperialista de nosso tempo, os EUA.

Poluição e Petróleo

British Petroleum condena a vida marinha e oceanos


Não é novidade para o mundo que os oceanos já sofrem com a poluição e elevações de temperatura por conta do desequilíbrio ambiental.
Mas hoje o que está por vir, é muito maior do que qualquer pessoa possa conceber como aceitável.
A British Petroleum, empresa responsável pelo petróleo derramado no golfo do México não possui nenhuma tecnologia para deter os estimados 80 à 100 mil barris de petróleo por dia no oceano.
Como mentes tão brilhantes pode explorar nossos recursos naturais sem se quer saber como controlar seus próprios artefatos engenhosos? Como não possuem uma tecnologia capaz de impedir ou controlar possíveis acidentes com conseqüências inimagináveis para a vida marinha e humana?

Cientistas afirmam! Se o vazamento de petróleo não for controlado, em 18 meses todo o oceano estará contaminado...

E agora Greenpeace? A preocupação do Greenpeace é com algumas espécies serem extintas, espécies como, Atum azul do atlântico norte, em risco de eminente extinção. Temem também pelos tubarões,tartarugas e até mesmo baleias. Agora a preocupação real é pelos golfinhos que devem ter dificuldades extremas para respirar e se manterem vivos.

O que o Greenpeace ainda não percebeu é que os danos provocados por esse vazamento de petróleo pode acabar não só com algumas espécies, mas sim com toda a vida marinha dos oceanos.

Cientistas norte americanos já afirmam que se o vazamento não for detido, as conseqüências podem se tornar devastadoras provocando uma reação em cadeia sem precedentes.

A Flórida por exemplo, sua situação é muito pior do que a mídia comenta,aliás quase nem se fala mais no pior desastre ambiental do planeta.

O assunto em pauta agora é a copa do mundo,todos pelo futebol,mas nosso oceano está morrendo lentamente e a população da costa americana está correndo sérios riscos de morte. Sem falar das espécies que agonizam lentamente.
A que ponto chegou a humanidade!

Foi estimado por peritos , que a pressão atual que o petróleo jorra nas águas do Golfo é de aproximadamente,20.000 a 70.000 PSI ( Libras por Polegada ).
Nem a BF, e nem os governos das principais potencias do mundo teriam tecnologia para deter tal força com tanta profundidade.

Já se fala em uma evacuação em massa na Flórida, já que o petróleo contém substâncias tóxicas que contaminam tudo ao redor.

O lamentável é que não poderemos fazer nada quanto a isso, pois se o problema continuar em 18 meses todo o oceano pode estar contaminado.

Não se sabe ao certo se os governantes estão adotando as medidas de emergência com um super plano de evacuação de maneira sigilosa, pois pelo que tudo indica, isso pode ser uma questão de alguns meses para que ocorra.

UM RESUMO DAS EXPECTATIVAS

Em algum momento o buraco da perfuração ficará muito grande, aumentando seu tamanho abaixo da cabeça do poço, deixando a área muito fraca onde o poço está. A intensa pressão,então empurrará a cabeça do poço fora, permitindo um fluxo sem restrição de petróleo e etc...

O buraco continuará a aumentar de tamanho permitindo mais e mais petróleo fluir para o Golfo. Depois de muitos bilhões de barris de petróleo já terem sido derramados, a pressão da cavidade enorme a 8 km abaixo do solo do oceano começará a normalizar.

Isso então permitirá que a água, sob forte pressão a 1,6 km de profundidade, seja forçada para dentro da cavidade onde o petróleo estava. A temperatura a essa profundidade está perto de 200 graus centígrados, possivelmente mais.

A água evaporará, criando uma enorme quantidade de força , levantando o solo do Golfo. É difícil saber quanto de água entrará na crosta, também não é possível calcular o quanto o solo levantará.

As ondas do tsunami criado serão alguma coisa em torno 6 a 24 de altura, possivelmente maiores. Então o solo cairá dentro da cavidade vazia. É assim que a natureza fechará o buraco.

Dependendo da altura do tsunami, o cascalho do oceano, petróleo e estruturas existentes serão arrastadas pelas praias entrando terra a dentro, deixando uma área de 80,5 a 322 km desprovida de vida. Mesmo que os escombros sejam retirados, a contaminação do solo e da água impossibilitará a re-população por um período desconhecido de anos. (final da informação liberada pelos cientistas).

De Tom Buyea Flórida News Service (End of scientists information release.) From Tom Buyea FL News Service

Futebol

Futebol é arte e religião
Escrito por Frei Betto
07-Jul-2010

Sou um analfabola. Ou seja, nada entendo de futebol. Todas as vezes que me perguntam para qual time torço, fico tão constrangido como mineiro que não gosta de queijo.

Torci, na infância, pelo Fluminense do Rio e o América de Belo Horizonte. Influência materna. Mais tarde, fui atleticano por um detalhe geográfico: minha avó morava defronte do estádio, na avenida Olegário Maciel, na capital mineira. E só. Sem contar a emoção de ter estado no Maracanã na noite de 14 de novembro de 1963 para assistir, misturado a 132 mil torcedores, aquele que é, por muitos, considerado o jogo dos jogos, a disputa entre Santos e Milan pelo Mundial Interclubes!

Hoje, me dou ao luxo de assistir, pela TV, às decisões de campeonato. Escolho para quem torcer. E não perco Copa do Mundo. Jogo do Brasil é missa obrigatória.

Eu disse missa? Sim, sem exagero. Porque, no Brasil, futebol é religião. E jogo, liturgia. O torcedor tem fé no seu time. Ainda que o time seja o lanterninha, o torcedor acredita piamente que dias melhores virão. Por isso, honra a camisa, vai ao estádio, mistura-se à multidão, grita, xinga, aplaude, chora de tristeza ou alegria, qual devoto que deposita todas as suas esperanças no santo de sua invocação.

O futebol nasceu na Inglaterra e virou arte no Brasil. Na verdade, virou balé. Aqui, tão importante quanto o gol são os dribles. Eles comprovam que nossos craques têm samba no pé e senso matemático na intuição. Observe a precisão de um passe! No gramado, imenso palco ao ar livre, se desenha uma bela e estranha coreografia. Faça a experiência: desligue o som da TV e contemple os movimentos dos jogadores quando trombam. É uma sinfonia de corpos alados. Fosse eu cineasta, editaria as cenas mais expressivas em câmara lenta e as adequaria a uma trilha sonora, de preferência valsa, ritmando o flutuar dos corpos sobre o verde do gramado.

O Brasil conta com 190 milhões de técnicos de futebol. Todos dão palpite. E ninguém se envergonha de fazê-lo, como se cada um de nós tivesse, nessa matéria, autoridade intrínseca. Pode-se discordar da opinião alheia. Ninguém, no entanto, ousa ridicularizá-la.

Pena que a violência esteja contaminando as torcidas. Outrora, elas anabolizavam, com sua vibração, o desempenho dos jogadores. Agora, disputam no grito a prevalência sobre as torcidas adversárias. E se perdem no jogo, insistem em ganhar no braço. A continuar assim, em breve o campo será ocupado não pelo time, e sim, como uma grande arena, pelas torcidas. Voltaremos ao tempo dos gladiadores, agora em versão coletiva.

Quando ouço a estridência de vuvuzelas, como um enxame de abelhas a nos picar os tímpanos, penso que os torcedores já não prestam atenção ao jogo. Querem transferir o espetáculo do gramado para as arquibancadas. O ruído da torcida passa a ser mais importante que o desempenho dos jogadores.

Nossa auto-estima como nação se apóia, sobretudo, na bola. Não ganhamos nenhum prêmio Nobel; nosso único santo, frei Galvão, ainda é pouco conhecido; e nossa maior invenção – o avião – é questionada pelos usamericanos. Porém, somos o único país do mundo pentacampeão de futebol. Se a história dos países europeus do século XX se delimita por duas guerras mundiais, a nossa é demarcada pelas Copas. E nossos heróis mais populares eram ou são exímios jogadores de futebol. A ponto de o mais completo, Pelé, merecer o título de rei.

A Copa é um acontecimento tão importante para o Brasil que, no dia do jogo da nossa seleção, se faz feriado. Se vencemos, a nação entra em euforia. Se perdemos, somos tomados por uma triste estupefação. Como se todos se perguntassem: como é possível o melhor não ter vencido?

Gilberto Freyre bem percebeu que na arte futebolística brasileira mesclam-se Dionísio e Apolo: a emoção e a dança dos dribles são dionisíacos; a força da disputa e a razão das técnicas, apolíneos.

Criança, eu escutava futebol no rádio. Quanta emoção! Completava-se a imaginação com a descrição do narrador. Hoje, não há locutores na transmissão televisiva, apenas comentaristas. São lerdos, narram o óbvio e, palpiteiros, com freqüência esquecem o que se passa no campo e ficam a tecer considerações sobre o jogo com seus assistentes.

"Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma", poetou Carlos Drummond de Andrade. Com toda razão.

Frei Betto é escritor, autor de "Maricota e o mundo das letras" (Mercuryo Jovem), entre outros livros. www.freibetto.org twitter:@freibetto.

(Correio da Cidadania)

Índios

REDE GRUMIN DE MULHERES INDÍGENAS


NOSSA CASA ANCESTRAL

Em que corpo estás?
Estás no ar, no sol, na luz
Estás no infinito
Estás nos séculos
Tão poucos séculos, diante da nossa eternidade
E quando nos veremos?
Sinto-te sempre
Na música, no sol, nas águas
No calor, no frio, nos ventos
Em cada estado, país ou continente
Sinto-te sempre meu amor
Apesar do que fizeram conosco!
Mostra-me o caminho
Mostra-me em sonhos
Em cânticos, a nossa libertação.
Intocável é a nossa Casa
Nossos filhos cresceram, morreram e renasceram.
Tornaram a morrer
Nossos filhos indígenas
Quase estão cegos pelo que aconteceu naquele dia
Muitos não reconhecem mais a sua mãe
Até as costas lhe deram
Pouco restou das cerimônias
Somente a dança com fé.
E não reconhecem mais a filha do pajé
Lembra-te das cerimônias sagradas
Quando banhávamos nus?
E que nossos corpos penetravam as profundezas do Planeta Terra?
Mergulhávamos e trazíamos
Dezenas de crianças
Filhas Dela!
Mas meu amor
Dá--me tuas fortes mãos
Leva-me em tuas grandes asas sagradas
E dá-me força e poder
Porque o implacável Criador
Manda-me voltar séculos e séculos
E a ele levar a sagrada Raiz da Lagoa Akujutibiró
A sagrada Raiz?
Está coberta de lama endurecida
Pelo peso da opressão dos séculos
E minhas mãos indígenas de mulher
Ainda estão frágeis e sangram
E se ferem nos espinhos dos pântanos!
Tento me esconder na barriga da Mãe-Terra
E esquecer nossos filhos
Mas vejo Tupã chorar
Vejo nossos filhos sofrerem
Então... O espírito do mar
Uma grande névoa azulada
Envolve-me, seduz-me, encanta-me
E levanta-me na chama guerreira
E faz-me falar, cantar e gritar...
Até que um dia
Os nossos filhos mortos, nascidos, e renascidos
Possam relembrar do olhar, docemente,
Da luz envolvente
E da tinta de jenipapo
Cravada pelo Grande Espírito em nossa cara.

Texto de Eliane Potiguara
www.elianepotiguara .org.br
Lakota


Há muito, muito tempo atrás, dois jovens Lakotas muito bonitos foram escolhidos pela sua tribo para descobrir onde estava o búfalo.
Enquanto os homens estavam andando no país dos búfalos, viram alguém na caminhada em direção a eles.

Como sempre eles estavam a vigiar qualquer inimigo. Assim, eles se esconderam em alguns arbustos e esperaram. A figura subiu a encosta. Para sua surpresa, a figura andando na direção deles era uma mulher.

Quando ela chegou perto, parou e olhou para eles. Eles sabiam que ela podia vê-los, mesmo em seu esconderijo. Em seu braço esquerdo trazia o que parecia um pedaço de pau e um pacote de artemísia. Seu rosto era bonito. Um dos homens disse: "Ela é mais bonita do que qualquer um que eu já vi. Eu quero ela para minha esposa."
Mas o outro respondeu: "Como se atreve a ter tal pensamento? Ela é maravilhosamente bela e santa - muito acima das pessoas comuns." Embora ainda estivesse a uma distância, a mulher o ouviu falar. Ela largou a trouxa e falou com eles. "Venham. O que é que querem?"

O homem que tinha falado primeiro foi até ela e colocou suas mãos sobre ela, como uma reivindicação. De uma só vez, de algum lugar acima, veio um redemoinho. Depois veio uma neblina, que escondia o homem e a mulher. Quando a névoa se dissipou, o outro homem viu que a mulher estava com o pacote novamente em seus braços. Mas seu amigo era uma pilha de ossos a seus pés.

O homem ficou em silêncio de admiração e reverência. Então a bela mulher lhe falou. "Eu estou em uma viagem para o seu povo. Entre eles está um bom homem, cujo nome é 'búfalo-andar- ereto'. Eu estou vindo para vê-lo especialmente. "

"Vá em frente e diga ao seu povo que eu estou no meu caminho. Peça-lhes para mover o assentamento e armarem suas tendas em um círculo. Peça-lhes para deixar uma abertura no círculo, de frente para o norte. No centro do círculo, façam uma grande tenda, também de frente para o norte. Ali encontrarei 'búfalo-andar- ereto' e seu povo. "

O homem fez com que todos suas orientações fossem seguidas. [...]
Leia mais em:
http://artesxamanic as.blogspot. com/2006/ 11/origem- do-cachimbo- da-paz.html
Leia mais sobre Xamanismo em nossa literatura:
http://artesxamanic as.blogspot. com/2008/ 05/conhecimento. html
Objeto lendário usado em mitologias européias. Geralmente, na língua moderna, a varinha é vista como um objeto cerimonial e/ou tendo associações com magia.


Outros modelos
http://artesxamanic as.blogspot. com/2006/ 11/varinha- magica-magic- wand.html

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Artes Xamânicas
http://artesxamanic as.blogspot. com
nativepipee@ gmail.com
tels.:11-20241229
11-93683570

Existem muitas vozes além das nossas.
Só vamos escutá-las em silêncio.

Mitakuye Oyasin!
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(Literatura Indígena)

Vaticano

Vaticália: a nobreza sombria do Vaticano


Pessoas do entorno do Papa estão envolvidas nos escândalos de corrupção da Proteção Civil e da Propaganda Fide. Nasceu um sistema de poder misto que mescla o leigo e o religioso, a Igreja e o Estado, a Itália e o Vaticano, a Cúria com a elite civil.

A reportagem é de Miguel Mora, publicada no jornal El País, 27-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os Gentis-Homens de Sua Santidade fazem parte da família pontifícia como o comandante da Guarda Suíça ou os clérigos que trabalham com o papa. Antes, se chamavam Camareiros de Capa e Espada, e havia os secretos e os de honra. Em março de 1968, dois meses antes que fosse proibido proibir em Paris, Paulo VI, em Roma, aboliu a Corte Vaticana e criou os Gentis-Homens. Montini escreveu com um toque de pena: "Tanto na Igreja inteira, especialmente depois do Concílio Ecumênico Vaticano II, como na opinião pública mundial, abriu caminho uma mais atenta, digamos mais zelosa, sensibilidade sobre a preeminência dos valores puramente espirituais, uma exigência de verdade, ordem e realismo com relação ao eficaz, funcional e lógico, diante do que é só simbólico, decorativo e exterior".

Morto o patriciado, parecia que a modernidade havia chegado enfim ao Vaticano. E o Papa tentava explicar isso "motu proprio": "Nossa antiga e benemérita Corte – que agora será designada unicamente com seu original e nobre apelativo de Casa Pontifícia – continuará resplandecendo em seu prestígio autêntico, compreendendo eclesiásticos e leigos que, além de sua particular competência e autoridade, se distingam por seus destacados serviços no campo do apostolado, da cultura, da ciência, das diversas profissões, pelo bem das almas e a glória do nome do Senhor".

Os Gentis-Homens de Sua Santidade não recebem do Vaticano, embora às vezes trabalham dando pompa aos ritos. Vestem-se de preto rigoroso e têm o peitoril do fraque forrado de medalhas. Altivos, fugidios e misteriosos, fazem parte do clube mais exclusivo do mundo e têm o cargo mais alto a que um leigo pode aspirar no Vaticano.

Hoje, o trabalho secreto dessa nova nobreza sombria é muito estimado em São Pedro. Sua "competência e autoridade" e seus "destacados serviços" representam ações beneméritas para a Santa Sé. Em alguns casos, se diria que o requisito básico para entrar no clube é ajudar a engordar as arcas do Estado pontifício, o paraíso fiscal mais rico, melhor decorado e mais visitado do mundo.

Sistema "gelatinoso"

Alguns gentis-homens são verdadeiros prodígios das finanças. Tomemos por exemplo Herbert Batliner (foto). Nascido em 1928 em Liechtenstein, é considerado pela polícia alemã um dos maiores peritos em criar sociedades fiscalmente obscuras, um grande especialista em lavar dinheiro sujo. Batliner é um dos banqueiros que se movem na sombra das finanças vaticanas. O presidente da Fundação Peter Kaiser trabalha há décadas em silêncio pelo bem da Europa cristã. Pelo menos desde 1970. Foi nomeado gentil-homem por João Paulo II em 1998, e ainda o continua sendo.

No ano 2000, segundo revelou uma recente reportagem do jornal La Repubblica, um empregado do escritório de Batliner entregou à promotoria de Bochum, Alemanha, um CD cheio de dados secretos. Nesse momento, ele foi qualificado como o rei dos evasores fiscais em um relatório do serviço secreto alemão, que definiu o "sistema Batliner" como um mecanismo que durante anos havia subtraído ao fisco pelo menos 250 milhões de euros.

Apesar disso, no dia 9 de setembro de 2006, Batliner se encontrou com o Papa Joseph Ratzinger em Regensburg. Batliner foi até lá para doar pessoalmente à Igreja local um órgão avaliado em 730 mil euros. Sobre ele, pesava uma ordem de busca e captura da polícia alemã. Mas conseguiu entrar no país graças aos bons ofícios da diplomacia vaticana. E não foi detido. Apenas um ano depois, no verão de 2007, Batliner admitiu suas culpas e fez um pacto com o Estado alemão, aceitando pagar uma multa de 2 milhões de euros. Cinco anos antes, a Suprema Corte de Liechtenstein confirmou em uma sentença que Batliner já era, em 1990, o fiduciário do equatoriano Hugo Reyes Torres, indicado como chefe mafioso do narcotráfico, que nesse ínterim foi condenado.

Enquanto Ratzinger prega em suas homilias e encíclicas a ética da economia e clama contra os especuladores e "os sacerdotes que tentam fazer carreira para enriquecer", alguns membros desse clube de cavalheiros parecem fazer o contrário.

Nem todos, é claro. No clube laico papal, figuram 147 notáveis. Embora o título seja vitalício, o Papa pode revogá-lo quando considerar oportuno. Batliner ainda não foi expulso. Mas Angelo Balducci (foto), sim.

Balducci é um engenheiro que durante 25 anos se encarregou de executar as obras públicas na região do Lácio, onde se encontram Roma e o Vaticano. Dali passou para o governo central como responsável pelo Conselho Superior de Obras Públicas. Após uma vida dedicada a melhorar as infraestruturas italianas e vaticanas, Balducci, de 62 anos, vive agora na prisão romana de Regina Coeli.

Desde fevereiro Balducci é o principal acusado no escândalo de corrupção da todo-poderosa Proteção Civil italiana, que por enquanto tem mais de 50 pessoas acusadas ou sob investigação. Desde 2001 até agora, o superministério que depende da Presidência do Governo gastou fundos públicos no valor de 13 bilhões de euros, segundo o último relatório da Autoridade para a Vigilância dos Contratos Públicos.

O dinheiro era gerido pelo chefe da Proteção Civil, o secretário de Estado Guido Bertolaso, também acusado de corrupção, e pelo executor das obras, Balducci, graças a uma argúcia autorizada pelo primeiro-ministro Silvio Berlusconi, para superar a maldita burocracia e enfrentar as emergências com mais rapidez: a licitação de contratos públicos era feita sem concurso, a dedo, abolindo-se os procedimentos comuns.

Esse tratamento especial criou um monstro de mil cabeças. A Proteção Civil de Berlusconi não se encarrega só das calamidades. Também organiza competições esportivas como o Mundial de Natação, cúpulas internacionais como a do G-8, restaurações de museus e teatros e todo tipo de atividades religiosas.

A investigação dos fiscais de Perugia desde o início vinculou a Igreja Católica com a trama corrupta. Descobriu, por exemplo, que o padre Evaldo Biasini, de 83 anos, gerente da Congregação dos Missionários do Preciosíssimo Sangue de Jesus, guardava grandes quantias de dinheiro vivo para o construtor Diego Anemone, a quem os promotores acusam de ter recebido numerosos contratos da Proteção Civil em troca de comissões, presentes e favores de toda sorte, desde massagens em seu clube esportivo até reformas de apartamentos. Desde aquele dia, o idoso Pe. Evaldo passou a ser conhecido como "Pe. Bancomat" (padre caixa automático).

O "sistema gelatinoso", como definiram os promotores em seu texto de acusação, "inclui nomes de grande espessura institucional" e se expande por diversas vias piedosas. A lista de eventos católicos organizados pela Proteção Civil e pagos nesses anos pelo contribuinte italiano é longa, desde o Giro pela Itália do Papa no Ano Paulino, até as exéquias de João Paulo II ou as canonizações do Padre Pio e de São Josemaría Escrivá.

Balducci foi nomeado gentil-homem pelo Papa Wojtyla em 1995. Quinze anos depois, caiu em desgraça, e o Vaticano foi obrigado a cancelar seu nome do Anuário Pontifício. Mas seu pecado, ironicamente, não foi roubar. Balducci só foi riscado da lista quando se tornou público que ele recorria frequentemente a um tenor africano do coral suplente de São Pedro para que este organizasse encontros com jovens seminaristas e sem documentos. As escutas telefônicas interceptadas ao corista e ao gentil-homem eram deste estilo: "Tenho um bailarino da RAI", "Tenho um negro...".

Abuso de poder e excesso de patrimônio

Como Balducci, os cavaleiros papais se destacam por seus contatos, seu poder e seu patrimônio. Na lista, são abundantes os banqueiros, empresários, príncipes, políticos e diplomatas. A Itália encabeça de longe a lista, com 114 gentiluomini. São seguidos pelos EUA, com sete, e Áustria e Espanha com cinco cada um.

Poucos meses depois de chegar ao trono, em 2005, Bento XVI nomeou seus primeiros sete gentis-homens. Embora a doutrina e a teologia sejam os assuntos favoritos do Papa alemão, também lhe preocupa a eficácia organizacional. Nessa primeira lista, apareceu o personagem central das perigosas amizades Igreja-Estado. Trata-se do jornalista e político Gianni Letta (foto), 75, secretário de Estado da Presidência do Governo e número 2 de fato do Executivo de Berlusconi em 1994, 2001 e 2008, mentor e protetor de Guido Bertolaso, herdeiro do estilo e da arte para a tubulação política de Giulio Andreotti.

Curiosamente, o poderoso Letta se converteu em gentil-homem muitos anos depois que o anônimo técnico Balducci. Ex-forense, ex-diretor do jornal Il Tempo e ex-jornalista da Mediaset, vice-presidente da Fininvest Comunicações, supervisor dos serviços secretos e conselheiro externo do Goldman Sachs para investimentos na Itália, Letta é talvez o único berlusconiano que adora negociar. Ele se dá bem com todos, e comenta-se que é o único político italiano capaz de contentar a maçonaria e o Opus Dei. É o grande mediador, o homem que atende o telefone quando há problemas.

E sua referência na Cúria é Ratzinger. "Sob sua aparência de homem religioso, a fatura que Letta passa ao Vaticano é a mais discreta, mas também a mais cara", afirma o sacerdote e vaticanista Filippo di Giacomo. "O doutor Letta tem tanto poder que se permite nomear bispos à sua conveniência, como fez há alguns meses em L'Aquila ao promover seu amigo Giovanni d'Ercole."

No plano familiar, Letta não está sozinho. Seu sobrinho Enrico é um alto dirigente católico do Partido Democrata. Sua filha Marina é casada com o restaurador Ottaviani: é dele o monopólio dos serviços de bufê da Proteção Civil. Até agora, o nome de Letta só apareceu de forma colateral nas 410 mil ligações telefônicas que os promotores têm depositadas em Perugia. Embora em novembro de 2008 tenha sido imputado por abuso de poder e estelionato em um assunto que parece diferente, mas não é tanto assim: supostamente, fez a mediação em favor de uma cooperativa do movimento Comunhão e Libertação para a contratação de um centro de assistência para imigrantes.

Quando foi revelado o caso da Proteção Civil, o Papa dedicou a Letta um "pensamento especial" durante um discurso público. Coisa incomum, que significa: é um amigo. Como se explica essa condescendência em um Papa tão estrito?
Sujeiras, corrupção e limpeza
Segundo o filósofo Paolo Flores d'Arcais, o problema de Ratzinger é que está preso em um dilema existencial e histórico. "Estou convencido de que sua vontade de limpar a Igreja dos dois pecados capitais, sexo e dinheiro, é séria", diz o diretor da revista Micromega. "Sua linha é a do Concílio de Trento: dogmatismo até à morte e ataque aos comportamentos imorais. Ele quer acabar com os padres pedófilos e os prelados corruptos. Mas fazer isso supõe o impossível: sentar Wojtyla no banco dos réus. E isso não é tão fácil quanto pedir perdão pela condenação de Galileu. Representaria reconhecer que seu antecessor encobriu Marcinkus (presidente do Banco do Vaticano IOR entre 1971 e 1989) e Marcial Maciel (dirigente dos Legionários de Cristo). Limpar de verdade o obrigaria a revelar sujeiras a granel e a demitir meia cúria. Mas se não fizer isso, a Igreja continuará perdendo credibilidade. Esse é o seu dilema."

Letta é o eixo da aliança de Berlusconi com o cardeal Camillo Ruini, ex-chefe da Conferência Episcopal Italiana e criador do projeto cultural que ajudou a arrebatar da esquerda a hegemonia intelectual e informativa na Itália. Quando a Democracia Cristã desapareceu em 1993 sob o terremoto de Tangentópolis (o escândalo das comissões dos partidos), seus componentes se distribuíram entre a Forza Italia e a católica Margarita da centro-esquerda. Depois, o católico Romano Prodi nomeou Guido Bertolaso como chefe da Proteção Civil em 1996. E o católico Francesco Rutelli, ex-prefeito de Roma, pôs para trabalhar juntos Balducci e Bertolaso no Ano Santo do Jubileu.

Ali nasceu o sistema gelatinoso. O cardeal Crescenzio Sepe (foto), que acaba de ser denunciado por corrupção, era o secretário-geral do comitê organizador do jubileu. O Ano Santo foi uma maionese de negócios, obras, subvenções, presentes, silêncios e favores que ligou altos funcionários públicos à cúria da Opus Dei e dos Legionários de Cristo.

Protegido de Wojtyla, Sepe, agora arcebispo de Nápoles, foi entre 2001 e 2006 o responsável pela Propaganda Fide, hoje chamada de Congregação para a Evangelização dos Povos. É o ministério vaticano que se encarrega de financiar as missões e de administrar o patrimônio imobiliário do Vaticano. E seu principal assessor era Angelo Balducci.

A acusação afirma que o cardeal Sepe concedeu de graça um dos 2 mil apartamentos que a Propaganda Fide possui em Roma ao chefe da Proteção Civil, Guido Bertolaso. E que, além disso, vendeu em 2004 um luxuoso palacete romano a preço de banana (entre 3 e 4 milhões de euros, quando valia 9 ou 10 milhões) ao então ministro de Infraestruturas, Pietro Lunardi, também acusado formalmente por essa operação. A hipótese dos promotores é que, em troca, Lunardi financiou, com dinheiro estatal da sociedade Arcus, obras milionárias da Propaganda Fide que nunca foram realizadas.

O cardeal se defendeu acusando seus superiores: "A administração vaticana aprovou todas as operações", disse. E insiste em se considerar um mártir: "Trabalhei sempre com transparência e pelo bem da Igreja, uma Igreja sempre perseguida". Segundo Sepe, foi Francesco Silvano, outro de seus assessores na Propaganda Fide, membro da Comunhão e Libertação e atual ecônomo do arcebispado de Nápoles, que lhe recomendou emprestar e vender as propriedades.

A investigação revelou que os apartamentos são o principal objeto de intercâmbio de favores entre a Itália e o Vaticano. Chefes dos serviços secretos, da Polícia Fiscal, dos Carabineiros, magistrados, políticos, empresários e o próprio Bruno Vespa, o jornalista preferido de Berlusconi e de Wojtyla, vivem ou viveram em apartamentos da Propaganda Fide.

O cardeal Sepe foi afastado da Propaganda Fide por Bento XVI, no que hoje parece ser uma tentativa de afastar a Cúria italiana e a Comunhão e Libertação da gestão imobiliária. Depois de cinco anos de papado, é um segredo em voz alta de que Ratzinger não confia em sua Cúria, com exceção de um pequeno punhado de fiéis. Embora tenha substituído o núcleo duro de Wojtyla, o governo vaticano continua nas mãos de grupos como a Opus Dei – seus porta-vozes se empenham em negá-lo –, a citada Comunhão e Libertação e os Legionários de Cristo, embora hoje esteja prestes a desaparecer como movimento carismático para pagar pelos crimes de seu fundador.

Os movimentos eclesiais ganharam peso no Vaticano desde o último Concílio. Aparentemente solidários, lutam pelo controle dos melhores cargos e negócios, e na disputa esquecem aquilo que for preciso do Evangelho e se dedicam a um ajuste de contas permanente, enquanto os fiéis assistem atônitos ao espetáculo.

Presença dos leigos

Os leigos eclesiásticos controlam amplos setores da política, da informação, da administração, da caridade, da educação, da saúde e da magistratura. Em Roma, exercem uma influência cada vez maior, em estreita e democrática conivência com a centro-direita ateia-devota, mas também com a lânguida oposição do Partido Democrático e da Cúria dos bons e felizes tempos do Papa viajante.

A fragilidade das ordens religiosas, castigadas pela escassez de vocações, favoreceu a sufocante presença dos leigos. "Em 1998, Ratzinger estimulou a integração leiga durante um congresso organizado por Wojtyla", lembra Paolo Ciani, membro da Comunidade de Santo Egídio, um movimento eclesial que conta com 50 mil voluntários espalhados pelo mundo e só 25 empregados. "Ratzinger releu a experiência das ordens religiosas e monásticas junto com a dos movimentos eclesiais e reconheceu a estes, com seu dinamismo e competência, um papel na Igreja. A mensagem era de que, para sobreviver, era preciso confiar no rebanho fiel".

Hoje a Cúria Romana é uma maquinaria ingovernável e reumática que custa anualmente ao Vaticano 102,5 milhões de euros. A estrutura depende da Secretaria de Estado, uma espécie de conselho administrativo com um presidente (o secretário de Estado) e um diretor-geral (o substituto), as duas únicas pessoas que têm acesso direto ao gabinete do papa. No Vaticano, trabalham 2.748 pessoas. Delas, 778 são eclesiásticos, diante de 333 religiosos e 1.637 leigos (destes, 425 são mulheres).

Os laicos tomaram o poder cooptando bispos e cardeais menos cristãos do que se supõe. "A nulidade da Cúria se deve à sua falta de formação e a seu excesso de italianidade", explica o sacerdote e canonista Filippo di Giacomo. "Das dioceses, o pessoal chega a conta-gotas, porque custa aos bispos enviar seus melhores homens. As ordens, antes reservatório privilegiado de inteligência e talentos, também já lamentam o recrutamento dos seus melhores homens, subtraídos da renovação da vida consagrada para suprir as carências de pessoal em dioceses em que o clero não é suficiente: tornam-se bispos e deixam postos vacantes delicados em seus institutos".

Vaticália

Assim, nasceu um sistema de poder misto que confunde o leigo e o religioso, a Igreja e o Estado, a Itália e o Vaticano, a Cúria com a elite civil. O sistema se baseia em um enorme poder econômico, sensação de impunidade, gosto pela "lei do silêncio" e o encobrimento e a capacidade de infiltração.

A ambição desse sistema é conseguir a fusão fria entre a Itália e Vaticano. Em seus esquemas mentais, essa nova Cúria negociante e carnal não visualiza dois Estados, mas sim um único país que poderia se chamar, abreviando, Vaticália. "Impossível confiar em canalhas que usam Deus para satisfazer sua atrofiada vaidade!", diz o padre genovês Paolo Farinella.

A grande caixa-forte leiga do momento se chama Comunhão e Libertação (CL). Nascida em 1954 e assim denominada desde 1969, está presente em 70 países. Na Itália, controla empresas, meios de informação, dioceses, colégios, universidades, hospitais privados e públicos e inclusive uma holding de cooperativas sociais, a Auxilium, que administra vários centros de identificação e expulsão de imigrantes para o Ministério do Interior.

"Há 20 anos, a CL é o braço clerical da ultra-direita milanesa", explica Di Giacomo. "Sua estratégia é cultural e política. Seus padres povoam os seminários lombardos; seus prelados se mobilizam onde for preciso". Afirma também que seus chefes ideológicos ditam a lei em diversos jornais, e que sua presença é constante em televisões e rádios: "Mandam a torto e a direito".

Roberto Formigoni é há 15 anos presidente da Lombardia, a região italiana com a renda mais alta da Europa, junto com a de Paris-Ile de France. Pertence de pleno direito, e não o oculta, à Comunhão e Libertação. Isso poderia lhe permitir inclusive aspirar a suceder Berlusconi. Nos últimos meses, o governador distribuiu entre os homens da CL, mais conhecida como "I cielini" (os ceuzinhos), os postos fundamentais da organização da Expo Milão 2015. Um paraíso de contratos públicos, privados e mistos, no qual a magistratura já detectou a penetração das máfias.

Quase diariamente vêm à luz novas amizades perigosas. Há poucas semanas, os juízes enviaram uma comissão rogatória ao Vaticano, porque suspeitam que o tesouro oculto do bando gelatinoso pode estar depositado no IOR – o Instituto para Obras Religiosas. E na semana passada exigiram por via oficial os documentos da Propaganda Fide, a imobiliária da Santa Sé.

Embora o trabalho dos promotores seja exaustivo, na Vaticália sabe-se que não será fácil para que eles apurem a verdade. O Vaticano continua sendo um paraíso fiscal, a "concordata" lhe concede amplas cotas de imunidade, e as contas secretas que prosperam à sombra do IOR, da APSA (a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica), a antiga Propaganda Fide e um longo número de empresas participantes são o segredo mais bem protegido.

Apesar dos apelos à limpeza de Ratzinger, as coisas não parecem ter mudado muito. Aqui os mistérios se resolvem com tempo. Com muito tempo. Balducci é por enquanto o grande bode-expiatório. Durante 15 anos, ninguém viu nada nem suspeitou de nada: era um gentil-homem, e os sinos tocavam a "lei do silêncio".

Hoje se fala dele, mas logo tudo voltará ao seu normal, e a gelatina continuará se estendendo. Hoje, em junho de 2010, os italianos ainda não têm uma lei para casais de fato; os imigrantes sem documentos são considerados criminosos, e não se respeita o direito de asilo; os homossexuais são agredidos diariamente nas ruas, e as mulheres que querem se submeter à inseminação artificial têm que emigrar.
Para ler mais:
• O sinal do comando na Igreja
• Os ministérios e os mistérios da Cúria Romana
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• (Inst. Humanitas Unisinos)