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sábado, 19 de junho de 2010

Juros

A taxa do mundo é nossa, com brasileiro, não há quem possa...

Por Paulo Kliass

Pois é, mesmo que a seleção dirigida por Dunga não consiga trazer a estrelinha do hexa lá da África do Sul, o fato é que o Brasil continua a ostentar a posição de campeão mundial....da taxa de juros!

A reunião do Conselho de Política Monetária (COPOM), no dia 09 de junho passado, elevou ainda mais a taxa SELIC do Banco Central, de 9,5% para 10,25% ao ano. Com tal decisão, o governo se obriga pagar a mais um valor próximo a R$ 12 bilhões em um ano, correspondente a esse acréscimo de 0,75% na taxa básica de juros da nossa economia. A título de comparação, o total da receita aplicada pelo Programa Bolsa Família, ao longo de 2009, foi de um valor aproximado a esse.

A dívida pública federal superou a marca dos R$1,6 trilhão, valor até muito difícil de imaginar. Com a nova remuneração oferecida ao sistema financeiro para a rolagem dessa dívida, as despesas da União, com juros ao longo dos próximos 12 meses, serão da ordem de R$ 160 bilhões.

Há muitos anos que o Brasil vem mantendo tal “pole position”. Em alguns meses isolados, ao longo de mais de uma década, ocorreu de ter sido subitamente ultrapassado por outros países, como a Turquia. Mas nada que comprometesse sua liderança definitiva.

Existem vários fatores que podem ser utilizados para explicar mais essa jabuticaba tupiniquim. A questão é bastante complexa para ser esgotada em um espaço reduzido como esse. Mas vamos buscar entender alguns aspectos.
O processo crescente de financeirização da economia faz com que as atividades agrícolas, industriais e de serviços se subordinem à lógica e à dinâmica do setor financeiro. A busca da rentabilidade e do retorno dos investimentos passa a ter a referência da remuneração “mínima” (na verdade, muito alta) oferecida pelo governo para rolagem de seus títulos. Não é à toa que os departamentos financeiros nas empresas ganham importância desproporcional. Muitas delas passam a ter melhores resultados no jogo das finanças do que no seu próprio ramo de atividades. Assim como na época da inflação crônica e elevada, a sociedade brasileira passa a conviver com taxas de juros também muito altas.

A adoção de um modelo de política econômica baseada no rígido regime de metas de inflação, combinado com a política de liberdade cambial, só reforça a tendência à taxa de juros elevada. As autoridades monetárias fazem uma previsão da meta de inflação futura (com base em uma nada transparente pesquisa realizada com os próprios operadores do mercado financeiro) e definem o patamar básico da taxa de juros. O objetivo seria evitar que o nível da atividade econômica pudesse provocar um excesso de demanda superior à oferta, com os tais riscos de retorno da tão temida inflação.

Além disso, o regime de câmbio flutuante e a liberdade total de entrada e saída de capital externo acabam por agravar o quadro da tendência à alta na taxa de juros. Como o financiamento da dívida pública depende bastante dos recursos externos, as nossas autoridades econômicas terminam por elevar o nível de juros para manter atrativa a alternativa para os grandes operadores do mercado financeiro internacional de aplicar seus recursos em títulos no mercado brasileiro. Para completar a tragédia, o ingresso de tais recursos externos especulativos e de curtíssimo prazo provoca uma valorização artificial da nossa taxa de câmbio, prejudicando as exportações brasileiras e causando uma perigosa deterioração nas contas externas, que já apresenta resultados deficitários preocupantes.

As taxas de juros nas principais economias do mundo estão em níveis próximos de zero ou mesmo negativas. É o caso dos EUA, dos países europeus e do Japão, cujas autoridades monetárias baixaram ainda mais as taxas de seus Bancos Centrais para estimular a saída da recessão. E mesmo os países que não foram tão afetados pela crise, como China e Índia, apresentam taxas bem abaixo da brasileira.

Uma das alternativas para escapar dessa verdadeira armadilha montada para manter as taxas juros em níveis tão altos seria o estabelecimento de maior controle na chamada conta de capital. Com isso, o governo estabeleceria critérios e condições para entrada de recursos externos. A primeira medida seria dar tratamento diferenciado para o investimento direto e produtivo, face ao recurso puramente especulativo da esfera financeira. Uma outra medida seria estabelecer regras distintas, de acordo com o tempo definido para a permanência do recurso em nosso País. Assim, o dinheiro especulativo de curto prazo seria submetido a impostos, para reduzir o grau de dependência da ciranda financeira que só prejudica nossa economia. Já os investimentos que pretendem ingressar para a atividade real, comprometendo-se com projetos de médio e longo prazos, não seriam onerados por tal tributação.

Paulo Kliass é doutor em economia pela Universidade de Paris 10 e integrante da carreira Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, do governo federal.
(Boletim de C. Amigos)

Ficha Limpa

Eis os parlamentares processados no STF


Veja aqui a lista completa de todos os 21 senadores e 147 deputados que respondem a ações no Supremo. Desses 168 parlamentares, o campeão de procedimentos na Justiça é o ex-governador de Roraima Neudo Campos.
A reportagem é de Diogenes Santos e publicada por Congresso em Foco, 19-06-2010.
Eles são de 15 partidos diferentes, das 27 unidades da Federação. Nove ocupam cargos de liderança no Congresso. Um deles preside a Câmara, outro é vice-presidente do Senado. Em comum, têm o mandato que exercem no Parlamento e os processos a que respondem no Supremo Tribunal Federal (STF). É a bancada mais numerosa do Legislativo federal, a dos parlamentares processados, composta por 21 senadores e 147 deputados, cujos nomes o Congresso em Foco revela, em sua totalidade. Juntos, eles são alvos de 396 investigações no Supremo.
Entre esses 168 parlamentares, cinco respondem a pelo menos uma dezena de processos. O campeão nesta lista é o ex-governador de Roraima Neudo Campos (PP-RR), candidato ao governo do estado em outubro, com 21 denúncias. Depois dele, vêm os deputados Jader Barbalho (PMDB-PA), candidato a uma vaga no Senado, Abelardo Camarinha (PSB-SP), Fernando Chiarelli (PDT-SP) e Lira Maia (DEM-PA), com dez investigações em curso. No Senado, os senadores Jayme Campos (DEM-MT), com cinco, Valdir Raupp (PMDB-RO) e João Ribeiro (PR-TO), com quatro cada, são os que acumulam maior número de pendências na Corte Suprema.
O senador João Ribeiro é líder do PR. Assim como ele, outros quatro líderes no Senado também devem explicações ao Supremo: os senadores Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo; Renan Calheiros (AL), líder do PMDB e da maioria; Mão Santa (PI), líder do PSC, e Gim Argello (DF), líder do PTB. Na Câmara, também são alvo de investigação os líderes do PR, Sandro Mabel (GO); do PDT, Dagoberto (MS); do PRB, Cléber Verde (MA), e do PMN, Fábio Faria (RN). O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e o primeiro-vice-presidente do Senado, Marconi Perillo (PSDB-GO), também são alvos do Supremo.
O vice de Dilma
Oficializado no sábado (12), na convenção do PMDB, candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Dilma Rousseff (PT), Temer está indiciado no Inquérito 2747, suspeito de ter cometido crime contra o meio ambiente. Na última movimentação do inquérito registrada na página do Supremo, o ministro Joaquim Barbosa, relator do caso, cobrou explicações da Procuradoria-Geral da República sobre a "demora excessiva" da investigação.
Como mostrou a Folha de S. Paulo, o presidente da Câmara é suspeito de ter recorrido a grileiros para se apropriar de terras na reserva ecológica da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. O deputado sempre negou as acusações. No ofício, o ministro pediu ao procurador-geral, Roberto Gurgel, que explicasse por que não haviam sido cumpridas as diligências por ele determinadas um ano antes. Não há registro de resposta da PGR desde o envio do documento, em 27 de outubro.
O vice do Senado
Candidato ao governo de Goiás, Marconi acumula três inquéritos, um por concussão (ato de exigir para si ou para outrem dinheiro ou vantagem em razão da função), corrupção passiva, prevaricação, tráfico de influência, corrupção ativa e crimes de abuso de autoridade; outro por corrupção passiva, e um terceiro cuja natureza não é informada pelo Supremo.
A relação dos parlamentares processados inclui outros personagens ilustres da política brasileira, como o ex-presidente da República Fernando Collor (PTB-AL) e o ex-governador paulista Paulo Maluf (PP-SP).
Candidato ao governo de Alagoas, Collor é réu em duas ações penais: uma por corrupção passiva, peculato, tráfico de influência, corrupção ativa e falsidade ideológica; e outra por crime contra a ordem tributária. Incluído este ano na relação de procurados pela Interpol, Maluf responde a cinco acusações no Supremo: por crimes contra a ordem tributária, contra o sistema financeiro, de responsabilidade, formação de quadrilha ou bando, e lavagem ou ocultação de bens, direitos ou valores.
Ações penais
O ex-presidente da República e o ex-governador de São Paulo estão entre os 63 parlamentares que figuram na condição de réu em 108 ações penais, procedimentos que podem resultar em condenação. Nesses casos, os ministros do Supremo aceitaram as denúncias da Procuradoria-Geral da República por entenderam que há indícios da participação dos 54 deputados e nove senadores nos crimes que lhes são atribuídos.
Nos demais 288 casos, a fase é de inquérito, investigação preliminar em que se apura se houve crime e se há elementos que apontam para o envolvimento do indiciado e a abertura de uma ação penal. É nessa fase que pode haver condenação. Até maio, o Supremo não havia condenado nenhum parlamentar em sua história recente. No intervalo de duas semanas, no entanto, condenou dois: os deputados Zé Gerardo (PMDB-CE) e Cássio Taniguchi (DEM-PR), por crime de responsabilidade. Mas o caso de Taniguchi terminou sem punição porque prescreveu, ou seja, o julgamento ocorreu depois que passou do prazo legal para a aplicação da pena.
Entre as denúncias mais freqüentes contra deputados e senadores, estão as de crime de responsabilidade (praticados no exercício de outra função pública), peculato (apropriação, por funcionário público, de bem ou valor de que tem a posse em razão do cargo, em proveito próprio ou alheio), formação de quadrilha, crimes eleitorais, ambientais, contra a ordem tributária e a Lei de Licitações. Também há acusações de menor gravidade, como os chamados crimes contra a honra, como calúnia, infâmia e difamação.
Dono da maior bancada, com 73 congressistas, São Paulo reúne o maior número de parlamentares processados: 20 ao todo. Minas Gerais, com 16 nomes, Paraná, com 11, Goiás, com 10, Pará e Rio de Janeiro, com nove representantes cada, completam a relação dos estados com mais deputados e senadores sob investigação. Na outra ponta, Espírito Santo e Rio Grande do Norte, com dois parlamentares autuados, são as bancada com menos problemas na Justiça.
Número de parlamentares processados por estado:
São Paulo – 20
Minas Gerais – 16
Paraná – 11
Goiás – 10
Pará – 9
Rio de Janeiro – 9
Alagoas – 8
Bahia – 8
Ceará – 7
Paraíba – 6
Roraima – 6
Tocantins – 6
Mato Grosso – 5
Rondônia – 5
Amazonas – 4
Amapá – 4
Maranhão – 4
Piauí – 4
Rio Grande do Sul – 4
Acre – 3
Distrito Federal – 3
Mato Grosso do Sul – 3
Pernambuco – 3
Santa Catarina – 3
Sergipe – 3
Espírito Santo – 2
Rio Grande do Norte - 2
Considerando-se o tamanho da bancada, a de Alagoas é a mais afetada. Dos 12 parlamentares alagoanos, oito (66,66%) respondem ao Supremo. Roraima, Tocantins e Goiás também têm pelo menos metade de suas respectivas representações no Congresso sob investigação. Há denúncias contra seis dos 11 congressistas roraimenses e tocantinenses, e contra dez dos 20 goianos.
Em números absolutos, as regiões Sudeste e Nordeste – também as mais numerosas – são as que têm mais deputados e senadores sob suspeita: são 47 dos 191 representantes do Sudeste e 45 dos 178 nomes do Nordeste. Proporcionalmente, porém, as bancadas do Norte e do Centro-Oeste são as mais enroladas na Justiça. Dos 86 parlamentares do Norte, 37 (43%) respondem ao Supremo. Na mesma situação estão 21 (39,62%) dos 53 deputados e senadores da região central do país. Com 18 de seus 86 integrantes, a do Sul é a que tem menos nomes na relação dos processados.
Veja a lista de todos os parlamentares processados
• Veja o que respondem os parlamentares da região Norte
• O que dizem os parlamentares do Nordeste
• As respostas dos parlamentares do Centro-Oeste
• A defesa dos parlamentares da região Sudeste
• As respostas dos parlamentares do Sul


(Inst. Humanitas Unisinos)

Palestina

Palestina, um povo em marcha pela libertação
por cristiano última modificação 09/06/2010 18:13 Editorial ed. 380
Não se derrota 62 anos de colonialismo israelense com duas semanas de mobilizações, mas as lutas de agora vão se transformando numa onda



09/06/2010



Editorial ed. 380






Desde 1948, o povo palestino vive uma tragédia: foram expulsos de suas terras e de suas casas e tiveram suas propriedades roubadas ou destruídas pelo chamado Exército de Defesa de Israel. Vilas e cidades palestinas vêm sendo constantemente destruídas durante os 62 anos da Nakba (“A tragédia”). Milhares de pessoas seguiram o caminho do exílio e os refugiados palestinos já chegam a 5 milhões. E, ainda assim, milhares seguem resistindo dentro dos territórios ocupados por Israel.

Em 1967, o expansionismo israelense se intensifica. Novas colônias e assentamentos judeus-sionistas são criados em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém, agora tomada militarmente pelo exército colonialista, em mais um desrespeito às resoluções da ONU sobre a questão palestina. No Plano de Partilha da Palestina de 1947, Jerusalém seria uma cidade neutra, administrada pela ONU, com garantia de que todos os locais sagrados do judaísmo, do cristianismo e do islamismo fossem respeitados por todas as forças envolvidas no conflito. Além disso, Israel ocupa militarmente as colinas de Golan, que são da Síria. A única resolução da ONU que Israel respeitou até aqui foi a da sua própria criação.

Israel segue hoje como o único país do Oriente Médio com armas nucleares, ou seja, armas de destruição em massa. Fala-se de 200 ogivas. Mordehai Vanunu, físico nuclear israelense, que denunciou o programa nuclear de Israel, comprovando sua finalidade bélica, ficou 18 anos na prisão, sendo 16 na solitária, depois foi para a prisão domiciliar, com proibição de se comunicar com qualquer estrangeiro por quaisquer meios. Agora, voltou para a cadeia acusado de tentar fazer contato com outros seres humanos ligados ao Movimento pelo Fim das Armas Nucleares no Oriente Médio.

De acordo com a ONU, Israel não tem nenhuma autorização para exercer o controle sobre o litoral de Gaza, território palestino banhado por águas internacionais, portanto, com livre acesso a todos que queiram chegar ou sair dessa região, transportando pessoas e/ou produtos.

Após o covarde ataque israelense contra a frota de barcos que levava ajuda humanitária para Gaza, voltam novamente as perguntas: é possível deter a escalada de terror e violência praticada por Israel em 62 anos de colonialismo na Palestina? É possível uma coexistência pacífica com governos sionistas-colonialistas-imperialistas? Quais medidas precisam ser tomadas, e por quem, para impedir que o governo de Israel continue o genocídio contra o povo palestino?

A resistência palestina já desenvolveu as mais diversas formas de luta. Entre 1964 e 1988, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) dirigiu o processo de mobilização anti-colonialista e desencadeou uma incrível luta de libertação nacional que deu esperanças para as massas populares de todo o mundo árabe. Enquanto uma frente de cerca de 10 partidos políticos (nacionalistas laicos/nasseristas e comunistas/socialistas), a OLP seguia como a única e legítima representante do povo palestino.

De 1988 a 1994, novos personagens surgem e o fim da URSS e do Bloco Socialista fizeram desencadear uma crise também no interior da esquerda palestina. A Al-Fatah (Movimento de Libertação Nacional), organização majoritária na OLP, empurra a resistência palestina para a mesa de negociação, mas em condições bastante desfavoráveis para o povo palestino. Os “acordos de paz” firmados com Israel em 1994 alimentam ilusões e ignoram a natureza expansionista/imperialista do Estado de Israel, que negocia e, ao mesmo tempo, faz crescer o número de colônias judias nos territórios palestinos ocupados em 1948 e 1967.

Nessa conjuntura complexa, se projeta como uma alternativa política o partido Hamas (Movimento de Resistência Islâmica). A crise política, ideológica e organizativa dificulta a ascensão da esquerda palestina (Frente Popular para a Libertação da Palestina, Frente Democrática para a Libertação da Palestina, Partido do Povo Palestino). As denúncias de corrupção e de enriquecimento de muitos dos dirigentes demonstram um processo de degeneração em setores importantes da Al-Fatah. As eleições de 2006 contribuem para acirrar as disputas internas no movimento da resistência palestina, com Hamas vitorioso em Gaza e Al-Fatah na Cisjordânia. A esquerda palestina tem procurado convocar todas as forças progressistas, populares, democráticas e de esquerda a se unir num grande movimento nacional de resistência para desencadear novamente uma ofensiva contra as medidas do governo de Israel que visam a acelerar o processo de expropriação de terras do povo palestino.

Nesse momento de indignação também ocupam um papel importante e mesmo decisivo as massas populares e a classe operária dos países árabes, que podem pressionar seus governos a romper relações diplomáticas e comerciais com Israel como medida concreta de represália pelo constante desrespeito por parte de Israel às inúmeras resoluções da ONU sobre Gaza. Romper o bloqueio sobre Gaza pode ser o início de um novo ciclo de mobilizações que empurre as organizações palestinas para uma unidade programática e política mínima contra o principal inimigo: o governo do Estado Sionista de Israel.

Não se derrota 62 anos de colonialismo israelense com duas semanas de mobilizações, mas as lutas de agora vão se transformando mais uma vez numa onda, que pode se desmanchar quando chegar próxima à areia ou que pode se transformar num enorme tsunami de lutas populares em todo o mundo árabe, que vá obrigando os governos a tomar medidas mais duras e mais concretas contra Israel.

Ainda é cedo para dizer qual será o resultado dessa estupidez e insensatez cometida pelo governo israelense, mas já é possível perceber um maior isolamento político internacional de Israel. O momento é propício para as forças democráticas, populares, progressistas e de esquerda denunciarem mais uma vez o caráter colonialista e racista do sionismo, essa ideologia expansionista que tem alimentado o ódio e a violência que movem a máquina de guerra israelense.

A unidade nacional da resistência palestina e a crescente influência das forças de esquerda nesse processo, além das mobilizações de massa dentro e fora da Palestina, podem ser elementos importantes para alterar a correlação de forças numa perspectiva de fazer avançar a luta pela criação de um Estado Palestino Laico e Democrático nos territórios ocupados em 1948 e em 1967, criando assim condições para que a questão nacional palestina seja, mesmo que tardiamente, resolvida.

Apesar das dificuldades, ainda é possível acreditar que nada pode deter a luta desse povo pela sua libertação.


(Brasil de Fato)

Saramago

Saramago e nossos moinhos de vento
Por Edição Renato Rovai [Quinta-Feira, 27 de Novembro de 2008 às 12:16hs]
Nasceu na aldeia ribatejana de Azinhaga, conselho de Golegã, no dia 16 de novembro de 1922, embora o registro oficial mencione o dia 18. Seus pais emigraram para Lisboa quando ele ainda não perfizera três anos de idade. Toda a sua vida tem decorrido na capital, embora até o princípio da idade madura tivessem sido numerosas e, às vezes prolongadas, as suas estadas na aldeia natal. Fez estudos secundários (liceal e técnico) que não pôde continuar por dificuldades econômicas.

No seu primeiro emprego foi serralheiro mecânico, tendo depois exercido diversas outras profissões, a saber: desenhista, funcionário da saúde e da previdência social, editor, tradutor, jornalista. Publicou o seu primeiro livro, um romance (Terra do Pecado), em 1947, tendo estado depois sem publicar até 1966. Trabalhou durante doze anos em uma editora, onde exerceu funções de direção literária e produção. Colaborou como crítico literário na Revista Seara Nova.

Em 1972 e 1973 fez parte da redação do Jornal Diário de Lisboa, no qual foi comentador político, tendo também coordenado, durante alguns meses, o suplemento cultural daquele vespertino. Pertenceu à primeira Direção da Associação Portuguesa de Escritores. Entre abril e novembro de 1975 foi diretor-adjunto do Diário de Notícias. Desde 1976 vive exclusivamente do seu trabalho literário.

O perfil acima é do site oficial do escritor José Saramago. E como o atento leitor deve ter percebido, foi preservado o texto no original, assim como prefere o autor perfilado, que não permite a adaptação dos seus livros de um português para outro.

Nessa quinta edição do Fórum Social Mundial, Saramago esteve em dois debates distintos debatendo mais a utopia em Dom Quixote, em um deles, e mais a democracia e seus limites na atualidade, em outro. Também deu uma entrevista coletiva. A revista Fórum participou de todos esses eventos, gravando as intervenções do maior escritor vivo da língua portuguesa. O que o leitor tem a seguir é uma edição desses três momentos. Há cortes e edição das falas, infelizmente. Os cortes, porque há limites de páginas. E uma ou outra pequena adaptação, porque, sem elas, se perderia o contexto em certos trechos. Acreditamos que, mesmo assim, para você leitor, valeu a pena.

Uma nova visão do conceito de utopia
Tenho uma má notícia para lhes dar. A má notícia que tenho a vos dar, sobretudo depois de ter escutado os nossos amigos que falaram antes de mim, é que eu não sou utopista. E a pior notícia ainda é que considero a utopia, ou o conceito de utopia, não só inútil como também tão negativo como a idéia de que, quando morrermos, todos, vamos ao paraíso.

A utopia, segundo se diz, começou com Thomas Moore, com seu livro A Utopia, publicado em 1516. E aí se coloca o nascimento de uma palavra, de uma idéia, mas poderíamos ir muito mais atrás. Poderíamos ir a Platão. No fundo, a utopia nasce sem nome e talvez seja o que está ainda a atrapalhar aqui, tudo isso, seja o nome. Porque, a rigor, tudo o que foi dito antes poderia ter sido dito com igual rigor, com igual propriedade, com igual pertinência, sem a intenção da palavra utopia.
Demonstrarei, ou pelo menos tentarei demonstrar mais adiante, por que há uma questão que é indissociável, da utopia, ou do pensamento utópico, ou do anseio do ser humano por melhorar a vida, e não só no sentido material de melhorá-la, mas também numa outra dimensão: na dimensão espiritual, na dimensão ética, na dimensão moral. Está indissociavelmente ligado, e parece que não, à revitalização e, se quiserem, à reinvenção da democracia.

Mas vamos primeiramente a Dom Quixote. Mas, antes de falar de Dom Quixote, queria dizer que os 5 bilhões de pessoas que vivem na miséria, conforme nos declarou Ignacio Ramonet (que havia falado na palestra antes de Saramago), na palavra utopia não significam rigorosamente nada. Os 5 bilhões de pessoas que vivem na miséria, esses a quem se referiu Ignacio Ramonet, no conceito da palavra, nas sílabas, no som de utopia, repito, não significa nada. E também não significará muito depois de que tenham suas necessidades essenciais satisfeitas, que passem também a usar ou a divulgar ou a utilizar um discurso mais ou menos emotivo da palavra utopia, como se isso viesse a acrescentar algo àquilo que foi conquistado com trabalho, com luta.

A essência de Quixote
Costuma dizer, e o próprio Cervantes o diz, que Dom Quixote, por tanto ler e por tanto imaginar, enlouqueceu. Não ele, mas um senhor que se chamava Alonso Quijano, quando era, quando tinha razão; a razão esta que vos apresento, de cabeça, Dom Quixote chamava-se Alonso Quijano. É claro que, depois de ter enlouquecido, não contente com o nome que tinha, que era o nome corrente, e para dignificar-se, uma vez que entrara, hipoteticamente, em uma ordem de cavalaria onde ele era o único representante, teve de escolher outro nome — Dom Quixote. E assim entrou na imortalidade. Diz-se que ele enlouqueceu. Mas há talvez uma outra maneira de interpretar as coisas. Imaginemos que Alonso Quijano, tenho que dizer que lamento muito que Cervantes não nos tenha falado mais desse homem anterior a Dom Quixote que se chamava simplesmente Alonso Quijano, estava, mais ou menos como cada um de nós: estava farto da vida que levava.

Conhecemos todos aqueles casos em que a pessoa está em casa e diz “vou comprar cigarros” e nunca mais volta. Esse é o caso da pessoa que estava farta da vida que levava e decidiu-se ir por uma porta não muito leal, não muito digna e disse “vou comprar cigarros” e nunca mais voltou. No tempo de Cervantes é difícil, creio mesmo que seria impossível, que alguém que tivesse decidido mudar de vida de uma maneira tão radical quanto essa, que consiste na mudança de vida de Alonso Quijano para transformar-se em Quixote, conseguisse só pelo fato de dizer “eu quero mudar de vida”. Porque ninguém, enfim, no pequeno meio em que ele vivia, ninguém entenderia. Então, o melhor é dizer “estou louco”. E a partir do momento em que alguém diz ou se comporta como louco, tudo lhe é permitido, porque é louco. E esse é o grande truque de Alonso Quijano, que se declara louco, sem o ser.

E, no final, Dom Quixote resolve voltar a ser Alonso Quijano. O itinerário de uma falsa loucura que acaba por regressar aonde principiou à humilde razão humana com a qual temos de viver e com a qual temos de trabalhar.

Os discursos dos políticos
As palavras são umas desgraçadas e podemos fazer delas tudo aquilo que queremos. Por isso, um político português que esteve aqui há poucos dias disse que política é a arte do possível. Pois eu disse há alguns anos que política é a arte de não se dizer a verdade.

Sabemos que os políticos, em grande parte, mesmo quando não fazem um discurso para esconder, para não dizer a verdade, fazem um discurso que comumente falseia, deturpa, condiciona e manipula.

Utopia é o discurso do não-existente Quando eu vos digo que não sou um utopista e que até admiti, com toda franqueza, que me desagrada o discurso sobre a utopia, é porque o discurso sobre a utopia é o discurso sobre o não-existente. Toda gente sabe que a utopia é um lugar que está em um lugar qualquer e que, portanto, não se sabe, não se conhece o destino, também não se sabe o caminho para lá chegar. Também não se saberá quando.

Mas o pior de tudo é o equívoco tremendo que caímos, todos, quando falamos de utopia, que é o seguinte: a utopia, no fundo, no fundo, em termos práticos, significa que eu, que necessito de umas tantas coisas, quer como pessoa, quer como membro de uma coletividade, de uma sociedade, mas que sou consciente de que não se pode ter agora, porque os inimigos são mais poderosos, porque me faltam os meios, porque a fruta não está madura e, portanto, digo, ponto. Isso que não pode ser agora, tem de sê-lo um dia. Hitler também dizia que o regime nacional-socialista era para durar dois mil anos e aqui está outra utopia. E vivemos utopias como vivemos há séculos de mitos, de crenças, vivemos de coisas que não têm nada que ver com a razão. Basta ver a multiplicação das igrejas, das seitas, de tudo isso, que não têm nada para dar, mas que têm tudo para prometer. E essas são formas de utopias.

O grande equívoco que temos é imaginar que aquilo que nós precisamos hoje, mas que não podemos ter por faltar-nos meios de todo tipo, devemos colocar para ter em um futuro. Isso se esquece de um pormenor muito simples, vamos imaginar que aquilo que nós desejaremos ou desejaríamos ou desejamos ou estamos desejando agora mesmo, seja talvez realizável no ano 2043. Vamos imaginar isso... Não, não, de 2043 estamos muito perto, vamos imaginar que precisamos de mais 100 ou 150 anos para que nosso desejo seja possível de realização.

Quem é que nos garante que as pessoas que então estejam no mundo, os vivos de então, descendentes nossos, daqui a 150 anos, porque nenhum de nós estará vivo para ver, quem é que nos garante que eles estarão interessados naquilo a que nós agora estamos interessados? Quem é que nos garante isso?

O dia de amanhã é a nossa utopia. É com o trabalho do hoje que se constrói não já a utopia de amanhã, porque essa, a utopia, já vemos que não é tão modesta; em questões da noção de tempo, sempre se projeta não se sabe quando, não se sabe donde, com essa pequena vida que temos e com a nossa relativa esperança de que amanhã ainda estaremos todos vivos, é com o trabalho do hoje que este amanhã será. E é com o trabalho do que está passando aqui no Fórum Social Mundial que o dia de amanhã poderá sofrer, perceber, captar alguma transformação.

O que é a esquerda? Em vez de discutir a utopia, se há uma coisa que a esquerda está mais necessitada é de uma revisão rigorosa e criteriosa dos conceitos. Pois, como eu disse antes, as palavras são umas desgraçadas, não podem resistir. A palavra é uma coisa que está ali para ser utilizada quando nos parece. E o pior de tudo é que se pode usar a mesma palavra para dizer coisas não só diferentes, como muitas vezes frontalmente contrárias. Por isso é que eu digo que nós, a esquerda, deveríamos nos dedicar a rever o conceito de esquerda. O que é esquerda hoje? Donde está? Donde está? Está aqui? Está aqui? Claro que sim claro que sim que está aqui. Mas, na esfera política, muita gente fala da esquerda, como, para voltar a uma frase muita conhecida, invocar o santo nome de Deus em vão.

A democracia amputada Eu tinha dito que iria propor tirar a palavra utopia do dicionário. Mas, enfim, não vou a tanto, não vou a tanto, deixe ela lá estar. Deixe ela estar, até porque ela está quieta. O que eu queria dizer, amigos, é que há uma outra questão que tem de ser urgentemente revista. Tudo se discute neste mundo, menos uma única coisa que não se discute. Não se discute a democracia. A democracia está aí, como se fosse uma espécie de santa no altar, de quem já não se espera milagres, mas de quem está aí como uma referência. Uma referência é a democracia. E não se repara que a democracia em que vivemos é uma democracia seqüestrada, condicionada, amputada.
Porque o poder do cidadão, o poder de cada um de nós, limita-se, na esfera política, a tirar um governo de que não gosta e a pôr outro de que talvez venha a se gostar. Nada mais. Mas as grandes decisões são tomadas em uma outra grande esfera e todos sabemos qual é. As grandes organizações financeiras internacionais, os FMIs, a Organização Mundial do Comércio, os bancos mundiais, tudo isso. Nenhum desses organismos é democrático. E, portanto, como é que podemos falar em democracia se aqueles que efetivamente governam o mundo não são eleitos democraticamente pelo povo? Quem é que escolhe os representantes dos países nessas organizações? Os povos? Não. Donde está então a democracia?

O governo Lula Minha opinião é numa frase muito curta. Se ele só está a fazer aquilo que pode, não é mal. Mal seria se estivesse a fazer aquilo que não deveria. Caso vocês que estão aqui, e que são brasileiros e que assistem todos os dias o desenrolar das políticas do governo Lula, crêem efetivamente, com as limitações que sempre se põem no mundo, que se está governando por instituições financeiras e pelo grande capital, pela indústria armamentista, do petróleo, todas essas coisas.

Bem, é nessa realidade que os governos vivem, mesmo que tenham as melhores intenções desse mundo. Portanto, digo que se está a fazer aquilo que pode, eu não me queixo. Se está a fazer algo que não deveria, disso só vocês podem ser juízes, uma vez que vivem aqui.

Agora me parece que está a acontecer algo que é comum: há expectativas, há eleições que fazem nascer grandes expectativas, e a de Lula, no mundo, foi uma delas. Aliás, é uma tentação nossa pensar que em um momento acontece alguma coisa que vai decidir tudo daí para diante. Depois não acontece, pois se sabe que tudo é relativo, que tudo tem de encaixar umas coisas nas outras.

De qualquer forma, a eleição do Lula despertou expectativas não só no Brasil e na América Latina mas em todo o mundo, que correspondiam às promessas eleitorais feitas. Depois caímos outra vez na mesma fatalidade, as promessas não se cumprem. Há uma boa quantidade de razões, ou mais razões, para explicar por que não se cumprem.

Normalmente agüenta-se o choque e continua-se a viver, mas pode acontecer que aqueles que esperaram que as expectativas fossem cumpridas e crêem que não foram, ou que não foram na medida em que queriam que fossem, protestem. Eu vi ontem na imprensa o que o presidente Lula disse sobre os protestos, manifestações que foram feitas, disse que são filhos do PT, que quando crescerem voltarão à casa mãe. Eu diria ao presidente Lula que o paternalismo é uma atitude que não convém a ninguém e nem a ele dizer.

O que pode acontecer é que o protesto se faça com um radicalismo desproporcional em relação à causa, esse é outro aspecto que deve ser considerado. Pode acontecer que haja um motivo para protestar, mas que a expressão desse protesto seja de tal forma radical, que tenhamos de reconhecer a desproporção do manifesto e sua causa. Enfim, mas quem é que vai agora fazer um juízo do que está equilibrado e o que não está.

As universidades Sou a pessoa menos indicada para falar do papel das academias e da universidade. Em primeiro lugar, porque nunca passei por uma universidade. Agora passo muitas vezes porque já me fizeram trinta ou mais doutoramentos honoris causa, não sou autodidata, fui fazer mecânica, aprendi a trabalhar com as mãos numa escola profissional e, portanto, a universidade é aquela coisa que está ali e até hoje eu nunca estudei. Não sei se ganhei ou perdi com isso. O pior que se pode notar, não em todas as universidades, mas em demasiadas, é essa espécie de processo endogâmico de reprodução.

Quando digo reprodução não é que os professores reproduzam professores, é uma espécie de consciência exacerbada da impotência, não da universidade, mas do universitário. Há uma espécie de hierarquia, de elite universitária, que até do ponto de vista profissional é preparadíssima, faz o seu trabalho, mas às vezes sabem por que o fazem, mas não para quem fazem.

Acho que a universidade deveria abrir suas portas para quem está fora poder entrar, ter aulas, isso sim é que é utópico. Agora a universidade tem de abrir suas portas e ver o que se passa aqui fora, a universidade não pode ser uma espécie de Sancto Sanctorum, em que só se entra na graça de Deus.

Por exemplo, todo esse debate que se está a fazer aqui no Fórum deveria ser um debate vivo dentro das universidades. Isso que está aqui devia transladar-se. Por exemplo, aqui falamos muito do estado da democracia, por que as universidades não estabelecem debate sobre a democracia? São eles que podem decidir se podem e querem fazer isso.

Abortos intelectuais Também tenho uma história que creio que vão apreciar. Estava há poucos meses em um encontro de prêmios Nobel em Barcelona. Lá estavam 12 pessoas que receberam prêmios de literatura, física, medicina, enfim... Houve um debate sobre o papel do ensino superior e fomos surpreendidos pela intervenção de uma dessas pessoas que, depois de uma introdução um pouco confusa, pois não era possível saber onde queria chegar, e chegou, é que não deveríamos esquecer a importância do Criacionismo.
Se é certo que a ciência propõe uma interpretação evolucionista do universo também é verdade que nos textos bíblicos, no Genesis, há muito que levar em conta. Então propunha uma fusão entre o Evolucionismo e o Criacionismo. Olhamos para ele aterrados porque aquele senhor é prêmio Nobel, tem uma responsabilidade intelectual pública e é norte-americano. Provavelmente viria de um daqueles estados, que não são poucos, em que se ensina o Criacionismo como doutrina pseudocientífica, do nascimento de tudo quanto.

Ele justificava que os sete dias da Criação não deveriam ser interpretados como sete dias, são sete períodos, então tem de haver uma leitura do Criacionismo que se encaixe com o evolucionismo. Isso que parece uma história louca inventada por mim, agora mesmo é pura realidade... Diante disso, o que devemos fazer com as universidades se algumas delas são capazes de gerar abortos intelectuais desse tipo?

O direito e a liberdade de comunicação Eu creio que não se pode nem se deve refazer a felicidade das pessoas sem a participação delas, muito menos contra elas. Esse, provavelmente, foi o pecado mortal dos socialismos praticados no último século. Não se pode, mesmo que a sociedade funcione perfeitamente, ignorar o ser humano. Eu não vejo nenhuma incompatibilidade entre a satisfação das necessidades básicas e a liberdade. Dissentir é algo que não se pode reprimir em nenhum lugar, porque se está a eliminar-se algo fundamental que é a capacidade de cada um expressar aquilo que tem o que dizer.

O controle dos meios de comunicação, qualquer controle, leva a riscos. E temos a prova. Os meios de comunicação mundiais estão praticamente controlados, e hoje não é possível um jornal independente, e se houver morre ao fim de uma semana por não ter publicidade nem pessoas em estado de quase santidade que vão sacrificar seu futuro em um jornal que não lhes vai pagar o que devia e ainda por cima em um emprego precário.

Isso leva à extrema manipulação do jornalista camaleônico, que muda de opinião conforme o jornal, a rádio ou a TV em que trabalha. Se perguntarmos sua opinião, talvez nem saberia dizer sua opinião, mas terá a opinião que tiver o meio de comunicação em que trabalha. Se isso é verdade no atual sistema, seria também no outro. Este é realmente o problema.

A pergunta é essa: como formei a minha opinião, com que dados? Quando vamos analisar descobrimos que a opinião não é nossa, ou é dificilmente nossa. Principalmente porque as notícias vêm de um jornal feito de um modo que não pode ser feito.

Os direitos humanos O século XXI será o século em que ganharemos ou perderemos a batalha dos direitos humanos. Essa frase foi proferida na declaração de 1948, em Nova York, nas Nações Unidas. Em 1998, quando comemoramos improváveis 50 anos dessa carta, simpósios, artigos e ensaios foram escritos sobre o tema. Nas semanas que antecederam a data, foi o tema único nos órgãos de comunicação. A humanidade não só não progrediu na aplicação dos direitos humanos, como em muitos aspectos andou para trás. Em 2048, quando se voltar a falar sobre direitos humanos, acredito que esteja ainda pior.
Por que estará pior? Quem manda no mundo? O mercado, o lucro, a ganância. Se os partidos que governam se submetem aos poderes econômicos, a quem serve o poder político? Apenas para adaptar legislações nacionais e ser vigia de manifestações de protesto? As multinacionais mandam no mundo. Que democracia é essa? Prefiro chamar a isso de Ditadura do Capitalismo. Nunca fomos uma democracia. Quero lembrar aos senhores que não há memória de uma greve em uma fábrica de armas sequer. É uma democracia de aparências.

Globalização e direitos trabalhistas Quero falar de questões que tocam a Europa e talvez não toque diretamente vossos países hoje, mas decerto tocarão em breve. A Constituição européia foi discutida e aprovada no parlamento europeu e vai agora ser votado nos parlamentos nacionais. O primeiro país é a Espanha. Há uma questão de direitos humanos e de direito ao trabalho em xeque. No artigo 205 da constituição. Se aprovado, a Europa se despreocupa de aspiração ao pleno emprego.

O artigo 203 prevê a esterelidade laboral, com maior flexibilidade. Ser humano nos últimos 20 anos deixou de ser cidadão para ser consumidor, cliente. Se essa diretiva for aprovada, e decerto que vai ser, uma empresa polaca, ou polonesa, como vocês dizem no Brasil, pode construir uma fábrica na Espanha, contratar com salários polacos e ela só terá de responder à legislação nacional da Polônia, cujo governo será o responsável pela fiscalização. Se uma empresa da Estônia oferecer trabalho temporário em outro país, não pode haver intervenção dos governos nacionais.

Salto do Fórum O FSM corre o risco, e perdoem-me por atirar água fria na fervura do natural entusiasmo, de ser uma festa, uma espécie de lugar sagrado. Como se Porto Alegre fosse uma Meca, para onde os fiéis, que somos nós, fôssemos e atirássemos pedras ao diabo, que não está em Meca e nem aqui. Por favor, não quero que o Fórum seja um partido político, mas que tenha algumas posições para aparecer na mídia e não só algo bonito uma vez por ano. Para cumprir objetivos que o fez nascer, é preciso formular algo que se opõe ao que acontece no mundo.

Do contrário, corre-se o risco de sofrer com um processo de laminagem, em que se perde espessura até que se rompa por ser tão fino. Não sei se tenho razão, mas que se declare uma voz consensual, não voz única. Esse Fórum é o momento para um salto qualitativo, porque em quantidade somos mais que suficientes.

A polêmica sobre Cuba Não estamos de acordo com o que considero equivocado à humanidade. O direito de dissentir não pode ser negado a ninguém. O governo cubano reconhece esse direito quando liberta alguns dos dissidentes. É claro que o lado conservador da mídia quis achar que eu tinha mudado de opinião e, finalmente, visto a verdadeira natureza do regime de Fidel Castro. Mesmo ele disse que eu estava mal-informado, o que, aliás, é curioso.

Quando concordamos, estamos bem informados, e quando discordamos estamos mal informados. Mas, como se diz, o sangue não chegou ao rio. Minha relação com o povo continua, tanto que em maio vou para a Feira do Livro de Cuba. Este, que não é inimigo de Cuba, reivindica o direito de dizer o que pensa. A revolução nem sempre é justa e os seres humanos são falíveis. Desde a revolução, Cuba fez dizer ao mundo formas de lutar por outro mundo possível.

Colaboraram na reportagem: Fredi Vasconcelos e Anselmo Massad.
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Edição Renato Rovai
(Revista Forum)

Laerte Braga mostra o pau, e a cobra não resiste

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O BLOCO DO PAU-DE-ARARA E DO CHOQUE ELÉTRICO

Laerte Braga

Ronnie Lee Gardner passou vinte e cinco anos na prisão estadual de Utah, EUA, aguardando sua execução. Foi condenado à morte por homicídio. Todos os apelos feitos para a comutação da pena em prisão perpétua foram negados.

Ronnie foi fuzilado [ontem, 18/6] por um batalhão de cinco atiradores e segundo a imprensa de seu país escolheu, ele próprio, a forma de execução. Sobre os crimes cometidos por Ronnie não havia dúvidas, nem mesmo entre os que defendiam a comutação da pena de morte em prisão perpétua. Sobre a barbárie de vinte e cinco anos esperando para ser executado, com certeza é culpa do Irã.

Utah é um estado onde os mórmons predominam e onde a legislação permite a bigamia em respeito aos costumes e tradições desses religiosos.

* * *

Um fórum de empresários europeus e norte-americanos revelou que são gastos cerca de 40 a 50 milhões de dólares anualmente para reforçar a posição dos partidos de oposição na Venezuela e tentar derrubar o presidente Chávez. Chamam a isso de democracia.

A grande preocupação de boa parte dos telespectadores em muito dos países do mundo e que acompanham a Copa da África pela telinha, além do “cala a boca Galvão”, específico do Brasil, é o grito do vizinho. Para alguns é inadmissível que o vizinho perceba o gol primeiro. A diferença entre a imagem e o som de uma casa para outra.

Por que o meu vizinho grita gol primeiro suscitou explicações técnicas para evitar corrida a consultórios de psiquiatras e psicanalistas, dramas existenciais mais profundos e capazes de gerar tragédias em algumas partes do mundo.

* * *

Perguntaram a José Saramago por qual motivo continuava sendo comunista diante dos “crimes” de Stalin. Saramago respondeu de forma simples. “Por convicção ou alguém deixa de ser católico por conta dos crimes da Inquisição?”

A turma do pau de arara e do choque elétrico no Brasil está desatinada a julgar pela torrente de mails e comunicados de “guerra” despejados para todos os lados na tentativa de “alertar” brasileiros contra os “riscos” de uma vitória de Dilma Roussef.

Investem agora contra o senador José Sarney e a aliança do PT com o partido do ex-presidente no Maranhão. Não explicam que Sarney foi presidente da ARENA – partido da ditadura militar –, era homem de confiança dos generais ditadores e foi presidente do Senado a primeira vez indicado pelo governo ditatorial. Será que nunca souberam que Sarney já nasceu pústula?

Essas viúvas da ditadura estão em agonia na expectativa que o Superman chegue e salve o Brasil. Em 1964 veio disfarçado de general Vernon Walthers e falando português fluente, com o qual enquadrou os golpistas.

Não hesitam em fuzilar velhos aliados como Sarney, ou qualquer outro, acreditando que aquele negócio de colocar espantalhos na plantação para afastar assombrações vá dar resultados.

Por não se enxergarem não se percebem, eles próprios, os espantalhos.

Que Sarney, Hélio Costa, esse tipo de gente não acrescenta coisa alguma a nada, ninguém tem dúvida e nem o centro do assunto passa por aí.

É que a candidatura do paulista José Arruda Serra despenca para todos os lados e a versão do século XXI de Jânio Quadros, já renunciou pelo menos duas vezes, sendo contido pelos amigos mais próximos, preocupados, inclusive, com risco de atitudes tresloucadas.

* * *

O mais importante de tudo isso é que o Homer Simpson entenda que, por incrível que pareça, não é culpa da GLOBO se o vizinho grita gol primeiro, mas desse negócio de velocidade do som, da imagem, naturalmente agentes iranianos interessados em promover a desestabilização do Ocidente cristão e democrático, justo na hora do gol.

É a copa da tecnologia. Mais vale um choque de joelho contra joelho, ou uma cabeça contra outra, que a bola dentro do gol, estufando as redes como dizem alguns locutores, pelo menos diziam.

Aí, nesse meio de caminho descobrem uma coisa interessante. Quer gritar gol primeiro que seu vizinho, ou ao mesmo tempo? Compre um radinho de pilha daqueles antigos. Dê um chega pra lá na frustração. O velho aparelhinho resolve o problema e evita depressões, dramas existenciais, angústias, situações que, ao fim, podem desestabilizar o ser humano, ou assim dito, levar casamentos de roldão, sem falar em perigo real e imediato de incendiar a casa do vizinho por conta do privilégio.

Os técnicos chamam a isso, esse descompasso, de “delay”, algo como atraso. O tempo que o sinal da transmissão percorre para que os dados subam e desçam do espaço a Terra. No sinal analógico o tal “delay” demora um quarto de segundo para chegar ao satélite e outro quarto de segundo para voltar, portanto, dois quartos de segundo, que vem a ser meio segundo, numa viagem de ida e volta até as telinhas, o que pode resultar num atraso ainda maior.

Rádio de pilha resolve. Que nem pílula do doutor Ross.

Para evitar confusões maiores e cabeças fundidas, os principais jornais, revistas e redes de tevê estão explicando o “fenômeno”, antes que governos do mundo inteiro sejam obrigados a comprar vacinas para evitar uma pandemia de “delay”.

Já o futebol.

Surpreenda o seu vizinho, grite gol primeiro com sua arma secreta, um radinho de pilha.

E não se assuste com assombrações fardadas cheirando a mofo e cheias de parafernálias eletrônicas tipo máquina de choques, paus de arara, caminhões da FOLHA DE SÃO PAULO para desova de cadáveres, empresários financiando tortura e pagando cinco mil euros por um programa no esquema FIESP/DASLU, isso faz parte do projeto tucano de “nós podemos mais”.

São movidos a viagra. Saem das catacumbas de Wall Street e aterrissam na pirâmide de FHC. O ex-presidente, assim como os malucos antigos sofriam de mania de Napoleão, sofre de mania de Ramsés.

E o jornalista Élio Gaspari hem? Depois de passar dois anos com bolsa de estudos em Harvard, onde estuda a filha de Arruda Serra com dinheiro da AMBEV e mamatas nos governos tucanos, o jornalista, falo dele, virou mentiroso. Inventou um codi nome para a candidata Dilma Roussef, atribuiu-lhe assassinatos que não cometeu e agora o tal codi nome existe, é uma pessoa real, Dulce Maia, está viva ao contrário do que fez presumir Gaspari, que fosse uma ficção, e quer provar isso.

Será que a GLOBO noticia?

O que é isso meu caro, minha cara. Mentira é a bandeira dessa gente.

Cala a boca Bonner!

Laerte Braga é jornalista. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz

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O que você sabe sobre a guerrilheira Dulce Maia?

Dulce é dessas pessoas que, enquanto o nosso Editor-Assaz-Atroz-Chefe dançava ao embalo da Jovem Guarda e comemorava o tri "Pra Frente Brasil", ela se entregava à luta contra a ferrenha ditadura que prendia, torturava, matava e fazia as pessoas dançar e gritar gol primeiro que o vizinho.

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MULHERES QUE FORAM À LUTA ARMADA



Luiz Maklouf Carvalho

[ Revista Marie Claire - setembro de 1996 ]

Vão bem, obrigado, as guerrilheiras do Brasil. Têm lá seus problemas, como todo mundo, mas felizmente estão bem, senhoras ou quase na faixa dos 50, às vezes mais, o que mostra o quanto eram jovens à época em que foram à luta armada contra o regime militar. Lá se vão 28 anos - as ações violentas das organizações comunistas vieram a público em 1968 - e, quem diria, aí estão elas de novo, dessa vez desarmadas, participando da releitura pós-moderna de seu papel na história.

"Agora estamos na moda", diz a vovozinha de todas elas, Dulce Maia, 68 anos. Dulce, irmã da unanimidade nacional Carlito Maia, foi das primeiras mulheres a pegar em armas - em ações de absoluto atrevimento - e é hoje, recém-emigrada para a deliciosa Cunha (SP), uma prova viva de que esse tempo horrível, como definiu o presidente Fernando Henrique Cardoso, realmente existiu.

Quando diz "agora estamos na moda" - com uma saborosa pitada de ironia - Dulce constata o fato recente de que a guerrilha está aí, revisitada, e desta vez na ofensiva, cobrando do Estado reparações morais e indenizações por conta de seus mortos e desaparecidos, entre eles quase meia centena de mulheres.

A Lei 9.140, que propiciou essa virada de página, foi sancionada no ano passado por um presidente da República que algumas vezes viu de perto, visitando presos políticos, o estado degradante a que os torturadores da ditadura reduziam os "terroristas" presos, reservando, às mulheres, requintes de crueldade sexual.

Dulce Maia, um misto de agitadora cultural e guerrilheira urbana da organização Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) foi uma das presas a receber a visita do sociólogo Fernando Henrique Cardoso nos idos de 1969.

Como nem tudo são dores - "guerrilha também é cultura", poderia dizer Carlito Maia - nossas guerrilheiras, as vivas e as mortas, acabaram na literatura, na telinha, no cinema e no teatro. Primeiro foram os livros testemunhais, como "O que é isso companheiro", do guerrilheiro e agora deputado federal Fernando Gabeira, ex-marido da "loura dos assaltos", a terrorista mais procurada durante uma determinada época.

O livro de Gabeira, agora relançado (Companhia das Letras), está fresquinho nos cinemas, na superprodução (U$ 3 milhões) do premiado diretor Bruno Barreto. Uma das estrelas é a atriz Cláudia Abreu, que protagonizou, na série pionera "Anos Rebeldes" (TV Globo), a guerrilheira mais charmosa da televisão.

Estão aí, também, nas melhores livrarias da praça, os recém-lançados "Não és tu, Brasil", de Marcelo Rubens Paiva (sobre a guerrilha do capitão Carlos Lamarca no Vale da Ribeira); "Viagem à luta armada", do guerrilheiro radical Carlos Eugênio Sarmento; e "Mulheres, militância e memória", da antropóloga Elizabeth Fernandes Xavier Ferreira. Neste último, o primeiro específico sobre a militância feminina, 13 ex-presas políticas detalham o que era ser mulher naquela barra pesada de então. Ainda há, de recentes, os filmes "Lamarca", de Sérgio Rezende e "Que bom te ver viva", da cineasta e também guerrilheira Lúcia Murat.

As mulheres que foram literalmente à luta estão presentes em todos eles. Amando, sofrendo, guerreando, participando, às vezes na linha de frente, às vezes nos bastidores. Foram apenas alguns anos - as ações estão diluídas entre 1968 e 1974 - mas em nenhuma outra época o Brasil viu tanta mulher pegar em armas. Pegar e usar, é claro.

Atentados, assaltos a bancos, sequestros de diplomatas e de aviões, assassinatos de policiais e militares, justiçamentos, guerrilha urbana e rural - há quase sempre uma ou mais mulheres nas ações mais e menos espetaculares com que as organizações armadas tentaram reagir à violência da ditadura militar. É difícil fazer as contas redondas - as estatísticas ainda são precárias - nas nossas guerrilheiras, somadas, chegam a quase 100. O levantamento mais recente - "Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964", editado pelo Grupo Tortura Nunca Mais - dá conta de que 24 foram mortas e 20 estão desaparecidas. Marie Claire levantou que pelo menos 40 estão aí para contar a história.

Uma delas - talvez a mais famosa - entrou para a memória coletiva por conta de uma façanha: o sequestro do embaixador dos Estados Unidos da América, Charles Burcke Elbrick, a 4 de setembro de 1969. Era, então, a Dadá, da Dissidência Comunista da Guanabara, mais conhecida como MR-8, e atendia, para a mídia e para a repressão política, pelo apelido de "Loura dos assaltos", justo a que viria a ser mulher de Fernando Gabeira. Pode ser vista no filme de Bruno Barreto, ora representada por Fernanda Torres, ora por Cláudia Abreu.

Hoje, aos 48, é a charmosa, chique e irreverente socióloga e economista Vera Sílvia Magalhães, lotada na sala 518 da Secretaria de Planejamento e Controle do Estado do Rio, onde exerce a função de planejadora urbana. Vera conversou com Marie Claire num apartamento amplo da Praia do Flamengo, onde mais uma vez estava se recuperando dos problemas de saúde que atribui ao tiro que levou quando foi capturada (a 6 de março de 1970) e às torturas que sofreu nos três meses em que amargou a condição de presa política. Ela ainda vibra por dentro quando lembra uma resposta que deu aos torturadores em plena aflição, pendurada no pau-de-arara e tomando choque elétrico: "Minha profissão é ser guerrilheira".

— Minha primeira ação foi uma expropriação de armas no gasômetro do Leblon, com o Cláudio Torres e o Cid Queiroz Benjamim. Eu fui de peruca loura e pedi pro segurança acender meu cigarro. O cara era tão ingênuo que depositou a metralhadora no chão. O Cláudio veio, pegou a arma, mas aí o outro segurança que estava na guarita começou a atirar em cima da gente. Foi o maior tiroteio. O Cid veio dar cobertura e o cara acabou ferido. Levamos duas metralhadoras Ina e dois revólveres 38.

Bem nascida, na zona sul do Rio de Janeiro, Vera Sílvia abraçou a causa, como então se dizia, ali pelos 16, na militância secundarista do Colégio Andrews. O tio era do Partido Comunista do Brasil. O pai simpatizava. Leu O Manifesto Comunista aos 11. Entrou na Universidade (Economia da Federal Fluminense) em 67 e logo passou a integrar a Dissidência da Guanabara (DG) - mais um racha saído do pacifista Partido Comunista Brasileiro, o chamado Partidão. Destacou-se logo, passando a integrar o Comitê Central, órgão maior da direção partidária.

— Eu era a única mulher no meio de sete homens. Fiz um puta esforço para chegar lá. A minha militância política foi uma batalha, porque, além de tudo, havia o preconceito machista.

No começo de 1969 - quando a DG opta pela violência política - Vera Sílvia, a bela que torturava corações, passou a integrar a Frente de Trabalho Armado (FTA).

— A gente treinava tiro na Quinta da Boa Vista e em Búzios. Não tinha nem bala sufiiciente, mas, diante da crescente da violência da ditadura, a determinação era grande.

Depois da primeira ação, a do gasômetro do Leblon, em 68, a "Loura dos assaltos" e seu inseparável 38 expropriou legal: supermercado Disco, carro forte, banco, carros.

— Carro era um por semana. Uma vez, em Ipanema, demos azar. O cara era militar e resolveu resistir. Atirou na gente. Eu e o Torres tivemos que reagir. Nós só atirávamos em última instância, quando éramos atacados. Que eu saiba nunca matamos ninguém.

A 19 de agosto de 69 - quinze dias antes do grande sequestro - Vera Sílvia e sua troupe da FTA participaram de uma ação brancaleônica: o assalto ao apartamento de cobertura do deputado federal Edgar Guimarães de Almeida.

— O cofre do deputado deu trabalho. Nós fizemos um bom trabalho de levantamento. Eu era uma moça bonitinha e entramos lá como repórteres da revista Realidade. Levamos todos aqueles troços do equipamento fotográfico, e de repente aparecemos com metralhadoras, saindo para a ação. Era um apartamento imenso, com muita gente dentro. A conversa inicial foi chamar todo mundo pra sala, pra tirar fotografia.

Recolhemos, dinheiro, jóias, e quadros, alguns do Portinari. Mas na hora H o cara teve um problema grave no coração. O comandante da ação, João Lopes Salgado, que estava no terceiro ano de Medicina, interrompeu tudo para atender o deputado. Deu remédio, fez ele se acalmar. Demorou coisa de quatro horas - mas o resultado foi bom. Foi uma ação bombástica de propaganda armada.

O sequestro do embaixador americano visava marcar posição, assustar a ditadura e, principalmente, libertar os presos políticos, entre eles os líderes estudantis Vladimir Palmeira e José Dirceu. Vera foi responsabilizada pelo levantamento de tudo o que cercava o embaixador Elbrick.

— Quinze dias antes eu fui na Embaixada, vestida de empregada doméstica, com mini-saia e tudo. Eu, Deus e uma arma na bolsa, o que aliás foi loucura. Não tinha sentido levar a arma. Cheguei lá, me aproximei da guarita de segurança e disse que queria visitar os jardins. O chefe da segurança ficou a fim de me conquistar e saiu me mostrando tudo. Eu utilizei esse aspecto psicológico e fui fazendo perguntas entremeadas, conseguindo informações sobre horários, carros, segurança. Fazia isso com sangue frio, com desenvoltura total. Tirava tão de letra que ele chegou a me dizer: "Eu vou tirar essa bandeira da embaixada, porque tem muito terrorista agindo por aí". Ele não sacou nada.

Dadá era mulher de Corisco - o guerrilheiro José Roberto Spigner. Se amavam muito, moravam juntos no bairro da Penha, e pertenciam à mesma organização. Ocorre que Corisco atuava na Frente das Camadas Médias - o que, a rigor, o impedia, por uma questão de segurança, de ter conhecimento sobre o sequestro do embaixador.

Na véspera, exatamente na véspera, os dois se encontraram em frente ao Hotel Copacabana Palace:

— Passeamos, namoramos, conversamos. Eu não podia contar nada sobre o que iria ocorrer no dia seguinte. Só disse que ia me envolver numa barra pesada e sumir por uns 20 dias. Pedi que ele ouvisse o rádio e que tomasse precauções. Ele insistiu que marcássemos um ponto (um encontro) inorgânico (sem conhecimento da organização) dali a dois dias. Eu disse que era contra as normas de segurança e não concordei. Fiquei de procurá-lo logo que pudesse. Intimamente eu não avaliava bem as consequências de uma ação desse porte a nível pessoal.

— Com a fina ironia que cultivava, Zé Roberto se despediu de mim com o refrão de uma música da Gal: "É preciso estar atento e forte/Não temos tempo de temer a morte". Cantarolou, também, uma música do Noel Rosa: "Ai que mulher indigesta/Merece um tijolo na testa". Depois disse: "Essa estanquização não tem nada a ver com o amor. Se a gente se ama a gente segura a barra juntos".

— Ele me chamava de Nenê. E disse: "Vai, Nenê, pra tua ação clandestina. Vocês nunca vão saber o que é o amor. Essa estanquiização é ridícula. Me põe aí no teu bando".

Veio o sequestro:

— Eu fiquei no esquema de segurança, na esquina da padaria. Era tão desajeitada que fiz uma bomba enorme. Era pra fazer do tamanho de uma lata de leite condensado e eu fiz uma de leite ninho tamanho família. Quer dizer: se eu acionasse aquilo explodia o Botafogo inteiro. Felizmente não houve confronto, nem polícia, o e sequestro foi um sucesso.

— O sequestro foi um marco, um ato espetacular. Uma idéia em si mesma brilhante, que detonou um processo de repressão que a gente não conseguiu conter. Foi feito aos trancos e barrancos - um exército de Brancaleone fazendo uma ação de proporções políticas enormes. Eu mantenho o orgulho por ter participado. Mas o fato é que nós perdemos. Avaliamos mal a conjuntura, não tínhamos o povo do nosso lado e não houve uma dimensão maior na perspectiva da tomada de poder.

Dadá entrou imediatamente na clandestinidade - mas um dia, com saudades de Corisco, mandou a segurança às favas. Voltou ao Copacabana Palace, produziu-se toda no cabeleleiro, atravessou disfarçada de madame na barca para Niterói, onde ele estava.

Voltaram a viver juntos - ela perseguidíssima, mas ainda participando de ações armadas. Corisco realmente não teve tempo de temer a morte: foi assassinado a 17 de fevereiro de 1970 durante um tiroteio com agentes do DOI-CODI (RJ). Dadá foi presa em ação - dando e levando tiro num cerco da polícia no Jacarezinho. Um deles lhe acertou a cabeça.

— Eu não me rendi. Saí correndo e atirando. O tiro entrou e saiu da minha cabeça.

Mas num tiroteio você não sente dor. É uma emoção tão impressionante que você não sente nada, a não ser o grande desejo de sobreviver. Eles eram dezenas. Eu saí com o 38 na mão e eles saíram me dando porrada, coronhada, tudo. De repente chegou um policial, me levantou no colo e disse: "A minha filha tem a sua idade. Por que você está fazendo isso?"

— O tempo urgia. Nós vivíamos atrás do tempo. Tinha que dar tempo pra lutar e pra amar, senão daqui a pouco o amor acabava. A gente fazia tudo. A gente acreditava que a revolução era longa, mas na prática fazia tudo muito rápido.

Vera Sílvia sobreviveu, a duras penas, ao tiro e à tortura. Foi banida do Brasil a 15 de junho de 1970 - como um dos quarenta presos políticos trocados pelo embaixador alemão, von Holleben, sequestrado a 4 de junho. Diversos países (incluindo Cuba, onde treinou guerrilha), muitas doenças (dois cânceres) e três casamentos depois - Fernando Gabeira, Carlos Eduardo Maranhão (com quem tem um filho de 18 anos) e Emir Sader - Vera está só, mas cercada de amigos.

— Eu faço hoje a micropolítica do afeto. Esse é o maior resgate da minha militância.

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Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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PressAA

Agência Assaz Atroz

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Pequenos deuses

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Urda Alice Klueger

Outro dia, uma jornalista me telefonou para perguntar o que eu achava das pernas dos jogadores da Seleção. Eu disse-lhe que nunca olhara para as pernas dos jogadores da Seleção; que para mim eles eram como que pequenos deuses da Alegria. Ela se espantou, até andou publicando isso. E então fiquei pensando em quando me dera conta de tal título para os nossos jogadores: fora quando viajara pelo Equador, Colômbia e Venezuela, e vira muito de perto o quão ardentemente as pessoas desses países AMAM fascinadamente os nossos jogadores. Eu viajava por uma América machucada, espoliada, de gente que comia pouco e tinha os dentes estragados - mas que não tinha nenhuma vergonha de mostrá-los em grandes sorrisos, quando falavam dos seus pequenos deuses da Alegria. Estávamos em 1996, e tais pequenos deuses, então, se chamavam Pelé, Zico, Túlio, Marcelinho Carioca, e eles proporcionavam tal alegria às gentes do norte da nossa América do Sul, que não havia outro título a lhes dar, além de pequenos deuses, mesmo, pequenos deuses da mais límpida alegria nas vidas das pessoas cujo viver já é um ato de coragem.

Agora, hoje, estamos a poucas horas de, talvez, nossos pequenos deuses nos darem a grande alegria do Penta, e que não será uma alegria só nossa, brasileira, mas de los otros hermanos que vivem aqui perto no nosso castigado continente. Eu sei como é amar incondicionalmente, e é assim que nuestros vecinos amam os pequenos deuses do nosso futebol. E nós, brasileiros? Há duas ou três tardes atrás saí para caminhar, e passei por aquele complexo que reúne a Fonte Luminosa, o Terminal de Ônibus, dois supermercados, um carrinho de cachorro-quente e muita gente circulando. Numa das calçadas, reúnem-se diversos vendedores de bandeiras e bandeirinhas, e de outras coisas verde-e-amarelas, como cornetas e apitos. Os símbolos da Alegria, ali, têm diversos preços - não perguntei quanto custam as grandes e bem feitas bandeiras de pano - mas uma pequena bandeira de plástico custa vinte centavos. O sofrido povo brasileiro sabe a grandeza que é ser dono dos pequenos deuses, e quer demonstrar sua mais límpida alegria, também. A hora da grande batalha final se aproxima, e se para os corações dos nuestros vecinos ela é importantíssima, só quem, como nós, que tem um peito com um coração brasileiro, sabe aquilatar a intensidade da Alegria que a possibilidade do Penta pode nos trazer. E então fiquei a observar como as pessoas paravam para ver aquelas coisas verde-e-amarelas, aquelas coisas que falam profundamente ao coração nestas horas, e como calculavam mentalmente suas posses financeiras antes de garantir a posse do símbolo da Alegria. Uns mais despreocupados, outros com a testa vincada de preocupação, quase todos acabavam comprando alguma coisinha, pelo menos aquela bandeirinha de plástico de vinte centavos, que talvez significasse dois pãezinhos a menos na mesa das suas crianças, naquela noite. Afinal, para deuses há que se fazer alguma oferta, sejam eles pequenos ou não. Os pequenos deuses hoje se chamam Rivaldo ou Ronaldinho Gaúcho ou outros nomes - na verdade, os nomes não importam muito - o que importa é a IMENSA Alegria que eles podem trazer aos peitos desta nossa gente que deverá continuar sendo massacrada com coisas como a ALCA.

Nossos jogadores são ou não são pequenos deuses da Alegria? E pensar que tem gente que se importa com coisas efêmeras como as pernas deles!

Blumenau, 29 de Junho de 2002

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*Urda Alice Klueger é escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR. Colabora com esta nossa Agência Assaz Atroz.

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

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Agência Assaz Atroz

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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Índios

"Quando o mundo acabar, vai ser como quando os nomes das coisas são alteradas durante a caça ao peyote.
Tudo vai ser diferente, o oposto do que é agora. Agora há dois olhos no céu, Sol e Fogo. Então, a lua vai abrir seus olhos e ficarão mais brilhantes. O sol vai se tornar mais escuro. Não haverá mais diferenças. Não mais homens e mulheres. Nenhuma criança e nenhum adulto. Tudo vai mudar de lugar ... "

Provérbio Huichol
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O colibri traz de volta o Tabaco

Uma lenda Cherokee
Muito tempo atrás, quando todas as pessoas e os animais falavam a mesma língua, só havia uma planta de tabaco em todo o mundo. De longe, eles vieram para o seu tabaco. Tudo estava bem, até os gansos Daguku gananciosos roubarem a planta e voarem longe para o sul com ele, onde guardava toda a sua força. Em pouco tempo, todas as pessoas e os animais começaram a ter grandes sofrimentos porque não tinha tabaco.Uma mulher de idade, que tinha sofrido por muito tempo, havia se tornado tão magra e fraca que era detida por tudo, ela iria morrer em breve, e só poderia ser salva pelo tabaco. Agora esta velha era amada por todas as pessoas e os animais e isso perturbou-os muito. Assim, foi decidido que eles deveriam possuir um conselho, o que fizeram, e fazem um plano sobre como resgatar o tabaco que tinha sido tomado deles. Eles decidiram que os animais iriam recuperá-lo.Um por um, os animais todos tentaram obter a planta, mas cada vez que eles foram vistos pela gansos Dagulku, eles os matavam antes que pudessem chegar a planta. Do maior ao menor, os animais falharam. Agora, a topeira falou que iria. Todo mundo pensou que isso seria uma boa idéia, como ele poderia fazer um túnel sob a terra até a planta e roubá-la. Então, apagou-se e quando se aproximou da planta, sua trilha foi vista pelos Dagulku, que o esperavam na planta para ele sair. Quando, por fim, ele saiu do túnel, sofreu muito o mesmo resultado.Depois disso, tiveram muitas discussões no conselho. Ninguém conseguia pensar em alguma forma de obter a planta do tabaco longe de vista dos gananciosos Dagulku. Nenhum dos outros animais queria ir. O Colibri tinha estado a ouvir todos os planos , e decidiu falar o seu. Disse ao conselho que ele podia recuperar a planta. Eles olharam para ele como dissessem como isso poderia ser, você é tão pequeno? Como você poderia chegar à planta passando os Dagulku? [...]
A Profecia das duas serpentes

Uma lenda da tribo Kanienkehaka


A história conta que há muito tempo, antes que o tempo que os europeus chegaram à América, dois caçadores saíram sobre a água grande para procurar um novo território de caça. A caça foi escassa em Kanienkehaka, e eles esperavam encontrar mais comida para além do horizonte, a leste.

Estes dois caçadores Estabeleceram na canoa um jogo para ficarem mais ricos.
Depois de terem ido além do limite do horizonte, eles notaram um brilho ao longe. Eles aceleraram seu remo e tiveram uma visão muito estranha. Lá na água viram duas serpentes pequenas, uma de ouro e uma prata. Essas serpentes eram brilhantes e transformaram o céu em cores maravilhosas.

Os dois caçadores foram surpreendidos com a beleza das serpentes. Eles não queriam deixá-las na água com medo que elas se afogassem ou fossem comidas por um peixe grande. Eles sabiam que, se essas serpentes fossem levadas de volta à sua própria nação, o povo se admiraria com as serpentes e os homens seriam chamados de dois caçadores de grande habilidade e ousadia. Eles remaram até perto das serpentes e colheram-nas em sua canoa.

Antes dos dois caçadores voltarem à sua aldeia, as pessoas puderam vê-los se aproximando da grande luz que brilhava das serpentes.
Quando os caçadores chegaram as suas casas com o prêmio, as pessoas ficaram impressionadas com a captura. Todos se aglomeraram em torno das serpentes para assistir à bela luz que exalava.

As pessoas manteram as serpentes em uma canoa extra. Elas foram alimentadas diariamente, e logo começaram a comer 24 horas do dia. Elas cresceram ficando muito grande para a canoa, e tiveram que ser transferidas para uma jaula construída especialmente para esse fim.
No início as serpentes foram alimentadas com mosquitos, moscas e outros insetos. À medida que aumentava comiam pequenos animais como coelhos, guaxinins e ratos. Logo elas ficaram tão grandes que precisavam ser alimentadas por veados e alces.

Um dia, as serpentes se tornaram tão grandes que elas conseguiram escapar de sua jaula. Elas atacaram as crianças e engoliram um punhado delas inteiras. As pessoas estavam em circunstâncias terríveis. Elas podiam ver as crianças se mexendo nas entranhas do ouro e de prata das enormes serpentes.

Eles atacaram essas serpentes com os tacapes, com flechas e lanças, mas sem sucesso. As serpentes continuaram a assolar a aldeia, matando mais e mais das pessoas e engolindo mais crianças.
Finalmente, elas deixaram a aldeia e foram para o mato.

As pessoas lutavam entre si quanto ao que fazer. Eles não poderiam concordar quanto ao que foi a melhor maneira de parar as serpentes. Eles lutaram até que se tornou demasiado tarde e as serpentes desapareceram.
A serpente de ouro foi para o sul, e a de prata para o norte. [...]
(Literatura Indígena)


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Pensamentando

Cinema e dependência
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Por Luiz Rosemberg Filho & Sindoval Aguiar, do Rio de Janeiro




Colagem de Luiz Rosemberg Filho


A TV Globo, por sua própria história, esteve sempre afinada com o controle dos meios de produção e o que a globalização e os monopólios mais exigem: a transformação de tudo em produto vulgar, em um mercado de consumo controlado.

“... ninguém pode melhorar a escola ou a casa paterna, se não se destrói o Estado que necessita desta má escola e desta má casa.” - Walter Benjamin

No Brasil faz-se uma televisão de bordel, onde todos são vendidos como sérios, só que fixados numa planificação mecanicista com a bênção do capital, da prostituição, da burocracia infernal e do sucesso. E com isso nos fazem consumir as muitas aberrações da produção milionária de quinquilharias poluidoras da vida, do saber e do olhar. A TV torna-se item principal de um fundo de reserva para fabricação de cadáveres. Sem que se perceba, somos eliminados nesse novo campo de extermínio.

Ora, e esse oásis de possibilidades malditas não serve bem ao poder, seja lá de que partido for? E o poder não traz sempre consigo uma íntima conexão com o autoritarismo, como forma de valorização de uma total submissão ao velho fascismo, mais vivo do que nunca? Vivemos todos a circularidade da imbecilidade como regra, modelo e tradição. O que interessa ao país da TV é uma reconciliação com o mal, capaz de explorar uma super consolidação de fascismos. Como bem dizia o mestre Artaud: “Entre o real e mim, estou eu, e minha deformação pessoal dos fantasmas da realidade.” Que espantosamente a TV multiplica, para que só se viva o grotesco, o sinistro e o monstruoso lado da vida. Vida sem vontade. Vida sem sonho. Vida sem potência. Deslizes calculados numa desapropriação de saberes.

Ora, faz-se uma TV-Morta na degeneração grotesca e espetacular (Ratinhos, Datenas, Malafais, Didis, Xuxas, Galisteus...) do humano e do saber. Infantiliza-se com tudo e todos. Na rigidez do modelo, a comunicação, o “amor”, a religião, a bunda e o sucesso numa fixação de vazios exemplares. Grita o marionete engomadinho fantasiado de esperto: “ – Palmas para o senhor Jesus!” E o excremental discurso que se segue torna-se produto vendável aos fiéis desinformados e bestificados.

Na TV tudo está à venda: da perua que quer ser “celebridade e atriz” à Bíblia, passando pela cueca do canastrão das novelas. Sem perceber, o espectador torna-se o soldadinho de uma moralidade duvidosa a serviço da ridicularização do pensamento, no uso do atraso como plataforma cívica na defesa de um capitalismo retorcido, bárbaro e reforçado por seus tantos crimes. Não refundaram a IV Frota? E para quê? Para jogar ping-pong com o Continente?

A ferocidade da TV nada nos diz ou nos faz compreender sobre a vida. Ao rejeitar o saber, torna-se uma espécie de hospitalização da vontade e da verdade. Usa e abusa da debilidade mental como instalação da ideologia dominante. Um real engajamento na mutilação do desejo. Como ser feliz assim? A TV nos torna agonizantes diante do nosso próprio reflexo. À deriva nos adaptamos a uma desejada idealização da morte. Ainda nos causa perplexidade o domínio nocivo da TV sobre o pensamento e a política.

“Atores”, dramaturgos, idiotas, religiosos e jornalistas atuando numa moralidade duvidosa, sem inquietação alguma. Mas para se evidenciar o quê? O país real com todas as suas contradições expostas ou só a pobreza em forma de espetáculo? Graças a “sons” e “imagens” sem sentimento, saber ou olhar, múltiplas abordagens de um só movimento de desmantelamento do saber. Ao contrário do velho cinema brasileiro, que tentou pensar e transformar o país, o que se vive e faz hoje é uma atrofia profunda dos sonhos numa acentuação rigorosa da ideologia dominante. E o Big Bunda Brasil, o louro José, dona Xuxa e Gugu... são os apaziguadores dessa vontade sem potência alguma, porque só produzem lixo. Mas, ao mesmo tempo, precisam da audiência, pois todos se julgam profissionais da comunicação.

Sabemos muito bem que a dependência do cinema brasileiro não é única no mundo, principalmente no mundo globalizado, a caminho de um governo único e mundial. Acontece que a dependência do nosso cinema é também a dependência do país, desde que o mundo é mundo para nós: da Colônia, Independência, República e a Globalização.

Vejamos a nossa dependência em relação aos outros. Os outros lutam num nível elevadíssimo econômico e cultural para a manutenção e a proteção de seu cinema, com autonomismo hegemônico em suas manifestações, movimentos culturais e políticos, interna e externamente. Estes países têm consciência dos perigos que tais controles do cinema podem causar, não somente em suas economias mas, em especial, em suas culturas. Embora os desenvolvidos tenham também suas concepções imperialistas e não corram os riscos, como nós, da submissão total e de uma dominação mais profunda.

É lógico que, para falarmos de um país dependente como o nosso, teríamos que recorrer à evolução de nossa história, de sua condição e estrutura socioeconômica e política, além de muitas outras questões que envolvem princípios, recorrências e fatalidades. Principalmente, as de nossa burguesia predadora, mais do que individualista e sem qualquer visão de país, como a que se instalou na área de comunicação e nas televisões. Senhoras da mídia, como a burguesia foi sempre do poder!

O cinema nacional está sendo vítima de sua própria forma de produção por se concentrar quase nas mãos de um único produtor, a TV Globo. Situação que irá nos tornar eternamente cativos e dependentes de suas tantas aberrações para com o pensamento e o saber. Esta união maldita de monopólio e oligopólio; esta luta eterna de um Brasil dependente.

Com isso, nosso cinema nunca se libertou dos princípios da heteronomia: a do fazer, pensar e se extinguir com as leis, as idéias e as decisões do outro. O mesmo cinema que já conheceu os princípios de alguma independência, nunca bem vista por uma elite individualista, centralizadora, complexada e excludente na economia, na política e na cultura.

O cinema brasileiro vive hoje o mesmo ciclo de nossa agricultura no século XIX, de base escravista, com a Globo produzindo, distribuindo e exibindo lixo, como deveria ser todo o cinema nacional não corrompido pelo dinheiro e a alienação. E por que isso ocorre? Por ser a Globo um dos nossos principais fatores de dependência e na defesa de toda uma condição heteronômica, já denunciada.

Não queremos um cinema para uma empresa, queremos um cinema para um país! Com suas diferenças, condições e contradições econômicas, políticas e culturais, onde todos possamos caminhar até o patamar em que as diferenças sejam menos assimétricas e menos dependentes.

Infelizmente nossas reflexões não têm levado aos objetivos necessários, os de alguma mudança. A acomodação está se tornando perigosa ao nosso cinema, porque as idéias centralizadoras só podem conduzir ao fascismo, como na política. E a TV Globo, pela sua própria história, condições e estrutura econômica e política, esteve sempre afinada com o controle dos meios de produção e o que a globalização e os monopólios mais exigem: a transformação de tudo em produto vulgar, em um mercado de consumo controlado. Um imenso BBB para todas as gerações. De 8 a 80 anos! Esta é a retomada ilusória do nosso cinema! Pena.

15/5/2010

Fonte: ViaPolítica/Os autores

Mais sobre Luiz Rosemberg Filho
rosemba1@gmail.com

Veja, em ViaPolítica, o curta metragem “Sem Título”, de Luiz Rosemberg Filho

Mais sobre Sindoval Aguiar

Saramago

BREVE LEMBRANÇA DE JOSE SARAMAGO
--- Em sex, 18/6/10, Carlos Lungarzo escreveu:


De: Carlos Lungarzo
Assunto: BREVE LEMBRANÇA DE JOSE SARAMAGO
Para: carlos.lungarzo@gmail.com
Data: Sexta-feira, 18 de Junho de 2010, 18:50




Imaginação e Direitos Humanos
Uma Breve Lembrança de José Saramago
Carlos Alberto Lungarzo
Anistia Internacional (USA) – 2152711
Hoje, 18 de junho de 2010, a cultura universal e o humanismo tiveram seu dia mais aciago desde 15 de Abril de 1980, quando faleceu Jean-Paul Sartre, um dos intelectuais mais completos do século e um dos maiores ativistas da história. Foi anunciada a morte de José de Sousa Saramago, o mais celebrado escritor da língua portuguesa, pensador finíssimo e criativo, narrador original e intenso, a figura que fez a delícia de várias gerações de mentes sensíveis e progressistas.
Mas não tenho cacife nem faz parte de minha missão me referir ao grande mestre em sua qualidade de literato, filósofo e artista. Quero que esta nota (que deve ser breve, pela urgência de torná-la pública) se refira a seu aspecto mais importante: os direitos humanos.
Digo isto, porque, junto ou acima de sua lendária celebridade como escritor no mundo todo, nada foi mais importante que sua defesa da condição humana. Saramago não foi apenas um literato que expressou, através de sua arte, uma visão humanista e progressista do mundo. Foi um homem comprometido, um observador e um ator consciente e corajoso, um batalhador que assumiu riscos radicais, desde que emergeu, em sua juventude, de uma região do mundo dominada pelo fascismo e o obscurantismo, até anos recentes.
Diferente das outras duas figuras históricas com as quais possui grande afinidade, Sartre e Bertrand Russell (1872-1970), Saramago nasceu numa família que não provinha da burguesia intelectual francesa, nem, menos ainda, da nobreza britânica, mas de uma família de trabalhadores pobres que lutava contra a devastadora miséria das vielas da Freguesia de Azinhaga, e que se deslocou a Lisboa logo que fora possível.
Se Portugal foi um estado fascista até o começo da década de 70, podemos imaginar como se vivia naquele sofrido extremo da Europa quando Saramago se aproximava dos 15 anos, com a sangrenta imagem do falangismo espanhol batendo nas fronteiras de Portugal, e as atrocidades do Salazarismo em sua própria terra.
A vida de Saramago é pública e bem conhecida. Quero falar um pouco de minhas vivências sobre o grande escritor, a partir de minha condição de ativista dos Direitos Humanos.
No ano 1989, quando um grupo de garotos e meninas inexperientes tentou evitar uma quarta tentativa de golpe militar na Argentina, num esforço generoso de defender a democracia, os ativistas foram alvo de uma tocaia tendida pelo exército, onde muitos deles foram metralhados, queimados com bombas de napalm, e alvejados por bazucas. Mais de 40 foram capturados e submetidos a bárbaras torturas. A democracia não estava grata a seus defensores. Pelo contrário, aqueles infames e covardes politiqueiros odiavam esses jovens ingênuos que tinham estorvado o objetivo das máfias políticas argentinas: reconciliar-se com os militares para continuar a repressão pela via “legal”.
Este caso, chamado La Tablada, pelo nome da cidade onde foi tendida a cilada, é muito longo e complexo. Suas sequelas duraram até o ano 2000. Onze anos após o massacre, as vítimas que foram capturadas vivas e torturadas, estavam cumprindo, com sentença sem julgamento, penas que iam de 20 anos a prisão perpétua. Os corruptos juízes tinham entregado os documentos ao procurador militar, para que ele decidisse, mantendo longe os advogados da defesa, e proibindo a possibilidade de recurso. Durante o governo mafioso e neofascista de Menem (1990-1999), Argentina desobedeceu as exigências da CIDH da OEA (chefiada na época pelo grande mestre dos DH na América do Sul, Hélio Bicudo) de submeter a julgamento àquelas vítimas.
Em 2000, quando assumiu De La Rua, um bacharel ardiloso, as vítimas pensaram que teriam uma esperança. O novo presidente não era um terrorista de estado, como Menem, nem estava implicado em crimes contra a Humanidade como aquele; era apenas um moderado colaborador da direita que podia ser pressionado. A única alternativa dos jovens era morrer dignamente, e começaram uma greve de fome que, em total, durou quase três meses.
Foi então que soube da generosidade de Saramago. Não foi o único prêmio Nobel. Também, Rigoberta Manchu, Pérez Esquivel e outros colaboraram conosco. No entanto, o mais comovente foi sua humildade e objetividade. Ele escreveu uma carta ao Presidente De La Rua, quem deve ter tomado conhecimento do escritor pela primeira vez na vida.
Não lembro literalmente de todo o conteúdo, e não quero distorcê-la, mas lembro seu espírito e as primeiras linhas.
Ele dizia que um prêmio Nobel não tem nada de especial, mas, às vezes a sociedade distingue algumas pessoas, e isso torna a voz delas pessoas mais escutada que a de outras. Não era só modéstia. Era o sentimento profundo do valor relativo das premiações, que tanto deslumbram os buscadores de prestígio e os temperamentos preconceituosos.
Saramago lutou por essa e por muitas outras causas até o final, e é muito difícil avaliar numa rápida olhada quando lhe devem as causas nobres, progressistas e humanitárias ao longo de uma vida, primeiro, assombrada pelo fascismo tradicional, depois, pelo fascismo de mercado, e atualmente, pelo vandálico neoliberalismo.
E foram essas forças trevosas as maiores inimigas do afável e simples Seu José.
Saramago foi tortuosamente acusado de antisemita, por ter expressado, com uma isenção e serenidade alheia a quase todo o resto da esquerda (que generaliza o terrorismo de estado israelense a toda a ideologia sionista), um fato singelo e objetivo: não pode usar-se o pretexto de ter sofrido, para provocar o sofrimento dos outros.
Mas esta posição de crítica objetiva ao terrorismo israelense, o diferenciando do sionismo em geral, também compartilhada por Noam Chomsky e dúzias de intelectuais judeus e não judeus, não é seu principal gesto em defesa dos valores humanos.
Saramago desafiou forças muito mais intensas, ancoradas na península Luso-Ibérica desde os tempos dos reis visigodos, como a superstição e o nacionalismo. Neste último sentido, o escritor se definiu em favor de uma federação Espanha-Portugal, ressaltando a importância da fraternidade das nações e desprezando a ideia fetichista de que a pátria pode ter sentido independente dos habitantes. Ele voltava assim, as fontes mais puras do comunismo clássico, antes do chamado “nacionalismo de esquerda”.
Como Giordano Bruno, Galileu, Miguel Servet, Goya, e outras celebridades capitais na história do pensamento e da ação, Saramago foi alvo do ódio da Igreja Católica. Ao longo da vida cultural de Ocidente, foram poucos os pensadores que ousaram dizer, singelamente, que não existia nenhuma prova da existência de Deus, e que as pessoas acreditavam por diversas razões (entre elas, o temor).
Com efeito, até as mentes consideradas lúcidas, esmolavam moderação da crueldade doentia do Santo Ofício. A colocação de uma filosofia realmente humanista (que teve alguns traços nos hedonistas e céticos gregos) só conseguiu consistência com os mecanicistas franceses, e especialmente com as correntes que surgem do marxismo e do anarquismo.
Saramago se insere nesse grupo de vozes esclarecidas, modestamente seguras, sem empáfia nem alarde. Teve a seu favor o fato de ter vivido numa época em que as fogueiras da Inquisição parecem apagadas... ou amortecidas. Sua defesa do humanismo, seu espírito de tolerância, e seu reconhecimento da beleza de alguns textos teológicos (a despeito de seu vácuo conceitual) são únicos em nossa época. Compartilha com Sartre, Russell e Camus a desmistificação da sacralidade. Mas, Sartre expressa suas ideias não com o senso comum, mas com uma filosofia de compreensão árdua; Russell, como quase todo cientista, não atingiu a popularidade que consegue um artista ou um literato; e Camus, apesar de seu agnosticismo e humanismo, defende uma solução egoísta e individual, porque o homem que ele liberta encarna a luta pessoal e não a solidariedade.
Creio que Saramago está ainda em vantagem com Noam Chomsky, pois sua humildade e objetividade o conduzem a uma visão equilibrada do universo. Ele disse que a Bíblia é um "manual de maus costumes, [...] um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana", mas nada há nisto que não possa ser demonstrado. Não é o produto de nenhuma parcialidade, mas do amor e preocupação por uma humanidade sadicamente ferida pelas trevas espalhadas pelas teocracias.
José Saramago nunca diminuiu seus esforços pela Humanidade, e os manteve ativos em quanto sua saúde física permitiu. Ninguém pode contra uma doença terminal, porque justamente, essa fragilidade faz parte de nossa natureza biológica. No ano passado tentei me comunicar com ele, para adicionar seu nome à lista de Prêmios Nobel e outras celebridades que pediram a libertação de Cesare Battisti. Não tenho dúvida de que ele teria aderido com entusiasmo. Mas, sem que eu soubesse, ele estava sofrendo os estragos finais da leucemia e meu e-mail não chegou a destino.
Ao transformar-se de novo a brilhante mente e a fina sensibilidade de José Samarago, num conjunto de células sem vida, as perdemos de maneira definitiva. Sabemos que nem um átomo de seu eu sobreviverá em lugar algum. Mas fica sua obra e sua lembrança para iluminar a noite do mundo supersticioso, racista e sanguinário que ainda vivemos.

(De um emeio recebido)

José Saramago: "O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas"

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Amigos:

Acaba de falecer na manhã desta sexta-feira, dia 18 de junho de 2010, o escritor José Saramago. Acho que não há nada que eu possa fazer para homenageá-lo além de lhes repassar essa maravilha de discurso abaixo, que ele proferiu ao receber o Prêmio Nobel de Literatura.
Muito sentida,
Urda Alice Klueger - BRASIL
Discurso na Academia Sueca
(ao receber o Prêmio Nobel de Literatura)

José Saramago

O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.

Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.

Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.

Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.

Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza".

Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.


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