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sábado, 27 de março de 2010

"Pé de galinha não machuca pinto"- O Que leva um pai a matar sua filha?

Enfim, acaba o Show.

  O relógio, antigo,  de minha casa dava uma badalada: 1:00 h de um novo dia.

Na tv., a Globo News transmitia o final do julgamento do "caso Izabella Nardoni".

Pela tv. viamos  atras das grades(portão que separava a multidão ), uma multidão comemorava . Mães com crianças nos colos ( naquela hora) , gritavam emocionadas: Justiça, Justiça.

Enfim, em meio a greve dos professores, que foram MASSACRADOS pela TROPA DE CHOQUE de José Serra, o paulista parava tudo para se ver vingado .

Os Escandalos de Arruda,o governador corrupto que segue o exemplo de Serra ( palavras dele) ,  a prisão dos MEGA EMPRESARIOS da ALSTON, empresa que desviou milhoes junto ao governo de José Serra, no caso do METRO DE SAO PAULO, ali, ao lado do local onde  aquele mesmo pessoal se sentia vingado, nada ameaçava a atenção dos paulistanos. NOTEI PASMA, BESTIFICADA

Eu sinceramente não vi motivo de tanta comemoração: Justiça é OBRIGAÇÃO. Punir os culpados é dever do estado, não pode ser regra.

E Como O SHOW TEM QUE CONTINUAR, gostaria de ver provocado um debate necessario. Gostaria de ver a mesma mídia sensacionalista, causar furor social em revelar a uma sociedade capaz de esquecer TANTAS ISABELAS DIARIAS e aguardar um julgamento que estava na cara, só podia ter um resultado - justo resultado: CONDENAR os culpados.

Putz, mas dentre os culpados tem O PAI de Isabela. E quando a mídia mostros algo que iniciasse um debate necessario:

" SE PÉ DE GALINHA NÃO MACHUCA PINTO", o que leva um pai a matar um filho?

O que leva um pai, ou uma mãe a  vender uma filha, seja nos cafundó do sertão nordestino , que uma mãe vende uma filha de 8,9,10 anos para um "viajante qualquer", por qualquer 50 reais ( LEMBRANDO QUE o nordeste é o local "produtor" de  tráfico de mulheres e de órgãos ), ou via TV. GLOBO, num de tantos exemplos, no caso da mãe da "Brother" Fernanda, que para ser "heroina-mor" é aconselhada a transar muito, muito normal, como se a mãe estivesse mandando a filha tomar banho ou almoçar.Os Brothers essa semana ficarão mais tranquilos, o SHOW estava garantido , o Ibope também.

 Vi uma foto da mãe da Isabella, ilustrando uma   declaração:
O VAZIO É GRANDE, Nada vai trazer minha filha de volta!
Sou solidária a essa mãe. E a outras tantas, que diariamente perdem seus filhos...

E a mídia, a mesma mídia que esconde o bandido de colarinho branco , que mostra novelas onde a familia, em todos os núcleos é um detalhe (Alguém conhece uma família feliz em alguma novela da TV?), fará o que?

ISABELLAS continuam morrendo. Mês passado em JF- MG um pai mata os filhos e a esposa. Nossa sociedade está doente.
No ES, tem quase 40 anos, que Aracelli morreu. Morreu vítima do trafico de drogas, era avião de sua mãe.
Ao menos uma criança agora está sendo espancada. Estuprada por um pai....

Nada trará as ISABELLAS de volta, mas podemos mudar ou ao menos reverter o processo de aculturamento e a perda de valores em nossa sociedade.

E as transmissoras desse sensacionalismo histerico , deveriam seguir comandando o "show " , mas duvido que farão, ao contrário, passado o julgamento, voltaremos aos "herois" de Bial e os casos sexuais familiares das novelas .

Enquanto outras Isabellas morrem no anonimato.

E SEGUE A BOIADA

E SEGUE A BOIADA


Laerte Braga


Terminado o show Nardoni o jornal FOLHA DE SÃO PAULO estampou em sua primeira página, edição de 27 de março, os resultados de uma pesquisa do Instituto Data Folha dando vantagem de nove pontos percentuais ao governador de São Paulo José Collor Arruda Serra.

Ao contrário de todas as demais pesquisas inclusive do IBOPE, que detectam ascensão de Dilma e queda de Arruda Serra.

Mais ou menos como o sinal de partida para a corrida eleitoral, pelo menos até copa do mundo e tentando amenizar o impacto exatamente das outras pesquisas, buscando dar sobrevida à candidatura do governador paulista. Arruda Serra já disse a mais de uma pessoa em seu partido e fora dele que preferia não ser candidato a presidente.

Atenuar a queda dos índices do governador Arruda Serra. Dar fôlego a um paciente em estado terminal.

Faz parte do show fabricar fatos e gerar notícias na tentativa de desviar a boiada do caminho indesejado, no caso de FOLHA DE SÃO PAULO e da grande mídia, desviar o eleitor do voto em Dilma Roussef.

Como a turma da GLOBO estivesse exausta cobrindo até a última gota o sangue da menina Isabela, coube à FOLHA a tarefa de tentar evitar a queda do avião tucano/DEM.

Aproveitar o espaço e a ressaca do caso Nardoni e começar a tanger o gado noutra direção.

Foi assim em várias outras ocasiões e é assim que vão tentar fazer até o último minuto do jogo eleitoral. Para esse tipo de mídia, marrom, não importam os fatos reais, mas a versão que querem, desejam.

“Os povos gostam do espetáculo, através dele dominamos seu espírito e seu coração”. Luís XIV, rei de França.

Um outro espetáculo, o de mães com crianças ao colo, pela madrugada e à porta do fórum onde foram julgados os Nardonis. Lembraram as cenas de velhos filmes de faroeste em que a multidão cercava a delegacia e exigiam que o preso fosse linchado.

É fácil tanger essa boiada. De agora em diante estarão todos empenhados em buscar justiça no final do BBB. Funcionar como jurados para decidir quem leva um milhão e meio de reais. A sensação que o povo decide alguma coisa. Pode qualquer coisa na cabeça dos donos, desde que não mude absolutamente nada, ou não sejam permitidos novos avanços em termos de conquistas dos trabalhadores.

Um por cento dos proprietários rurais, latifundiários, grandes proprietários, paga a contribuição previdenciária de seus empregados. Noventa e nove por cento não. Os dados são da própria Confederação Nacional da Agricultura.

Trabalho escravo sob a batuta de miss desmatamento, a senadora Kátia Abreu do DEM.

As condições miseráveis, vergonhosas a que esses trabalhadores são levados não passa na GLOBO, não merece caravana da cidadania e tampouco que sejam levadas ao conhecimento da boiada. De repente pode haver um estouro e a coisa desandar.

Tem que existir sempre uma pesquisa mentirosa pronta para salvar as elites. Como aquele técnico que perdendo de nove a zero manda “os arfie arrecuá pra evitá a castastre”.

A Operação Satiagraha, conduzida pelo delegado Protógenes Queiroz foi considerada correta pelo Superior Tribunal de Justiça. O delegado foi execrado pelo presidente do STF DANTAS INCORPORATION LTD, Gilmar Mendes. Queria inclusive, o presidente da empresa que o juiz Fausto De Sanctis fosse afastado do processo. Não foi. A farsa de falsas gravações de conversas do ministro com um senador do DEM não sobrevive a uma perícia, já que o esquema agora é perícia.

Foi montada nos laboratórios de VEJA, na terceirizada CORRUPÇÃO PSDB/DEM INC. LTD.

“O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não vivo” – Guy Debort, A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO –.

No espetáculo de boçalidade da PM paulista contra professores que reclamam melhores condições de trabalho e melhores salários, em tudo e por tudo, numa educação pública sucateada por Arruda/Serra (não gera propina para caixa dois) um professor carrega um PM ferido no choque. Carrega ao colo.



Arruda/Serra não tem a menor idéia do que seja isso. Entende muito de “quanto vão pagar para realizar as obras do metrô porque tenho que pagar à FOLHA DE SÃO PAULO pela pesquisa que montaram para mim”. Caixa dois, a turma que pagou está presa na Inglaterra e causando terremotos aqui, entre tucanos e DEMocratas.

A foto é de Clayton de Sousa, da AGÊNCIA ESTADO e está dando a volta ao mundo por conta do seu extraordinário significado se tentarmos imaginar que ainda somos seres humanos. O professor o é, claro, o PM vai acabar aprendendo, tomara. Retirei de


A FOLHA é aquele jornal que emprestava os carros para que os torturadores desovassem os corpos dos presos políticos mortos nos quartéis da tortura e exibidos á sociedade como vítimas de atropelamento.

Os Nardonis, criminosos cruéis com certeza, foram condenados com base em indícios concretos e indesmentíveis de provas periciais. A investigação policial foi um desastre. Como quase todas. Mexeram no local antes da perícia chegar, delegado e delegada falaram pelos cotovelos para a mídia, propuseram acordo ao casal, ameaçaram, um assumia a culpa, outro saia livre, enfim, tudo para ao final apresentarem os culpados com aquela bandeira atrás – Polícia Civil –.

Um juiz, não faz muito tempo, reclamou que tinha que fazer um esforço tremendo para condenar determinados criminosos. É que o que vinha da Polícia não prestava como prova.

Quem sabe a lição do professor carregando o PM ferido?

Essa turma da mídia chama todo esse processo de democrático, cristão, ocidental e acha que isso é livre expressão.

Ê boi!

Comandante TOLEDO: Para sempre PRESENTE!

Carlos Eugenio Paz, o Comandante Clemente, querido camarada e combatente, não deixa esquecer:
" Há 40 anos a repressão política da ditadura civil-militar de direita assassinou Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, nosso querido Velho, Comandante da Ação Libertadora Nacional. Aproveitemos para saber mais da vida e dos exemplos desse grande revolucionário"


Jornalista, Comandante da AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL (ALN). Nasceu a 5 de setembro de 1913 em São Paulo, Brasil. Entrou para o Partido Comunista, em 1933 e dedicou sua vida à causa da libertação do povo brasileiro.
 Em 1946, elegeu-se vereador em Jaboticabal, cidade do interior de São Paulo. Mas no ano seguinte, com a cassação do registro eleitoral do PCB, perdeu seu mandato. Em 1953, Toledo atuou de forma destacada na greve geral em São Paulo. Chegou a ser também vogal da Justiça do Trabalho. Em 1964, foi preso pelos órgãos policiais por realizar uma palestra para operários, em São Bernardo do Campo, sobre “O papel da Imprensa na luta pelas reformas de base”, sendo libertado pouco depois. Foi condenado, à revelia, pela ditadura militar, a 2 anos de reclusão.
 Em novembro de 1969, após o  assassinato de Marighella, retorna de  Cuba para  assumir o comando da ALN.
Preso no dia 23 de outubro de 1970 Joaquim Câmara Ferreira, sucessor de Mariguela no comando da ALN. Levado ao sítio clandestino do del. Fleury em São Paulo, sob violentas torturas, falece horas depois. 
Fontes:  Vermelho
Grupo Tortura Nunca Mais - RJ

O TRAIDOR DE TOLEDO ::
Por Rosa Paz: "Camarada, foi uma das perdas mais sofridas dessa época. O Jornal mineiro traz reportagem sobre traidor da esquerda armada em 1970
Por pela abertura dos arquivos da ditadura 18/01/2009 às 12:12

O jornal Estado de Minas deste domingo publicou reportagem sobre o empresário José Silva Tavares, 62 anos, que vive em Minas e que teria sido cooptado pelo DOI-CODI. Foi ele quem traiu a ALN de Carlos Marighella, entregando o comandante Joaquim Câmara Ferreira para o chefe da esquadrão da morte, delegado Fleury.

Ele estará sempre em nossos pensamentos e reflete em nossas ações."
Tem disponivel para leitura  o Livro:

Brasil pede perdão a familiares de assassinados/torturados na ditadura brasileira

Brasil

25 de Março de 2010 - 22h49

Brasil pede perdão a familiares de comunistas assassinados

Após sessão em homenagem aos 88 anos do PCdoB na Câmara de São Paulo, a Comissão de Anistia julgou cinco pedidos. Entre eles os dos comunistas Dinaelza Coqueiro e Maurício Grabois, o do ex-militante da ALN, Vanderley Caixe e de outros três requerimentos de familiares de Angelo Arroyo. A todos, o Estado brasileiro – através da vice-presidente da Comissão, Suelli Bellato – pediu perdão pelos males causados aos perseguidos pela ditadura.

Vitória Grabois Vitória, filha de Maurício Grabois, fala sobre o pai
O primeiro caso julgado foi o de Maurício Grabois. Sua família pleiteou apenas a declaração de anistiado, abrindo mão da reparação econômica.

Vitória Lavínia, filha do dirigente comunista morto pelos militares em 1973 durante a Guerrilha do Araguaia, disse que “nossa família foi especialmente atingida. Perdi meu pai, meu irmão André e meu marido Gilberto (Olimpio Maria)”. Para ela, “a ditadura foi devastadora porque matou os melhores filhos de nosso povo”.

Vitória também protestou, defendendo a abertura dos arquivos e a busca dos restos mortais dos desaparecidos. “Também queremos justiça e que os assassinos da ditadura sejam julgados e condenados por seus crimes”.

Líder do PCdoB, Maurício Grabois exerceu intensa militância política junto ao partido e em prol das liberdades democráticas. Assumiu papel de destaque na Guerrilha do Araguaia e, segundo relatos, morreu em novembro de 1973 pelas mãos do regime militar. Consta do rol dos mortos e desaparecidos políticos e até a presente data, seu corpo não foi encontrado.

Famílias mutiladas
Em seguida, Dolores Arroyo (na foto, emocionada), viúva de Ângelo, morto em 1976 na Chacina da Lapa, Lenine e Camila Arroyo, filhos, foram anistiados. Os três tiveram de mudar sua identidade devido à perseguição política.

Dolores – hoje com 80 anos – e Ângelo – que completaria 82 –, eram operários e militantes comunistas que se casaram em São Paulo em 1953. Por sua atuação, Dolores foi presa em 1950 por “atentado contra a liberdade do trabalho” e “paralisação de trabalho seguida de violência ou perturbação da ordem”.

Com o golpe de 1964, a família passa a viver na clandestinidade e muda-se para Anápolis (GO), onde adota o nome de Maria Cordona. Seu marido passou a ser Agenor Cardoso e os filhos Antonio Cardoso e Encarnação Cardoso. Camila e Lenine foram afastados do convívio familiar com seu pai diante do acirramento das perseguições ao dirigente. Ambos ficaram sabendo de sua morte pelos jornais e não puderam acompanhar seu enterro.

Dinaelza Coqueiro, guerrilheira morta no Araguaia em abril de 1974, também foi anistiada em caráter post mortem. Sua mãe, Junilia Soares Santana, hoje com 90 anos, receberá a indenização paga pelo Estado devido ao fato de ter ficado comprovado que sua filha era arrimo de família quando passou a ser perseguida.

“Mariadina”, como era conhecida, era uma das guerrilheiras mais temidas pelos militares, conforme depoimentos de camponeses da região do Bico do Papagaio – que engloba partes dos estados do Pará e de Goiás, atualmente Tocantins – onde aconteceram os confrontos da Guerrilha do Araguaia.
Conforme o livro “Direito à Memória e à Verdade”, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, ela teria sido capturada pelos militares e morta quando já não oferecia resistência. Antes, ela teria enfrentado seus algozes, cuspindo a cara de um deles e xingando o Major Curió.

Para Diva Santana (foto), sua irmã, que representava a mãe na sessão, “a concessão da anistia é um resgate da história de Mariadina. Quero manifestar o meu reconhecimento à Comissão, que pela primeira vez, representando o Estado, pediu perdão a esses brasileiros. É uma contribuição à nossa história e ao nosso futuro”.

O último caso analisado foi o de Vanderley Caixe. Membro e militante da Frente Aliança Libertadora Nacional, foi punido pelo Ato Institucional nº 02. Indiciado em inquérito policial e denunciado como incurso nas penas da Lei de Segurança Nacional, ficou preso por cinco anos. Como advogado, atuou em favor dos trabalhadores rurais na Paraíba. Ainda no ramo do Direito, tem trabalhado em prol de presos políticos latino-americanos com atuação junto à Corte Interamericana e da Comissão de Direitos Humanos da ONU.

Emocionado, Caixe reafirmou seus princípios socialistas e se disse agradecido pelo reconhecimento. “Sempre lutei e continuarei lutando pelo socialismo, pela liberdade”.

De São Paulo,
Priscila Lobregatte, com fotos de Marcos Slavov

Leia também: Grabois, Arroyo e Dinaelza são o cimento construtor do PCdoB
Enviado pela Comissao de anistia de 68 - Associação 64/68 de anistia

Um ensinamento dos Mestres - Inesquecivel. Aprende aí, serra!


 O Blog  Juntos Somos Fortes, vem a público homenagear e agrdecer aos professores paulista o importante resgate moral que fizeram e está retratado na foto. 
Aos MESTRES , nosso carinho!
 
Quando a pesquisa agrada aos retardados eles acreditam.
Aí não tem fraude, é a mais pura expressão da verdade.

o-professor-e-o-pm.jpg
Leandro Fortes

Muito ainda se falará dessa foto de Clayton de Souza, da Agência Estado, por tudo que ela significa e dignifica, apesar do imenso paradoxo que encerra.

A insolvência moral da política paulista gerou esse instantâneo estupendo, repleto de um simbolismo extremamente caro à natureza humana, cheio de amor e dor.


Este professor que carrega o PM ferido é um quadro da arte absurda em que se transformou um governo sustentado artificialmente pela mídia e por coronéis do capital.

É um mural multifacetado de significados, tudo resumido numa imagem inesquecível eternizada por um fotojornalista num momento solitário de glória.

Ao desprezar o movimento grevista dos professores, ao debochar dos movimentos sociais e autorizar sua polícia a descer o cacete no corpo docente, José Serra conseguiu produzir, ao mesmo tempo, uma obra prima fotográfica, uma elegia à solidariedade humana e uma peça de campanha para Dilma Rousseff.

Inesquecível, Serra, inesquecível.
 
Enviado por Esquerdopata

Cuba: Dissidentes ou Traidores???

Escrito por Atilio A. Boron A "imprensa livre" da Europa e das Américas – essa que mentiu descaradamente ao dizer que existiam armas de destruição em massa no Iraque ou que qualificou de "interinato" o regime golpista de Micheletti em Honduras – redobrou sua feroz campanha contra Cuba. Impõe-se, portanto, distinguir entre a razão de fundo e o pretexto. A primeira, e que estabelece o marco global dessa campanha, é a contra-ofensiva imperial desencadeada desde fins da administração Bush, cujo exemplo mais eloqüente foi a reativação e mobilização da IV Frota Naval. Contra os prognósticos de alguns iludidos, essa política ditada pelo complexo militar-industrial não só continuou, como se aprofundou, por conta do recente tratado firmado por Obama e Uribe, mediante o qual se concede aos EUA o uso de pelo menos sete bases militares em território colombiano, imunidade diplomática para o pessoal estadunidense envolvido em suas operações, licença para introduzir ou tirar do país qualquer tipo de carregamento sem que as autoridades do país anfitrião possam sequer tomar nota do que entra ou sai e ainda o direito dos viajantes norte-americanos de entrar ou sair da Colômbia com qualquer documento que comprove sua identidade. Como se o anterior fosse pouco, a política de Washington, reconhecendo a "legalidade e legitimidade" do golpe de Estado em Honduras e as fraudulentas eleições subseqüentes, é uma mostra a mais da perversa continuidade que liga as políticas implementadas pela Casa Branca, com independência da cor da pele de seu principal ocupante. E nessa contra-ofensiva geral do império, o ataque e a desestabilização de Cuba desempenham papéis de grande importância. Essas são as razões de fundo. Mas o pretexto para esse relançamento foi o fatal desenlace da greve de fome de Orlando Zapata Tamayo, potencializado agora pela idêntica ação iniciada por outro "dissidente", Guillermo Fariñas Hernández, e que será seguida, sem dúvidas, pelas de outros partícipes e cúmplices dessa agressão. Como é bem sabido, Zapata Tamayo foi (e continua sendo) apresentando pelos "meios de desinformação de massas" - como adequadamente qualificara Noam Chomsky – como "um dissidente político", quando na realidade era um preso comum que foi recrutado pelos inimigos da revolução e utilizado inescrupulosamente como mero instrumento de seus projetos subversivos. O caso de Fariñas não é igual, mas ainda assim guarda semelhanças e aprofunda uma discussão que é imprescindível conduzir com toda a seriedade. É preciso lembrar que tais ataques têm larga história. Começam no próprio triunfo da revolução, mas, como política oficial e formal do governo dos EUA, se iniciam em 17 de março de 1960, quando o Conselho de Segurança Nacional aprovou o "Programa de Ação Encoberta" contra Cuba proposto pelo então diretor da CIA, Allen Dulles. Parcialmente desqualificado em 1991, esse programa identificava quatro cursos principais de ação, sendo os dois primeiros "a criação da oposição" e o lançamento de uma "poderosa ofensiva de propaganda" para fortalecê-la e torná-la crível. Mais claro impossível. Após o estrondoso fracasso desses planos, George W. Bush cria, dentro do próprio Departamento de Estado, uma comissão especial para promover o "cambio de regimen" em Cuba, eufemismo utilizado para evitar dizer "promover a contra-revolução". Cuba tem o duvidoso privilégio de ser o único país do mundo para o qual o Departamento de Estado elaborou um projeto de tal tipo, ratificando desse modo a vigência da doentia obsessão ianque em anexar a ilha e, por outro lado, o quão acertado estava Jose Marti quando alertou nossos povos sobre os perigos do expansionismo estadunidense. O primeiro informe dessa comissão, publicado em 2004, tinha 458 páginas e ali se explicitava com grande minúcia tudo o que se deveria fazer para introduzir a democracia liberal, respeitar os direitos humanos e estabelecer uma economia de mercado em Cuba. Para viabilizar esse plano, forneciam 59 milhões de dólares por ano (fora o que se destinava por vias obscuras), dos quais 36 milhões estariam destinados, segundo a proposta, a fomentar e financiar as atividades de dissidentes. Para resumir, o que a imprensa apresenta como uma nobre e patriótica dissidência interna pareceria mais a metódica aplicação do projeto imperial desenhado para cumprir o velho sonho da direita norte-americana de dominar Cuba definitivamente. Esclarecimento conceitual Dito o anterior, impõe-se uma precisão conceitual. Não é casual que a imprensa do sistema fale com extraordinária ligeireza sobre os "dissidentes políticos" encarcerados em Cuba. Mas, são "dissidentes políticos" ou são outra coisa? Seria difícil dizer todos, mas, com toda segurança, a maioria dos que estão na prisão não se encontra ali por dissidência política, mas sim por uma caracterização muito mais grave: "traidores da pátria". Vejamos em detalhes. No célebre Dicionário de Política de Norberto Bobbio, o cientista político Leonardo Morlino define o dissenso como "qualquer forma de desacordo sem organização estável e, portanto, não institucionalizada, que não pretende substituir o governo em suas funções por um novo, muito menos derrubar o sistema político vigente. O dissenso se expressa só no exortar, persuadir, criticar, pressionar, sempre por meios não violentos a fim de induzir os ‘tomadores de decisões’ a preferirem certas opções em lugar de outras ou a modificar decisões anteriores ou direcionamentos políticos. O dissenso nunca põe em discussão a legitimidade ou as regras fundamentais que fundam a comunidade política, mas apenas normas ou decisões bastante específicas" (p. 567-568). Mais adiante assinala que existe um limiar que, uma vez ultrapassado, transforma o dissenso, e os dissidentes, em outra coisa. "O limiar é cruzado quando se colocam em dúvida a legitimidade do sistema e suas regras de jogo, fazendo-se uso da violência; ou quando se incorre em desobediência intencional a uma norma; ou, por fim, quando o desacordo se institucionaliza na oposição, que pode ter entre seus objetivos também o de derrubar o sistema" (p. 569). Na extinta União Soviética, dois dos mais notáveis dissidentes políticos, cujo agir se ajusta à definição supracitada, foram o físico Andrei Sakharov e o escritor Alexander Isayevich Solzhenitsyn; Rudolf Bahro foi o mesmo na República Democrática Alemã; Karel Kosik, na antiga Tchecoslováquia; nos EUA destacou-se, avaliando o século passado, Martin Luther King; e em Israel de nossos dias, Mordekai Wanunu, cientista nuclear que revelou a existência do arsenal atômico deste país, o que o fez ser condenado a 18 anos de prisão sem que a "imprensa livre" tomasse nota do assunto. A dissidência cubana, diferentemente do ocorrido com Sakharov, Solzhenitsyn, Bahro, Kosik, King e Wanunu, se enquadra em outra figura jurídica, pois seu propósito é subverter a ordem constitucional e derrubar o sistema. Além do mais, e esse é o dado essencial, pretende fazê-lo colocando-se a serviço de uma potência inimiga, os Estados Unidos, que há 50 anos agridem Cuba por todos os meios imagináveis com um bloqueio integral (econômico, financeiro, tecnológico, comercial e informático), com permanentes ataques de diversos tipos e com uma legislação migratória exclusivamente desenvolvida para a ilha (a Lei de Ajuste Cubano) e que estimula a migração ilegal para os EUA, colocando em risco a vida de quem quer acorrer para seus braços em busca de benefícios. Enquanto Washington levanta um novo muro da vergonha em sua fronteira com o México para deter a entrada de imigrantes tanto astecas como da América Central, concede todos os benefícios imagináveis a quem, vindo de Cuba, ponha o pé em seu território. Quem recebe dinheiro, assessoria, conselhos, orientações de um país objetivamente inimigo de sua pátria, e atua em congruência com sua aspiração de precipitar uma "cambio de regimen" que ponha fim à revolução, pode ser considerado "dissidentes políticos"? O que eles fariam? Para responder, esqueçamos por um momento das leis cubanas e vejamos o que estabelece a legislação em outros países. A constituição dos EUA fixa em seu artigo 3 que o "o delito de traição contra os Estados Unidos consistirá apenas na tomada de armas contra a nação ou em se unir aos inimigos, dando-lhes ajuda e facilidades"; a sanção que merece tal delito fica a cargo do Congresso. Em 1953, Julius e Ethel Rosenberg foram executados na cadeira elétrica acusados de traição à pátria por terem supostamente se "unido aos inimigos", revelando segredos da fabricação da bomba atômica para a União Soviética. No caso do Chile, o Código Penal deste país estabelece em seu artigo 106 que "todo aquele que dentro do território da República conspirar contra sua segurança exterior para induzir uma potência estrangeira a guerrear contra o Chile será castigado com penas maiores, em seu grau máximo de prisão perpétua. Se são seguidas de hostilidades bélicas a pena poderá ser elevada até a própria morte". No México, país vítima de uma larga história de intervencionismo norte-americano em seus assuntos internos, o Código Penal qualifica em seu artigo 123 como delitos de traição à pátria uma ampla gama de situações, como "realizar atos contra a independência, soberania ou integridade da nação mexicana com a finalidade de submetê-la a pessoa, grupo ou governo estrangeiro; tomar parte em atos de hostilidade contra a nação, mediante ações bárbaras que possam prejudicar o México; receber qualquer benefício, ou aceitar promessa de recebê-lo; aceitar do invasor um emprego, cargo ou comissão e ditar, acordar ou votar providências encaminhadas a afirmar o governo intruso e debilitar o nacional". A penalidade prevista pela comissão desses delitos é, segundo as circunstâncias, de cinco a quarenta anos de prisão. A legislação argentina estabelece no artigo 214 de seu Código Penal que "será reprimido com reclusão ou prisão de dez a vinte e cinco anos, ou reclusão ou prisão perpétua, e tanto em um caso como em outro, inabilitação absoluta perpétua, sempre que o fato não se encontre compreendido em outra disposição deste código, todo argentino, ou pessoa que deva obediência à nação por razão de seu emprego ou função pública, que pegue em armas contra esta, se una a seus inimigos ou lhes preste qualquer ajuda ou socorro". Não é necessário prosseguir com essa simples revisão da legislação comparada para compreender que o que "imprensa livre" denomina dissidência é o que em qualquer país do mundo – começando pelos EUA, o grande promotor, organizador e financista da campanha anticubana – seria caracterizado pura e simplesmente como traição à pátria, e nenhum dos acusados jamais seria considerado "dissidente político". No caso dos cubanos, à grande maioria dos chamados dissidentes (se não todos) está imputado este delito, ao se unirem à potência estrangeira que está em aberta hostilidade contra a nação cubana e receberem seus representantes (diplomáticos ou não), dinheiro e toda sorte de apoios logísticos para, como diz a legislação mexicana, "afirmar o governo intruso e debilitar o nacional". Dito em outras palavras, para destruir a nova ordem social, econômica e política criada pela revolução. Não seria outra a caracterização que adotaria Washington para julgar um grupo de seus cidadãos que estivesse recebendo recursos de uma potência estrangeira que durante meio século tivesse acossado os EUA com o mandato de subverter a ordem constitucional. Nenhum dos genuínos dissidentes acima mencionados incorreu em seus países em tamanha infâmia. Foram implacáveis críticos de seus governos, mas jamais se puseram a serviço de um Estado estrangeiro que ambicionava oprimir sua pátria. Eram dissidentes, não traidores. Atilio A. Boron é diretor do PLED, Programa Latinoamericano de Educación a Distancia em Ciências Sociais, Buenos Aires, Argentina. Website: http://www.atilioboron.com/. Traduzido por Gabriel Brito, jornalista, Correio da Cidadania.

Mulheres

O feminismo como construção
por Sandra Monteiro

O feminismo em Portugal, logo agora que o Dia Internacional da Mulher, a 8 de Março, se comemora com honras oficiais de centenário, não anda com boa imprensa. O contexto actual do debate público sobre as relações entre os poderes político, económico e mediático até poderia favorecer reflexões muito úteis para se compreender a situação da mulher e os avanços e bloqueios às lutas pela igualdade, em particular em tempo de crise. Num exercício de paralelismo, seria mais do que pertinente chamar ao terreno dos temas feministas o escrutínio jornalístico das condições e das condicionantes do exercício da liberdade e dos direitos; da distância entre liberdades formais e concretas; dos mecanismos de poder e das ligações entre os vários poderes; e das teias de dependências que influenciam a autonomia dos sujeitos e a capacidade que estes têm de fazer escolhas realmente livres.
Em vez disso, o que temos então? Em espaços de opinião, que de facto têm regras próprias, chega-se a apresentar elementos fundamentais da libertação da mulher − direito ao trabalho e à independência económica, métodos de contracepção e suas consequências para a vivência da sexualidade e da relação com o corpo, interrupção voluntária da gravidez (IVG) e reforço da opção pela maternidade responsável, etc. − como a origem de todos os «males», sejam eles os desequilíbrios demográficos e das contas da Segurança Social ou a «quebra dos laços familiares tradicionais», passando por uma xenófoba preocupação com os caldos de «multiculturalismo» resultantes dos fluxos migratórios [1]. Estas posições não deixam de ser uma boa ilustração do motivo pelo qual os homens e as mulheres que se colocam do lado da luta pela igualdade sempre se vão encontrando, não apenas no movimento feminista, mas cada vez que se trata de combater a exploração no trabalho e o desemprego, os ataques aos direitos sociais, o racismo e a xenofobia contra imigrantes ou as discriminações que afectam homossexuais, lésbicas, bissexuais e transgéneros (LGBT).
O tipo de concepções conservadoras que vários artigos veiculam manifesta-se de forma mais suavizada, mas nem por isso menos insidiosa, em vários discursos de culpabilização das mulheres que perpassam o espaço público. Têm muitas vezes a uni-los a ideia de que a primeira culpa que as mulheres terão de expiar (e, provavelmente, também os homens…) será a sua própria identificação como feministas. Seria coisa do passado, fora de moda, uma espécie de «bengala» dos fracos que envergonha quem o invoca. Será provavelmente esse, aliás, o sentido das declarações da jornalista Felícia Cabrita na Comissão de Ética da Assembleia da República, quando se apressou a esclarecer que não é feminista, que não precisa disso, apesar de curiosamente ter associado a intenção das pressões que sobre ela alegadamente terão tentado exercer ao facto de ser mulher [2] …
Uma outra forma de culpabilização das mulheres é a que se dirige, já não a uma adesão à ideia abstracta de feminismo, mas a práticas que se tornaram possíveis após a consagração de direitos tradicionalmente associados às lutas feministas. O caso do direito à IVG fornece elementos interessantes para se perceber como quem se opõe a um direito pode manter a pressão orientada para o reverter, assim tornando premente, em contrapartida, que quem defende a posição contrária não deixe de acompanhar as condições concretas do exercício desses direitos, pois estes apenas poderão estar «adquiridos» na medida em que sejam defendidos e aprofundados.
Para assinalar os três anos da legalização da IGV em Portugal, nos termos do referendo de 11 de Fevereiro de 2010, o Diário de Notícias dedicou várias peças ao balanço da medida, consagrada na Lei de 17 de Abril de 2010 [3] . O tom geral era desde logo dado pelo artigo intitulado «Médicos avisam que o aborto é problema de saúde pública», sendo em seguida reforçado por outros que alertavam para que «87% das mulheres que abortam não usam contraceptivos» e em que se dizia que «Ana fez três abortos em três anos» ou que «Ainda há parteiras clandestinas». A Associação para o Planeamento da Família (APF) logo emitiu um comunicado [4] a desmontar o conjunto das peças do jornal, denunciando não apenas o tom geral de profunda estigmatização e culpabilização das mulheres, em grande medida por profissionais que sempre se opuseram à legalização da IVG, mas também os erros factuais (87% referir-se-ia antes ao número de mulheres que recorreram a um aborto na Maternidade Alfredo da Costa e não tinham ido a uma consulta de Planeamento Familiar no ano anterior, o que é muito diferente de não fazerem contracepção). O comunicado realçava ainda a perversidade de se usar pressupostos falsos para tratar as mulheres como «irresponsáveis» que têm a «mania de abortar», o que abria caminho à argumentação, repetida nos artigos, de que seria um «gasto imoral dos nossos impostos» praticar abortos, mesmo legais, no Serviço Nacional de Saúde, abrindo a porta a uma necessária mudança da lei.
É compreensível que quem se opõe à lei da IVG continue a fazer-lhe oposição, mas já o é menos que possa ocupar sem contraditório o espaço mediático e, sobretudo, que um jornal não verifique se as informações que veicula são rigorosas. Ou que não refira aspectos positivos como a diminuição significativa do recurso aos serviços de saúde de doentes com complicações associadas aos abortos clandestinos. É certo que, apesar de tudo, existem ainda dificuldades de acesso aos serviços (mesmo não havendo informação que dê conta de incumprimentos em tempo útil, segundo a APF) e que há limitações como a quase impossível escolha entre a IVG por via cirúrgica ou medicamentosa (esta última acaba por ser a única disponível, mesmo que não a escolhida, o que leva muitas vezes as mulheres a terem de recorrer aos serviços de urgência onde, ao contrário do que acontece na consulta de IVG, podem ser confrontadas com profissionais que as abordem de forma diferente da que usam para tratar a doente ao lado, que tenha recorrido ao serviço em situação de aborto espontâneo). Mas isso não desvaloriza o significado do passo já dado no sentido da legalidade, da maior protecção da saúde reprodutiva, de uma maternidade responsável e do reforço do planeamento familiar.
Na comunicação social há, como vimos, exemplos de criação de um ambiente culpabilizador das mulheres e tendencialmente regressivo em relação aos direitos alcançados, mas há também exemplos de silêncios sobre problemas e regressões cuja instalação está bastante documentada e afecta toda a sociedade. Não é novidade que as crises não se dão bem com a igualdade e que, no contexto neoliberal em que vivemos, as assimetrias continuam a declinar-se no feminino.
Como revela um estudo do economista Eugénio Rosa [5] , ainda que entre 2001 e 2008 tenha aumentado a «participação da mulher na criação de riqueza em Portugal, medida através do emprego», e que essa participação seja «tanto maior quanto mais elevado é o nível de escolaridade considerado», o facto é que quanto mais são elevados os níveis de escolaridade, mais mulheres há desempregadas e a auferir menores rendimentos, quando comparados com homens do mesmo escalão. Além disso, essa «discriminação com base no género não se limita à vida activa, mas prolonga-se também na reforma». São também conhecidos os problemas de diferenças salariais que persistem no sector corticeiro, ou as diferenças de salário, em hipermercados, entre o trabalho feminino na peixaria e masculino no talho…
Apesar de se falar até de um certo «feminismo de Estado», mais atento a áreas como o apoio à parentalidade ou à paridade na participação política, o facto é que também na economia (desemprego, precariedade, rendimentos, progressão na carreira) e na gestão da vida doméstica (tempo dedicado a tarefas não remuneradas, partilha de tarefas, tempo livre) há ainda muitos «tectos de vidro» por ultrapassar, muitas ascensões visíveis, que parecem estar ali ao alcance da mão, mas que ficam muitas vezes por alcançar. Os «tectos de vidro» estão normalmente assentes em alicerces de aço, são construções sólidas.
As mulheres e os homens que com a primeira vaga feminista lutaram pela consagração da igualdade de direitos jurídicos (políticos, cívicos, sociais…) descontruíram a ideia multissecular de que essa desigualdade era natural. Com a segunda vaga feminista, alargaram esse edifício de direitos à compreensão do género como construção social e não biológica, trazendo para a esfera dos direitos públicos o que era visto como assunto privado (direito à saúde, ao corpo, à sexualidade, à formação…). Cabe agora, aos que sabem que as condições históricas da emancipação das mulheres e da igualdade de género se fazem no difícil quadro de um regime neoliberal desigual, mercantil e em que as crises são um elemento estrutural, manter presente a ideia de que as conquistas e os novos desafios do movimento feminista também não são propriamente naturais: estão em construção.
quarta-feira 3 de Março de 2010
Notas
[1] Ver José Brandão Ferreira, «A demografia e o casamento entre géneros idênticos», Público, 1 de Março de 2010.
[2] Audição a 19 de Fevereiro de 2010.
[3] Edição de 10 de Fevereiro de 2010.
[4] Comunicado de 11 de Fevereiro, http://apf.pt/?mnu=000&area=000&tipo=destaques&id=CNT4b75319d334e0&PHPSESSID=443205bc584a3bc7abc05f8d2d13b283.
[5] 20 de Maio de 2009, disponível em www.eugeniorosa.com/Sites/eugeniorosa.com/Documentos/2009/23-Desigualdades-genero-continuam.pdf.
(Le Monde Diplomatique – edição portuguesa)

Música

Música: desde el Tíbet, música para la meditación

ARGENPRESS CULTURAL

Nosotros, occidentales, la persona que está leyendo esta revista por ejemplo, poco o nada sabemos del Tíbet. Tenemos una vaga idea, hollywoodense en buena medida, que asocia esa región con misticismo, con meditación budista y monasterios en la cima del mundo, el lugar donde se encuentran los Montes Himalaya y la mayor elevación del planeta, el Monte Everest. En realidad, eso no está tan alejado de la realidad. El Tíbet es una de las regiones del mundo donde tiene más intensidad la vida espiritual. Una parte considerable de su población practica activamente el budismo.

La realidad político-social de la región es compleja. Contra la voluntad de sus habitantes, grandes poderes de fuera del área utilizan a la región como ariete contra el proyecto político de Pekín, por lo que hoy el Tíbet es especialmente conocido como “resistencia” apoyada por Occidente contra la “dictadura” que –según esa visión– gobierna la República Popular China. De sus tradiciones, de su rica vida cultural, hay una lejana idea. En particular, de la música tibetana poco o nada se sabe.

En realidad, la mayor parte de la música de origen tibetano consiste en manifestaciones sonoras que acompañan los rituales tradicionales dentro de los monasterios budistas. En ese sentido, podemos decir que es música religiosa, música sacra. La intensidad y la profundidad de estos cantos, que a nuestros oídos occidentales nos llegan como una creación extraordinaria con mucho de esotérico, es en cambio un hábito cotidiano en la jornada de cada día en el interior de esos monasterios. Oraciones de primera hora de la mañana, oraciones de los atardeceres, y también cantos dirigidos a los diversos aspectos de la manifestación de los budas, la compasión y el amor universal, la sabiduría, la purificación, la energía, la curación, así como peticiones de larga vida, claridad de pensamiento, entre tantas otras plegarias formuladas con recitaciones de palabras sagradas y mantras.

El origen de la música tibetana se remonta al siglo XII. La tradición de la llamada “Mani Lama” (letras de las canciones que representan parábolas budistas) fue iniciada en aquel entonces por narradores errantes. Esas raíces se mantienen hasta el día de hoy.

Los cantos tibetanos normalmente tienen 4-6 sílabas cada uno en cada una de sus estrofas. Su efecto es verdaderamente relajante, apaciguador. Como parte de toda la ceremonia religiosa, transmiten un clima reverencial y solemne propicio para la meditación.

A modo de ejemplo, aquí presentamos algunos materiales ilustrativos. Esperemos que la selección sea de tu agrado (¡pero de ningún modo estamos invitando a abrazar el budismo ni cosa que se le parezca!)

(Argenpress Cultural)

Sexo

Sexo, mercado e ideología x Carlo Frabetti - La Haine :: Más articulos de esta autora/or: El título del último artículo de Ignacio Ramonet, "Sexo y mercado" (Rebelión, 30/9/05) me ha parecido muy interesante; aunque, desgraciadamente, no puedo decir lo mismo del resto del texto.
"Sexo y mercado" es casi un trasunto del título de la obra fundamental del injustamente olvidado Herbert Marcuse: Eros y civilización. O, más que un trasunto, una reducción brutal; pero brutal como la vida misma, y por tanto pertinente: vivimos en una sociedad en la que el erotismo se confunde con la mera sexualidad y el intercambio civilizador con el mercadeo, por lo que el título es especialmente adecuado para abordar el tema de la prostitución (aunque también podría servir para hablar de la pornografía, la publicidad, el matrimonio y algunas cosas más). Pero Ramonet se olvida inmediatamente de su propio título y, lejos de emprender el análisis objetivo, materialista, que parece anunciarnos, repite una vez más el consabido discurso oficial sobre el tema (una confusa mezcla de criminalización y victimización, paternalismo ilustrado y misoginia), ese discurso que suscriben desde los Gallardones y las Botellas hasta la seudoizquierda, pasando por algunas feministas de salón.
Para una izquierda realmente materialista y dialéctica, no puede haber más ética que la solidaridad y el respeto a la libertad (es decir, al derecho de autodeterminación de las personas y de los pueblos); lo demás es ideología, en el peor sentido de la palabra. No hay crimen sin víctima, y lo que uno (o una) haga con su cuerpo (incluidas las partes que los Gallardones, las Botellas, la seudoizquierda y algunas feministas de salón consideran vergonzantes), siempre que no perjudique a otros, es una cuestión estrictamente privada.
Yo, personalmente, preferiría vivir en un mundo sin prostitución. Y sin religión, y sin alcoholismo, entre otras muchas cosas. Ojalá consigamos crear una sociedad laica, sobria (en ambos sentidos del término) y en la que el sexo no sea una mercancía; pero no a base de perseguir a los creyentes, los bebedores y las trabajadoras sexuales (lo cual, además de injusto, es inútil, como han demostrado sobradamente todas las persecuciones y "leyes secas" de la historia).
"Algunos se niegan a ver la diferencia entre la venta de la fuerza de trabajo en una sociedad capitalista y la venta del cuerpo como receptáculo de la personalidad y de la identidad’, dice Ramonet. Y aunque no nos explica en qué consiste "la venta del cuerpo como receptáculo de la personalidad y de la identidad’, por el contexto se deduce que se refiere a la prestación remunerada de servicios sexuales. Sorprendentemente, un artículo cuyo título remite a Marcuse se convierte en una glosa de san Pablo: el cuerpo como templo viviente del Espíritu Santo. Pero hasta san Pablo admitiría que las trabajadoras sexuales no "venden" su cuerpo: en todo caso, lo alquilan (el término "venta" se adecua mucho más al matrimonio). Y en cuanto al receptáculo de la personalidad y de la identidad, aunque puede que algunos lo tengan en el bajo vientre, parece más adecuado situarlo en la cabeza, si hemos de atribuirle una sede corporal.
En su afán condenatorio, Ramonet prescinde, no ya de los matices, sino de todo tipo de diferencias, y mete en el mismo saco la prostitución voluntaria, el tráfico de mujeres y la explotación sexual de niñas; se parece al diccionario de la Real Academia, que en su última edición sigue llamando "pederasta" al homosexual, lo que equivale a homologarlo con el corruptor de menores. Es cierto que hay homosexuales (y heterosexuales) menoreros y que hay niñas (y mujeres) explotadas sexualmente: persigamos a los primeros y defendamos a las segundas, por supuesto; pero antes de "redimir" a una trabajadora del sexo adulta y en pleno uso de sus facultades mentales, preguntémosle si quiere ser redimida, o si le interesa el tipo de redención que le ofrecemos.
Lo demás es ideología y demagogia. La clase de demagogia capaz de acuñar frases como esta: "Si los hombres no considerasen como un derecho evidente la compra y explotación sexual de mujeres y menores, la prostitución y el tráfico no existirían". Tres cópulas perversas (como corresponde al tema tratado, pensarán algunos) en apenas un par de líneas: compra y explotación, mujeres y menores, prostitución y tráfico. Tres copulativas tendenciosas al servicio de una falsa proposición condicional: la prostitución (voluntaria) puede existir y existe sin necesidad de que nadie considere un derecho evidente la explotación sexual de mujeres y menores (de lo contrario, no habría prostitución masculina, puesto que las mujeres nunca han considerado un derecho evidente la explotación sexual de hombres y niños).
Acaba Ramonet su artículo citando a la nefasta puritana Gunilla Ekberg, cuyo grito de guerra es "No se puede comprar a una persona", frase que, referida a la prostitución, es, una vez más, pura demagogia (a no ser que esa persona tenga el receptáculo de la identidad entre las piernas, claro). Ekberg asegura que, gracias a su programa abolicionista (que consiste, básicamente, en sancionar a los "hombres compradores"), la prostitución se ha reducido en Suecia a la mitad. Lo que no nos dice es qué ha sido de la otra mitad, o sea, de los miles de mujeres que se han quedado sin trabajo.
Pero el abolicionismo criminalizador no solo perjudica a las trabajadoras del sexo, sino que supone un gravísimo atentado contra las libertades en general, puesto que el mero hecho de determinar los casos concretos de prostitución implica una intolerable injerencia en la vida privada de los ciudadanos (y, sobre todo, de las ciudadanas). Supongamos que me cruzo por la calle con una mujer que me sonríe, me acerco a ella, charlamos unos minutos y nos vamos juntos. ¿Quién puede saber si estoy contratando los servicios de una trabajadora del sexo o, sencillamente, ligando? Puede y suele haber ciertos indicios, por supuesto: ella viste "provocativamente" y lleva un buen rato apostada en la misma esquina, y yo soy demasiado mayor para despertar a simple vista el interés de una viandante; pero solo habría pruebas concluyentes en el momento en que se consumara la transacción, y ese momento no suele ser público.
La vida del campesino es muy dura, hay muchos niños trabajando en el campo en lugar de ir a la escuela, y muchos inmigrantes son explotados como auténticos esclavos por los terratenientes; pero a nadie se le ha ocurrido proponer la abolición de la agricultura. Si los abolicionistas tienen tanta necesidad de redimir a esclavas sexuales y abolir explotaciones, ¿por qué no intentan salvar a las amas de casa (el colectivo en el que se producen más suicidios y casos de depresión) luchando por la abolición de la familia nuclear?
Como en los demás animales, en el hombre hay tres pulsiones básicas, que constituyen los tres grandes vectores de la conducta: el hambre, el miedo y la libido. Por eso lo que mejor define a una persona o a una cultura son sus hábitos dietéticos, defensivos y sexuales; y por eso es tan difícil modificar esos hábitos, o tan siquiera analizarlos desde dentro, pues están tan arraigados que tendemos a considerarlos naturales. No es casual, por tanto, que los tres grandes problemas éticos (y por ende políticos) que la izquierda no es capaz, no ya de resolver, sino siquiera de plantear, estén directamente relacionados con la comida, el miedo y el sexo. Me refiero al carnivorismo, el terrorismo y la represión sexual, tres temas fundamentales en los que casi nadie se atreve a profundizar. Diríase que el abdomen es el receptáculo, si no de la identidad toda, sí al menos de los prejuicios, pues cuando nos tocan el estómago, el hígado (sede del valor y el miedo según los antiguos) o las gónadas nos cuesta admitir hasta lo más obvio: que el carnivorismo supone un brutal despilfarro de los recursos naturales y es, por tanto, profundamente reaccionario; que el único terrorismo digno de ese nombre es el terrorismo de Estado; que no puede haber democracia sin plena libertad sexual, y que esa libertad incluye, nos guste o no, el derecho a comerciar con el propio cuerpo.
(La Haine)

Uma Peça

Aquele que matou Ícaro
.
Por Jorge Pinheiro, de São Paulo




Voando para o desconhecido
Foto de Ben Heine

Peça em três atos. Todos os personagens estão em cena desde o início, apenas o jogo de luz define o cenário, quando os personagens em cada ato são iluminados. Quando um personagem fala, a luz vai se tornando mais intensa. Quando ele se cala, a luz declina. E quando o outro personagem fala, iluminado, vive processo idêntico. No palco há um espelho, que fala como imagens de televisão. As imagens em bricolagem desfilam enquanto Macário, o espelho, fala. Mas, outras montagens, cenários e luzes são possíveis. O diretor define. Para os leitores, fica o desafio: façam a leitura do texto em voz alta. Depois dos ensaios, convidem os amigos e vizinhos. Encenem. O teatro faz bem à alma.


Primeiro ato
Ao amanhecer, no palácio de Cócalo, rei de Câmico, na costa meridional da Sicília.

Dédalo -- Bom dia, Macário.

Macário -- Bom dia, Dédalo.

Macário (continua) -- Por que você abandonou Ícaro, como Jefté fez com a menina? Eu bem que avisei você, Dédalo. Eu disse para você não fazer como Jefté, que disse: eu queimarei em sacrifício aquele que sair primeiro da minha casa para me encontrar quando eu voltar da guerra. Eu o oferecerei em sacrifício ao Eterno. Você tinha que dominar a sua arte, caso contrário ela se tornaria inimiga, se colocaria à porta do seu coração como uma fera querendo saltar em cima e devorar você. Cabia a você dominá-la.

Dédalo -- Dominá-la! Dominá-la! O que significa isso, Macário? E quando eu me engalfinho com ela, quando dou pernada e levo sopapos da minha arte, para ter controle sobre ela, já não estou tão envolvido, que de bela fera imaginada ela já não é realidade vivida no peito que dói?

Macário -- Mas eu vi quando você abandonou Ícaro. Você o levou lá para cima, acima das colinas, das pastagens de Creta, vagando pelo azul, e não ficaram os dois, um e outro, o par olhando para as ondas debaixo. E vagou com as nuvens, flutuou na imensidão, cheio de prazer e realização. Coitado de você Dédalo, arquiteto de engenho e arte. Você se bastou, deixou o menino se esgueirar alucinado em direção ao sol forte.

Dédalo -- Para você é fácil julgar, Macário. Você é reflexo da minha loucura, assim como foi reflexo dos caminhos de meu filho. Você é meu inverso, como foi dele, você se mexe, mas está fixo. E quando a gente é um ponto fixo e o resto é cenário é fácil julgar. Você é o sagrado que me consome. Você é a minha dimensão apofática, negação daquilo que sou, é martírio, cruz, morte. Através de você mergulho nas trevas. É isso mesmo Macário, reconheço a minha arrogância e desejo, esse é o meu desejo, que no reconhecimento do desvario possa conhecer para além da razão.

Macário -- Eu sei que é por isso que nos vemos todos os dias. Que é por isso que você levanta, fica diante de mim e começamos a conversar. Eu, Macário, sou misterium tremendum que esmaga e leva o medo até a profundidade da sua alma. Esse temor qualitativo, motivo para reflexão e energia, faz de você meu adorador.

Dédalo -- Eu sei, Macário, meu senhor, que necessito ser como você. Quero incorporar aquilo que me é distinto. Mas, apesar de nossa intimidade a cada manhã, permanece esse abismo entre eu, adorador, e você, sagrado. Desejo saltar o abismo que nos separa, e talvez seja esse o móvel que faz de mim espiritual, ao imitar a queda de Ícaro, o amor do filósofo e a insanidade da juventude. Talvez...

Macário -- Agora, não dá mais, Dédalo! Eu vi você abandonar Dédalo. Você o derrubou, você derreteu as asas dele. Com sua imaginação, com suas mãos de escultor você o puxou para a imensidão do Egeu. Você não o olhou nos olhos. Olhos nos olhos. Dois de realização, egocentrados, dois de terror, caindo no abismo. E você continuou seu vôo de prazer profundo. Esqueceu, abandonou, não viu o rosto aterrorizado que mergulhava. Profundo, vil prazer. E você, mestre, fez os olhos temerosos saltarem. Eu vi, Dédalo. E isso você vai ver também, a cada manhã que olhar para mim.

Dédalo -- Ah! Querido Ícaro, estou perdido nos meus labirintos. Vejo seus cabelos cacheados, os olhos negros, instigantes, voadores. O rosto de jovem que sonha, queimado pelo sol esperto. Ah! Miserável homem que sou, quem livrará o meu corpo da morte?

Macário -- Dédalo, a sua confusão já não está, mas também não estão a escultura e o vôo. Você matou Ícaro e metade da sua alma se foi. Vou colocar no seu rosto, a marca dos olhos desesperados, que olham para além do que todo mundo vê. E as pessoas que olharem para você verão que você vê o que elas não vêem. E fugirão de você por isso. E não matarão você porque vão ficar com medo. E essa será a vingança que Ícaro me autorizou dar a você. Vagar sem esperança pelo labirinto da vida.

Segundo ato
Ao entardecer, num orquidário em Jardim, na chapada do Araripe.

Carvoeiro – Eu vejo a dor de Dédalo de maneira diferente. Dédalo sempre esteve sujo como eu. Bicho humano vivia na sombra. Vou prosar uma toada. Dédalo estava preso na mina, que tinha só uma luz do sol iluminada na entrada. Lá desde a infância teve a cabeça e as pernas amarradas de movimentos. Bicho preso, só conseguia ver o que estava diante. Não tinha voltar do rosto e olhar para trás. Mas, atrás dele, a luz do candeeiro do céu alumiava. Entre a ilustração e Dédalo havia um caminho, mas também um tapume alto. Lá estava Dédalo, libertário, infância a dentro...

Maquinista – Não sei aonde você quer chegar, mas Dédalo é um do protesto. Está livre para criar e fazer. Com ele não tem contras, é ranzinza para a norma dos deuses. As amarrações antigas não têm para ele, o que é engenharia é bom. Legal é novidoso, é bênção buscada. Vou ficar afluente! Ser ourudo está no ninho do coração de Dédalo e não conseguir é pecado.

Guarda-chuva – Não sei não. Vocês são complicados. Acho que já está escrito quando se nasce. Sou guarda-chuva e aqui todo mundo me conhece assim. Quando cheguei, ela estava na cama aos berros. Fiz psiu para se acalmar, embora berrar não fosse mau. Peguei jornal e coloquei debaixo dela. Peguei a minha tesoura, linha de algodão e cortei em três pedaços de vinte e cinco centímetros. Peguei o cobertor, na verdade uma colcha fina que estava ao lado da cama. Dobrei em três e coloquei em cima da mulher. Minhas mãos estavam limpas, mas eu esfreguei com álcool.

Carvoeiro – Espera aí guarda chuva, eu quero continuar. Dédalo se livrou dos nós das amarrações, mas não da astúcia das idéias. Desatado, levantou, voltou a cabeça, andou, olhou para a luz. Como o filho, Dédalo sofreu muito: a iluminação foi coisa de dor, mas o deslumbrou e ele não conseguiu ver as gentes por inteiro. Foi isso que aconteceu com Dédalo, o engenho e a arte dançaram na frente dos olhos dele e queimaram! Que confusão, as verdades doeram, e a astúcia das idéias foi bem mais amistosa do que o mundo transiluminado pelo candeeiro do meio-dia! O filho despencou lá de cima e Dédalo foi para a Sicília.

Maquinista – Dédalo se lançou, cheio do espírito, no criar e fazer no mundão besta. É arquiteto virtuoso, de virtude aburguesada. É puro dos modernosos, cheio de economias e racionalidades, e quer que tudo que é criatura seja trabalhador sóbrio e industrioso, aferrado no manejo, destinado na vida amarrada pelos divinos. Dédalo quer tudo que é criatura debaixo do mando dele, que é decreto eterno vindo dos deuses.

Guarda-chuva – Sei não. Vocês são complicados. Acho que coisa má nasce feita. Quando as contrações aumentaram e a bolsa d´água rompeu, coloquei os dois travesseiros que encontrei para amparar a cabeça e as costas da mulher. Ela começou a fazer força, retinha a respiração e segurou as coxas por trás dos joelhos, puxando as pernas. Apareceu a cabeça. Coloquei uma toalha embaixo das nádegas dela. Mas eu não tinha outra toalha para colocar entre as pernas da mulher. Amparei a cabeça roliça da criança com as mãos em concha. Tinha uma membrana, mas retirei. Para complicar, o cordão veio enrolado no pescoço. Coloquei um dedo por baixo do cordão, afrouxei e passei o cordão por cima da cabeça. Disse para a mulher parar de fazer força. Eu queria que a criança nascesse feliz, sorrindo, sem ruína da vida.

Maquinista --- A sina de Dédalo é essa, ficou na especialização, esqueceu que casa de gente é terra e céu. Dédalo é ciborgue, meio gente, meio máquina, e quando fala faz ruído de máquina. E não fala sem máquina. Dédalo tem o estilo da máquina e vai parir máquinas até a última gota de combustível. Mesmo no céu, está preso na mina, como disse o carvoeiro, mas a mina é de ferro, sistema de uso e danação das idéias livres e do fazer gostoso.

Guarda-chuva -- Principio a entender, mas não sei se concordo com vocês. Quando um ombro começou a sair, amparei, e o outro veio saindo também. Segurei o resto do corpo com as mãos. Não puxei o menino, que poderia se chamar Dédalo. Por que não? E o resto do corpo veio em baba de quiabo. Retirei as gosmas da boca e do nariz com um pano. Segurei de ponta cabeça e o resto da baba saiu. Chorou raivoso o choro dos infelizes. Coloquei-o de costas, amarrei o cordão com as linhas de algodão. Dei dois nós, um mais ou menos a quinze centímetros e outro a vinte centímetros do umbigo. Cortei entre os nós. E fiz depois um terceiro nó a dez centímetros do umbigo e cobri o umbigo com um tampão. Entreguei Dédalo para a mãe. Ele já estava agasalhado. Cobri a mulher e fiquei esperando aquela água-viva vir escorrendo. Coloquei num prato, cortei em pedaços pequenos e dei para ela comer. Eu não jogo a vida fora. Por isso, sou guarda-chuva de fama aqui no Jardim.

Terceiro ato
Ao amanhecer, no palácio de Cócalo, rei de Câmico, na costa meridional da Sicília.

Dédalo -- Que tristeza profunda! Minha sem-vida começa agora, é vazio, não há reino, nem fé, nem paciência. Não há utopia: perdi os sentidos, o êxtase, o presente também.

Macário -- É isso mesmo, Dédalo. Para você não há mais iluminação, nenhuma notícia boa. Você começou a vagar com desespero, sem perspectiva, cheio de medo. E olhar o mundo assim é terrível. Não há mais fonte inesgotável para a imaginação, não há mais transformação. Não há mais possibilidades emergentes à luz do futuro prometido.

Dédalo -- Estou na Sicília, no palácio de Cócalo, e o que vejo? Gente sem âmago, só pedaços. Não há sinais, nem caminho. Não há sentido cronológico de término, não há a absoluta necessidade de pensar o fim, não há kairos, significado maior e profundo na história. Não há expectativa, lúdico, alegria, não há um momento de grande emoção.

Macário -- É a sina de olhar o mundo sem ter Ícaro junto. O que parecia ser bom, ao deixar o labirinto para trás, é queda e perda de sentido. A alegria, felicidade e destino escorrem entre os dedos. Sem Ícaro você é só infeliz. E assim fica o que você vê. Por isso, você precisa cada vez mais de mim. Por isso, todos os dias, você tem que olhar e conversar comigo, ver o vivo e o morto, chorar e ter medo. Não há salvação para você. Infeliz, porque o sol derreteu a aventura e o risco. Não há mais tempo oportuno, não existe para você um começar agora de esperança.

15/8/2009

Fonte: ViaPolítica/O autor

Mais sobre Jorge Pinheiro

E-mail: jorgepinheiro.sanctus@gmail.com

sexta-feira, 26 de março de 2010

Juca Ferreira

“A qualidade da TV brasileira é muito baixa” Por Lúcia Rodrigues Ex-presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas, ex-militante do MR-8 no tempo da luta armada contra a ditadura militar, o atual ministro da Cultura, João Luiz Silva Ferreira, mais conhecido como Juca Ferreira, baiano de Salvador, chegou ao ministério pelas mãos de seu amigo Gilberto Gil. Assumiu o cargo com a saída do ex-ministro e tem dado continuidade ao trabalho de valorizar as manifestações culturais criadas pela comunidade, respeitando a diversidade dos mais diferentes pontos do território nacional. Os Pontos de Cultura cadastrados pelo ministério animam cerca de quatro mil grupos de produção cultural. Nesta entrevista exclusiva para Caros Amigos, Juca Ferreira fala da atuação do ministério, das atividades culturais e dos meios de comunicação. Ele considera a televisão um “meio incrível”, e admite que “a qualidade da TV brasileira é muito baixa”. Caros Amigos - Fale sobre a sua trajetória de vida e política. Como foi a chegada até o ministério da Cultura? Juca Ferreira - Sou filho de uma família de classe media baiana. Meu pai era engenheiro construtor de estradas e minha mãe professora. A gente acompanhava meu pai, e ia morando onde a estrada ia abrindo e a estrada ia atrás. A partir de uma certa idade a gente era internado. Morei no interior da Bahia, do Sergipe, de Alagoas, Espírito Santo e depois fui interno no Rio de Janeiro. Estudei dos oito aos dez anos no Rio de Janeiro. Por que interno? Porque minha família estava no interior construindo estrada e minha mãe era professora. Éramos cinco e todos passaram pela experiência do internato. Aí, depois como a perspectiva era sempre voltar para Salvador, voltei para lá, fiz exame de admissão para o colégio militar, estudei sete anos no colégio militar. Fiz curso de formação de reservista e fui para o colégio central público para fazer política estudar para arquitetura. Em 67, estava no movimento estudantil, quando houve as grandes movimentações estudantis secundaristas na Bahia. Eram manifestações de manhã, de tarde e de noite, e eu acabei virando líder estudantil. Em 68, ao invés de eu ir fazer vestibular eu fui para a escola técnica, liderei uma greve, abri o grêmio, e no dia do Ato 5 eu fui eleito presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. O senhor fazia política estudantil já no movimento secundarista? Sim, em 68 eu tinha 18 anos. E qual a sua formação superior? No dia do Ato 5, além de eu ser eleito presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, eu fui expulso da escola técnica. Aí eu fiz vestibular e passei para História, estudei dois anos, na Universidade Federal da Bahia. E aí eu já estava organizado na resistência clandestina. O senhor participava de qual organização? No final de 67 eu entrei para o Partido Comunista, em 68 eu saí com a Dissidência da Bahia e depois juntamos com o Rio de Janeiro e virou o MR-8. O senhor participou da luta armada ou ficou só na resistência? Eu participei depois. Fui preso, fiquei três meses e meio preso, fui solto e eles queriam me pegar de novo. Fui para o Rio, onde já estava mais barra pesada, com aqueles cartazes todos de ‘procura-se’ e depois em 71 eu fui para o exílio. O senhor foi torturado? A rigor fui torturado, mas diante das torturas não fui. Tomei uns ‘cachações’, fiquei dois dias sem comer, soltaram um cachorro na minha cela.... Foi para o pau de arara? Não, eles estavam atrás de uma outra turma. Além do mais, o cara que comandava a tortura na Bahia tinha sido professor no colégio militar, e acho que isso ajudou a livrar a barra. Ele não era o torturador, era o que dirigia a repressão. A primeira ação política que eu fiz foi em 64, quando queimaram uma porção de livros. E aí a gente criou um grupo de leitura e íamos repondo os livros na biblioteca. No grupo de leitura tinha o filho do comandante do maior quartel do nordeste. Eu li Caio Prado, Nelson Werneck Sodré. Minha família era de esquerda, meus irmãos também, os mais velhos. E a vida no exílio foi a partir de 71? Eu fui para o Chile, pois comecei a defender a saída da luta armada porque estava fadada ao fracasso, ao isolamento. Já tinha morrido muita gente e sentíamos o cerco. Acabei secretário político do MR-8 e organizando a saída das pessoas. Eu ficando por último, mas fomos tirando todo mundo que estava em cartaz. Chegou minha vez de sair. Peguei o golpe de Pinochet. Morei um ano no Chile. Como foi enfrentar um golpe de Estado no estrangeiro? A insegurança era imensa, não só por ser exilado, mas no meu bairro a polícia matou muito jovem da juventude comunista, socialista, e eu fui salvo pelo vizinho. Nós morávamos numa ‘poblacion’, uma favela de lá, e éramos cinco, dois casais e um solteiro. Nossa casa era visitada por todos os meninos da favela, mas quando houve o golpe, a mãe de um deles disse ‘vocês tem que sair daqui’. Aí encontramos o escritório das Nações Unidas. Fomos parar no primeiro refúgio das Nações Unidas. Não tinha bandeira das Nações Unidas lá e de vez em quando o Pinochet entrava lá. Um dia a mulher mais bonita do refúgio, uma peruana, me disse “não sou peruana, sou cubana e Pinochet já sabe que eu estou aqui’. Ela disse que sabia quem eu era, sabia tudo. Aí eu liguei para o inglês que falou com o embaixador da Suécia, que estava cuidando dos negócios cubanos, um nobre socialista. Ele pegou a cubana e perguntou se ela queria ir para a Suécia, e aí fizemos um grupo de pessoas que foi todo para a Suécia. Seu exílio todo foi na Suécia? Sete anos na Suécia e quando eu vi que ia sair a anistia, fui para a França terminar meu curso universitário. Na Suécia eu estudei português, eu ia ser professor de português e cultura brasileira na Suécia. Na França, terminei meu curso num departamento da Sorbonne onde Fernando Henrique era professor, Bresser Pereira, Alain Touraine. Da luta armada, da resistência à ditadura militar ao ministério da Cultura, como foi essa trajetória? Na Suécia eu fui trabalhador braçal, auxiliar de cozinha de um hospital, pelava as batatas, lavava os pratos. Depois eu fui auxiliar de trânsito, estivador, baby sitter, depois eu trabalhei no maior jornal da Suécia. Como jornalista? Não, como faxineiro. Tomei curso de passar sinteco e foi legal para mim porque aqui no Brasil a classe média só quer saber do pescoço para cima, e lá eu fui trabalhador braçal, só queriam saber do pescoço para baixo. Foi quando eu tive a oportunidade de juntar as duas coisas. Foi positivo para mim. Eu vivi lá, estava havendo uma mudança cultural grande, os punks aparecendo. Na Suécia o senhor tinha contato com o Gabeira? Tinha sim, eu já tinha antes da clandestinidade, a gente se encontrou no Chile e na Suécia. Ele é meu amigo. Hoje a gente está pensando um pouco diferente nesse momento, mas é uma pessoa que eu gosto, que eu convivi muito, é uma pessoa inteligente. Outro dia ele disse que a minha divergência com o PV era para manter o ‘empreguinho’, e eu achei deselegante da parte dele. As paixões políticas passam por essas coisas... O senhor suspendeu a sua filiação ao PV? Sim, por um ano. Eu acho que o PV está ficando careta, abandonando o seu programa. Ele surgiu no Brasil com uma coragem imensa de colocar questões comportamentais na política, defendendo com muita ousadia uma política de drogas para a redução de danos, defendendo os direitos dos homossexuais. E agora está todo mundo meio aderindo a um comportamento tradicional de se apresentar como ursinho de pelúcia da política brasileira, todos fofinhos, sem arestas, sem levantar nenhuma questão polêmica. Estão caretas, com uma escoliose para a direita, só querem alianças com o DEM. No Rio, o Gabeira está fazendo altos elogios e só quer aliança com o DEM, César Maia. Em São Paulo, há muito tempo tem alianças com DEM e PSDB e assim já em muitos Estados convivendo com o fisiologismo tradicional da política brasileira. Como o ministério está atuando na sua gestão para preservar a cultura brasileira? A cultura brasileira não precisa de uma política de preservação nesse sentido. Claro que há uma política de patrimômio, que é uma política de preservação em última instância, mas a estratégia é de desenvolvimento cultural. Eu penso mais em expansão e desenvolvimento do que proteção. A nossa cultura é de boa cepa e tem condições de se desenvolver nesse ambiente de contato e signos e conteúdos vindos de outros países. Acredito que se criarmos igualdade de condições a cultura brasileira se desenvolve. Como o senhor define a TV brasileira hoje? A gente incorporou a TV como parte da política cultural. Não só a TV pública como a TV privada também. A convergência digital, dos diversos suportes e mídias tem permitido que a gente pense para além da produção do cinema, que a gente pense a produção do audiovisual. Esses conteúdos migram de uma tela para outra, então é do nosso interesse, é talvez o meio mais popular, um dos mais importantes. Mas a qualidade da televisão brasileira é muito baixa. A nossa tradição é mais da TV de entretenimento, e não satisfaz as necessidades da população. Então é preciso contribuir para a elevação do padrão, seja através da TV pública seja através de estimular que as TVs privadas avancem sua programação, sua grade para coisas mais qualificadas. Além do entretenimento, que o senhor ressalta, a gente observa o emburrecimento, o Big Brother é um programa que... É, mas o mundo inteiro gosta. A humanidade tem vínculos com esse tipo de produção. É um voyeurismo. A banalidade exerce um fascínio enorme sobre as pessoas. O senhor acha que é uma coisa a ficar, ou dá para reverter e entregar para a população um produto de qualidade? É, mas eu sou a favor da liberdade de escolha por parte da população. Quem quer ver Big Brother que veja. Eu sou uma pessoa que gosta do meio televisão. Às vezes eu assisto coisas absolutamente banais, mas assisto me distanciando, como acredito que a maioria das pessoas faz. Ali é um pretexto para uma série de observações. Eu gosto desses programas de auditório. Se você me perguntar, eu diria que o padrão é baixo, mas tem alguma coisa que me interessa ali. Desde Chacrinha eu gostava. O senhor assiste Silvio Santos, Faustão? Eu zapeio muito, mas assisto, sim. Vejo Ratinho, tenho curiosidade. Acho a TV um meio incrível. Mas o senhor não acha que são programas de baixa qualidade de conteúdo, que contribuem para um conservadorismo, como o caso do programa do Ratinho, que achincalhava as pessoas? Achicalhando as pessoas, usando as aberrações.. É verdade isso. Mas os circos medievais faziam isso. A humanidade tem uma atração. O senhor considera que a produção regional ainda está muito aquém do que poderia ser? O eixo Rio São Paulo concentra o maior número de emissoras A regionalização do conteúdo da comunicação não é uma saída? Nenhum país democrático do mundo permite que os radiodifusores transmitam em cadeia nacional o tempo todo. A Suécia é um pouco maior do que Sergipe, tem três regiões culturais, e na época que eu morava lá se não me engano só podia transmitir em rede nacional 25% do total do tempo. O resto tinha que regionalizar para dar emprego, para permitir que a cultura nacional aparecesse. Isso num país de dimensões continentais como o Brasil é um absurdo funcionar o tempo inteiro em rede nacional. Nos Estados Unidos também tem limites, na Europa toda, aqui é que o regime militar achava que tinha que uniformizar culturalmente. Havia uma desconfiança com a diversidade cultural brasileira, que ela pudesse produzir uma dispersão, uma fragmentação do país, por isso que ela incentivou essa homogeneização. E o que se pode fazer para conseguir avançar nesse sentido, se produzir mais regionalmente? Acho que a regulação tem que avançar. O PL 29 que está tramitando vai regulamentar a TV a cabo, vai obrigar o percentual de produção brasileira, vai obrigar a produção independente. O Minc tem entrado aos poucos, mas cada vez mais como um fator de estímulo à melhoria tanto na regulamentação, como na área de estímulo à produção. Tem um outro problema que é o conteúdo que vem de fora. Mesmo nas TVs a cabo, acontece um bombardeamento de programas e filmes que vem de fora. Como fazer para reverter essa situação? Tem que ter percentuais mínimos para conteúdos brasileiros. Isso eu defendo, é necessário. O cinema brasileiro é quase estrangeiro nas salas de exibição e isso tem que mudar, tem que avançar. A gente faz o filme para quem vê, e se nas salas de exibição brasileira o cinema americano é soberano e na televisão também. A gente tem que ter um pouco de soberania no audiovisual brasileiro. Como daria para fazer incentivo ao cinema nacional? Uma parte a gente já tratou, que é abrir as salas de exibição para o conteúdo nacional. Temos que ter percentuais garantidos, de que quando um filme brasileiro esteja com um nível de público acima da média, o exibidor não tire para passar um filme estrangeiro, que muitas vezes tem um público menor do que aquele filme. Volta e meia acontece isso. O filme do Daniel Filho “Se eu fosse você” saiu antes de realizar sua missão comercial. O “Besouro” também estava acima da média de público quando foi tirado. Isso é um crime contra o cinema brasileiro. Os filmes que substituem essas produções brasileiras compram pacotes, é dumping, é proibido pela legislação brasileira. A gente percebe que tem muito enlatado de péssima qualidade que vem para cá e fica aí... Se fosse de péssima qualidade mas alta aceitação de público é um fato. Mas se é de péssima qualidade, baixo público e menor que o público brasileiro. Isso é o máximo do escândalo. Mas o senhor não considera por exemplo, que tem uma aceitação do público porque é aquilo que é oferecido. Se você começa a oferecer um filme de qualidade nacional essa aceitação vem naturalmente? Historicamente, o público do cinema brasileiro são as classes C, D e E. Com esse encolhimento dessa rede de exibição, o cinema brasileiro ficou sem seu público. Nas salas de shopping center que tem como seu público principal a classe média, a disputa é braba porque há um deslumbramento pelo cinema americano. Há toda uma indústria por detrás que promove esses filmes. Então, pelo nosso lado temos que aumentar o interesse aumentando a qualidade do cinema brasileiro, fazendo filmes que conquistem o público. Tem um problema de produção também. A gente saiu de pouco mais de 20 filmes ao ano, quando entramos no ministério, e estamos com quase cem filmes ano. Mas muitos desses filmes nem contribuem para o desenvolvimento da linguagem e nem para o aumento de público, que seriam os dois grandes critérios. O que o Ministério da Cultura pode fazer? Aumentar o padrão dos roteiristas, desenvolver linguagens cativantes e atraentes para um número cada vez maior de público. O papel do ministério é estimular isso, criar critérios na disponibilização dos recursos que levem à melhoria do padrão da linguagem e para a conquista de parcelas do público. E a Embrafilme não seria uma saída para isso? A gente está disponibilizando mais dinheiro que a Embrafilme. É mais complexo do que a Embrafilme. Precisamos recuperar o cinema popular no Brasil. Está começando aí. Tem vários filmes que tem bombado. Temos que aumentar a cota de filmes que tem capacidade de bombar e por outro lado financiar os filmes que mesmo com pouco público contribuam para o desenvolvimento da linguagem cinematográfica. Existe o problema da distribuição. Precisamos estimular a distribuição brasileira para que possa atuar também no exterior. O ministério tem investido nisso, em apoiar a venda do cinema brasileiro e dos conteúdos audiovisuais brasileiros no exterior. É um processo mais global. Uma distribuidora estatal poderia contribuir assim como o crescimento das distribuidoras privadas. Eu não me fixaria como única alternativa uma distribuidora pública. Quanto que o ministério investe de recursos em cinema nacional? Eu não lembro, mas é mais do que da época da Embrafilme. Quando chegamos ao ministério, os recursos orçamentários eram em média 280 e poucos milhões, correspondiam a 0,2 do total do orçamento do governo federal. Passamos esse ano de 2010 de 1% que é o mínimo recomendado pelas Nações Unidas, que corresponde a 2,5 bilhões. Além disso, quando chegamos, a renúncia fiscal era menos de 300 milhões, e agora está em 1 bilhão e meio. E estamos avançando nas regras de disponibilização de recursos. Criamos o fundo setorial do audiovisual, estamos lançando linhas de financiamento junto com o BNDES para financiar a ampliação das salas de exibição, estamos lançando o Vale Cultura, que vai injetar 7 bilhões da economia da cultura. São várias ações convergindo no Estado apoiar e incentivar o crescimento da arte e da cultura no país. Como funciona o Vale Cultura? É muito parecido com o Vale Refeição, mas um é para alimentar o estômago e outro para alimentar o espírito. É um cartão magnético que é disponibilizado para o trabalhador com um valor nominal de 50 reais para ele comprar livro, comprar CD, assistir espetáculo de dança, de música, para consumo cultural. Percebemos que não adiantava estimular a produção se o índice de acesso é muito pequeno. O Vale Cultura vai produzir efeitos colaterais muito positivos. Como o controle do uso vai ser muito grande. Vai estimular o consumo do CD legal. Vai estimular abertura de negócios culturais perto de onde os trabalhadores moram. É uma novidade que está sendo estudada até por outros países. Vai incluir 14 milhões de pessoas no consumo cultural. Em que pé estão as discussões em torno da Lei Rouanet? Eu rodei o Brasil defendendo a mudança da Lei Rouanet. As estatísticas provam que a lei esgotou o que podia dar de positivo e houve muitas distorções. 80% do dinheiro da lei vai para os Estados de Rio e São Paulo e 60% do dinheiro fica em duas cidades, Rio e São Paulo. 3% dos proponentes ficam com mais da metade desse dinheiro. São sempre os mesmos. Tem estados que não recebem nem 0,0%, então a gente vai democratizar o acesso, disponibilizar o benefício da renúncia fiscal para todas as áreas da cultura, demandar de que os empresários entendam que essa é uma parceria público privada e que não pode ser 100% de renúncias. Se fosse assim, não precisaria de empresas. Nesses 19 anos de Lei Rouanet, foi só 5% de dinheiro privado, então a gente está exigindo um mínimo de 20% de dinheiro privado. A crítica dos opositores da Lei é de que haverá muita centralização, como o senhor vê isso? Isso é uma bobagem. Hoje, o ministério avalia as propostas, emite um parecer favorável ou contrário demandando o aperfeiçoamento, vai para a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, que é bipartite. Eles sacralizam ou não o parecer. E vai continuar a mesma coisa. E mais, a gente vai fortalecer o Fundo Nacional de Cultura, Fundo Setorial da Música, da Dança, do Patrimônio. Os recursos vão todos para esses fundos? 80% vão para os Fundos. Hoje 80% vai para renúncia sem critério o que dificulta muito o desenvolvimento cultural e reduz muito o papel do Estado no apoio à produção cultural brasileira. Permite essas distorções de concentração. Os ingleses estão visitando o Brasil são responsáveis pela política cultural do Reino Unido, disseram que Lei Rouanet jamais poderia acontecer na Inglaterra. Por que? Porque segundo eles, e eu concordo, cada centavo que é renunciado, é um centavo a menos a ser disponibilizado para a produção cultural. A visão deles é que mecenato é quando mecenas coloca a mão no próprio bolso para fazer uma benesse cultural. Não é meter a mão no bolso do Estado. O Estado tem a sua responsabilidade muitas vezes de estimular, financiar uma atividade que não é lucrativa e portanto não é atraente para a iniciativa privada. Nem retorno de imagem dá. 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