Fiquei
preguiçoso com a idade: quando encontro um artigo de colega que diz
tudo o que há para se dizer a respeito de algum assunto, tenho optado
por simplesmente o reproduzir, ao invés de quebrar a cabeça para
escrever a mesma coisa de outra forma.
É o caso de Aluguel de partidos, do colunista Fernando de Barros e Silva, um dos poucos profissionais que se mantêm verdadeiros jornalistas na Folha de S. Paulo.
Eis os principais trechos:
Eis os principais trechos:
"... (designamos com) a expressão 'partido de aluguel' (...) certas legendas nanicas. Mas como chamar um partido que apoia o governo Lula (ou Dilma) na esfera federal e ao mesmo tempo dá seu apoio ao governo Serra (ou Alckmin) em São Paulo? Partido anfíbio? Partido oportunista? Partido Macunaíma? Partido ao meio?
Não estou me referindo apenas ao PMDB, verdadeiro partido de artistas, capaz de abocanhar a vice-presidência do governo Dilma, segurar com uma mão no governo Alckmin e com a outra fazer acenos para atrair Gilberto Kassab do DEM.
Pense no PSB, no PDT e no PV, três partidos que têm alguma pretensão de ser levados a sério ou possuir identidade programática. Na prática, pertencem à base do governo petista na esfera federal e à base do governo tucano em SP.
É curioso o caso do PSB. O partido cresceu, elegeu ou reelegeu seis governadores (...). Mas o PSB, em São Paulo, serviu de barriga de aluguel para a candidatura quixotesca de Paulo Skaf, o empresário que liderou o 'Xô, CPMF!', que os governadores do partido agora querem de volta. Afinal, que apito toca o PSB?
...(em) São Paulo (...) os governos tucanos mandam e desmandam na Assembleia Legislativa usando os mesmos métodos de aliciamento do governo federal.
...Alckmin agora está empenhado em promover um arrastão nas legendas que também parasitam Lula/Dilma (o PR, o PRB e o PP, além das citadas). Quase todos estão na política para isso mesmo: fazer negócios. E todos querem ser do único partido que de fato importa - o partido do poder".
A REFLEXÃO QUE SE IMPÕE
O
quadro que ele pinta com cores vivas, tão repugnante quanto
rigorosamente exato, enseja uma reflexão, que eu recomendo seja feita
pela companheira presidente Dilma Rousseff.
Para
simplesmente obter sustentação para governar, a utilização (e
pagamento) dos préstimos dessa escória política e moral é suficiente.
Mas,
para devolver ao povo a esperança de que o Brasil possa ser mudado -- e
de que ele, povo, possa ser o agente dessa mudança --, não. Aí será
preciso bem mais.
Em abril de 1989, fui dos primeiros a entrevistar o candidato a presidente Fernando Collor, para a Agência Estado.
Surpreendentemente, ele se alçara ao 2º lugar das pesquisas de intenção
de voto, mas o meio jornalístico ainda o avaliava como mero fogo de
palha.
Eu pressenti que ele poderia vencer. E, como Collor se apresentava como alternativa (caçador de marajás) à politicalha imunda, perguntei-lhe como faria para governar, tendo o Legislativo majoritariamente contra.
Respondeu
que, com a autoridade de primeiro presidente eleito pelo povo em quase
três décadas, ele convocaria as massas para pressionar o Congresso
Nacional.
Palavras
ao vento, claro -- afinal, ele próprio não passava de criatura do
sistema que dizia combater. A única diferença era provir da periferia
desse sistema, e não do seu centro.
Mas, para quem quiser mesmo ser uma alternativa à putrefata política oficial, talvez seja este o caminho das pedras.
Não, não estou falando nas célebres ameaças à democracia, o espantalho que a direita tanto gosta de erguer quando ela própria conspira para golpear as instituições democráticas.
Mas, em barganhar menos, ceder menos -- e usar mais a autoridade moral e o apoio das massas.
Seria um começo. E, dizem, Dilma é suficientemente dotada de brios para assumir uma postura destas.
Enfim,
espero que ela leia o ótimo artigo de Barros e Silva e reflita sobre
se, depois de ter lutado tanto, vale a pena tornar-se apenas a rainha
do pântano nele tão expressivamente retratado.

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