O Tempo Presente da Memória: Hiroshima Mon Amour de Alain Resnais.1
Alessandra Brum
Doutoranda em Multimeios,
Instituto de Artes/ UNICAMP.
Palavras-chave: cinema e literatura; memória.
Primeiro longa-metragem de Alain Resnais, Hiroshima Mon Amour (1959,
90min) conta com roteiro e diálogos desenvolvidos pela escritora Marguerite Duras.
Considerado um dos filmes mais importantes da história do cinema por sua contribuição
estética, Resnais nesse filme promove o encontro harmônico entre cinema e literatura.
O nome de Marguerite Duras aparece com freqüência associado ao Nouveau
Roman2. Essa ligação é sempre muito discutida, não apenas porque a escritora recusa a se
enquadrar em qualquer escola literária, mas também por ela possuir um texto muito
singular, de intensa personalidade. Sendo parte integrante ou não desse movimento
literário, o que nos interessa é que Duras faz da subjetividade humana o elemento central de
sua narrativa, ponto que certamente pesou na escolha do diretor Alain Resnais por seu
nome na escrita do roteiro e dos diálogos.
Além das qualidades literárias, outro fator que pode ter motivado o desejo de
Resnais pelo nome de Duras foi o fato dela ter nascido e vivido até sua adolescência em
Saigon, na Indochina Francesa. Resnais parece se preocupar muito em ter em seus projetos
pessoas que tenham alguma experiência afetiva com o tema3. O envolvimento do roteirista
com o filme proporciona ao diretor um certo desprendimento em relação ao conteúdo,
podendo conceber a forma do filme com mais liberdade.
Marguerite Duras não precisou criar seu texto preso ao formato de um roteiro de
cinema, pôde se expressar em uma linguagem que lhe é própria, a literatura, mas
conservando a escrita dramática. Apesar de proporcionar a escritora uma independência na
1 Esse trabalho faz parte da pesquisa que desenvolvo no doutorado intitulada O Tempo Subjetivo no Cinema sob orientação do Prof. Dr.
Fernando Passos e conta com o auxílio da CAPES.
2 Tendência narrativa dos anos 50 na França que reunia escritores que tinham em comum o abandono às principais características do
romance tradicional.
3 Isso pode ser observado também na escolha de Jean Cayrol, escritor e ex-deportado preso em 1942 pela Gestapo, para escrever a
narração do curta-metragem Nuit et Brouillard (1955, 32min) sobre os campos de concentração Nazista.
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construção do texto, Resnais faz questão de ter em mãos um material pensado para o
cinema, pois não se vê adaptando textos que não foram escritos com objetivo de virar filme.
“Je ne pars d’adaptation ou de livres, mais plutôt d’idées, mise
en forme spécifiquement pour um scénario.”4
A idéia de Hiroshima Mon Amour surgiu da encomenda que Resnais recebeu
dos produtores da Argos Films, que queriam que ele realizasse um documentário sobre a
explosão da bomba atômica em Hiroshima. Resnais iniciou uma pesquisa sobre o assunto e
o contato inicial com as imagens de arquivo fez com que ele mudasse o rumo do filme.
“J’ai été trés pertubé car ces documents étaient trés forts et
constituaient en eux-mêmes le documentaire que je devais
faire.”5
O projeto então, passou a consistir em contar uma história ficcional que pudesse
ter como pano de fundo a bomba atômica. Hiroshima Mon Amour se torna assim o seu
primeiro longa-metragem de ficção6.
Apesar da escolha pela ficção, Alain Resnais não deixa de introduzir elementos
que já havia experimentado anteriormente em seus filmes documentários: o formalismo,
como veremos à frente, a utilização de imagens de arquivo e a narração em voz over. A
seqüência inicial de Hiroshima Mon Amour faz farto uso desses elementos, típicos de um
documentário, e acaba por funcionar como um prelúdio à história central do filme.
O texto inicial da narração em voz over – que é dito na primeira pessoa e se
origina do diálogo entre os personagens - foi escrito após Marguerite Duras ter assistido ao
primeiro corte do filme na sala de montagem. Em se tratando de uma ficção esse é um
procedimento pouco comum. Na ficção o roteiro é uma das ferramentas indispensáveis na
organização do filme, onde normalmente estão previstos previamente todos os diálogos e
4 Entrevista com Alain Resnais. In: Cahiers du Cinema. Paris: Le Monde Publicité SA, Hors-série, novembre 2000, p.73. “Eu não parto
de adaptações ou de livros, mais sobretudo de idéias, tomado na forma específica de um roteiro”. (tradução da autora)
5 Idem. p.72. “Eu fiquei muito pertubado, esses documentos era muito fortes e constituíam eles mesmos o documentário que eu deveria
fazer”. (tradução da autora)
6 Até o momento Resnais só havia dirigido documentários, nove ao todo.
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narrações. Esse caminho escolhido por Alain Resnais de trabalhar o texto da narração na
fase de montagem é tipicamente um procedimento adotado na realização de um
documentário.
O filme inicia-se com um plano próximo de dois corpos nus se abraçando. A
imagem é pouco legível, os corpos parecem envoltos em um material arenoso, como a
poeira gerada pelos destroços deixados pela bomba atômica, que aos poucos vão se
transformando em suor, o que torna a imagem mais definida. Trata-se de dois amantes. A
mudança de um plano ao outro é feita através da sobreposição de imagens. A fusão aqui é
empregada com objetivo de acentuar a plasticidade do quadro. O enquadramento fechado e
o movimento lento dos corpos, quase na mesma posição, completam a composição abstrata
que é dada à imagem.
Ele diz: Você não viu nada em Hiroshima. Nada!
Ela diz: Eu vi tudo. Inclusive o hospital. Tenho certeza! O
hospital existe em Hiroshima. Como eu poderia evitar
vê-lo?
Ele: Você não viu um hospital em Hiroshima. Você não viu nada
em Hiroshima.
Ela: Quatro vezes no museu...
3
Ele: Que museu em Hiroshima?7
O diálogo do casal é realizado em off, sobre as imagens do hospital e do museu
em Hiroshima. A mulher descreve suas impressões sobre o museu que visitou por quatro
vezes. Quando a personagem fala de sua visita ao museu, imagens de diferentes pontos de
vista do museu nos são apresentadas, realçando o estilo moderno da construção. O
enquadramento valoriza a forma, a composição milimétricamente pensada acentua o vazio
dessa edificação que, como afirma o amante, não representam absolutamente nada.
Escadas, corredores que não levam a lugar algum. Como ela pode dizer que viu tudo em
Hiroshima?
Em seguida, Resnais nos introduz ao interior do hospital e do museu, com
longos travellings e uma câmera posicionada na altura dos olhos de um personagem
caminhando, simulando o ponto de vista de uma pessoa. Essa maneira como nos apresenta
as imagens reforça a idéia de que ela realmente viu tudo em Hiroshima. Resnais estabelece
uma relação dialética entre imagem e palavra, gerando uma relação de ambigüidade que
obriga o espectador a encontrar o seu próprio sentido.
7 Tradução extraído da legenda do filme Hiroshima Mon Amour exibido pela TV5.
4
Do museu somos introduzidos à cenas do filme que reconstituiu o momento da
bomba atômica e à imagens de arquivo, registros reais do horror que assolou a cidade de
Hiroshima. Essas cenas são intercaladas, pela montagem, com imagens dos corpos dos
amantes na cama do hotel.
A fala da mulher assume o tom de um monólogo, apesar das intervenções do
homem que afirma: “Tu n’as rien vu à Hiroshima. Rien.” A repetição insistente do homem
de que ela não viu nada em Hiroshima nos remete a idéia da negação da existência de uma
memória coletiva, conceito amplamente difundido entre os historiadores. Para os
historiadores, a memória coletiva é aquela que conserva os traços de acontecimentos do
passado. Ela não existe em estado bruto, pois está ligada a produção dos
documentos/monumentos8. A negação, por parte do homem, das impressões vividas pela
mulher em Hiroshima apontam para o caminho da existência apenas de uma memória: a
memória individual. Ela não pode lembrar de algo que não viveu, as impressões obtidas
externamente, através de objetos, fotografias, imagens saídas de um museu não podem ser
elementos constitutivos para a expressão de um sentimento interior.
Essa é uma concepção que está intimamente ligada ao conceito que Bergson
desenvolve em torno da memória. Para Bergson, a memória é subjetiva, é uma reserva
sempre crescente de nossa experiência adquirida ao longo da vida. Ele admite dois tipos de
memória: uma ligada ao hábito, que é a que permite que não esqueçamos de algumas
8 Conceito desenvolvido por Jacques Le Goff em História e Memória, Editora da Unicamp, 2003.
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condutas sociais, como falar, comer dentro das regras de etiqueta, reconhecer um amigo; e
uma outra memória, que ele denomina de verdadeira, que está em estado bruto e é
reavivada de forma independente, não temos controle sobre ela. Portanto, a primeira é uma
memória presente, mecânica, e a segunda uma memória profunda, lembrança, evocativa.
Esses dois tipos de memória são complementares e estão em mútua interação.
“Em outras palavras, é do presente que parte o apelo ao qual a
lembrança responde, e é dos elementos sensório-motores da
ação presente que a lembrança retira o calor que lhe confere
vida.”9
Isso é importante para compreendermos o caráter filosófico do texto de
Marguerite Duras e a dimensão poética que Alain Resnais procura desenvolver no filme
que se encontra em consonância com o conceito de Bergson. Um tempo presente
impregnado de um tempo passado. A lembrança evocada pelos acontecimentos vividos no
presente.
Dos 90 minutos de duração do filme, os 15 minutos iniciais são dedicados aos
efeitos da explosão da bomba atômica. Durante todo esse tempo não vemos os rostos dos
personagens. Eles permanecem anônimos. Apenas corpos abraçados.
Alain Resnais, como já observamos anteriormente, transforma essa seqüência
inicial em um documentário. Crianças, homens, mulheres, corpos mutilados, queimados,
expostos a dor. Uma cidade inteira desfeita pela tragédia. O texto, dito por ela, é um alerta.
Apresenta dados, questiona, provoca. A imagem que encerra esse prelúdio é emblemática.
Resnais estabelece uma correspondência entre o fragmento dos corpos dos amantes
enquadrados em planos próximos, com o corpo de um mutilado, vítima dos efeitos da
bomba10. Para tanto, o recurso da fusão é utilizado aqui para acentuar essa ligação entre a
cena de amor do universo da ficção e a cena de horror do mundo real. Uma provocação
poética que está em consonância com o título do filme: Hiroshima Mon Amour, como é
possível amar Hiroshima, amar em Hiroshima?
9 BERGSON, Henri. Matéria e Memória. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.179.
10 Marguerite Duras sugere essa correspondência na sinopse. IN: DURAS, Marguerite. Hiroshima Mon Amour. Scénario et Dialogues.
Paris: Galiimard, 1960.
.
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Toda a ação se passa em dois dias em Hiroshima, no Japão. Uma atriz francesa
(Emmanuelle Riva) está em um hotel na cidade com objetivo de realizar um filme sobre a
paz. Em Hiroshima, vive uma história de amor com um japonês (Eiji Ojada). Uma única
noite de amor vivida intensamente em seu quarto de hotel. Ao amanhecer, ele insiste em
vê-la novamente. Ela, por sua vez, adverte que na manhã seguinte estará de volta à França.
Ele apela por mais uma noite, ela diz não, sem justificativa. Na saída do hotel ela
confidencia-lhe que na cidade de Nevers, na França, ela havia sido jovem, realmente
jovem. Essa declaração aguça ainda mais o seu novo amante que, agora, não quer mais
apenas uma noite, precisa de mais tempo para melhor conhecê-la. Todo o desenrolar da
história está centrado nesse ponto, o desejo dele de permanecerem juntos por mais algum
tempo. Ambos são casados, mas isso não possui nenhuma importância na história dos dois,
pois o conflito que se estabelece de fato está na recusa dela de viver esse amor por mais
algum tempo. Lidamos com dois conflitos, o externo motivado pela recusa da mulher de
revê-lo novamente, e o conflito interno, vivido pela mulher, que a partir dessa experiência
amorosa rememora o grande amor do passado que fora interrompido drasticamente. A
impossibilidade de amar no passado impede o presente.
Ele: Você me dá muita vontade de amar.
Ela: Sempre...essas paixões imprevistas...Eu também...
Ele: Não. Não é sempre tão forte...Você sabe disso.
Ela (olhando para o céu): Anunciaram trovoadas antes do
anoitecer
7
As dificuldades e angústias do amor são apresentadas por Resnais através do
enquadramento do céu nublado, que será ocupado por faixas e cartazes de uma passeata
preparada para o filme no qual ela está atuando em Hiroshima.
As faixas que tomam o céu, que ao anoitecer anunciam trovoadas, alertam para
o avanço dos testes nucleares. Resnais aqui parece estabelecer uma relação metafórica entre
o rumo catastrófico que o homem está tomando em nome da ciência e a impossibilidade de
se viver um grande amor.
A mulher cede vacilante à insistência do amante e vai com ele até sua casa. No
leito amoroso, ela confia a ele o seu segredo de juventude em Nevers. Ela viveu o mais
intenso amor com um soldado alemão que morreu durante a guerra. As lembranças desse
amor ocorrido no passado são reavivadas pela presença desse novo romance. A força do
passado envolve o presente e o transforma. Inúmeros flashbacks são intercalados com as
cenas deles na cama.
O flashback é um recurso narrativo que tem por objetivo retroceder no tempo. A
ação do presente é interrompida por uma lembrança do passado. Normalmente funciona
como um discurso subjetivo de um determinado personagem, revela fatos, situações que
ajudam a clarear as ações do presente.
No caso de Hiroshima Mon Amour, o flashback é empregado na narrativa de
diferentes maneiras. Na seqüência em que ela conta a seu amante sua história de amor da
8
juventude vemos, durante sua fala, várias imagens de Nevers (tempo passado) que são
intercaladas com a imagem dos dois deitados na cama (tempo presente). Ao falar da morte
de seu grande amor, através de uma fusão, a imagem de uma construção em Nevers
aparece. Um jardim edificado ao estilo art nouveau, a beira de uma encosta. Essa
construção é enquadrada em contra-plongée do ponto de vista de alguém que está embaixo,
olhando para cima. Aparentemente esse lugar é mais um dos muitos que ela e seu amante
freqüentavam em Nevers em seus encontros às escondidas. Esse mesmo lugar será
novamente mostrado mais adiante, em uma seqüência em que os dois personagens
conversam em um bar, como sendo o local em que a pessoa estava quando atirou em seu
amante. Esse local é, na verdade, a representação da morte. Essa dedução pode ser obtida
pela fala da mulher, na primeira aparição da edificação e posteriormente pela montagem
que estabelece uma contigüidade espacial entre o local em que se encontra o amante morto
e o jardim art nouveau. Esse recurso de não revelar o sentido da imagem é um importante
elemento de composição da atmosfera de conflito vivida pelo personagem. Cada lugar de
Nevers, paisagens, cercas, porões, rio, celeiros, ruínas estão carregados de subjetividade da
mulher.
O conhecimento do passado, por ela vivido em Nevers, transforma não apenas a
relação que ela estabelece com ele, mas a dele em relação a ela. Na seqüência do bar, ela
continua a descrever suas lembranças, agora de maneira mais detalhada. Somos novamente
introduzidos por ela aos acontecimentos de Nevers. Ele assume a identidade do amante
morto e se dirige a ela como se ele fosse o homem que ela amou no passado.
Ele: Quando você está no porão, eu estou morto?
Ela: Você está morto...e....
Como posso suportar essa dor?
Esse passado, que terá efeitos no presente, pontua todo o filme de Alain Resnais.
A maneira como Resnais articula os elementos fílmicos transformam o tempo da ação.
Sobreposição de imagens de Nevers com as de Hiroshima, fusões, fade out, composição
formal do quadro, montagem alternando imagens de Hiroshima e Nevers, são elementos
que acentuam a presença do passado no presente.
9
Todos os procedimentos narrativos empregados por Resnais buscam articular o
tempo presente com o passado a partir das impressões da personagem. O tempo da história,
que é cronológico no filme, acontece em dois dias, é impregnado de sensações subjetivas da
personagem. As alternâncias sucessivas entre imagens do presente e do passado são
sempre no sentido de ser a expressão da subjetividade e do tempo interior da personagem.
Resnais introduz, com maestria, os inúmeros flashbacks não como um simples retorno ao
passado que nos ajuda a entender a ação do presente, mas estabelece uma relação de
continuidade e interação entre as ações do passado com as do presente. Essa relação de
continuidade tanto pode ser estabelecida pela maneira como se dá à ligação dos planos,
como pela articulação da fala em sua relação com a imagem. Através desses
procedimentos, Resnais toma as imagens do passado no sentido proposto por Bergson,
como elemento de duração. O passado dela persiste no tempo presente.
Um bom exemplo em que o flashback se articula em continuidade com o
presente na relação entre os planos do filme é a cena em que a mulher observa seu amante
japonês na cama, deitado de bruço com o braço estendido. O flashback é motivado pelo
ponto de vista que a mulher tem de seu amante na cama. A posição do corpo lhe faz
rememorar o corpo de seu grande amor estendido no chão no momento de sua morte. O
detalhe da mão do japonês funde-se com a imagem da mão do seu amor no passado, os
corpos na mesma posição, o presente e passado se mesclam.
1
“Na verdade, não há percepção que não esteja impregnada de
lembranças”11.
É isso que Resnais procura fazer em Hiroshima mon amour. A idéia de
lembrança está também associada ao esquecimento. Esse é um dos pontos que o texto de
Marguerite Duras também aponta. A certeza do esquecimento é um dos motivos que fazem
com que a mulher rejeite esse novo amor. Esse é também um elo que associa o romance do
casal com os efeitos da bomba atômica, o diálogo inicial nos coloca essa questão que vai
percorrer todo o filme.
Ela: Contra quem a ira dessas cidades? A ira das cidades
conscientemente ou não, contra a desigualdade imposta em
princípio por certos povos contra outros povos, contra a
desigualdade imposta por certas raças contra outras raças,
contra a desigualdade imposta por certas classes contra outras
classes. Ouça! Como você eu conheço o esquecimento.
Ele: não. Você não conhece o esquecimento.
Ela: Como você, eu tenho memória, eu conheço o esquecimento.
Ele: Não. Você não tem memória.
Ela: Como você. Eu também tentei lutar com todas as forças
contra o esquecimento. Como você, eu esqueci. Como você, eu
desejei ter a inconsolável memória. Uma memória de sombras e
de pedras... Eu lutei decidida, com todas as forças, todos os
dias, contra o horror de não mais entender o porquê de se
lembrar. Como você...eu esqueci. Por que negar a evidente
necessidade da memória?
Ouça. Eu sei que vai acontecer de novo.
A recusa da personagem em viver novamente um grande amor está descrita na
certeza do esquecimento. Os lugares, os objetos são mais fortemente lembrados do que as
11BERGSON, Henri. Matéria e Memória. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p.30
1
feições. Ela se lembra com clareza da sua dor, mas não se lembra direito do rosto de seu
grande amor morto. Aqui está um dos pontos que fazem deles personagens anônimos, que
não possuem sequer nome próprio, Ela é Nevers – nome da cidade onde viveu seu grande
amor -, Ele é Hiroshima – o lugar, que permanecerá na memória como depositária de um
novo grande amor.
(Digestivo Cultural)
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domingo, 17 de outubro de 2010
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