A Noite
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Por Luiz Rosemberg Filho & Sindoval Aguiar, do Rio de Janeiro
O cinema de Antonioni continua cristalino e necessário, ao revelar nossos muitos horrores numa espécie de nostalgia do que deixamos morrer.
Veja um trecho desta obra-prima:
Para Isabel Lacerda
O tempo que aparentemente não passa e ao mesmo tempo marca cada rosto. Cada corpo. Cada enraizamento nosso na solidão e na dor. Descoberto de suas certezas o ser humano vaga por uma teatralidade labiríntica entre ausências e silêncios. Sua presença são ausências de algum sentido ou sentimento mais profundo na sua constituição do humano. É só uma visualização de vazios sem significação alguma. Sua compreensível mundanidade de ser no mundo, é a nossa desumanização subordinada aos vazios da política e aos meios de comunicação. A grosso modo, somos todos parte dessa estranha relação de angústias, como a presença do mundo apreendida por todos nós. E, no que nos falta substância amorosa, realização alguma nos satisfará.
Digamos que o cinema de Antonioni é a exteriorização dos fantasmas vivos da solidão de todos nós. Uma teatralidade expressiva dos nossos muitos fracassos enquanto seres humanos. E numa espécie de labirinto-visual nos acolhe a todos, fechando-nos em nossas muitas angústias e sofrimentos. Em que somos diferentes dos seus personagens de Crônica de um Amor ao Deserto Vermelho, passando pela sua trilogia? Até poderia não ser assim. Poderia ser diferente e melhor. Mas somos preenchidos por muitos espaços vazios onde nem a palavra mais chega. Nada mais seduz a esta civilização que vai se esgotando na sua própria sombra.
O que interessa a Antonioni é uma intervenção indireta e simbólica instrumentalizada pelo requinte do seu olhar, o que nos transforma em formas irreconhecíveis de fragmentos, pois só somos isto: pedaços de algumas coisas que não se realizaram. Seus personagens vagam entre vazios e banalidades incorporados num sistema doído de silêncios e repetições onde representam nada. Herdeiros de um sistema de vacuidades e solidão.
Estão juntos numa longa festa que continua a de o magnífico O Leopardo no passado, só que brutalmente vazios, ofuscados e humilhados diante do que poderia ter sido a vida e não foi, pois a deixaram passar sem relação alguma com o saber e o prazer. Foram apenas espectadores dos seus vazios. Agora já estão mortos ou morrendo como o amigo no início do precioso filme.
Seu cinema continua cristalino e necessário. Absolutamente moderno, nos vemos revisitando nossos muitos horrores numa espécie de nostalgia do que de nós deixamos morrer. O ser humano tornou-se sem vida, ainda vivo. Representa o empresário, o escritor de sucesso, o político, o religioso fanatizado e a puta. Aparentemente satisfeito em representar, move-se no seu hábito frígido sem voz alguma. A Noite, de Antonioni, é a vida dos que esqueceram de si mesmos. O indizível das suas muitas monstruosidades onde o amor tornou-se apenas descrições visuais do seu mal-estar. E está só para morrer, do mesmo modo como sempre viveu: sem encantamento algum. Daí, a não-essência em nada no crepúsculo de suas muitas ausências, pois é apenas um sonâmbulo. Livro lido pela filha do empresário.
Carlos Drummond de Andrade, em um de seus poemas sobre instantes e eternidades, diz mais ou menos assim: “As coisas que podemos tocar tornam-se imperceptíveis, insensíveis à palma da mão; mas as coisas que acabam fugazes, coisas que terminam e que gostaríamos de eternizar, estas não, são coisas lindas, muito findas e que não temos poder para fazê-las ficar em nossas mãos. Mas ficarão como inseparáveis do nosso viver e do nosso sentir.” Este é o tema de A Noite, de Michelangelo Antonioni.
Alguns mestres do cinema são excepcionais na literatura do cinema, das imagens, na descrição e captação de um mundo assim: perceptível e imperceptível. Um deles, sem dúvida, é Antonioni. Um cineasta do isolamento, da solidão, de universos tangíveis e intangíveis. Suas tomadas são verdadeiras escrituras da expressão, da compressão e descompressão. Íntimas e universais! Da angústia à beleza e ao desespero. Tempos de vivência ou de ausências, tempos de invenção e de extrema idiotice, cinismos e fingimentos.
Antonioni é um cineasta historiador de uma Itália histórica e moderna, de vidas singulares, ativas ou banais. Em nenhuma delas a vida lhe escapa em sentido tão profundo quanto o de Hegel, mas em perspectivas, planos e paisagens tão díspares e distantes. Pelo fervor, pelo calor e pela poesia. A de uma poesia invadente e só dela, como entendimentos. Observador apaixonado, respeitoso, íntimo e presente. O que Drummond soube muito definir e expressar.
E como tem sido difícil captar o ser humano neste cenário das metrópoles, onde o presente se fixa e se rompe em verdadeiras viagens ao infinito de nós mesmos e da própria história, e dessa modernidade, que nos atropela sem reservas e sem paixões. Quase tragédias que o encantamento dissimula como algum sinal de vida. A Noite é filme para ser visto, filosofado, gostado ou não; e não para ser contado. Porque a noite é a de cada um e de toda humanidade. Numa narrativa que não somente encanta, preocupa e nos fecha abrindo perspectivas e esperanças, porque a utopia não morre. Muito menos o sentido da eternidade do amor. Esta coisa tão linda que o filme aborda. E amor como prisão, entrega, prazer, dor e solidão. Muito íntima, sensível e intangível.
Filme surpreendente pela presença, distâncias e nostalgias. Com o peso de cada existência sob a força de uma não existência em seus múltiplos aspectos, até nos das reinversões, quando a vida quer se impor sobre ruínas, necessidades e submissões. Onde qualquer resistência se torna um martírio pela lógica das razões e imposições, nos desdobramentos de tempos, de viveres e do sentir; de cada um e do universo circundante. Onde tudo é tão presente e, ao mesmo tempo, parece inútil consequência de um destino transparente e fugaz.
Alguns momentos deste filme são absolutamente antológicos como referências e como verdades. Em um deles, o casal, já no final, são próximos e íntimos como num último recurso. Quando o escritor fala: “A juventude possui uma arrogância como se nada fosse terminar.” Numa imersão no tempo, ele continua: “Parece que a gente só é feliz quando deu alguma coisa a alguém...”
Na cena final, Antonioni arrisca uma síntese. Sentados em um jardim amplo, sob a imensidão solitária da noite, a esposa retira da bolsa uma folha de papel e lê. É uma longa carta, como uma página de um livro. Com a carta terminada, só resta um silêncio entre ambos. O de um instante de grandes intensidades; o maior em todo o filme como uma presença e, talvez, a única entre ambos. Esta carta, coisa de tanto tempo, mas de universo findo e infinito, portanto, ainda presente, e que ficou. Foi o que definiu, pelo menos uma vez, aquele casal. Diante do silêncio do marido e de um encontro dele consigo mesmo, ou de ambos, na vida, ela o olha friamente e revela secamente a autoria:
“ É tua!” Então, abre-se para um final indescritível! Só Antonioni!
28/8/2010
Fonte: ViaPolítica/Os autores
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terça-feira, 14 de setembro de 2010
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