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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Palcos

JOHN GIELGUD

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Sessenta anos gloriosos de teatro não foram suficientes para que John Gielgud se transformasse num rosto conhecido da multidão. Isso só aconteceria em 1981, aos 77 anos, quando ganhou o Oscar pela comédia Arthur – O Milionário Sedutor. O que Shakespeare não conseguira, Hollywood lograra. Gielgud achou divertido. Alguns papéis eram questão de espírito, outros eram apenas comércio. Fosse Resnais ou “xaropadas idiotas” que pagavam as contas, Gielgud enfrentava uns e outros com a mesma altivez. Nos últimos trinta anos de sua correspondência, o ator inglês vê o fim se aproximar, mas não se alarma. É com serenidade e compostura que reflete sobre amigos partidos, glórias (suas e dos outros), e a própria fragilidade do corpo – devidamente escondida da imprensa, para evitar o enterro prematuro nos jornais

1969

Para Hugh Wheeler[1]

Londres, 25 de março

Graves problemas com o imposto de renda. Meu contador morreu subitamente e agora descobrimos que ele não pagou nada desde 1966!! É preciso levantar uma soma colossal, pois ganhei muito dinheiro nesses últimos três anos, pela primeira vez na vida! Agora dizem que eu não devia ter trazido de volta o dinheiro de A Carga da Brigada Ligeira e, sim, ter enfiado o dinheiro em algum canto do mundo. Tudo muito cacete e complicado?– agora eles tomam 60% de tudo o que ganho e põem numa conta separada. Estamos cortando tudo o que podemos.

1971

Para Emlyn Williams[2]

Nova York, 24 de janeiro

Muito estranho ficar velho, não é? De certa forma, a gente acha que isso é impossível?– nós mesmos envelhecermos, quero dizer. O que mais detesto é minha própria atitude extremamente egoísta frente às tragédias dos outros. Logo penso: “Mas que horror eu vou ter de enfrentar?– enfermidades, cirurgias, a perda das poucas pessoas de fato importantes?– acidentes? Desastres de avião? Perda da memória, incapacidade de trabalhar? O que vai acontecer?” Mas tenho certeza de que, para cada pessoa, isso acontece de forma inteiramente inesperada, e algum curioso instinto de resistência se ergue, sorrateiro, vindo de não se sabe onde, e nos induz a prosseguir, apesar de toda a infelicidade.

1972

Para Edith Evans[3]

Londres, 9 de abril

Estou de partida para a Califórnia a fim de fazer uma refilmagem de Horizonte Perdido, com Peter Finch. O papel é uma xaropada idiota, nenhum momento que ofereça a mais ínfima possibilidade de representar e me sinto um pouco envergonhado do suborno que me levou a aceitar o trabalho. Mas tive um grave incidente com o imposto de renda três anos atrás e o trabalho deve ajudar a corrigir minha situação outra vez (e, com sorte, deixar uma vaga livre em Denville Hall).[4]



Para Paul Anstee[5]

Hollywood, 15 de abril

O filme vai custar 6 milhões de dólares, portanto vamos esperar que a música fique boa?– nada mais vai sobreviver!



Para Dorothy Reynolds[6]

Hollywood, maio

Viver aqui é estranho, improvável. Sinto-me como Portia na cena do julgamento, com uma pitada de neto de Von Stroheim, interpretado por Yul Brynner.

Vi um desenho animado hilariante, O Gato Fritz, muito grosseiro e violento, mas antiDisney de maneira brilhante e revigorante (embora, como de costume, eu tenha gostado muito do dia que passei na Disneylândia recentemente?– um brinquedo novo e maravilhoso: Piratas do Caribe).

Dizem que a trilha musical de Burt Bacharach[7] é esplêndida, mas não ouvi e graças a Deus não tenho de fingir que canto, como Peter Finch e os outros. Liv Ullmann (também do rebanho de Bergman) é uma atriz linda e faz um contraste adorável com as outras duas atrizes. Um mosteiro fantástico está sendo erguido no cenário, na área livre do estúdio?– reaproveitando o castelo do filme Camelot! Imagine só.



Para Paul Anstee

Filadélfia, 29 de dezembro

Arrasado por ouvir comentários de que Horizonte Perdido é muito ruim?– colorido, pavoroso, Peter Finch velho demais para o papel?– e também por saber que o filme foi escolhido para a exibição real em Londres?– tomara que nessa noite eu tenha algum compromisso. Pobre Senhora Windsor[8]?– as coisas que ela tem de fazer pelo bem da Inglaterra.



1975

Terra de Ninguém, de Harold Pinter, estreou no Old Vic no dia 23 de abril. Gielgud dirigiu Judi Dench e Daniel Massey em The Gay Lord Quex.



Para Irene Worth[9]

Londres, 29 de abril

A peça de Pinter correu às mil maravilhas na noite de estreia e todos parecem muito satisfeitos com Ralph e comigo. Me deu um branco total na longa fala no final da última pré-estreia?– tentei substituir uma frase que eu havia pulado e acabei fazendo a maior lambança, por isso fiquei apavorado de representar na noite seguinte, mas Deus?– ou concentração eficiente?– me ajudou, felizmente. Crítica muito boa em toda parte?– todos um pouco desconcertados com os trechos obscuros e com a moral, seja qual for, que acabam tirando da peça, ou que deixam de perceber. Mas a peça é divertida, ameaçadora, poética e forte, embora provavelmente a mistura dos ingredientes seja um pouco perturbadora e confunda a plateia. Mas isso acontece, até certo ponto, com todas as peças de Pinter.



1976

Para Hugh Wheeler

Wotton Underwood,[10] 4 de abril

Vou passar três semanas em Limoges e Paris para trabalhar com Alain Resnais?– um papel fascinante num filme com Ellen Burstyn, Dirk Bogarde, David Warner e Elaine Stritch, em um filme muito estranho e abstrato, Providence.



Para Hugh Wheeler

Wotton Underwood, 27 de junho

Passei três semanas estranhíssimas na periferia de Limoges, filmando com Resnais?– muito interessante, mas extremamente frio. Fiquei deitado num parque deslumbrante, numa espreguiçadeira, vestindo um terno estilo Palm Beach, fingindo que achava tudo lindo, enquanto o vento assoviava e toda a equipe se abrigava do frio em agasalhos pesados.

Enfim, sucumbi à tentação de fazer um
(Revista Piauí)

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