As imagens das praias de Agnès Varda
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Por Luiz Rosemberg Filho & Sindoval Aguiar, do Rio de Janeiro
Agnès Varda
O cinema de Agnès Varda é um fluxo de experiências necessárias. Recupera o sentido emocional e político do cinema e o faz avançar num esforço poético de ser melhor
e mais profundo como linguagem.
“Se [...] pergunto se tudo está bem,/ De espelho a espelho, Não é por vaidade:/ Estou à procura do rosto que tinha/ Antes de o mundo ser criado.”
W.B. Yeats, em A mulher jovem e velha
Veja o trailer de Les Plages d’Agnès:
Reencontrar na imagem os movimentos dos seus muitos Eus. O espectador é enfeitiçado pela beleza de uma vida através da qual se introduziu o cinema como forma de pensar. Pensar o tempo que passou. Pensar os subterrâneos da linguagem. Pensar o afeto e as dores das perdas. Temos a impressão que Agnes Varda constitui uma espécie de tangenciamento oculto da paixão que nada explica, registrando em filme seus encontros e desencontros pela vida.
Para compreender seu processo criativo é preciso merecer. Ele está alicerçado em As Praias de Agnès, uma sólida reconstrução de caminhos já vividos. Faz poesia com o que vê, como a filmagem de uma multiplicidade de espelhos numa praia deserta. Distancia-se do comum ao absorvê-lo em linguagens poéticas.
Desvendar os muitos espaços de Agnès Varda é bastante estimulante, pois nos passa muitas das nossas essências perdidas no tempo de um país-prisão. E, ao invés de simples espectadores, nos reinventamos mais humanos diante daquilo que nos é mostrado. Seu cinema nos transfere uma espécie evolutiva de encenações subjetivas. Não no sentido da identificação-alienação, comum nos filmecos de Hollywood, mas das nossas próprias superações enquanto espectadores. Não vai tão fundo como o cinema de Godard em toda sua vasta obra, mas nos faz avançar transformando o nosso olhar empobrecido em luz para a expansão das suas imagens e ideias.
Com a maestria de uma sólida mulher, desfaz a figura excêntrica do diretor de cinema que, como as putas, só gostam de dinheiro e sucesso. E que acaba sendo a vestimenta oficial de muitos idiotas. Sua base se fundamenta no encontro, na dúvida e no hábito como metáfora de um capitalismo sem significação profunda alguma. E que só é forte pelo idiotismo de muito enclausurados no mercado, que nunca foi nosso como referência.
Varda quer ousar e ir além. Descobre e se descobre como mulher, fotógrafa, mãe e diretora de cinema. Não para ser melhor que A, B ou C – mas para se superar sempre a cada filme feito. Medita então sobre o que viveu e fez. Age como sensibilidade pura. Na sua autobiografia filmada se deixa generalizar poeticamente como caminhos. Deixa-nos ouvir as batidas do seu coração.
Faz cinema, e não empulhação para um mercado de aberrações tipo: “Rambo´s”, “Duro de Matar, “Xuxa´s”... Seu cinema se sustenta em contradições como expressão de uma vida rica envolvida pelo saber, o olhar e o afeto. Se deixa levar para os reencontros com momentos vividos intensamente. Introduz o pensamento no olhar, encena significações amorosas profundas: a família, os amigos, o marido cineasta que partiu, e, por fim, a criação na solidão das idéias. Inverte todas as suas certezas. E em muitos recomeços, a linguagem como referência principal, dando profundeza ao nosso olhar. Sensível, não sente necessidade de explicações. É uma grande cineasta e não busca a bajulação.
As belas imagens de Agnès Varda deixam claro um traço essencial de afeto pelo que vê, da observadora atenta que deseja ser amada. E mais que isso: entendida no seu processo de ser melhor como mulher e cineasta. Ora, se o homem só sabe legitimar a guerra, só a mulher gesta o futuro para uma humanidade melhor. É errôneo acreditar que a mulher só sofre e se suicida no último ato ou sequência. E aí nos referimos a mulheres fortes como Marguerite Duras, Chantal Akerman, Agnès Varda e Ana Carolina. Rejeitamos a perua que ganhou o Oscar (e isso ainda existe?), defendendo a presença criminosa americana no Afeganistão e no Iraque. Cinema é uma outra coisa além dos soldadinhos de chumbo da paranóia imperialista do papai Obama.
Varda trabalhou e trabalha expressões humanas e não a exterminação do presente. Apóia-se no saber e na sensibilidade e não no espetáculo de aberrações de uma guerra idiota de ocupação. Pode-se dizer isso dos “filmes” de Hollywood? Claro que não. Mas... habituaram-se a comer M... e gostar. E isso do cinema à política, passando pela TV e o teatrão. Ora, o que são os nossos homens públicos? Lixo! O cinema de Agnès Varda nos passa outras referências, e a principal delas é que vale ousar viver melhor. Não para poucos, mas para todos. Não usando a demagogia como os políticos e comunicadores, mas com afeto e o saber. E o seu mundo perceptivo é o cinema ligado ao humano lado da vida.
As Praias de Agnès são viagens ajustadas à compreensão do processo de se revelar para os outros. Nesse percurso supera momentos e perdas. Não se coloca como vítima, mas como uma experiência em transformação permanente, a de tentar se entender além das suas muitas referências teóricas. Seu foco de análise é a sua própria vida, ampliando para todos os seus conceitos de felicidade. A felicidade como vísceras do seu processo de criação, que dá expressão a tudo e a todos. Resta sublinhar a supremacia doce do seu olhar, que substitui a dor pela procura do afeto humano seja lá onde for: Cuba, China, EUA...
Ousaríamos dizer que o cinema de Agnès Varda é um fluxo de experiências necessárias para todos. Recupera o sentido emocional e político do cinema e o faz avançar num esforço poético de ser melhor e mais profundo como linguagem. De M... quem gosta é a TV e não o cinema. Varda consolidou-se com o cinema ao lado de Jacques Demy (seu marido falecido), Resnais, Rivette, Godard... E seguiu por um caminho muito seu: o de uma permanente procura da felicidade. A felicidade como saber e política.
Por fim, seu cinema se torna uma força terapêutica que nos permite avançar mesmo no desamparo e desconforto da civilização dos shoppings e da Coca-Cola. Suas reminiscências produzem poesia. Um filme de paixões onde Agnès Varda quer falar de si, numa narrativa autobiográfica, mas acaba falando do outro como alteridade e como associações de recordações, belezas e sofrimentos, essas carências inventadas, que nos permitem continuar a existência.
Agnès que avançar na narrativa e não consegue. O cinema a detém como a máxima expressão de si mesma e de sua vida. Está presa ao que o mundo lhe estendeu como horizonte de liberdade: as praias e os amigos como referências inseparáveis.
Uma cineasta de significações e tão longe de nós! Pelo esquecimento e a omissão e por esta unanimidade que nem o óbvio perscruta mais. Agnès tem o óbvio como beleza, paixão e vida. O de viver e buscar a vida onde ela estiver, até mesmo como as indicações de pessoas e lugares: seja quem for e onde for! Define seu tempo numa conjugação de ações, como se o tempo não mudasse. Assim, seu cinema é belo, pungente e humano. Generoso e doce! Como se tudo fosse feito de suas delicadezas!
Para Agnès Varda, o tempo é o da paixão humana, que ela vive, toca e aborda como arte, naqueles instantes que somente a solidariedade transcende. Às vezes de uma paixão dolorida definida nas carências de uma transfiguração. Paixão pelo cinema, paixão pelos amigos, paixão pela vida. E essa autobiografia e essas paixões revelam-se num agradecimento ao cinema, sua profissão, a que fez vida para viver e amar sem nunca negar.
Como na poesia em Dante, faz da terra um paraíso e do inferno o óbvio, e que o seu talento, poesia e sensibilidade não negam, o aqui e o agora tão difíceis de cinematografar! Como uma extensão da beleza e das carências de sua projeção. Num jogo de espelhos sem medos e que ela leva para as praias para uma simultaneidade de tempos e de ações em um mesmo lugar. E por que não, de paixões? Ela está feliz em narrar. Seu monólogo não é o da solidão, mas o das paixões, visões e liberdades assumidas e estendidas! Como as praias de Agnès!
O filme é uma recriação de sua própria existência, que ela gostaria de ver multiplicada como num jogo de espelhos e que ela consegue simbolizar nessa simultaneidade de ações. Em sua vida/cinema, onde se vê depois do tempo já alojado, a verdadeira experiência, que resulta da acumulação da história e sentimentos, sem negar a força da paixão como a única, capaz de tudo superar e elevar.
O filme de Agnès Varda é vontade e representação, com as significações transformadas em cinema e amizades. E como afirmação do tempo, este que passa, ou que chega sem mandar aviso, porque sempre está conosco. Fiel, generoso e implacável. O óbvio que nunca percebemos! E que surge como transgressão e ocultamento da própria morte, realidades que a beleza e as alegrias não conseguem sustentar, vítimas de tantas carências confundidas em nossas representações. Espaço das religiões, da sublimação, ocultação do mito e da produção do ópio que sombreia nossas tentativas, como as de Agnès Varda, para um mundo melhor. Como o esbanjamento de tanta coisa que poderia ser e não é, tamanha a proximidade da vida e da morte em ritmo de espetáculo, o que está se tornando inevitável e insuportável. Cenário que Agnès Varda transfigura para a representação de sua autobiografia como cinema, paixão e vida. E de carências realizadas! Agnès, criança! Porque é a fase adulta com a tragédia absorvida!
3/4/2010
Fonte: ViaPolítica/Os autores
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segunda-feira, 5 de abril de 2010
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