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domingo, 7 de março de 2010

Aproximação com Irã é símbolo da crescente autoestima da diplomacia brasileira, diz especialista

Aproximação com Irã é símbolo da crescente autoestima da diplomacia brasileira, diz especialista

Do UOL Notícias
Em São Paulo
  • Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad (esq.), cumprimenta Luiz Inácio Lula da Silva
Mesmo a 12 mil quilômetros de distância, o Irã foi o tema mais presente durante toda a visita que a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, fez ao Brasil nesta semana.
Nas duas paradas que fez – em Brasília e em São Paulo – a chanceler teve que responder o que pensava da postura brasileira em relação ao país asiático. E a razão da polêmica é que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva discorda da maioria das potências mundiais e acha que Teerã, acusado de buscar tecnologia atômica militar, “não deve ser colocado contra a parede”.

Em visita ao Brasil, chanceler Hillary
Clinton retoma discussão sobre o Irã

A discussão não é nova. Desde o ano passado, quando o Brasil recebeu com honras o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, o governo Lula já enviava sinais de que não embarcaria no discurso geral de isolar e sancionar Teerã – ao contrário, estaria disposto a defender o direito de soberania do país asiático. Para os analistas, esta é uma aproximação que combina elementos econômicos, políticos e simbólicos.
"O Irã é um país com petróleo, um país em desenvolvimento. É do interesse do Brasil aumentar o comércio com o Irã, fornecer alimentos, máquinas, e o Irã tem interesse na América Latina", afirmou Penna, doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e professor da Universidade de São Paulo (USP), na época da visita de Ahmadinejad ao Brasil, no ano passado.
A própria chancelaria brasileira confirma que o fator econômico é levado em conta nas iniciativas de aproximação do governo Lula e o governo Ahmadinejad. “O Irã é um país grande, complexo, uma economia importante. A questão do comércio exterior e a questão do investimento estão presentes, sim”, reiterou o Itamaraty, consultado pelo UOL Notícias.
De fato, desde o final da década de 1990 o intercâmbio comercial entre Brasil e Irã é largamente favorável ao Brasil (veja gráfico abaixo). No ano passado, o valor que os brasileiros receberam pelas exportações foi 64 vezes maior do que o total pago ao Irã pelas importações.
No entanto, o país asiático ainda tem pouco peso no quadro geral da nossa economia. Os relatórios oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior mostram que em 2009 o Brasil exportou US$ 1,2 bilhão para o Irã, com destaque para vendas de carne, milho, açúcar e soja. O valor é equivalente a 0,78% de toda a exportação brasileira no ano.
No mesmo período, o país comprou US$ 18,9 milhões do Irã, um valor composto principalmente pela importação de enxofre. No conjunto das importações brasileiras, o Irã representa 0,01%.

Saiba mais sobre o Irã

  • Forma de governo: República teocrática islâmica

    Área: 1.648.195 km²

    População: 66.429.284

    Religião: muçulmanos (98%: 89% xiitas e 9% sunitas), e outros

    Idiomas: persa e dialetos persas (58%), turco e dialetos turcos (26%), curdo (9%), e outros

    Recursos naturais: Petróleo, gás, carvão, cobre, ferro

    Exportação: principalmente petróleo e derivados, frutas e tapetes, vendidos para China, Japão, Índia, Coreia do Sul, Turquia e Itália

    Importação: bens de consumo, bens de capital, alimentos e serviços, comprados dos Emirados Árabes Unidos, China, Alemanha, Coreia do Sul, Itália, França, Rússia

“Pensando com a própria cabeça”

Para além da questão do comércio, o analista Andrew Hurrell, diretor do Centro de Estudos Internacionais da Universidade de Oxford (Reino Unido), destaca que a posição brasileira sobre Teerã carrega um peso simbólico importante.
“Para o Brasil, o Irã se tornou um símbolo de sua crescente autoestima na diplomacia internacional”, explicou Hurrel em entrevista recente ao UOL Notícias.
Esse foi um ponto claramente reiterado pelo próprio ministro Celso Amorim, durante a visita de Hillary. Ao ir contra a opinião de pesos-pesados como Alemanha, Reino Unido e, principalmente, Estados Unidos, o Brasil mostra que pode andar com as próprias pernas – ou, nas palavras do chanceler, “pensar com a própria cabeça”.
“O Brasil não se recusa a se juntar a um consenso, mas as questões internacionais não podem ser resolvidas de qualquer maneira, sob pressão. Cada um de nós tem que pensar com sua própria cabeça. Nossos objetivos são idênticos: queremos um mundo sem armas nucleares, pois o caso nuclear iraniano também nos preocupa. Temos de saber qual o melhor caminho, se as sanções terão efeitos positivos ou negativos”, afirmou Amorim.
Para justificar a moderação brasileira, Amorim comparou a situação atual com a desconfiança internacional com as supostas armas de destruição em massa do Iraque no início da década. Segundo ele, “a ameaça não se concretizou, mas os prejuízos causados pelo mundo foram enormes”.
Depois da visita, a própria Hillary já parecia convencida: “O Brasil é um ator global com mente independente, assim como os EUA”, afirmou a chanceler na noite de quarta-feira, em seu último evento oficial no país.

Enviado por Laerte Braga

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