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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Gays

(Chico Villela) BHObama agora defende a presença de gays nas forças armadas do país. Parece um súbito despertar de sentimentos democráticos. Mas não é: há razões ocultas.
Antes que o leitor me imagine contrário à presença de gays em meios militares ou em qualquer lugar, esclareço que considero odiosa e repugnante a posição oficial (”Don’t ask. Don’t tell”), do governo e das autoridades militares, que se opõem à presença de gays assumidos ou conhecidos nas forças armadas, assim como considero odioso e repugnante todo tipo de discriminação. Na sua recente alocução sobre o estado da nação, BHObama prometeu abolir o veto aos gays que querem “servir ao país que amam”. Agora o secretário de Defesa, Robert Gates, e o chefe do comando militar conjunto, almirante Michael Mullen, em depoimento a comitê no Senado, saem publicamente em apoio a BHObama.
É a primeira vez na história do país que dois pesos pesados desse porte defendem publicamente o fim da discriminação aos gays. Tudo leva a crer que se trata de revisão de atitude socialmente superada, em flagrante desacordo com os novos ventos da modernidade. Seria até desejável que assim fosse, já que organizações militares costumam ser paquidermicamente conservadoras. Mas as reais razões sob a cortina de surpreendentes declarações simpáticas aos gays podem resumir-se em dois enunciados:
As forças armadas estão enfrentando crescentes dificuldades para contar com quadros treinados e renovar as tropas em combate nas guerras euamericanas pelo mundo // As tropas que se acham nos teatros de guerra estão em estado de absoluta exaustão.
Ao contrário do que ocorre, por exemplo, no Brasil, o alistamento militar nos EUA é voluntário, e a carreira nas forças armadas é considerada emprego garantido, embora de risco. Assim, não há filhos das elites e dos ricos entre os soldados, apenas afrodescendentes, brancos pobres e, cada vez mais, latino-americanos cidadãos ou naturalizados. Mas a realidade das guerras do Iraque e do Afeganistão, entre outras, vêm afastando até mesmo esses candidatos das fileiras.
A posição dos oficiais vem se tornando a cada dia mais flexível quanto a certos gêneros de interessados em alistar-se. É crescente, por exemplo, a entrada de racistas declarados e skinheads como candidatos a lutar nas guerras, nas quais se notabilizam pela selvageria contra os “nativos”. Mas os aspectos mais reveladores da real situação das forças armadas transparecem em alguns fatos relevantes.
Fato 1. É grande o número de tropas awol (absent without official leave: tropas que se recusam ao retorno e permanecem presas e sujeitas a corte marcial; ou, de forma mais geral, tropas que se retiram por um tempo do serviço militar, sem autorização, mas que, ou retornam, ou manifestam intenção de retorno) que pretendem permanecer nas forças armadas, mas que se recusam a voltar aos teatros de guerra. Invariavelmente, são presos e mantidos nos quartéis, e sofrem grande sorte de humilhações. Têm sido comuns as propostas de comandantes de guarnições a tropas awol presas no aguardo de corte marcial para que aceitem retornar às guerras, em troca do ‘apagamento’ em seu prontuário do fato gerador da prisão & processo.
Ver http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=15987
Fato 2. Os serviços médicos militares vêm desaconselhando o retorno de milhares de tropas sob variadas alegações de transtornos físicos e, com destaque, mentais: a proporção é de um terço dos examinados. No total, são quase 200 mil entre 2002 e 2008. O mais comum é o chamado PTSD, distúrbio de estresse pós-traumático . Ocorrem também depressão, psicoses, alcoolismo agudo e abuso de drogas, surtos de violência. Mas mesmo essas tropas não recomendadas clinicamente vêm sendo reenviadas aos teatros de guerra, o que significa combatentes física e mentalmente desequilibrados.
Assim, não admira o elevado e crescente número de suicídios entre militares, sejam combatentes, sejam retornados ao país, superior ao da população em geral: 20,2 entre militares e 19,5 entre a população, para 100 mil pessoas (para militares, em 2002 era de 9,8, menos da metade da taxa atual). Ganham vulto também diversos atos de desespero, a exemplo do psiquiatra (!) militar que assassinou mais de uma dezena de colegas na maior base do país há uns meses. O dado sobre suicídios é ainda mais alarmante ao se constatar que existe orientação psicológica para as tropas, exames prévios à entrada do candidato, etc., e a população de civis não contar com esses recursos. A taxa entre militares é de 10 tentativas para cada 1 morte, o que fornece a cifra de mais de 1.600 tropas por ano com intenção de suicidar.
Fato 3. A assistência médica aos retornados com distúrbios físicos e psíquicos de alta gravidade, e aos militares em geral, é parcial e precária. Também o índice de crianças nascidas com deformações (cuidado: imagens fortes) é muito mais alto entre os retornados do que na população de civis, o que atesta contaminação dos pais, durante a permanência nos países invadidos, com urânio empobrecido (de efeitos eternos e devastadores) e uma miríade de elementos tóxicos, presentes em armamentos e variados materiais. Tudo isso tem contribuído para tornar comuns as cenas de ex-combatentes que assassinam a família e suicidam.
Fato 4. Cresce no país o movimento pacifista e o de veteranos de guerra que se opõem (veja exemplo aqui e também aqui), com ênfase na juventude, e a lembrança da oposição maciça à guerra do Vietnã ainda assombra algumas cabeças que ainda hoje movem os fios da guerra.
Ilustres comandantes declaram “não saber explicar ” as causas da degradação da vida militar nesses últimos anos. Agora, voltam-se para os gays, que são a mais acessível reserva euamericana intacta de candidatos a morrerem em guerras a serviço do capital. Há outras, a exemplo dos jovens ricos. Mas BHObama não vai convocá-los, como se estivesse numa situação de guerra para valer: ainda não enlouqueceu a esse ponto…
(Chico Villela)
(novae)

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