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sábado, 23 de janeiro de 2010

O torturador que diz não ter medo da verdade - Parte 2


Fernando Soares Campos - Editor-Assaz-Atroz-Chefe

Hoje me enchi de disposição e resolvi “traduzir” mais algumas das garatujas que, apressado, tracei em dezenas de folhas de papel enquanto tentava localizar o sargento Túlio, ex-agente do Cenimar.

Isto pode até quebrar o clima de expectativa que alguns leitores criaram, mas posso adiantar que o encontrei sim, e que ele passou de torturador a torturado pelos inúmeros problemas de saúde (gastrite, pressão alta, desvio de coluna, incontinência urinária, problemas renais, complicações respiratórias e profunda depressão, entre outros), além de enfrentar sérios conflitos com os familiares (está praticamente abandonado pelos filhos). O sargento Túlio chegou a me dizer que se sente um fraco, por não ter coragem de consumar o suicídio que lhe “traria paz”, conforme crê. Mas garante não temer a verdade e promete arrastar muita gente consigo, caso venha a ser indiciado em processo de apuração dos crimes da repressão política dos anos de terror nazi-caboclo, patrocinado pelos jagunços do capitalismo covarde praticado por estas bandas, lambe-botas, escravos da própria mesquinhez, cães fila com complexo de vira-lata.

Mas, que ninguém se engane; pois esses que ele diz que envolveria como acumpliciados com os seus pares, ou superiores hierárquicos, não constam das listas negras dos que, explicitamente, promoveram ou apoiaram o terror. Garante que nem mesmo faria qualquer acordo do tipo delação premiada; entregaria os sujeitos “pelo prazer de vê-los desmascarados”.

O sargento Túlio me falou que, apesar de lotado (na Marinha se diz “embarcado”, mesmo em unidades de terra) no Primeiro Distrito Naval, no Rio de Janeiro, também foi escalado para participar de operações em diversas capitais brasileiras, principalmente em Porto Alegre, Vitória, Salvador, Recife e Belém.

Identifiquei um sopro de ufanismo quando me falou que teria sido considerado um dos mais operantes e competentes entre os agentes do Cenimar.”Cheguei a ser indicado para treinamento na Escola das Américas, no Panamá”, afirmou. E, imodesto e despudorado, como me pareceu, garante: “Se eu fosse pra lá, ia ensinar, e não aprender”.

“Não conheci outro lugar pra ter mais dedo-duro que no Recife! As Ligas Camponesas nasceram e morreram em Pernambuco, pois foi lá que o pessoal sofreu as maiores traições. E com os estudantes do Recife não tinha meio termo: ou o cara se entregava e falava mansinho, ou endurecia e dançava. Muita gente que ainda hoje está aí dando uma de moralista colaborou com a gente, na boa! Em Salvador também teve muito caguete.” Quando o sargento Túlio se exaltava, como dessa vez, era acometido de um violento acesso de tosse, apesar de já ter largado o cigarro há mais de vinte anos.

“Querem a verdade? Pois que venham! Eu não tenho medo da verdade! Todo mundo sabe que a verdade dói, num dói?! Então...”

Não me pareceu tão corajoso e decidido. Notei que apenas tentava me impressionar. Se eu pudesse reproduzir com fidelidade o tom com que falava, seus tiques nervosos, você, leitor, veria que o sargento Túlio (suboficial reformado) pode até chutar o pau da barraca diante de uma comissão de verdade e justiça, mas percebi que tem medo de, antes disso, queimarem um “arquivo vivo”. Por outro lado fiquei pensando naquela insinuação de que está disposto a suicidar-se para se ver livre dos sofrimentos que padece. O camarada vive em permanente conflito com o alterego. Aquela casa lúgubre em Anchieta, subúrbio do Rio, onde vegeta há muitos anos, esconde fantasmas até na caixa d’água.

Não estranhei quando falou que não se lembrava de mim, pois me lembro bem que ele pouco aparecia na praça de máquinas do submarino, e seu alojamento era no compartimento dos torpedos de vante, portanto raramente circulava pelo meu ambiente de trabalho.

Mas isso aí é apenas uma amostra grátis das três horas de conversa que ele me permitiu, sem gravação; pude apenas fazer algumas anotações. Em geral, tudo aqui é reproduzido de memória, cada palavra, cada gesto, o silêncio ou a explosão dos ânimos. E não dá pra esquecer aquele olhar angustiado, ora parecendo suplicar razão, ora vagueando acorrentado a tristes lembranças de um passado nada agradável de evocar.

Na sequência destes relatos retomo a conversa que tive com o sargento Túlio, 74 anos, cinco filhos, mas somente um ainda lhe faz uma visita mensal; é quem controla suas finanças; creio que seja a única pessoa em quem confia, por absoluta falta de opção, mera dependência. Enviuvou duas vezes.

* * *

Dia desses a ministra Dilma Rousseff falou que se orgulhava de ter mentido sob tortura, quando foi presa no final dos anos 1960, por fazer parte de grupo insurgido contra a ditadura civil-militar. “Me orgulho de ter mentido, o que estava em questão era a minha vida e a de meus companheiros. Aguentar tortura é dificílimo”, disse a ministra.

É preciso coragem para mentir àqueles que estão tentando lhe arrancar informações sob tortura, há que se ter talento para convencer os algozes. Até porque os gorilas, provavelmente, não acreditam nem mesmo quando o torturado está falando a verdade. Evidente, pois devem imaginar que a vítima está apenas querendo se livrar dos suplícios. Coragem ainda porque, se eles acreditarem no que lhes foi dito e em seguida descobrirem que foram enganados, o interrogado será submetido a tratamento ainda mais violento.

Assim como a militante Dilma Rousseff mentiu no momento da apuração dos fatos e formação do processo judicial que viria a condená-la por participar de ações contra o regime ditatorial, eu também menti para os inquisidores de uma auditoria militar, em 1974. Prestei falso testemunho, com o propósito de livrar um amigo que se encontrava preso, enquadrado na Lei de Segurança Nacional, acusado de desacato à autoridade de um oficial da Marinha de Guerra e suspeito de participar de ações contra o modelo político-ideológico vigente.

Mas aquele não era apenas um amigo dentre as inúmeras amizades que conquistei mundo afora. Tratava-se de um companheiro de infância, desses que a gente considera tanto quanto a um irmão consanguíneo.

Ele havia entrado para a Marinha um ano antes de mim, porém já não estávamos na ativa. Ele havia sido reformado por ter apresentado problemas de ordem psiquiátrica; e eu tinha recebido baixa da Armada há bem pouco tempo, mas considerado apto para prover minha própria subsistência, apesar de também ter sido submetido a tratamento psiquiátrico, internado na clínica especializada do Hospital Central da Marinha. No entanto a Marinha registrou no meu documento de isenção do serviço militar um diagnóstico de “insuficiência física”, sem nunca ter-me submetido a qualquer exame que pudesse revelar tal condição. O documento mentiroso que a Marinha me forneceu está comigo até hoje. Foi com ele que me dispensaram sem qualquer forma de indenização, depois de seis anos na ativa e com um contrato vigente.

Naquela ocasião, meu amigo havia feito amizade com um estudante nicaraguense, e juntos faziam um curso técnico em instituição de ensino da Marinha.

O nicaraguense carregava o peso de ser membro da família do sanguinário ditador Anastácio Somoza Debayle, parente distante, como dizemos por aqui, e ele costumava confirmar com: “Más cerca están mis dientes que mis parientes”. Ninguém poderia condená-lo simplesmente pelos laços de família com o déspota; tratava-se de uma ovelha desgarrada do rebanho, um jovem que tinha simpatia pelo movimento de contracultura. Apesar de não podermos considerá-lo propriamente um hippie, vestia-se e agia como tal; exibia uma cabeleira esvoaçante e era chegado a um papo-cabeça.

O curso era noturno, e, numa noite daquelas, os dois saiam da sala de aula quando foram abordados pelo tenente responsável pela disciplina da escola. O oficial chamou a atenção do nicaraguense, informando que, se ele quisesse continuar frequentando as aulas, deveria cortar o cabelo.

Mesmo preferindo ser excluído do curso a ter que se desfazer de um dos seus símbolos de protesto contra os valores tradicionais e, principalmente, de orientação militar, ele assentiu balançando a cabeça e esboçando leve sorriso, que, ao oficial, sugeriu uma expressão de deboche.

“Está zombando de mim?!” Perguntou o tenente. “Não, senhor, eu não faria isso. Mas considero uma exigência excessiva.” Falava em bom português, mas com o inevitável sotaque capaz de confundir pessoas menos acostumadas a ouvi-lo.

O tenente reagiu: “Agressivo, eu?! Ora! moleque, eu até que estou lhe tratando bem...”

“Ele disse ‘excessiva’, tenente.” Aparteou meu amigo.

“Não estou lhe perguntando nada!” Retrucou o oficial. E concluiu dirigindo-se ao nicaraguense: “Não cabe a você ou a qualquer outro aluno julgar o nosso regulamento interno. E se quiser continuar frequentando este estabelecimento, trate de cortar essa juba!” O tenente já se encontrava nas raias da encolerização.

O meu amigo não se conteve e decidiu comprar a briga: “O senhor está abusando da sua autoridade, tenente.” Falou com explícito tom de zanga.

O oficial não estava acostumado a ser contestado por um aluno, menos ainda naquele tom e com aquele tipo de acusação. “O que você está querendo dizer com isso?!” Pareceu não acreditar no que ouviu.

O nicaraguense ainda tentou evitar o acirramento da discussão: “Vamos embora, depois eu decido se corto o cabelo ou se continuo o curso.”

Os dois fizeram menção de se afastar deixando o local. O tenente berrou: “Fiquem onde estão! Eu ainda não dispensei vocês!” O jovem estrangeiro estancou sob os gritos do tenente; meu amigo, porém, continuou caminhando, em claro desafio à autoridade.

Os berros do tenente despertaram a atenção dos funcionários civis e militares que trabalhavam nos setores administrativos da escola. Alguns marinheiros, cabos e sargentos já se encontravam no corredor, ao lado do oficial, prontos para atender ao seu comando.

“Detenham esse sujeito!”

Foi o suficiente para que três de seus subalternos alcançassem o meu amigo e o contivessem.

Imprensado contra a parede, ele reagia com os mais obscenos palavrões. Em poucos minutos uma patrulha do Corpo de Fuzileiros Navais chegou ao local e o levou para a viatura estacionada em frente à escola, sob a sua resistência física (pouco significativa para os bem treinados fuzileiros) e veementes protestos: uma mistura de impropérios e palavras de ordem contra a ditadura militar.

Esse caso ocorreu em meados de 1973, e essa história me foi contada por um dos irmãos do meu amigo.

Eu estava de partida, retornava para minha terra natal, pretendia tirar férias por tempo ilimitado, até que escolhesse novo rumo para as minhas aventuras mundo afora (desde muito jovem, antes de ingressar na Marinha, eu costumava botar o pé na estrada, sem paradeiros preestabelecidos). Antes de viajar, tentei visitar o meu amigo no presídio da Ilha das Cobras, mas não obtive permissão. Viajei.

No início de 1974 ele ganhou o direito de responder ao processo em liberdade.

* * *

Os sertões do Nordeste não são tão isolados do mundo como os que não conhecem a região podem imaginar. Mesmo naquela época, nas cidades mais remotas, lá onde o vento faz a curva, léguas depois donde Judas perdeu as botas, os bailes eram animados por bandas de centros mais desenvolvidos, e os repertórios coincidiam com a moda das discotecas do Rio ou São Paulo. Geralmente com um pequeno atraso em relação aos lançamentos no Centro Sul.

Lá estava eu contando minhas histórias de marinheiro e me divertindo nos bailes do interior.

Certo dia recebi carta do meu amigo. Ele me falava que suas chances de ser absolvido eram mínimas, pois não contava com uma só testemunha a seu favor; enquanto o tenente estava coberto de razão, apoiado nos depoimentos dos subalternos e no registro de ocorrência lavrado pela guarda de fuzileiros navais. Ele me pedia para vir ao Rio depor a seu favor.

“Como assim?!”

Eu só conhecia a história contada por um dos seus irmãos, que também não assistiu aos fatos, apenas ouviu sua versão quando o visitava no presídio.

Meu amigo propunha pagar minha passagem e me hospedar em sua casa aqui no Rio.

Falei com meu pai, contei a situação do amigo preso, pedi sua opinião. Meu pai imediatamente concordou que eu deveria vir. Disse mais: “Não precisa que ele mande o dinheiro da passagem. Eu pago a passagem e lhe dou mais algum dinheiro pra se manter por lá!”

Mas eu não tinha ilusões quanto ao comportamento do meu pai. Ele, na verdade, queria me ver longe daquela terra, pois sabia que, se eu demorasse muito por lá, não estaria hoje aqui contando esta história.

A minha cidade natal é considerada terra de gente irreverente, brincalhona, festiva, mas também, por mais contraditório que possa soar, é um lugar muito violento. Vários amigos meus foram assassinados, geralmente por motivos banais. Ainda hoje é assim. Puro faroeste caboclo.

E por falar em faroeste caboclo, os onze primeiros versos da história do João de Santo Cristo, cantada na voz de Renato Russo, da Legião Urbana, retrata, praticamente fiel aos acontecimentos, uma de minhas aventuras. Vou reproduzir aqui esses onze primeiros versos da música Faroeste Caboclo e fazer observações sobre as pequenas diferenças entre o João de Santo Cristo e eu, até aquele trecho da letra.

Não tinha medo o tal João de Santo Cristo
Era o que todos diziam quando ele se perdeu
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
(deixei a cidade)
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu

Quando criança só pensava em ser bandido (como esse cara adivinhou?!)
Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu (não, isso não aconteceu comigo)
Era o terror da sertania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu

(O verso a seguir é o retrato fiel do que eu fazia)

Ia pra igreja só prá roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar
Sentia mesmo que era mesmo diferente
Sentia que aquilo ali não era o seu lugar

Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
(eu não juntava, pegava do meu pai e botava o pé na estrada)
De escolha própria, escolheu a solidão

Comia todas as menininhas da cidade (nem todas, claro, só as que me deram)
De tanto brincar de médico, aos doze era professor.
Aos quinze, foi mandado pro reformatório
(aos catorze fui mandado pro hospício)
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror

Não entendia como a vida funcionava
Discriminação por causa da sua classe e sua cor
(eu era discriminado por ser bonito e inteligente)
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem, foi direto a Salvador
(essa foi uma das minhas muitas viagens)

E lá chegando foi tomar um cafezinho (depois de alguns dias, na rodoviária)
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar (falei com um comerciante em viagem de negócios)
E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a viagem
Mas João foi lhe salvar

Dizia ele: "Estou indo pra Brasília
Neste país lugar melhor não há
Tô precisando visitar a minha filha
Eu fico aqui e você vai no meu lugar"
(não, o camarada com quem falei ia para Jequié, onde morava, fui eu quem disse que ia pra Brasília)

E João aceitou sua proposta (ele completou o dinheiro da minha passagem)
E num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal
(1966, o ônibus em que viajei, despejou os passageiros no Núcleo Bandeirantes)

"Meu Deus, mas que cidade linda,
No Ano Novo eu começo a trabalhar"
(era janeiro, e eu não pretendia trabalhar coisa alguma, só queria me divertir)

Daí em diante a história não tem praticamente nada a ver com a minha. Dois meses depois voltei pra minha cidade natal. Gostava de contar minhas aventuras, me jactava delas, mesmo que a maioria das pessoas achasse que era mentira. Aliás, eu gostavam que dissessem isso, pois assim eu sentia que realmente teria sido muito ousado.
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Breve eu volto para contar como cheguei ao casarão do sargento Túlio, em Anchieta. Aquilo lá é um mausoléu!

Sim, mas esses camaradas que de vez em quando rondam aqui pelas imediações do condomínio, os que dia desses me abordaram ali no portão, já não me parecem sujeitos perigosos, apesar de mal encarados.

Outra hora eu conto a volta que dei neles no dia da abordagem.

Ah! conto também como terminou o caso do meu amigo acusado de “subversão”.

Mas interessante mesmo é a entrevista com o torturador que diz não ter medo da verdade. Pô! o cara tem umas teorias fantasiosas sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos, o PNDH 3. Não sei de onde ele tirou aquelas idéias malucas.
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Se você chegou até aqui lendo tudo isso aí em cima, mas não leu a primeira parte, então, não entendeu bulhufas, portanto não custa ler a historia desde o começo, é só clicar...

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