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sábado, 12 de dezembro de 2009

AI-5/41 ANOS O COTIDIANO DE UM RESISTENTE

AI-5/41 ANOS
O COTIDIANO DE UM RESISTENTE
 
*Celso Lungaretti

 
 
A propaganda enganosa difundida incessantemente na internet pelas viúvas da ditadura bate muito na tecla de que os integrantes das organizações que pegaram em armas contra o regime militar utilizariam o dinheiro expropriado dos bancos para viver como burgueses, entre luxos e orgias.

No último mês de abril, quando de outro estupro do jornalismo cometido pela Folha de S. Paulo (a tentativa de envolver Dilma Rousseff com um sequestro que não era de sua responsabilidade e nem chegou a ser tentado), uma mensagem de leitor do jornal repetiu essa cantilena demagógica:
“Quem se beneficiou do produto dos assaltos, sequestros, guerrilhas e assassinatos cometidos em nome da ideologia? Apenas eles, os ilegais, que hoje estão no poder...”.
Como costumo fazer quando a imundície dos sites fascistas transborda da lixeira, respondi, com o artigo O Dia a dia de quem resistia à ditadura. Dei um testemunho pessoal de como nos beneficiávamos do produto dos assaltos.

Nesta véspera de mais um aniversário da canetada que mergulhou o Brasil no terrorismo de estado extremado, dando sinal verde para atrocidades e genocídios, creio ser pertinente repetir meu depoimento -- que só difere em detalhes do de todos os companheiros que travaram a luta desigual e sofrida contra a tirania.

"...ACORDANDO A CADA MANHÃ SEM SABER SE ESTARÍAMOS VIVOS À NOITE..."

Eu militei na VPR entre abril/1969 e abril/1970, quando fui preso pelo DOI-Codi/RJ, sofri torturas que me deixaram à beira de um enfarte aos 19 anos de idade e me causaram uma lesão permanente.

Nesse ano em que me beneficiei do produto dos assaltos praticados pelas organizações de resistência à tirania implantada pelos usurpadores do poder, como foi minha vida de nababo?

Na verdade, recebia o estritamente necessário para subsistir e manter a minha fachada de vendedor autônomo.

No início, fui obrigado a me abrigar em locais precaríssimos, como o porão de um cortiço na rua Tupi, próximo da atual estação do metrô Marechal Deodoro, na capital paulistana. Era só o que eu conseguia pagar com o produto dos assaltos.

Cada quarto era um cubículo mal ventilado. Enxames de pernilongos me atacavam durante o sono. Afastava-os com espirais que mantinha acesos durante a noite inteira... e me faziam sufocar.

O que mudou quando minha organização fez o maior assalto da esquerda brasileira em todos os tempos, apossando-se dos dólares da corrupção política guardados no cofre da ex-amante do governador Adhemar de Barros? Quase nada.

Era dinheiro para a revolução, não para gastos pessoais. Apesar de integrar o comando estadual de São Paulo e depois exercer papel semelhante no Rio de Janeiro, continuei levando existência das mais austeras.

Meu último abrigo foi o quarto alugado no amplo apartamento de uma velha senhora do Rio Comprido (RJ). Fazia tanto calor que eu era obrigado a dormir despido sobre o chão de ladrilhos, que amanhecia ensopado de suor.

Quando tinha de abandonar às pressas um desses abrigos, todos os meus bens cabiam numa mala de médio porte. Vinham-me à lembrança os versos de Brecht, “íamos pela luta de classes, desesperados/ trocando mais de países que de sapatos”.

Havia, sim, um dinheiro extra, que equivaleria a uns R$ 10 mil atuais. Mas, tratava-se do fundo a que recorreríamos caso ficássemos descontatados e tivéssemos de sobreviver ou deixar o país por nossos próprios meios, sem ajuda dos companheiros que já estariam presos ou mortos.

Nenhum de nós gastava essa grana, era ponto de honra. Os fundos de reserva acabaram chegando, intactos, às garras dos rapinantes que nos prendiam e matavam. Nunca prestaram conta disso, nem dos carros, das armas e até das peças de vestuário que nos tomaram.

E, mesmo que tivéssemos dinheiro para esbanjar, como o gastaríamos? Éramos procurados no país inteiro, com nossos nomes e fotos expostos em cartazes falaciosos.

Eu, que nunca fizera mal a uma mosca, aparecia nesses cartazes como “terrorista assassino, foragido depois de roubar e assassinar vários pais de família”. O Estado usava o dinheiro do contribuinte para me fazer acusações mentirosas e difamatórias!

Para manter as aparências, éramos obrigados a sair cedo e voltar no fim do dia. Os contatos com companheiros eram restritos ao tempo estritamente necessário para discutirmos os encaminhamentos em pauta; dificilmente chegavam a uma hora.

Sobravam longos intervalos, com nada para fazermos e a obrigação de ficarmos longe de situações perigosas. Tínhamos de procurar locais discretos, tentando passar despercebidos... por horas a fio. Sujeitos a, em qualquer momento, sermos surpreendidos por uma batida policial.

Vida amorosa? Dificílima. Cada momento que passássemos com uma companheira era um momento em que a estávamos colocando em perigo. Ninguém corria o risco de ir transar em hotéis, sempre visados (e nossa documentação era das mais precárias, passei uns oito meses tendo apenas um título eleitoral falsificado). E as facilidades atuais, como motéis, quase inexistiam.

Aos 18/19 anos, senti imensa atração por duas aliadas, uma em São Paulo e outra, meses mais tarde, no Rio de Janeiro. Com ambas, o sentimento era recíproco. E nos dois casos mal passamos dos beijos apaixonados com que nos cumprimentávamos e despedíamos. Qualquer coisa além disso seria perigosa demais.

Enfim, esta é a vida que levávamos, acordando a cada manhã sem sabermos se estaríamos vivos à noite, passando por freqüentes sustos e perigos, recebendo amiúde a notícia da perda de companheiros queridos (eu até relutava em abrir os jornais, tantas eram as vezes que só me traziam tristeza).

Sobreviver alguns meses já era digno de admiração. Ao completar um ano nessa vida, eu já me considerava (e era considerado pelos companheiros) um veterano. Caí logo em seguida.

Dos tolos que saem repetindo essas ignomínias marteladas dia e noite pela propaganda enganosa da direita, nem um milésimo seria capaz de encarar a barra que encaramos, não pelas motivações ridículas que nos atribuem, mas por não agüentarmos viver, e ver nosso povo vivendo, debaixo das botas dos tiranos!
 

Pra relaxar e RIR, kkkkkk

 

'Como é triste viver de humor

Enviado por EV ChaveS
 


A Fábrica de Sonhos acabou? "Será que vocês vão ter que Marchar outra vez?" ACORDA POVO


13 de Março de 1964 - O comício de Jango - o presidente João Goulart- na Central do Brasil,  último grande ato político antes do golpe nefasto.

Em OUTRAS PALAVRAS Rodrigo Viana lembra:
"...Repare na ênfase de Jango na reforma agrária - que era e continua a ser um dos medos maiores de nossa velha elite (não é à toa que o  MST é o movimento mais demonizado do Brasil, como o eram as Ligas Camponesas de Julião, em 64).
O comício marca também o último suspiro do getulismo como força política nacional. Vargas é citado no discurso. Depois, com a redemocratização, o getulismo teria um último suspiro com Brizola, mas só no campo local (Rio e Rio Grande do Sul).
FHC disse que enterraria a herança de Getúlio. Lula fica no meio do camnho..."
Ouça e assista tb. o discurso de Jango: http://www.youtube.com/watch?v=KjM48ZjevmA



 A FABRICA DE SONHOS ACABOU
Composição: Gonzaguinha






A fábrica de sonhos acabou
Era um bom bom-bocado sem licor

Milagre rima com vinagre (sim senhô)


Guarda-sol se abre ao sol
Ma' nunca foi frô




                                                       Coitada daquela gente que acreditou


                                                                                     Marchando, por minha família, pedindo a Deus
(Marcha da Família: movimento de cunho moralista e altamente financiado pela CIA, multinaconais e grandes empresas brasileiras e insuflado pela mídia, essencial no processo de derrubada do governo constitucionalista de João Goulart, pelos militares, em 1964. Com o terço na mão e acolitadas por padres e pastores americanos, senhoras da alta sociedade puxavam passeatas-monstro pelas grandes cidades, pregando a queda do "demônio" Goulart.FOTO e ARQUIVO: MINO CARTAVeja tudo sobre a demagogia da marcha que foi inflamada PELOS DITADORES< TORTURADOES, com apoio da mídia e da igreja http://www.cpdoc.fgv.br/nav_jgoulart/htm/7A_conjuntura_radicalizacao/A_marcha_da_familia_com_Deus.asp)

Vai ter que rezar novamente ao São Salvador










 Algumas "intervenções da Polícia Militar:
1- Ocupação em Protesto na Retitoria da USP para pedir renuncia da Reitora
2- Manifestação FORA ARRUDA ( DEM, antiga UDN - partido de grileiros(Katia Abreu) aliados da DITADURA
3- Manifestantes no protesto na sede do BNDES, no centro do Rio, Contra os Impactos da Monocultura e os financiamentos dado as multinacionais como Aracruz, MONSANTO...

.

Numa  Ocupação na fazenda Espírito Santo, de propiedade do banqueiro DANTAS  ( patrão de Gilmar Mendes , o presidente do STF), em EL Dourado Carajás





 Pois a redentora prece, pariu Mateus
Mateus a muito matou e manteve a dor








E fez chover quando era pra manter sol
E trouxe o sol quando era só pra chover



E não teve nem um pouquinho de simancol.
Ô, ô, ô...
Será que ocês vai tê qui marchá tra veis.
Ô, ô, ô...
Do mermo modo que aquela pessoa fez.

Gilson Carone: O presidente e o palavrão que incomoda

Mídia

11 de Dezembro de 2009 - 16h50

Gilson Caroni Filho: o presidente e o palavrão que incomoda

Se tratar da língua é tratar de um tema político, a fala sem rodeios do presidente Lula, durante cerimônia de assinatura dos contratos do programa Minha Casa, Minha Vida, no Maranhão, vai encher a seção de cartas de jornais e revistas, além de dar o tom do moralismo seletivo dos grandes articulistas.

Por Gilson Caroni Filho*, na Carta Maior

Fingirão não saber que palavras tidas como chulas são formas lingüísticas ímpares para expressar emoções que permeiam o corpo e os amplos campos das relações sociais. Não está em questão se o emprego se deu em contexto adequado, mas o que move o coro dos “indignados”.

Ao afirmar que "eu não quero saber se o João Castelo é do PSDB. Se o outro é do PFL. Eu não quero saber se é do PT. Eu quero é saber se o povo está na merda e eu quero tirar o povo da merda em que ele se encontra; esse é o dado concreto", Lula tem consciência de que os opositores dirão que desrespeitou a postura pública que deveria manter em face de majestade do cargo que ocupa. Tanto que se antecipa à crítica anunciada: “Amanhã os comentaristas dos grandes jornais vão dizer que o Lula falou um palavrão, mas eu tenho consciência que eles falam mais palavrão do que eu todo dia e tenho consciência de como vive o povo pobre desse país".

Como tem sido colonizada para ter vergonha de ser o que é, uma boa parcela da classe média urbana se apresenta como defensora intransigente da propriedade, da família e do Estado Patrimonial. Confunde governo e salvação, ignora a representação, desconhece direitos sociais e políticos, menosprezando a exploração econômica, embora seja “mobilizável” por campanhas de caridades que reforcem a sua imagem de privilegiadas. Em busca de ilusões perdidas, está disponível para aventuras que realçam a ferocidade dos seus recalques. E qualquer enunciado que apresente um padrão variante é o suficiente para açular o seu ódio de classe.

Pouco lhe importa se campeia a violência, a truculência e a miséria. Em seu ilusório casulo, o que merece relevo é o destempero verbal de um presidente que não segue os padrões dos antigos donos do poder. É de pouca importância se o governo anterior reduziu a zero os empréstimos da Caixa Econômica Federal às autarquias e estatais da área de saneamento básico. Também não lhe tira o sono se a decisão política do tucanato provocou, além da dengue, surtos de cólera, leishmaniose visceral, tifo e disenterias. Ora, doenças resultantes da falta de saneamento não lhe incomodam, pois fezes liquefeitas são desprezíveis. A merda que lhe aflige é aquela que aparece no improviso presidencial como dado concreto.

Para Lula, o descalabro no saneamento é uma tragédia, e, de fato, o é. Por sua história, o presidente faz parte de uma legião de sobreviventes. De um exército que resistiu a séculos de dificuldades imensas, naturais e humanas. Tem orgulho saudável de sua força. Da força desse povo que come mandacaru e capulho verde de algodão e ainda tem a esperança desesperada de querer viver. Isso é coragem, é grandeza. Essa é a merda que a causa engulhos na grande imprensa e nos seus leitores indignados. Mas indignados com o quê, afinal?

Indignados pela existência de erros que se repetem há tempos? Indignados pela impotência de um saber divorciado da dimensão histórica e da responsabilidade social que deveria caber aos centros de ensino que freqüentaram? Indignados pela ameaça, concreta e imediata, da morte, pela fome endêmica e, até bem pouco tempo epidêmica, dos mais miseráveis? Não. O que os ruborizados pelo emprego da palavra "merda" não suportam é a ausência do promotor da "paz social", do garantidor de uma ordem política que lhes oferecia, através do conservadorismo autoritário, uma institucionalidade que muito apreciavam ética e esteticamente. Um simulacro de república feito sob medida.

O problema é que a vestimenta institucional brasileira parece calça curta, fazendo o país caminhar desajeitado, com medo do ridículo. A reforma mais urgente requer produção crescente de cidadania, a criação incessante de sujeitos portadores de direitos e deveres. Em uma sociedade fracionada, essa é a "merda" que ameaça e choca os estamentos mais reacionários: a realidade que não deveria ter emergido com modelagem tão nítida.


* Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da
Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil
 
 
A hipocrisia é uma merda e a corrupção  demo-tucana é outra!
 
Enviado por EV Chaves

41 anos DO ou DE AI5? O Primeiro Punido

O primeiro punido


Por Rubem Fonseca Filho

Quarta feira, ato contra a corrupção.

Logo de manhã, minha família e eu, indignados e revoltados contra o maior escândalo político de toda a história do Distrito Federal, nos preparamos para pacificamente protestar contra o “suposto” roubo de dinheiro do povo. Fizemos cartazes e fomos todos à Praça do Buriti. Lá escutávamos dos oradores que organizaram o ato:

– O governador, as secretarias de governo, a Câmara Legislativa, o Tribunal de Justiça do DF, o Tribunal de Contas do DF, toda a esfera de poder do DF está dominada e contaminada pela corrupção.

Enquanto os discursos terminavam, todos os jovens, boa parte dos sindica listas e cidadãos, abandonaram os oradores e decidiram paralisar o trânsito. Distribuíam panfletos e adesivos para os carros quando centenas de policiais, depois de muito empurra-empurra, reabriram o trânsito. 


Os manifestantes correram para o outro lado da pista e paralisaram novamente o trânsito. Aí foi a hora de a cavalaria intervir. Em posição de ataque, foram para cima dos que faziam o protesto, pisoteando e ferindo muitas pessoas. Em seguida vieram os policiais do Bope, lançando estrondosas bombas de gás lacrimogêneo e partindo para cima dos manifestantes, distribuindo fartamente cacetadas e chutes. A massa ali presente se dispersou pelo canteiro central.

Reuni minha família e disse:
– A corrupção ganhou a guerra contra os desarmados. Vamos embora.

Estávamos voltando para pegar o carro quando o meu filho mais velho, José Ricardo, se aproximou de um aglomerado de umas 10 pessoas, que questionavam os comandantes da operaçã o. Perguntavam o porquê de tanta violência e, em específico, estavam revoltadas com o pisoteio de uma mulher pela cavalaria. José Ricardo se manifestou:

— Ato covarde.
Um policial militar ensandecido voou para cima de José rasgando-lhe a camisa e esmurrando-o. Detalhe: o PM ensandecido é o coronel Silva Filho, comandante responsável pela tranquilidade durante o ato. Imobilizaram, algemaram e entregaram José a uma dúzia de policiais do Bope. A partir daí os atos de brutalidade, selvageria e humilhação se sucederam: socos, tapas, chutes, cacetadas, até ser jogado violentamente no camburão. Enquanto cidadãos e jornalistas filmavam a cena, policiais do Bope atiraram nos pés dos cinegrafistas para impedir o registro do covarde espancamento (vejam vídeo: http://vimeo. com/8087713) . Já no camburão José escutou pelo rádio do carro da PM que o motorista era o sargento Cássio. José perguntou:

— Por que estou preso? Não agredi ni nguém, não sou bandido, não sou corrupto.

Cássio:
— Cala a boca, moleque! Se eu te encontrar algum dia por aí, eu te assassino.

Com este episódio ficou bastante claro para mim que, no exercício de 24 anos de democracia, não conseguimos minimamente mudar a cultura da arbitrariedade, da brutalidade e da violência da nossa polícia. Uma cultura consolidada nos 21 anos de ditadura militar. É um sentimento altamente frustrante e desanimador.

Fomos informados que José tinha sido levado para a 2ªDP (Asa Norte) e fomos para lá. Como ali não estava, fomos para a 5ªDP (Setor Central), onde um policial civil consultou todas as delegacias e nada do meu filho. Entramos em pânico e acionamos senadores, deputados, instituições dos direitos humanos. José foi detido em torno das 13h e só apareceu na 5ª DP às 16h15. Ficou esse tempo todo algemado dentro de um camburão que fazia pequenos deslocamentos, sem água e sem alimento. 

FOTO - ONTEM - DITADURA DO AI5



Segue relato de HOJE (DE AI5?)
Encontrei meu filho dentro da delegacia, sem camisa e com dores. Com escoriações no pescoço, nas costas, nos braços e com dores na costela e na boca do estômago, devido aos socos sofridos. Mas ele estava de cabeça erguida e altivo. Relatou todos estes fatos em seu depoimento e olhou de frente e nos olhos de seus algozes, que estavam também na delegacia. Ao anoitecer saímos da 5ªDP e fomos para o IML e depois ao tribunal que julgaria as representações que José fez contra a violência que  sofreu por parte da PM do Distrito Federal. Na representação foram anexados vídeos, fotos e depoimentos de várias testemunhas que presenciaram a brutalidade contra ele. Em torno da meia-noite o juiz entendeu que havia necessidade de ouvir melhor os policiais, pois seus depoimentos estavam muito sucintos, e determinou o retorno do processo à 5ª DP.

José Ricardo foi punido. Foi agredido violentamente e só depois foi dada a ordem de prisão. Aplicaram uma pena (ou tortura?) a ele: prisão em um camburão, abafado e quente, por mais de três horas. Ameaçaram-no de morte.

De todo o megaescândalo da corrupção no DF, só comparável ao “Fora Collor”, já temos o primeiro punido. Vamos aguardar com muita ansiedade o próximo a ser punido.

Rubem Fonseca Filho, pai de José Ricardo Fonseca

Fonte: Correio Braziliense - 12/12/2009

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DEMOCRACIA  Sem Terra - Manifestação SP - Brasilia ( FORA ARRUDA)

                                                 Era Pós Ditadura(?)








 







NUNCA BAIXAMOS A CABEÇA. SEMPRE HAVEREMOS DE RESISTIR, POIS LUTAMOS POR UM MUNDO MELHOR.
NAQUELE DIA FOI ZÉ RICARDO. SE NÃO REAGIRMOS, AMANHà SERÃO OUTROS. SOMOS MUITOS. SOMOS A MULTIDÃO. O PODER SOMOS NÓS. VAMOS GRITAR BEM ALTO: O PODER SOMOS NÓS, A MULTIDÃO.

NÃO PASSARÃO! NO PASSARAN!


Carlos Caridade

Vá tomar no Twitter!


Por que o Twitter é de direita

Mauro Carrara

Raras vezes o revés se exibiu tão instrutivo. E o senador Mercadante, do partido mudo, merece gratidão por nos oferecer incrível lição de como torrar a própria imagem diante da opinião pública.

Depois da tarde das garrafadas invisíveis, em que a bancada do partido mudo quis converter-se em madame girondina, Mercadante utilizou-se do microblog Twitter para anunciar, em caráter irrevogável, sua renúncia à liderança do PM na Câmara Alta.

O sol deitou, voltou, deitou e Mercadante resolveu pisar atrás, anunciando, pelo mesmo Twitter, sua desistência de desistir.

E uma onda de indignação hipócrita e seletiva passou como tsunami sobre a praia governista. Foram muitas as vítimas. Estava posta a carniça aos abutres. Folha de S. Paulo e Estadão, por exemplo, lambuzaram-se das tripas do bigodudo parlamentar.

Do episódio neodantesco, ficaram três lições: 1) O partido mudo não sabe o que é o Twitter; 2) Os parlamentares do partido mudo utilizam essa e outras ferramentas de maneira imprópria e irresponsável; 3) A direita nada de braçada nessa lagoa da comunicação interativa.

Deu pena do incauto Mercadante. O tal perfil da Juventude do DEM, a mesma que utilizou o Twitter para engrossar o coro de “Fora Sarney”, divertiu-se à vontade em cantigas de maldizer, levantando hordas de playboys para espezinhar o pobre líder mudista.

O meio é a mensagem

Assisti a uma palestra de Marshall McLuhan há uns 5 mil anos, na Universidade de Wisconsin, numa época em que meu Inglês não era lá essas coisas.

Mas peguei o básico, sem grandes problemas.

Neste momento, vem à memória o trecho da preleção em que o canadense falava sobre sua teoria de que “o meio é a mensagem”, conceito que na época eu não compreendia muito bem, e continuei sem compreender.

Agora, contudo, tudo faz muito sentido.

Mercadante e o partido mudo nem desconfiam do impacto sensorial das novas mídias. Presos à ideologia e ao conteudismo, não percebem que os meios de comunicação se constituem em extensões humanas, nas tais próteses técnicas capazes de determinar padrões de comportamento e reconstruir discursos.

O Twitter é exemplo claro da importância do meio na conformação da conduta do usuário.

Mais do que o Orkut, por exemplo, que é sucesso entre os brasileiros de todas as classes sociais, o Twitter tem em sua engenharia interna a inspiração do modelo personalista.

Serve, portanto, de modo perfeito, à construção de púlpitos para gurus. É da pessoa e não do tema, estabelece uma hierarquização no tráfego de informação e copia os modelos verticais de gestão corporativa.

O Orkut, por exemplo, é campo aberto de batalha e debate. Ali, os famosos e poderosos têm medo de se expor. Equivale a se apresentarem no meio da multidão, em praça pública.

Por conta das características do meio orkutiano, as pequenas legiões leonídeas da esquerda organizada destroçam facilmente as gordas falanges do mainardismo virtual.

O Twitter, ao contrário, enfatiza o emissor e exclui o intercâmbio dinâmico de ideias. Não há corpo a corpo e, por conta das condições do campo de batalha, a quantidade pode vencer a qualidade.

Vale dizer que o Twitter funciona no campo da comunicação declaratória. Não trabalha com base na argumentação e na exposição racional do pensamento.

No Twitter, as personalidades têm o que o sistema chama de “seguidores”, característica que fortalece um padrão de falsa interação.

Um tema dromológico

Cada tweet (mensagem) tem que se limitar a 140 caracteres. Assim é a coisa.

É fácil pedir “Fora Sarney” nessa tecladas mínimas. Mas é difícil explicar que o presidente do Senado está por aí há 45 anos, que a bronca tucana é oportunista, que Arthur Virgílio é um bandalho e que o movimento midiático faz parte de um projeto de desestabilização do governo Lula.

O Twitter é ótimo para gritar e exigir cabeças. É péssima ferramenta para qualquer advogado.

Curiosamente, o Twitter no Brasil é utilizado majoritariamente por homens paulistas e cariocas, na faixa de 20 a 30 anos, a maior parte deles com ensino superior. A agência Bullet, que coletou os dados, mostra que 60% dos twitteiros são considerados formadores de opinião.

No total, 51% dos usuários valorizam os tais perfis corporativos.

Cabe destacar que o Twittter se casa perfeitamente com o modelo de comunicação veloz da juventude. É um SMS da Internet.

A informação é rala e muitas vezes codificada. O importante é estar “em contato”, integrado, saber um pouco, talvez quase nada, mas de muitos. Também é preciso mostrar-se vivo, disparando a mensagem, mesmo que irrefletida.

O Twitter faz parte do arsenal das bombas informáticas, às quais faz referência o filósofo Paul Virílio, pessimista mas sabido.

Como instrumento de controle e alienação, a ferramenta já se converteu em arma poderosa do que se convencionou chamar de “direita”, considerado aí o termo conforme a brilhante conceituação de Norberto Bobbio.

Em seus estudos, Virílio alerta para a supervalorização da velocidade na sociedade tecnológica contemporânea. Segundo ele, perdemos o valor mediador da ação em benefício da interação imediata.

O pensador, que bem avaliou os elementos simbólicos da guerra, afirma que a velocidade divinizada reduz drasticamente o poder de atuação racional e estabelece uma conduta de reação, muitas vezes automatizada.

Por isso, o Twitter tem menos interesse no pensamento estruturado que no jogo rápido das reações. Assim, vem sendo utilizado com sucesso no fortalecimento de marcas, agregando “seguidores” por categorias definidas pelos profissionais de marketing.

Razões éticas ou morais podem afastar as esquerdas do Twitter. A esquerda não se contenta (e não sabe se contentar) com 140 caracteres e historicamente não tem gosto pela velocidade.

Os esquerdistas de raiz libertária, em especial, valorizam a dialética e a comunicação multidirecional, em que a igualdade de direitos faz emissores e receptores trocarem de lugar a cada passo da valsa.

O partido mudo e alguns setores decrépitos da esquerda são casos à parte. Praticam, há tempos, certo neoludismo fanático e tolo. Noutras ocasiões, a inépcia marca o uso das novas armas-meio.

Como já estive por aqueles lados, posso assegurar que os vietnamitas não se valeram apenas de zarabatanas e armadilhas de caça para vencer a maior potência bélica do mundo.

O Twitter é de direita, hoje. Mas não precisa ser para sempre.

http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=1370

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PressAA

http://assazatroz.blogspot.com/


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O Brasil pode ser mediador da Paz, sim; mero pombo-correio, não!

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Fernando Soares Campos

Circula pela internet mensagem contendo a relação de centenas de instituições que trabalham a serviço da Central Intelligence Agency, a famigerada CIA, um dos mais importantes instrumentos de apoio logístico para os Estados Unidos perpetrar golpes de estado e manter o funcionamento da sua poderosa máquina de guerra em todo o mundo. Muitos desses tentáculos da CIA atuam diretamente instalados em território brasileiro e na América Latina em geral.

O império norte-americano se sustenta a custa do sangue que derrama mundo afora, seguido de pilhagem, estupro e todo tipo de violação dos direitos humanos. Suas declarações de guerra são fundamentadas em falsas acusações; geralmente contraditórias, pois costumam imputar ao inimigo a intenção de cometer os crimes que eles próprios cometem. Assaltam, saqueiam, prendem e arrebentam; desrespeitam os mais elementares direitos humanos, tudo em nome da “liberdade”, ou do que chamam de “democracia”.

A serviço do poderio militar, o império conta com o poder da propaganda disseminada pelos conglomerados empresariais que controlam os mais importantes sistemas e meios de comunicação disponíveis para a humanidade; inclui-se nessa categoria a indústria cinematográfica, aparentemente voltada para o entretenimento.

Além das mais recentes guerras deflagradas pelo governo Bush no Afeganistão e no Iraque, mantidas e até reforçadas pelo Nobel da Paz Barack Obama, pesam sobre as cabeças dos iranianos a ameaça de iminente investida do terror norte-americano. Na verdade, essa ameaça paira sobre todo o mundo, pois aqui mesmo entre nossos vizinhos a Venezuela tornou-se alvo da artilharia propagandista a serviço dos colonialistas à moda antiga.

A Coreia do Norte na lista negra do terror

Há muitos anos a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) está na mira do arsenal nuclear dos Estados Unidos, que inclui “5.400 ogivas nucleares armadas em mísseis balísticos intercontinentais em terra e mar; outras 1.750 bombas nucleares e mísseis cruzeiros prontos para serem lançados desde aviões B-2 e B-52; adicionalmente têm 1.670 armas nucleares classificadas como ‘táticas’. E, ainda, mais ou menos 10.000 ogivas nucleares em bunkers por todo o país como ‘contrapeso’ a qualquer surpresa” (jornal Hora do Povo, reproduzindo informação veiculada pela revista Newsweek).

Os EUA, que possuem o mais poderoso arsenal nuclear do Planeta, mantém cerca de 40 mil homens de prontidão em suas bases na Coreia do Sul, uma permanente ameaça à Coreia do Norte, um país com o qual assinou, há mais de 50 anos, apenas um provisório acordo de paz e se recusa a firmar a paz definitiva; paz esta que a RPDC há muito tempo emprega esforços para que se consolide.

A Coreia do Norte já apelou para nações amigas, como a China, a fim de que persuadissem os EUA a firmar a paz definitiva, assumindo compromissos de não mais apontar suas ameaçadoras ogivas nucleares, estocadas na Coreia do Sul e no Japão, em direção ao seu território e a deixassem seguir seu destino sob a bandeira dos seus ideais socialistas. Em vão.

Em 2005 a Coreia do Norte inaugurou embaixada no Brasil. O Brasil, por sua vez, criou embaixada na RPDC em julho deste ano.

Quando o embaixador brasileiro Arnaldo Carrilho dirigiu-se ao país asiático para assumir as suas funções diplomáticas, precisou ficar hospedado em Pequim durante algumas semanas, pois os EUA haviam criando um clima belicoso na Península Coreana.

Agora leio no Portal Vermelho nota revelando que os EUA tentam usar o Brasil “...em sua campanha de infâmias contra a RPDC”.

Diz Osvaldo Bertolino, autor da nota: “Em sua campanha de infâmias contra a República Popular Democrática da Coréia (RPDC), os Estados Unidos pediram que a embaixada do Brasil no país socialista sirva para melhorar a situação dos ‘direitos humanos’”. Segundo Osvaldo, o enviado especial dos EUA para os Assuntos de Direitos Humanos na RPDC, Robert King, teria dito: “Espero que a Embaixada do Brasil faça pressão em favor dos direitos humanos”.

O mais curioso nessa história é que o governo da Coreia do Norte poderia utilizar a mesma fala do diplomata norte-americano e empregá-la, literalmente, para expressar seu desejo de que a Embaixada brasileira no mais importante país capitalista do Planeta sirva para melhorar a situação dos direitos humanos em todo o mundo, não só nos EUA.

Ainda segundo a nota, o diplomata americano, recém nomeado para o cargo pelo governo do presidente americano, Barack Obama, acrescentou: “Desejo que possa haver um espaço para o diálogo e para tratar sobre questões de direitos humanos” .

http://www.vermelho.org.br/blogs/outroladodanoticia/?p=14071
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Através de e-mail distribuído pela Rede Castorphoto, o embaixador Arnaldo Carrilho respondeu:

"Não usam nem usarão. A mundividência brasileira sobre o assunto não aceita os dois pesos e duas medidas e se baseia no acatamento à Lei Humanitária Internacional, às normas de Direitos Humanos e às Convenções genebrinas. Nossa política é abstencionista, quando fatos não puderem ser comprovados, de maneira inequívoca e convincente. Disse-me-disses e ouvir-dizeres não se coadunam às posições que assumimos no CDH."

Uma raposa travestida de cordeiro pode até enganar por algum tempo, pois são animais cujas dimensões e formas corporais apresentam consideráveis semelhanças entre si, o que favorece a camuflagem; mas uma velha águia rapineira sempre terá mais dificuldade em se disfarçar de pomba da paz.

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Através de e-mail distribuído pela Rede Castorphoto, o embaixador Arnaldo Carrilho respondeu:

"Não usam nem usarão. A mundividência brasileira sobre o assunto não aceita os dois pesos e duas medidas e se baseia no acatamento à Lei Humanitária Internacional, às normas de Direitos Humanos e às Convenções genebrinas. Nossa política é abstencionista, quando fatos não puderem ser comprovados, de maneira inequívoca e convincente. Disse-me-disses e ouvir-dizeres não se coadunam às posições que assumimos no CDH."

Uma raposa travestida de cordeiro pode até enganar por algum tempo, pois são animais cujas dimensões e formas corporais apresentam consideráveis semelhanças entre si, o que favorece a camuflagem; mas uma velha águia rapineira sempre terá mais dificuldade em se disfarçar de pomba da paz.

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Mensagem do embaixador Arnaldo Carrilho ao nosso Editor-Assaz-Atroz-Chefe, depois de ler este artigo, por nós a ele enviado:

"Estará, meu caro Fernando, inch`'Allah! Obrigado pela remessa do seu artigo e pela citação do que me vi na obrigação de declarar, ao deparar-me com a nota de imprensa divulgada.

O Brasil não instalou, ou melhor, continua instalando, sua Embaixada em Pionguiangue para ocupar-se apenas dos contenciosos onuseanos que envolvem a RPDC. É da natureza de uma Missão diplomática bilateral cuidar das relações do país representado com o país acreditante, nos diferentes campos da cooperação e dos intercâmbios.

Tal implica o despojamento de juízos de valor preconcebidos, inspiração em lugares-comuns e visões distorcidas, com base em estereótipos e preconceitos. A adoção de qualquer um desses quatro comportamentos só envenenam uma ação diplomática.

Um abraço do
Arnaldo Carrilho"



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PressAA

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

V. Jara

Arte & Cultura| 07/12/2009 | Copyleft
Envie para um amigo Versão para Impressão Memória: Victor Jara, 36 anos depois

Este 4 de dezembro de 2009 é uma data para lembrar. Mais de 12.000 pessoas participaram do cortejo fúnebre após 36 anos do assassinato de Victor Jara em 1973. O crime cometido por militares nos dias que se seguiram ao golpe de Estado de Augusto Pinochet. Victor Jara, um dos mais populares personagens do meio artístico chileno no início da década de 70, também é uma das mais de 3.000 vítimas, entre mortos e desaparecidos, da ditadura de Pinochet. Mais tarde, o Estádio do Chile seria renomeado Estádio Víctor Jara.

Gustavo de Mello



Aqui no sul é necessário disputar com a indiferença uma memória viva do continente americano. Como explicar que ser lúcido é dizer que tantas vezes nos mataram? Cantar que tantas vezes morremos e agora estamos aqui, como cigarras, ressuscitando. O recente funeral do compositor chileno Victor Jara é uma homenagem 36 anos após seu assassinato para que possamos dizer que seguimos cantando.

Este 4 de dezembro de 2009 é uma data para lembrar. Mais de 12.000 pessoas participaram do cortejo fúnebre após 36 anos do assassinato de Victor Jara em 1973. O crime cometido por militares nos dias que se seguiram ao golpe de Estado de Augusto Pinochet.

A viúva do cantor, diretor e versátil artista chileno a época de sua morte, lhe deu sepultura semi-clandestina em setembro de 1973, no Cemitério Geral, acompanhada por duas pessoas. Enterrou o marido em uma sepultura modesta, no mais antigo cemitério de Santiago. Fora do cemitério, a capital dos chilenos vivia sob o medo e as perseguiçãoes da ditadura do general Augusto Pinochet. Victor Jara, um dos mais populares personagens do meio artístico chileno no início da década de 70, também é uma das mais de 3.000 vítimas, entre mortos e desaparecidos, da ditadura de Pinochet. Mais tarde, o Estádio do Chile seria renomeado Estádio Víctor Jara.

O cantor popular Victor Jara foi devolvido para a mesma sepultura onde esteve todos esses anos 36. No ataúde de madeira onde repousam os restos mortais de Jara sepultado no dia 18 de Setembro de 1973, a viúva o depositou, mas a diferença é que neste segundo enterro estava cercada pelo carinho popular e por uma multidão que sabia o valor de sua história e que cantou suas canções.

Foi uma marcha mais alegre que um funeral tradicional, sem nenhum incidente e sem a vigilância ostensiva da polícia. A multidão percorreu a pé, lentamente, cerca de 40 quarteirões de distância do cemitério, durante mais de cinco horas sob o sol impiedoso da primavera de Santiago. A homenagem a Victor Jara foi um concerto na voz de milhares de chilenos.

Em junho deste ano o juiz que investiga o assassinato de Jara decidiu exumar os restos mortais do cantor. O ataúde foi restaurado por Amanda, uma das filhas do artista, depois de o corpo de Victor Jara ter sido exumado para ser submetido a uma série de exames. Após a decisão tomada pelo juiz Fuentes Belmar, o Serviço Médico-Legal confirmou que o artista recebeu mais de 30 impactos de bala em todo o corpo.

Ao finalizar as perícias e devolver os restos mortais à viúva, Joan Turner, e às filhas, Manuela e Amanda, elas e a Fundação Victor Jara, que cuidam da memória do cantor, decidiram oferecer o funeral e uma vigília de dois dias, como merecia o autor de Te recordo, Amanda, O Cigarrinho e Manifesto canções antológicas que muitos artistas incorporaram em seus repertórios.

Enquanto o cortejo avançava as pessoas que lotavam as calçadas jogavam cravos vermelhos e rosas no carro fúnebre que, surpreendentemente, não estava na cabeça do cortejo como é costume nos funerais, mas protegido pela multidão no meio do cortejo, como um símbolo da democracia, cercado por uma guarda de honra. Atrás era acompanhado por centenas de coroas de flores empilhadas em um caminhão.

Quando o caixão deixou a Fundação Jara, foi carregado nos ombros de várias pessoas que eram amigos do cantor, incluindo alguns membros do Inti Illimani, um conjunto musical, formado em 1967. Em um edifício no alto de uma varanda do prédio, no centro da cidade onde passava o cortejo fúnebre, um guitarrista começou a acompanhar a multidão que cantava “Te recordo, Amanda, A rua molhada/Correndo à fábrica/Onde trabalhava Manuel./O sorriso largo/A chuva no cabelo/Não importava nada/Você foi ao encontro dele”.

Uma variada e colorida multidão se espalhava por mais de 10 quarteirões. Predominavam os jovens, incluindo grupos de roqueiros, punks, grupos de dança da população mapuche, dançarinos do norte do Chile, organizações de gays, os estudantes, a torcida de Los de Abajo, Universidade do Chile, um dos clubes de futebol mais populares do país, juntamente com ex-presos políticos, representantes de grupos de vitimas e familiares de desaparecidos políticos e ativistas de movimentos sociais.

A entrada ao cemitério acabou com uma cerimônia reservada aos familiares e amigos mais íntimos para testemunhar o momento em que o caixão foi devolvido a sepultura onde estava desde 1973.

Quando o carro fúnebre entrou na sala, os participantes tomaram as mãos e cantaram o hino nacional e, em seguida, se ouviu A Partida de Jara.

Um mar de bandeiras vermelhas com o rosto estampado de Victor cercou a longa procissão, aos gritos de "Justiça. Verdade. Não à impunidade!". O Presidente do Partido Comunista Guillermo Teillier descreveu Victor em seu discurso como um "símbolo de nossa luta, com a mais temida arma, sua guitarra e suas canções." Sua obra continuou, "vai viver para dar esperança (...) com sua música, mil vezes vai prevalecer".

Uma das participantes foi a ministra da Cultura, Paulina Urrutia, o candidato presidencial da coligação que é liderada pelo Partido Comunista (PC), o ex-ministro Jorge Arrate, um socialista que teve de se desfiliar ao seu partido para concorrer as eleições presidenciais de 13 de dezembro de 2009.

Muitos participantes ficaram até o final do enterro. Para Hector Torres, que é integrante do conjunto que interpreta músicas folclóricas conhecido pelo nome de Umbral, formado por amigos que desde os tempos da ditadura interpretam canções de Jara em dezenas de concertos em bairros operários, disse que "Victor é maior do que sua própria morte. Suas canções têm resistido ao teste do tempo. Como cantor tinha um timbre de voz muito bonita e uma tessitura agradável capaz de momentos únicos, que permitiam algo que é muito difícil, ir de notas altas às mais baixas.

O diretor de um centro cultural, que viajou 500 km para assistir ao funeral, disse: "Nós devíamos este ato ao Victor. Tínhamos o dever moral de fazê-lo, era uma dívida que o povo tinha com ele." “Creio que Víctor Jara está por aqui, conosco (…) continua a viver e a lutar conosco por um mundo melhor”, disse a viúva do cantor, a britânica Joan Turner.

+ Brecht...

A Cruz de Giz
Eu sou uma criada. Eu tive um romance
Com um homem que era da SA.
Um dia, antes de ir
Ele me mostrou, sorrindo, como fazem
Para pegar os insatisfeitos.
Com um giz tirado do bolso do casaco
Ele fez uma pequena cruz na palma da mão.
Ele contou que assim, e vestido à paisana
anda pelas repartições do trabalho
Onde os empregados fazem fila e xingam
E xinga junto com eles, e fazendo isso
Em sinal de aprovação e solidariedade
Dá um tapinha nas costas do homem que xinga
E este, marcado com a cruz branca
ë apanhado pela SA. Nós rimos com isso.
Andei com ele um ano, então descobri
Que ele havia retirado dinheiro
Da minha caderneta de poupança.
Havia dito que a guardaria para mim
Pois os tempos eram incertos.
Quando lhe tomei satisfações, ele jurou
Que suas intenções eram honestas. Dizendo isso
Pôs a mão em meu ombro para me acalmar.
Eu corri, aterrorizada. Em casa
Olhei minhas costas no espelho, para ver
Se não havia uma cruz branca.
...
A Exceção e a Regra
Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso
Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.
...
A Fumaça
A pequena casa entre árvores no lago.
Do telhado sobe fumaça
Sem ela
Quão tristes seriam
Casa, árvores e lago.
...

A Máscara Do Mal
Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa
Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado.
Compreensivo observo
As veias dilatadas da fronte, indicando
Como é cansativo ser mal
...
A Minha Mãe
Quando ela acabou, foi colocada na terra
Flores nascem, borboletas esvoejam por cima...
Ela, leve, não fez pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão leve!
...
Acredite Apenas
Acredite apenas no que seus olhos vêem e seus ouvidos
Ouvem!
Também não acredite no que seus olhos vêem e seus
Ouvidos ouvem!
Saiba também que não crer algo significa algo crer!
...
A Troca da Roda
Estou sentado á beira da estrada,
o condutor muda a roda.
Não me agrada o lugar de onde venho.
Não me agrada o lugar para onde vou.
Por que olho a troca da roda
com impaciência?
...
As Boas Ações
Esmagar sempre o próximo
não acaba por cansar?
Invejar provoca um esforço
que inchas as veias da fronte.
A mão que se estende naturalmente
dá e recebe com a mesma facilidade.
Mas a mão que agarra com avidez
rapidamente endurece.
Ah! que delicioso é dar!
Ser generoso que bela tentação!
Uma boa palavra brota suavemente
como um suspiro de felicidade!
...
Aos que virão depois de nós

I
Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.

Eu queria ser um sábio.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:
Manter-se afastado dos problemas do mundo
e sem medo passar o tempo que se tem para
viver na terra;
Seguir seu caminho sem violência,
pagar o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.
Sabedoria é isso!
Mas eu não consigo agir assim.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!
II
Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo
da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
III
Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que de
sapatos, desesperados!
quando só havia injustiça e não havia revolta.
Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a
amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão.
...
Com Cuidado Examino
Com cuidado examino
Meu plano: ele é
Grande, ele é
Irrealizável.
...
Como Bem Sei
Como bem sei
Os impuros viajam para o inferno
Através do céu inteiro.
São levados em carruagens transparentes:
Isto embaixo de vocês, lhe dizem
É o céu.
Eu sei que lhes dizem isso
Pois imagino
Que justamente entre eles
Há muitos que não o reconheceriam, pois eles
Precisamente
Imaginavam-no mais radiante
...
Da Sedução Dos Anjos
Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.
Puxa-o só para dentro de casa e mete-lhe
a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
Para que do choque no fim te não caia.

Exorta-o a que agite bem o cú
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue –

Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.
...
Das Elegias De Buckow
Viesse um vento
Eu poderia alçar vela.
Faltasse vela
Faria uma de pano e pau.
...
De Que Serve A Bondade
1
De que serve a bondade
Se os bons são imediatamente liquidados,ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?

De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?
2
Em vez de serem apenas bons,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor:que a torne supérflua!

Em vez de serem apenas livres,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos
E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!

Em vez de serem apenas razoáveis,esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio.
...
Elogio da Dialética
A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
Os dominadores se estabelecem por dez mil anos.
Só a força os garante.
Tudo ficará como está.
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
No mercado da exploração se diz em voz alta:
Agora acaba de começar:
E entre os oprimidos muitos dizem:
Não se realizará jamais o que queremos!
O que ainda vive não diga: jamais!
O seguro não é seguro. Como está não ficará.
Quando os dominadores falarem
falarão também os dominados.
Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De quem depende a sua destruição?
Igualmente de nós.
Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o "hoje" nascerá do "jamais".
...
Elogio do Revolucionário
Quando aumenta a repressão, muitos desanimam.
Mas a coragem dele aumenta.
Organiza sua luta pelo salário, pelo pão
e pela conquista do poder.
Interroga a propriedade:
De onde vens?
Pergunta a cada idéia:
Serves a quem?
Ali onde todos calam, ele fala
E onde reina a opressão e se acusa o destino,
ele cita os nomes.
À mesa onde ele se senta
se senta a insatisfação.
À comida sabe mal e a sala se torna estreita.
Aonde o vai a revolta
e de onde o expulsam
persiste a agitação.
...
Epístola Sobre O Suicídio
Matar-se
É coisa banal.
Pode-se conversar com a lavadeira sobre isso.
Discutir com um amigo os prós e os contras.
Um certo pathos, que atrai
Deve ser evitado.
Embora isto não precise absolutamente ser um dogma.
Mas melhor me parece, porém
Uma pequena mentira como de costume:
Você está cheio de trocar a roupa de cama, ou melhor
Ainda:
Sua mulher foi infiel
(Isto funciona com aqueles que ficam surpresos com
essas coisas
E não é muito impressionante.)
De qualquer modo
Não deve parecer
Que a pessoa dava
Importância demais a si mesmo
...
Epitáfio Para Gorki
Aqui jaz
O enviado dos bairros da miséria
O que descreveu os atormentadores do povo
E aqueles que os combateram
O que foi educado nas ruas
O de baixa extração
Que ajudou a abolir o sistema de Alto a Baixo
O mestre do povo
Que aprendeu com o povo.
...
Esse Desemprego!

Meus senhores, é mesmo um problema
Esse desemprego!
Com satisfação acolhemos
Toda oportunidade
De discutir a questão.
Quando queiram os senhores! A todo momento!
Pois o desemprego é para o povo
Um enfraquecimento.
Para nós é inexplicável
Tanto desemprego.
Algo realmente lamentável
Que só traz desassossego.
Mas não se deve na verdade
Dizer que é inexplicável
Pois pode ser fatal
Dificilmente nos pode trazer
A confiança das massas
Para nós imprescindível.
É preciso que nos deixem valer
Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer
Num tempo tão pouco esclarecido!
Algo assim não se pode conceber
Com esse desemprego!
Ou qual a sua opinião?
Só nos pode convir
Esta opinião: o problema
Assim como veio, deve sumir.
Mas a questão é: nosso desemprego
Não será solucionado
Enquanto os senhores não
Ficarem desempregados!
...
Eu Sempre Pensei

E eu sempre pensei: as mais simples palavras
Devem bastar.Quando eu disser como e
O coracao de cada um ficara dilacerado.
Que sucumbiras se nao te defenderes
Isso logo veras.
...
Expulso Por Bom Motivo

Eu cresci como filho
De gente abastada. Meus pais
Me colocaram um colarinho, e me educaram
No hábito de ser servido
E me ensinaram a dar ordens. Mas quando
Já crescido, olhei em torno de mim
Não me agradaram as pessoas da minha classe e me juntei
À gente pequena.

Assim
Eles criaram um traidor, ensinaram-lhe
Suas artes, e ele
Denuncia-os ao inimigo.
Sim, eu conto seus segredos. Fico
Entre o povo e explico
Como eles trapaceiam, e digo o que virá, pois
Estou instruído em seus planos.
O latim de seus clérigos corruptos
Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,

Então
Ele se revela uma farsa. Tomo
A balança da sua justiça e mostro
Os pesos falsos. E os seus informantes relatam
Que me encontro entre os despossuídos, quando
Tramam a revolta.
Eles me advertiram e me tomaram
O que ganhei com meu trabalho. E quando me corrigi
Eles foram me caçar, mas
Em minha casa
Encontraram apenas escritos que expunham
Suas tramas contra o povo. Então
Enviaram uma ordem de prisão
Acusando-me de ter idéias baixas, isto é
As idéias da gente baixa.
Aonde vou sou marcado
Aos olhos dos possuidores.
Mas os despossuídos
Lêem a ordem de prisão
E me oferecem abrigo. Você, dizem
Foi expulso por bom motivo.
...
Ferro
No sonho esta noite
Vi um grande temporal.
Ele atingiui os andaimes
Curvou a viga feita
A de ferro.
Mas o que era de madeira
Dobrou-se e ficou.
...
Jamais Te Amei Tanto
Jamais te amei tanto, ma soeur
Como ao te deixar naquele pôr do sol
O bosque me engoliu, o bosque azul, ma soeur
Sobre o qual sempre ficavam as estrelas pálidas
No Oeste.
Eu ri bem pouco, não ri, ma soeur
Eu que brincava ao encontro do destino negro -
Enquanto os rostos atrás de mim lentamente
Iam desaparecendo no anoitecer do bosque azul.
Tudo foi belo nessa tarde única, ma soeur
Jamais igual, antes ou depois -
É verdade que me ficaram apenas os pássaros
Que à noite sentem fome no negro céu.
..
Lendo Horácio
Mesmo o diluvio
Não durou eternamente.
Veio o momento em que
As águas negras baixaram.
Sim, mas quão poucos
Sobreviveram!
...
Louvor ao Estudo
Estuda o elementar: para aqueles
cuja hora chegou
não é nunca demasiado tarde.
Estuda o abc. Não basta, mas
Estuda. Não te canses.
Começa. Tens de saber tudo.
Estás chamado a ser um dirigente.
Freqüente a escola, desamparado!
Persegue o saber, morto de frio!
Empunha o livro, faminto! É uma arma!
Estás chamado á ser um dirigente.
Não temas perguntar, companheiro!
Não te deixes convencer!
Compreende tudo por ti mesmo.
O que não sabes por ti, não o sabes.
Confere a conta. Tens de pagá-la.
Aponta com teu dedo a cada coisa
e pergunta: "Que é isto? e como é?"
Estás chamado a ser um dirigente.
...
Na Guerra Muitas Coisas Crescerão
Ficarão maiores As propriedades dos que possuem
E a miséria dos que não possuem
As falas do guia*
E o silêncio dos guiados.
*Führer
...
Na Morte De Um Combatente Da Paz
Á memória de Carl von Ossietzky
Aquele que não cedeu
Foi abatido
O que foi abatido
Não cedeu.
A boca do que preveniu
Está cheia de terra.
A aventura sangrenta
Começa.
O túmulo do amigo da paz
É pisoteado por batalhões.
Então a luta foi em vão?
Quando é abatido o que não lutou só
O inimigo
Ainda não venceu.
...
Nada É Impossível De Mudar

Desconfiai do mais trivial ,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
...
Não Necessito De Pedra Tumular
Não necessito de pedra tumular, mas
Se necessitarem de uma para mim
Gostaria que nela estivesse:
Ele fez sugestões
Nos as aceitamos.
Por tal inscrição
Estaríamos todos honrados.
...
No Muro Estava Escrito Com Giz:

Eles querem a guerra.
Quem escreveu
Já caiu.
...
No Segundo Ano De Minha Fuga
No segundo ano de minha fuga
Li em um jornal, em língua estrangeira
Que eu havia perdido minha cidadania.
Não fiquei triste nem alegre
Ao ver meu nome entre muitos outros
Bons e maus.
A sina dos que fugiam não me pareceu pior
Do que a sina dos que ficavam.
...
O Analfabeto Político

"O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."
Nada é impossível de Mudar
"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar."
Privatizado
"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence."
...
O Maneta No Bosque

Banhado de suor ele se curva
Para pegar o graveto.Os mosquitos
Espanta com um movimento de cabeça.Com os joelhos
Amarra a lenha com dificuldade.Gemendo
Se apruma,ergue a mão
Para ver se chove.A mão erguida
Do temido Guarda SS.
...
O Nascido Depois
Eu confesso: eu
Não tenho esperança.
Os cegos falam de uma saída. Eu
Vejo.
Após os erros terem sido usados
Como última companhia, à nossa frente
Senta-se o Nada.
...
O Vosso Tanque General, É Um Carro Forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
- Precisa de um motorista
O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
- Precisa de um piloto.
O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
- Sabe pensar
...
Os Esperançosos
Pelo que esperam?
Que os surdos se deixem convencer
E que os insaciáveis
Lhes devolvam algo?
Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los!
Por amizade
Os tigres convidarão
A lhes arrancarem os dentes!
É por isso que esperam!
...
Os que lutam
"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."
...
Os maus e os bons
"Os maus temem tuas garras
Os bons se alegram de tua graca.
Algo assim Gostaria de ouvir
Do meu verso."
...
Para Ler De Manhã E À Noite
Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Cuido de mim
Olho meu caminho
E receio ser morta
Por uma só gota de chuva.
...
Perguntas De Um Operário Que Lê.
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilònia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sòzinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas
...
Poesia do Exílio
Nos tempos sombrios
se cantará também?
Também se cantará
sobre os tempos sombrios.
...
Precisamos De Você.
Aprende - lê nos olhos,
lê nos olhos - aprende
a ler jornais, aprende:
a verdade pensa
com tua cabeça.
Faça perguntas sem medo
não te convenças sozinho
mas vejas com teus olhos.
Se não descobriu por si
na verdade não descobriu.
Confere tudo ponto
por ponto - afinal
você faz parte de tudo,
também vai no barco,
"aí pagar o pato, vai
pegar no leme um dia.
Aponte o dedo, pergunta
que é isso? Como foi
parar aí? Por que?
Você faz parte de tudo.
Aprende, não perde nada
das discussões, do silêncio.
Esteja sempre aprendendo
por nós e por você.
Você não será ouvinte
diante da discussão,
não será cogumelo
de sombras e bastidores,
não será cenário
para nossa ação
...
Privatizado
"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence."
...
Quem Não Sabe De Ajuda

Como pode a voz que vem das casas
Ser a da justiça
Se os pátios estão desabrigados?
Como pode não ser um embusteiro aquele que
Ensina os famintos outras coisas
Que não a maneira de abolir a fome?
Quem não dá o pão ao faminto
Quer a violência
Quem na canoa não tem
Lugar para os que se afogam
Não tem compaixão.
Quem não sabe de ajuda
Que cale.
...
Quem Se Defende
Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta,para este ha um paragrafo
Que diz: ele agiu em legitima defesa.Mas
O mesmo paragrafo silencia
Quando voces se defendem porque lhes tiram o pao.
E no entanto morre quem nao come,e quem nao come
o suficiente
Morre lentamente.Durante os anos todos em que morre
Nao lhe e permitido se defender.
...
Refletindo Sobre O Inferno
Refletindo, ouço dizer, sobre o inferno
Meu irmão Shelley achou ser ele um lugar
Mais ou menos semelhante a Londres.
Eu Que não vivo em Londres, mas em Los Angeles
Acho, refletindo sobre o inferno,
que ele deve Assemelhar-se mais ainda a Los Angeles.
Também no inferno Existem, não tenho dúvidas, esses jardins luxuriantes
Com as flores grandes como árvores, que naturalmente fenecem
Sem demora, se não são molhadas com água muito cara.
E mercados de frutas Com verdadeiros montes de frutos, no entanto
Sem cheiro nem sabor. E intermináveis filas de carros
Mais leves que suas próprias sombras, mais rápidos
Que pensamentos tolos, automóveis reluzentes, nos quais
Gente rosada, vindo de lugar nenhum, vai a nenhum lugar.
E casas construídas para pessoas felizes, portanto vazias
Mesmo quando habitadas.
Também as casas do inferno não são todas feias
Mas a preocupação de serem lançados na rua
Consome os moradores das mansões não menos que
Os moradores do barracos
...
Se Fossemos Infinitos
Fossemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.
...
Sobre A Violência

A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas o leito do rio que a contem
Ninguem chama de violento.
A tempestade que faz dobrar as betulas
E tida como violenta
E a tempetasde que faz dobrar
Os dorsos dos operarios na rua?
...
Soube
Soube que
Nas praças dizem de mim que durmo mal
Meus inimigos, dizem, já estão assentando casa
Minhas mulheres põem seus vestidos bons
Em minha ante-sala esperam pessoas
Conhecidas como amigas dos infelizes.
Logo
Ouvirão que não como mais
Mas uso novos ternos
Mas o pior é: eu mesmo
Observo que me tornei
Mais duro com as pessoas.
...
Também o Céu

Também o céu às vezes desmorona
E as estrelas caem sobre a terra
Esmagando-a com todos nós.
Isto pode ser amanhã.
...
Tempos Sombrios

Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes,
pois implica em silenciar
sobre tantos horrores.
...
Se os Tubarões Fossem Homens
Bertold Brecht
Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentís com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais. Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não moressem antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.
Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos. Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência. Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista. E denunciaria imediatamente os tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.
Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que, entre os peixinhos e outros tubarões existem gigantescas diferenças. Eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro. Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nas quais se poderia brincar magnificamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.A música seria tão bela, tão bela, que os peixinhos sob seus acordes e a orquestra na frente, entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos. Também haveria uma religião ali.
Se os tubarões fossem homens, eles ensinariam essa religião. E só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida. Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros. Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões, pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar. E os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante. Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.
***
Um Homem Pessimista
Um homem pessimista
É tolerante.
Ele sabe deixar a fina cortesia desmanchar-se na língua
Quando um homem não espanca uma mulher
E o sacrifício de uma mulher que prepara café para
seu amado
Com pernas brancas sob a camisa -
Isto o comove.
Os remorsos de um homem que
Vendeu o amigo
Abalam-no, a ele que conhece a frieza do mundo
E como é sábio
Falar alto e convencido
No meio da noite.
...
Esse Desemprego
Meus senhores, é mesmo um problema
Esse desemprego!
Com satisfação acolhemos
Toda oportunidade
De discutir a questão.
Quando queiram os senhores! A todo momento!
Pois o desemprego é para o povo
Um enfraquecimento.
Para nós é inexplicável
Tanto desemprego.
Algo realmente lamentável
Que só traz desassossego.
Mas não se deve na verdade
Dizer que é inexplicável
Pois pode ser fatal
Dificilmente nos pode trazer
A confiança das massas
Para nós imprescindível.
É preciso que nos deixem valer
Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer
Num tempo tão pouco esclarecido!
Algo assim não se pode conceber
Com esse desemprego!
Ou qual a sua opinião?
Só nos pode convir
Esta opinião: o problema
Assim como veio, deve sumir.
Mas a questão é: nosso desemprego
Não será solucionado
Enquanto os senhores não
Ficarem desempregados!

amigo Urariano...

Eu sei q vou ganhar seu livro c o autografo. mas como o blog está passando por dificuldades imensas, eu abdico do presente e doo (horrivel!)o livro p ser leiloado em prol do blog. depois eu compro seu livro - vc tb precisa sobreviver, amigo!
abraços!

Brecht é sempre atual...

Perguntas de um operário letrado

Quem construiu a Tebas das Sete Portas?
Nos livros constam nomes de reis.
Foram eles que carregaram as rochas?
E a Babilônia destruída tantas vezes?
Quem a reconstruiu de novo, de novo e de novo?
Quais as casas de Lima dourada
abrigavam os pedreiros?
Na noite em que se terminou a muralha da China
para onde foram os operários da construção?
A eterna Roma está cheia de arcos de triunfo.
Quem os construiu?
Sobre quem triunfavam os césares?
A tão decantada Bizâncio era feita só de palácios?
Mesmo na legendária Atlântida
os moribundos chamavam pelos seus escravos
na noite em que o mar os engolia.

O jovem Alexandre conquistou a índia.

Ele sozinho?
César bateu os gauleses.
Não tinha ao menos um cozinheiro consigo?
Quando a “Invencível Armada” naufragou, dizem que Felipe da Espanha chorou
Só ele chorou?
Frederico II ganhou a guerra dos Sete Anos.
Quem mais ganhou a guerra?

Cada página uma vitória.
Quem preparava os banquetes da vitória?
De dez em dez anos um grande homem.
Quem paga as suas despesas?

Tantas histórias.
Tantas perguntas.

Brecht é sempre atual...

Perguntas de um operário letrado

Quem construiu a Tebas das Sete Portas?
Nos livros constam nomes de reis.
Foram eles que carregaram as rochas?
E a Babilônia destruída tantas vezes?
Quem a reconstruiu de novo, de novo e de novo?
Quais as casas de Lima dourada
abrigavam os pedreiros?
Na noite em que se terminou a muralha da China
para onde foram os operários da construção?
A eterna Roma está cheia de arcos de triunfo.
Quem os construiu?
Sobre quem triunfavam os césares?
A tão decantada Bizâncio era feita só de palácios?
Mesmo na legendária Atlântida
os moribundos chamavam pelos seus escravos
na noite em que o mar os engolia.

O jovem Alexandre conquistou a índia.

Ele sozinho?
César bateu os gauleses.
Não tinha ao menos um cozinheiro consigo?
Quando a “Invencível Armada” naufragou, dizem que Felipe da Espanha chorou
Só ele chorou?
Frederico II ganhou a guerra dos Sete Anos.
Quem mais ganhou a guerra?

Cada página uma vitória.
Quem preparava os banquetes da vitória?
De dez em dez anos um grande homem.
Quem paga as suas despesas?

Tantas histórias.
Tantas perguntas.

Sexio II

Regina, eu tava pensando muito nessas crises universais da terceira idade, querida, foi ótimo encontrar você, perfeito!!! To afim de montar um Bordel de Homens, pra atender nossos, digamos, desatinos eróticos
— Bem, eu era casada com o Fernando, você se lembra dele? A gente era até feliz, revolucionários juntos, e tudo. Tínhamos um casamento aberto e eu sabia que ele dormia com a Joyce e com a Lucia de vez em quando. Depois que ele mudou para o México, que a coisa apertou, eu fui com ele, mas me convidaram para dar aulas aqui e eu voltei sozinha. Você sabe que nós nunca divorciamos? Depois teve o Fonseca, que me enloquecia na cama, mas que era discordância política sem parar – tipo ele era do governo Chagas Freitas... A separação foi foda, minha irmã, ele me procurava quase toda noite etc. Foi nessa época que eu reencontrei a Aninha...

— E abandonou os homens.

— Ih, amiga, essa coisa de abandonar eu não acredito. Acho que aquilo que já me erotizou algum dia, nunca deixa totalmente de ser excitante. Além disso, com o tempo mais coisas me excitam, mais coisas me parecem sensuais. Os homens me deram muito prazer... O Fernando, o Fonseca... Sabe que tem uns três anos, o Fernando passou uns seis meses aqui no Rio e não saía lá de casa. Você sabe que já não temos idade para transar os três juntos toda noite, mas tiramos uns bons caldos. A Aninha sim é que não dava para um homem há mais de dez anos, depois disso encontrou o Carlos que não sai lá de casa, mas quase não transa comigo...

— Regina, eu tava pensando muito nessas crises universais da terceira idade, querida, foi ótimo encontrar você, perfeito!!! Eu estou voltando pro Rio de Janeiro e estou com uns contatos em Salvador e em Natal, você sabe, sou pragmática até o útero. To afim de montar um Bordel de Homens, pra atender nossos, digamos, desatinos eróticos. Tava mesmo precisando de uma sócia, o que você acha de montarmos um plano?

— Élida, Élida, tuas idéias. Eu... eu... eu topo. Acho que na minha idade homens são necessários apenas para me divertir – aliás eu sempre achei isso. Eu estou certa de que eu nunca teria uma relação como a que eu tenho com a Aninha com um homem. Mas, nunca deixei de tentar me aproximar deles. Acho que um bordel seria uma boa maneira de me aproximar dos homens, eles adoram as mulheres que lhes ofereçam outras mulheres... Mas você tá pensando em um bordel só pras que tão virando o cabo da boa esperança como nós?
Que tivéssemos encontros virtuais e presenciais entre a equipe de trabalhadores e também cursos para formação de profissionais do sexo, homens, mulheres, travestis, lésbicas, todo esses LGBTTs. Podemos oferecer cursos abertos como o de pompoarismo
— Não, achei que o fato de estarmos velhas, é uma inspiração, mas na real sempre pensei no que seria um bordel que atendesse vários tipos de desejos, sem exploração dos trabalhadores, com oficinas de formação para vários segmentos e ainda por cima, massagens eróticas, nega!!!

— Você sabe que eu e a Aninha passamos seis meses em Moçambique – já fazem uns 15 anos. Lá a gente frequentou uma escola de sexo por um mês. Era uma escola para mulheres apenas, aprendemos pompoarismo, fizemos lulas na buceta... ahahahah, olha, os homens podem até não gostar do meu corpo e muitos nem se excitam comigo, mas quando eles metem em mim, eu faço coisas que eles nunca sentiram antes – é por isso que eu tenho uns amantes que sempre voltam... Élida, eu sempre quis ensinar pompoarismo para as velhas – acho que é o segredo das bruxas: ou saímos voando de vassoura ou seguramos os paus dos caras com os músculos da nossa xana... hahaha...

— Bom, isso também pode entrar, só quero ter cuidado para não formar uma escola. Por favor, escola não. Tem que ser um bordel, pra sacanagem, e podemos conjuntamente dar uns cursos. Mas sabe que eu preferiria que esse bordel fosse descentralizado. Como um bordel virtual que tivesse alguns contratos de locação com pequenos e grandes hotéis do país. Que tivéssemos encontros virtuais e presenciais entre a equipe de trabalhadores e também cursos para formação de profissionais do sexo, homens, mulheres, travestis, lésbicas, todo esses LGBTTs. Criamos um nome fictício, e a partir dessa “marca” podemos oferecer cursos abertos como o de pompoarismo. Queria que tivéssemos também alguns pequenos lugares ao longo do Brasil, como um no interior de São Paulo, outro em Salvador e conforme for indo os negócios vamos comprando mais alguns, com associados locais, para que a gente pudesse ter a distribuição do prazer para todos que precisam, num preço legal e com equipe altamente qualificada. E também para termos nossos próprios espaços para as imersões de equipe e também para os cursos.

— Uau, você planejou tudo, fantástico, Élida. Eu tenho uma casa na praia das Perobas, em Touros, no Rio Grande do Norte. Lá eu conheço uns rapazes locais que visitam as hóspedes da Pousada do Vozinho de noite por duzentos reais. Geralmente são poucas mulheres ainda e muitos rapazes para o serviço, é como na Jamaica, as mulheres mais ou menos acertam um pacote de uma semana com o serviço incluído. Sempre penso em fazer alguma coisa com minha casa lá...

— Puxa, isso seria muito interessante. Uma casa no litoral Norte, lugar discreto, para descanso e para fazer amor profissional, massagem, vídeos, nós podemos inclusive criar uma pedagogia para nossa equipe, claro, que fosse construída coletivamente, cada um falando da sua experiência, das suas motivações para se meterem nesse tipo de negócios, podemos inclusive lançar uma marca de camisinha!!! Ahahahah, estou tão excitada com essa idéia. Regina, você aceita ser minha sócia?

— Já aceitei. Nós podemos começar com os rapazes de Peróbas e com o... vou te apresentar o Isaías, um rapaz que eu conheci lavando carros na faculdade, depois estudou, foi fazer antropologia, foi estudar as putas de Copacabana e está fazendo um doutorado com bolsa lá na UERJ. Ele completa o orçamento – adora alugar carros caros – fazendo esse tipo de serviço para estrangeiras. Ele só cobra em euros e conhece vários outros rapazes que fazem isso.