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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Guernica

Gernika Guernica ou:
quando a pintura não é
para decorar apartamento – 2
.
Por Halley Margon V. Jr., do Rio de Janeiro


Picasso, Dali, Jane Fonda, Democracia, totalitarismos, suicídios, modelos famintas... breves apontamentos desconexos para descompreender o mundo sem lastro em que vivemos.

Leia aqui a primeira parte deste artigo

Guernica, colagem de Luiz Rosemberg Filho

Em 1937, as guerras estavam sendo travadas com artefatos bélicos cada vez mais sofisticados e mortíferos, tais como aviões e bombas as mais variadas, mas igualmente no campo da propaganda. É o que nos diz o livro de Gijs van Hensbergen, Guernica – a tela de Picasso. No comecinho daquele ano, Picasso recebeu de uma delegação de políticos e servidores civis espanhóis o convite para fazer “um mural para o Pavilhão Republicano na Feira Mundial, prestes a ser inaugurada em Paris”.

Alguns anos depois, numa entrevista, o artista colocaria em palavras tão duras e afiadas quanto as imagens agudas de seu quadro mais famoso o sentimento de mundo expresso em Guernica.
“O que é um artista? Um imbecil que só tem olhos, se for pintor, ou ouvidos, se for músico...? Pelo contrário, ele... (está) sempre pronto a se comover com fatos empolgantes ou felizes aos quais reage de todas as maneiras. Como não se interessar pelos outros e, mediante uma total indiferença, se isolar da vida que trazem tão fartamente para você? Não, a pintura não é para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra...”.

Primeira Consideração

A guerra propagandística embora ainda com certa face de inocência e honestidade estava se acelerando e seus protagonistas se apossando das armas que lhes cabia usar, cônscios na maioria dos casos de que, tanto quanto nas batalhas de verdade, naquela também haveria mortos e feridos de um lado, assim como vitoriosos do outro. Para os vitoriosos os louros da glória, é claro. E, eventualmente, alguns outros benefícios.

Segunda Consideração

É possível que alguns soubessem até que ao se lançarem às armas da propaganda o próprio autor da obra se visse alçado à condição de peça publicitária. Que fosse promovido pelos aliados – e que tratassem de denegri-lo os adversários. É possível que uns tantos se interessassem por embalar a si próprios no pacote a ser divulgado. Numa palavra (rude, talvez): que saíssem lucrando, que se autopromovessem sob a aura do produto. A guerra, é claro, atingia fundo os corações e mentes de milhões em todo o planeta, nenhum outro produto conseguiria sequer se aproximar do poder de arrasto de um tamanho apelo. É possível, porém, até provável, que essa desconfiança aqui manifesta seja resultado de um olhar típico dos tempos atuais. Mas deixemo-la, mesmo assim. E sigamos adiante!

Não custa lembrar que um contemporâneo e conterrâneo de Picasso chamava-se Salvador Dali, mestre na arte da autopromoção e da capacidade de se entregar entusiasticamente a tão nobre peleja – montar cavalos selados, belos e vigorosos, capazes de conduzi-lo ao Olimpo da máxima visibilidade.

Havia aqueles, no entanto, cujo comprometimento ético com uma determinada causa era inquestionável, pouco ou nada lhes interessando que sua escolha se traduzisse em benefícios ou na mais negra infâmia. (Era uma época em que as escolhas implicavam em exclusões extremas pelas quais sempre havia um preço a pagar.)

É possível que em Picasso se manifestasse ambas as forças. Basta notar que ao final da longa e produtiva carreira parecia evidente ter pego gosto pelo preço de suas obras, talvez mais que pela qualidade e significado delas. É possível, apenas possível. Mas não resta dúvidas que naquele momento o espaço para uma tal consideração era mínimo, quando muito. Ninguém em sã consciência poderá sequer aproximá-lo de uma... Angelina Jolie, por exemplo.

Portanto, é melhor guardar na memória a resposta de Picasso ao repórter que o entrevistava ao final da Segunda Guerra: “Não, a pintura não é para decorar apartamento.”

Terceira Consideração

Já que tocamos no nome da bela, falemos dela um pouco mais. Alguém poderá querer advogar em sua causa inserindo-a na corrente onde se destacam figuras como Jane Fonda ou Mohammed Ali durante a guerra do Vietnã. Serei obrigado a conceder que nesse universo de brilhos fulgurantes, de fato, o terreno é pantanoso. Mas talvez seja possível detectar um ou outro critério capaz de nos socorrer.

Por exemplo, quais riscos (reais) implicam a escolha de uma determinada causa? Que ameaças há à vida da sra. Pitt quando se desloca bela e intangível como um ícone renascentista para ser fotografada piedosa ao lado de uma esfomeada (ou de quem quer que necessite desesperadamente de socorro e amparo humano, de seres que tenham sido agredidos seja pela força descontrolada da natureza, seja pela racionalidade do mundo próspero)? Não digo de risco físico, naturalmente, por quanto este será sempre nulo – há um enorme staff ao redor da estrela preparando-lhe o cenário, garantindo seu máximo conforto e segurança no ambiente ascético de uma redoma. Falo de risco para a figura icônica, ela mesma. Este, inexiste. Ao contrário, o poder do mito só engorda... sua conta bancária, além do vislumbre pela própria imagem refletida no espelho de um ego transtornado pelo brilho e pelo vazio.

Quarta Consideração

Que presentemente a pintura tenha se tornado decoração de apartamentos ou museus de grife é bem expressão das revoluções que modificaram mortalmente a cara do mundo.

Insights Aleatórios no Meio do Burburinho (II)

1
Talvez o Estado Democrático de Direito seja a forma de evitar, precariamente, a degradação absoluta do espaço político (mire-se nos exemplos do século XX) – mas certamente é o que cria o espaço mais propício à amplificação do poder das grandes corporações econômicas (mire-se nos exemplos do século XX) que, por sua vez, solapam diuturnamente a mais notável das raríssimas qualidades do Estado Democrático de Direito: a de tolerar, muito precariamente e a contragosto, a manifestação e a existência de indivíduos. Só o faz quando este, já absorvido pela massa amorfa das multidões (industriais), tornou-se risível e impotente.

2
Quem controla o desejo na cidade do mundo próspero? Quem é que o fabrica?

3
A esqualidez cadavérica das modelos nas passarelas. A esqualidez horrorosa das modelos de beleza (para o mundo da moda) obedece é claro às exigências do ramo da Indústria à qual se subordinam. Um editorial da grande imprensa denuncia a “gravidade dos danos físicos e psicológicos provocados pela imposição de um figurino descarnado a mulheres tão jovens”, baseado em “parâmetros consagrados pelo mercado internacional ”.

O que há de particular nessas imposições? O que há de diferente nessa indústria? Talvez o fato de que suas vítimas sejam exibidas em desfiles glamorosos – além de se degradarem física e psicologicamente, expostas como troféus, verdadeiras múmias ambulantes de uma fábrica que não para de crescer e movimenta bilhões nos mais destacados pólos mercantis do planeta.

4
Aqueles que por qualquer motivo já passaram por ou souberam de um desses eventos motivacionais promovidos rotineiramente nas empresas pós-modernas (o termo anda meio esquecido ou é impressão minha?) provavelmente se deram conta da persistência da tema Ética atuando quase como um bordão e, na verdade, como num ato falho, denunciando o esvaziamento radical do conceito, sua irrelevância completa nos procedimentos daquela mesma empresa.

Efeméride anti-suicídio

O suicídio está voltando à moda. Se em certos períodos dos séculos XVIII e XIX tornou-se um ato no contexto do movimento romântico, durante a perseguição nazista aos judeus uma ação radical de negação da existência sob tal regime (lembre-se que o suicídio é tão inaceitável entre os judeus que os suicidas devem ser enterrados à parte, afastados dos outros mortos, junto a um dos muros do cemitério, e que mesmo assim são incontáveis os casos de suicídio de judeus na Alemanha hitlerista – veja-se para isso Os Diários de Victor Klemperer), agora é um gesto do vazio instalando-se na alma dos trabalhadores de grandes empresas pós-modernas.

Em Taiwan, uma gigantes de tecnologia chamada Foxconn resolveu tomar providências após o suicídio de 12 (como os apóstolos) dos seus funcionários em menos de um ano, e promoveu um megaevento motivacional anti-suicídio apelando à “valorização da vida” e ao “amor à família”.

Mas, sabedora que a onda de mortes auto-infligidas brotava em outros mares, tratou simultaneamente de anunciar planos de redução das horas extras até então praticadas: de 80 para 36 mensais. (Também na França o número exagerado de suicídios entre funcionários abalou a imagem de uma dessas enormes corporações capitalistas e teve repercussão mundial.)

De maneira geral, porém, as efemérides motivacionais e seus truquezinhos marotos continuam em operação. Só quando próximos do extremo, a partir do qual a imagem da empresa, mais que o funcionamento, começa a ser afetada é que alguma providência é tomada no campo da existência real dos funcionários. De maneira geral, portanto, prevalece a manipulação inescrupulosa das almas cujo principal mecanismo é o desejo (enfeitiçado) de consumo dos próprios trabalhadores. Estimula-se o apetite e doses maiores ou menores de satisfação são fornecidas.

Capa, Revestimento e Valor de Face (de novo)

Finalizando um artigo aqui publicado eu comentava a pequena novela do francês Georges Perec na qual não se faz outra coisa que não “enumerar as incontáveis aquisições (de pinturas) de um suposto cervejeiro alemão imigrado para os Estados Unidos no final do século XIX... Página após página, é esta a história de A Coleção Particular, seu núcleo dramático, por assim dizer.

A destilada ironia do livreto é, por incrível que pareça, bastante divertida. O que, afinal, coleciona o tal cervejeiro? Claro, poderia ser qualquer coisa: selos, bolinhas de gude, cartelas de cigarros, latinhas de cerveja. Mas o que coleciona são obras de arte capazes de adquirir valor de mercado – que no momento mesmo que passam a fazer parte desse diabólico (ou divino, tanto faz) circuito da comercialização esvaziam-se, deixam evaporar seu conteúdo. A rigor, o que coleciona o tal cervejeiro alemão é isso mesmo: signos vazios, objetos intercambiáveis ad infinitum em permanentes e abstratos processos de fabricação de valor, os próprios quadros drenados de seus valores estéticos são transformados em cifras, índices de um interminável catálogo. ”

O mesmo vale para os funcionários da Foxconn.
(Continua.)

18/9/2010

Fonte: ViaPolítica/O autor

Leia aqui a primeira parte deste artigo

Halley Margon V. Jr. lançou recentemente seu primeiro romance. Trata-se de
Paisagem com cavalo [Rio de Janeiro, Ed. 7Letras, 160 páginas, R$ 33,00
Site: http://www.7letras.com.br/]

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“Os Sertões de Euclides da Cunha e outros sertões”
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E-mail: halleymargon@globo.com